Narrado por Renesmee


Os bastidores de uma festa destruída são como os destroços de um naufrágio. Luzes ainda piscavam, garçons recolhiam taças, e os convidados saíam murmurando, muitos evitando olhar diretamente para ninguém.

Cruzei os braços e observei da lateral do palco enquanto alguns ainda comentavam o escândalo. As imagens ainda queimavam nas retinas de todos. A aniversariante nos braços do melhor amigo do noivo. Um clássico de tragédia disfarçado de conto de fadas.

Emily apareceu apressada, parecendo procurar alguém.

— Renesmee! Você viu a Claire? — perguntou aflita.

Fiz minha melhor expressão de preocupação e respondi com suavidade:

— Ela está com o senhor Yong. Achei melhor deixá-los sozinhos... Achei que ele precisava conversar com ela.

— Ai, meu Deus... — murmurou Emily, levando a mão à boca. — Isso não me cheira bem. Logan nunca soube lidar com pressão.

— A senhora Yong está do lado de fora, do camarim. Ela me pediu que entraria caso eles demorassem — completei com um olhar calmo.

— Certo... eu vou ajudar o pessoal da equipe a encerrar tudo por aqui — disse, ainda nervosa. — Você viu o Jacob?

Minha garganta apertou. Olhei de relance para o salão quase vazio e sussurrei:

— Como ele está?

Emily hesitou.

— Destruído. Nunca o vi assim. Nem mesmo quando o avô dele morreu...

Senti uma pontada no peito. Algo doeu. Mas engoli a sensação rapidamente.

— Ele é forte. Vai superar — falei, com o tom mais firme do que o sentimento por trás.

Emily assentiu e se afastou, e eu caminhei devagar, contornando os pilares e colunas decoradas com rosas e cristais. Era como passar por uma cidade abandonada — glamour despedaçado.

Foi quando uma voz masculina me interrompeu:

— Você deve ser a famosa Renesmee.

Virei-me e vi um homem de presença marcante. Um ar charmoso, ainda que os olhos fossem intensos demais, carregados de uma história que eu não conhecia.

— Sou eu. E o senhor é...? — perguntei educadamente.

Ele estendeu a mão com um sorriso intrigante.

— Bonnie Black.

O nome soou alto demais dentro da minha cabeça. Tentei manter a expressão neutra, mas por dentro, meus pensamentos aceleraram. Bonnie, esse nome havia sido mencionado na discussão de Renée e meu avô Charlie.

— Renesmee Newton — respondi, apertando sua mão.

Ele estreitou os olhos.

— Newton? De Mike Newton?

Assenti.

— Sim, meu pai.

Por um instante, algo passou pelos olhos dele. Uma sombra breve de surpresa, de passado mal resolvido.

— Interessante... — ele disse, como se falasse mais consigo mesmo do que comigo.

— O senhor conhecia meu pai?

Bonnie desviou o olhar por um momento, depois voltou a me encarar com um sorriso que não chegava aos olhos.

— De nome. E... conheci sua mãe também. Isabella, certo?

A menção ao nome dela me fez prender a respiração, mas assenti, tentando manter o disfarce.

— Isso mesmo.

— Você tem os olhos dela... — murmurou ele.

— As pessoas dizem isso — sorri com leveza.

Bonnie me olhou por mais um instante e depois, num gesto cortês, fez um leve aceno com a cabeça.

— Foi um prazer conhecê-la, Renesmee Newton. Tenho a impressão de que você ainda vai mexer muito com os alicerces da nossa família.

— Não pretendo causar confusão — falei, meio rindo, meio desafiando.

— Ah, minha querida... — ele virou-se, caminhando lentamente — às vezes a confusão é o único caminho até a verdade.

Fiquei ali, parada. A música havia parado. As luzes estavam se apagando.

As palavras de Bonnie ainda martelavam em minha mente.

— “Às vezes a confusão é o único caminho até a verdade.”

Mas... que verdade era essa? A dele? A minha? Ou a de Jacob?

Cruzei os braços e encarei meu reflexo em uma das janelas espelhadas do salão quase vazio. Era como se aquela noite tivesse tirado as máscaras de todos. Mas a verdade, essa que Bonnie tanto insinuava, ainda estava oculta em algum ponto entre o que fiz e o que senti.

Meus pensamentos foram interrompidos pela voz rouca e grave de Billy Black.

— Renesmee?

Virei-me devagar, ajeitando um sorriso educado no rosto.

— Senhor Black...

— Está procurando o Jacob? — ele perguntou com gentileza, embora seus olhos cansados não escondessem a tensão.

— Estou... — admiti. — Fiquei preocupada. Depois de tudo isso... ele e Claire são meus amigos.

Billy assentiu lentamente, passando a mão pela barba rala.

— Jacob precisa de uma amiga essa noite... mais do que imagina. Ele está no estacionamento. Sozinho.

— Obrigada, senhor Black — disse com um sorriso suave, e ele apenas assentiu.

Caminhei até a saída lateral, atravessando o corredor silencioso que dava acesso ao estacionamento privativo. As luzes amareladas projetavam sombras longas, e o som distante da cidade contrastava com o silêncio tenso ao redor do hotel.

E então o vi.

Encostado na lateral de um dos veículos pretos da família, a cabeça baixa, a gravata frouxa no pescoço e uma garrafa de uísque quase vazia na mão. A postura dele era um retrato da desilusão.

Parei por um instante, observando-o. A imagem de Claire ao lado de Quil ainda pulsava em minha memória. E ali, diante de mim, estava o homem que ela dizia amar, sozinho, quebrado.

Me aproximei devagar, sem dizer nada, até que ele ergueu o olhar e me viu.

Os olhos castanhos estavam avermelhados.

— Veio ver o desastre de perto? — murmurou com a voz arrastada pelo álcool e pelo cansaço.

— Vim ver como meu amigo está — respondi com sinceridade.

Ele riu, mas foi um riso curto e sem vida.

— Seu amigo... é, acho que é isso que sobrou de mim essa noite.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. O vento soprava leve, carregando o cheiro de flores e as sobras de um evento que terminou antes da hora.

— Não precisa dizer nada — ele murmurou, virando um gole da garrafa e depois encarando o céu. — Só queria que... que isso tudo fosse mentira. Que aquele vídeo fosse um delírio coletivo.

— Eu sei como dói — falei, suavemente. — Ser traído por quem você acreditava amar é como ser esvaziado por dentro.

Ele virou o rosto para mim. Nossos olhos se encontraram. Por um segundo, não éramos Jacob e Renesmee, noivo traído e melhor amiga da noiva. Éramos só dois corações partidos tentando entender em qual momento tudo desandou.

— O pior é que eu vi os sinais — ele confessou. — Eu sabia que algo estava errado. Mas quis acreditar que o tempo resolveria. Que ela só estava... assustada.

Me aproximei mais um pouco e, sem pensar, toquei sua mão que segurava a garrafa. Ele não reagiu, apenas a soltou, deixando-a cair no chão com um ruído abafado.

— Você ainda pode escolher para onde vai daqui — sussurrei. — Pode continuar fingindo... ou pode buscar a sua verdade, Jacob.

Ele me olhou de novo. Mas dessa vez, havia algo diferente em seu olhar.

— E você, Nessie... está pronta para encarar a sua?

Não respondi. Porque, naquele instante, eu também não tinha certeza da resposta.


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— Por hoje, já chega — murmurei, estendendo a mão e tirando com cuidado a garrafa da mão dele.

Jacob não reagiu de imediato. Apenas me olhou, olhos pesados, os ombros curvados sob o peso de tudo o que havia acontecido. Em seguida, ele tateou o bolso e puxou a chave do carro.

— Eu levo você pra casa — falei, firme, antes que ele pudesse fazer qualquer movimento.

Ele franziu o cenho, confuso.

— Eu tô bem, Nessie... sei dirigir...

— É claro que não está — rebati, tirando a chave da mão dele com um gesto rápido.

Ele ergueu as mãos, derrotado.

— Tá bom, tá bom... A senhorita Newton está no comando...

Foi nesse momento que notei dois homens se aproximando discretamente, celulares erguidos.

— Paparazzi — sussurrei, segurando o braço de Jacob. — Vamos, antes que esses abutres tenham o que querem.

Com um pouco de dificuldade, consegui fazê-lo entrar no banco do passageiro. Ele se jogou contra o banco com um suspiro profundo.

— Sabe... — ele começou a falar enquanto eu dava partida no carro — você não é como a Claire.

— Espero que isso seja um elogio — murmurei, tentando manter os olhos na estrada e não em sua expressão machucada.

Ele virou o rosto para mim, um sorriso torto nos lábios.

— É. É sim... Você... é real. Direta. E mesmo quando tá armando alguma coisa, não parece falsa. — Ele deu uma risada baixa. — O velho Billy vive dizendo que queria você como nora...

Eu gargalhei, sem conseguir me conter.

— Nora? Logo eu?

— Ele acha que você é inteligente, sagaz, cheia de... garra. Disse que se eu fosse esperto, já teria corrido atrás de você.

— E você é esperto?

Jacob olhou para frente, os olhos começando a pesar.

— Às vezes... mas na maioria, sou um idiota mesmo...

Continuei dirigindo em silêncio, ouvindo ele divagar sobre promessas quebradas, sobre Claire, sobre o peso de uma vida onde todo mundo esperava algo dele.

— E você, Nessie... — ele disse com a voz cada vez mais arrastada — Você parece tão forte... Mas às vezes eu olho nos seus olhos e vejo... que você tá tão sozinha quanto eu.

Minha garganta apertou. Mas não respondi.

Quando estacionei em frente à casa dos Black, virei para chamá-lo... mas ele já dormia.

A cabeça caída para o lado, os lábios entreabertos, a expressão tranquila demais para alguém que estava em ruínas há poucos minutos.

Suspirei. Olhei para ele por um instante longo. Ali, mesmo bêbado, machucado, traído... Jacob ainda era o homem que me tirava do eixo. E talvez, só talvez, fosse a única pessoa capaz de me ver por completo.

Desliguei o carro e encostei a cabeça no volante, sussurrando para mim mesma:

— E agora, o que eu faço com você, Jake?



— Senhorita... precisa de ajuda? — uma voz masculina me chamou.

Virei-me e vi um dos empregados da mansão se aproximando, com expressão preocupada.

— Ele está péssimo... — confessei, saindo do carro e abrindo a porta do passageiro para Jacob, que continuava desacordado.

— Vamos levá-lo para dentro — disse ele, já chamando outro funcionário. Juntos, com cuidado, tiraram Jacob do carro, apoiando-o pelos ombros e levando-o para dentro.

Subi as escadas ao lado deles, observando cada passo com o coração apertado. Jacob balbuciava palavras desconexas, pesando entre os dois homens que faziam o possível para mantê-lo firme até o quarto. Quando enfim o deitaram na cama, um deles se virou para mim:

— Deseja que fiquemos, senhorita?

— Não, podem ir. Eu cuido dele agora. Obrigada.

Eles assentiram e saíram silenciosamente, fechando a porta.

Aproximei-me devagar, o quarto escuro sendo iluminado apenas pelo abajur ao lado da cama. Jacob estava deitado de lado, as botas ainda nos pés, a camisa meio aberta e o rosto suado.

— Jake... — sussurrei, me ajoelhando ao lado da cama e tocando seu braço. — Preciso que você me ajude aqui, está parecendo um urso adormecido.

Ele murmurou algo inaudível. Com um leve empurrão, consegui tirar um de seus sapatos. Depois amo outro. Em seguida, desfiz os botões da camisa lentamente, sentindo o calor da pele dele sob meus dedos.

Ele abriu os olhos, um sorriso bêbado se formando no rosto.

— Está me despindo, Nessie? — provocou, a voz rouca e arrastada. — Se a situação fosse outra... eu é que ia pedir pra você tirar a roupa.

Revirei os olhos, segurando o riso.

— Se essa situação acontecer, Jake, vai ser com você sóbrio. E consciente — retruquei, erguendo uma sobrancelha.

— Hm... isso soa como uma promessa?

— Soa como uma condição — respondi, levantando para buscar um pano úmido.

Voltei com ele e limpei levemente o rosto suado de Jacob. Ele fechou os olhos sob o meu toque, relaxando como se aquela fosse a única paz que havia conhecido em dias.

— Você é diferente, Nessie... — murmurou, entre o sono e a lucidez. — Não sei por quê... mas você me acalma.

— Dorme, Jake. Amanhã a gente conversa — falei, passando os dedos pelos cabelos bagunçados dele, num gesto quase involuntário.

Ele sorriu, os olhos já fechados.

— Fica aqui... só até eu dormir.

Assenti baixinho, sentando-me ao lado da cama, observando aquele homem que parecia tão forte para o mundo... mas tão vulnerável agora, só para mim.

E eu sabia. A partir daquela noite... tudo havia mudado.