Narrado por Renesmee


O quarto de Jacob era surpreendentemente sóbrio e elegante. As paredes em tom cinza escuro davam ao ambiente um ar masculino e tranquilo. Havia prateleiras com livros bem alinhados, uma escrivaninha de madeira escura com alguns papéis organizados meticulosamente, e uma poltrona de couro ao canto, ao lado de uma luminária moderna. Uma fragrância amadeirada preenchia o ar — era o cheiro dele, intenso e discreto ao mesmo tempo.

Jacob dormia profundamente, a respiração lenta, o peito subindo e descendo com tranquilidade. A camisa aberta deixava à mostra parte de seu abdômen definido. A cada vez que o observava, era impossível ignorar o quanto ele era bonito. Forte. Imponente. Mas havia algo além da aparência. Havia uma espécie de conexão... algo que me puxava para ele, mesmo quando eu tentava resistir.

Me aproximei e puxei o cobertor, cobrindo-o com cuidado. Meu olhar repousou no rosto dele, e, por um momento, apenas o escutei respirar. Senti um nó no peito.

— Não seria difícil... — murmurei sozinha.

Não seria difícil me relacionar com ele. Jacob era intenso, protetor, e o olhar dele... quando não estava tentando se esconder atrás de Claire... aquele olhar dizia mais do que qualquer palavra. E, mesmo que meu plano fosse claro, mesmo que meus objetivos estivessem traçados desde o início, algo dentro de mim começava a se inquietar.

Mas não era hora de confusão. Ainda havia muito por fazer.

Saí do quarto devagar, fechando a porta com cuidado. Os corredores estavam silenciosos, iluminados apenas pelas luzes indiretas nas arandelas. Enquanto caminhava rumo à escada, ouvi vozes abafadas. Parei. Me aproximei mais e reconheci a voz de Sarah Black.

— Ele estava totalmente fora de si... — dizia ela. — Ainda bem que a moça o trouxe. Coitado.

— Será que ele está melhor agora? — questionou um dos empregados.

— Sim. Está descansando — respondeu Sarah.

Respirei fundo e desci os últimos degraus com suavidade. Assim que apareci no saguão, os olhos de Sarah se voltaram para mim. Billy estava ali também, parado ao lado da lareira, com os braços cruzados e um leve sorriso no rosto ao me ver.

— Boa noite — falei, educada.

Sarah e Billy estavam parados perto da escada. Ela conversava com os empregados que ajudaram a levar Jacob para o quarto. Ao me ver, ambos se viraram. Billy sorriu gentilmente.

— Renesmee — ele disse, se aproximando com os braços cruzados. — Foi você quem trouxe Jacob?

Assenti, controlando o tom da voz.

— Ele não estava em condições de dirigir. Achei melhor acompanhá-lo até aqui. Havia fotógrafos por perto e... bom, ele não podia aparecer daquele jeito.

— Você fez muito bem — Billy disse, firme. — Jacob tem sorte de ter uma amiga como você.

— É — Sarah completou, com um sorriso mais contido. — E está tarde para você voltar sozinha. Por que não dorme aqui esta noite? Temos quartos de hóspedes sobrando.

Recuei um passo, balançando a cabeça.

— Não quero incomodar, de verdade. Só queria ter certeza de que ele estava bem...

— Não é incômodo nenhum — Billy cortou. — A cidade está cheia de gente falando do escândalo na festa. É melhor que você não seja vista entrando sozinha em um táxi agora. Isso poderia alimentar ainda mais os boatos.

Engoli em seco. Ele não estava errado. Mas dormir ali?

— Vamos, querida — Sarah insistiu com doçura. — Vou pedir que preparem o quarto de hóspedes do andar de cima. Vai se sentir segura aqui. E... agradeço por ter cuidado do meu filho esta noite.

Ela colocou a mão no meu ombro com um toque carinhoso. Não era a primeira vez que recebia gentileza de alguém que provavelmente me odiaria se soubesse da verdade.

— Tudo bem — cedi, por fim. — Só por esta noite.

Sarah sorriu satisfeita.

— Ótimo. Venha, vou acompanhá-la até o quarto. E, por favor, sinta-se em casa.

Assenti, silenciosa.

Caminhamos juntas pelo corredor amplo, iluminado por luminárias elegantes. Sarah parecia mais leve agora, talvez por ver Jacob amparado, talvez por acreditar que tudo voltaria ao normal. Eu não disse nada. Apenas a segui.

Ao subirmos as escadas, um sentimento estranho me invadiu.

Eu estava na casa dos Black.

No quarto ao lado, Jacob dormia bêbado, desiludido. E agora, eu estava sendo guiada até o quarto de hóspedes, acolhida como se fosse... parte da família.

Mas uma coisa era certa: amanhã, tudo mudaria.

Porque eu não era a filha que eles imaginavam. Nem a amiga que Claire acreditava. E tampouco a mulher ingênua que Jacob tentava afastar.

Eu era Renesmee Newton.

E esta história... ainda era minha para contar.

O quarto era maior do que meu antigo apartamento inteiro. As cortinas longas balançavam suavemente com a brisa noturna que entrava pela janela entreaberta. O silêncio ali dentro era pesado, mas também reconfortante. Pela primeira vez, senti que estava exatamente onde deveria estar.

Fechei a porta devagar, me encostando nela por um instante. Respirei fundo.

A imagem de Claire chorando nos bastidores ainda estava viva na minha mente. Seu pai gritando. A humilhação pública. O colapso do império perfeito que ela mesma construiu ao lado de Jacob.

— Você conseguiu — murmurei para mim mesma, com um gosto agridoce na boca.

Andei até a poltrona ao lado da cama, onde Sarah havia deixado um roupão limpo e uma camisola delicada, de tecido macio. Retirei o vestido com cuidado, pendurando-o no encosto da cadeira. Vesti a camisola branca e me aproximei do espelho antigo emoldurado em madeira escura.

Me encarei por alguns segundos. A luz suave refletia minhas feições com doçura, quase como se o espelho aprovasse o que eu havia feito. Mas eu sabia a verdade.

Eu estava exausta. E, no fundo, um resquício de culpa me corroía.

— Desculpa, Claire — sussurrei, mesmo sabendo que ela jamais me ouviria.

Não era por inveja, nem por competição. Era... por sobrevivência.

Ela teve tudo: a casa, o nome, a festa, o noivo. Jacob. E agora ela não tinha mais nada.

Deitei a cabeça de leve no espelho e fechei os olhos por alguns instantes. O rosto de Jacob bêbado, perdido, confuso, reapareceu na minha mente. Parte de mim queria protegê-lo da dor que causei. Outra parte queria que ele soubesse que comigo seria diferente. Eu não o trairia. Eu não mentiria.

Mas antes disso... eu precisava conquistar Sarah Black.

Billy já demonstrava simpatia. Ele me olhava com respeito. Mas Sarah era a chave. A mãe. A protetora. A mulher que criara Jacob e ainda sonhava com um casamento perfeito para o filho.

Abri os olhos e voltei a encarar meu reflexo.

— Um passo de cada vez — falei, firme.

Passei os dedos pelos cabelos soltos, ajeitando-os com leveza. A camisola desenhava minha silhueta com suavidade. Eu estava pronta. A primeira parte do plano havia sido concluída. Claire estava fora do caminho.

Agora, tudo o que eu precisava... era conquistar Jacob Black.

E faria isso com a paciência de quem sabe que a vitória não está no ataque mais forte, mas na permanência silenciosa. No cuidado. Na presença constante.

Jacob ainda não sabia. Mas já era meu.

Apaguei a luz do abajur e me deitei entre os lençóis brancos e cheirosos.

O próximo dia seria o início da nova fase. E eu estaria pronta.

Sempre


Narrado por Jacob Black


A luz que atravessava as frestas da janela era quase uma agressão. Minha cabeça latejava como se uma matilha inteira dançasse em cima do meu cérebro. Abri os olhos devagar, sentindo o gosto amargo da ressaca e a lembrança ainda mais amarga da noite anterior.

Me sentei na cama, esfregando o rosto com força. Maldito uísque. Maldito vídeo. Maldito amor cego.

Suspirei. Estava tudo ali, vívido como se tivesse acontecido há segundos. A música cessando, os olhares chocados, as imagens de Claire nos braços de Quil se repetindo como uma tortura pessoal.

Entrei no banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água gelada cair sobre mim. Precisava acordar. Precisava me lembrar que aquilo tudo não era um pesadelo. Era real. Tão real quanto a raiva que ainda fervia sob minha pele.

Depois de me vestir com uma camiseta simples e uma calça de moletom, desci as escadas devagar, os degraus parecendo mais longos do que o normal. O aroma do café recém-passado me atingiu como um soco no estômago. Não pela fome, mas pela familiaridade reconfortante diante do caos.

A mesa da sala de jantar estava posta com perfeição. Sarah, como sempre, caprichosa nos detalhes, ajeitava uma jarra de suco com delicadeza. Ela me olhou e sorriu gentilmente.

— Bom dia, filho. Como você está?

Bonnie estava sentado à cabeceira, lendo o jornal, mas seus olhos me acompanhavam com atenção. Suspirei e esfreguei a nuca.

— Não comecem. Não estou morrendo. Nem quebrado. E, por favor, parem de olhar pra mim com essa cara de pena.

Sarah suspirou e Bonnie baixou o jornal com um meio sorriso de canto de boca.

— A pena é tua, garoto. A decepção é nossa — disse ele, direto como sempre.

Antes que eu pudesse responder a campainha me interrompeu. Tentei falar mas a campainha ecoou mais uma vez.

O empregado abriu a porta, e quando a figura de Claire surgiu, um silêncio pesado caiu sobre a sala. Ela parecia frágil, abatida, e ainda assim carregava aquele olhar de quem tentaria qualquer coisa para reverter o inevitável.

Sarah se levantou com firmeza antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa.

— Claire… acho melhor você voltar para sua casa. Essa não é a hora, nem o lugar.

— Tia Sarah, por favor… eu preciso falar com o Jacob — disse ela, a voz trêmula, lutando para manter a compostura.

— Você teve a sua chance — disse Sarah, fria. — Ele não precisa ouvir mais mentiras.

— Mãe — falei, com um gesto sutil para que ela deixasse. Respirei fundo e olhei nos olhos de Claire. — Mas ela tem razão. Eu não tenho nada pra conversar com você.

— Jacob, não faz assim… eu sei que errei, mas…

— Mas o quê? — levantei a voz, o controle começando a se perder. — Que foi um deslize? Que Quil te forçou? Vai tentar se passar por vítima agora?

— Você não entende…

— Eu entendi tudo, Claire. Demorou, mas entendi. E sabe o que mais? Ainda bem que esse vídeo apareceu antes do casamento. Você me poupou de cometer o maior erro da minha vida.

Ela recuou como se tivesse levado um tapa. Mas foi aí… que ela congelou.

Seus olhos se desviaram dos meus e subiram ligeiramente, focando nas escadas. Eu me virei, confuso, e o tempo pareceu parar.

Renesmee descia lentamente os degraus, usando apenas um robe claro sobre uma camisola preta que moldava suas curvas com elegância sutil. Os cabelos soltos, o olhar sonolento… e perigoso. Ela parou ao notar Claire na porta.

O silêncio foi rompido por uma única pergunta, carregada de veneno:

— O que você está fazendo aqui?