O Lado Sombrio do Amor
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Narrado por Renesmee
O grito ecoava na minha garganta.
— Sophie! — corri o mais rápido que pude, os pés pesando como chumbo, o ar me cortando os pulmões.
A menininha à frente corria sem olhar para trás. O vestidinho azul voava com o vento, os cachos castanhos se agitavam, e minha alma se estilhaçava a cada passo que eu não conseguia alcançá-la.
— Sophie, espera! Sou eu, mamãe! — minha voz saiu em desespero. Ela não me ouvia. Ela nunca me ouvia.
Quando finalmente estiquei o braço e toquei seu ombro, o mundo parou.
Ela virou.
E não era Sophie.
Era Clara.
A filha de Claire.
A filha de Jacob.
Acordei com o coração disparado, os olhos marejados e o suor frio escorrendo pelas têmporas. Levei a mão à barriga, tentando encontrar fôlego, mesmo que a dor não estivesse mais ali.
Agora ela morava em mim. Sempre.
Levantei, tomei um banho, terminei de me vestir e desci para a cozinha onde Bella, Renée e Phil já tomavam café. O aroma de pão fresco e café forte preenchia o ambiente, mas tudo parecia longe. Embaçado. Eu estava ali… e ao mesmo tempo, não estava.
— Estamos quase com tudo pronto para Annecy, — disse Bella, com um brilho nos olhos. — A nova fase começa agora. Finalmente vamos ter paz.
Assenti, pegando minha caneca, mas a mão tremia. Sentei-me em silêncio.
— Nessie? — a voz de Bella me chamou de novo.
Levantei os olhos, mas era como se tivessem me puxado de outra realidade.
— O quê?
— Perguntei se você quer que eu fale com o Alec — Bella sorriu, gentil, mas com uma sombra de preocupação. — Você está bem?
Olhei para ela, depois para Renée e Phil, e senti que não podia mais fingir.
— Preciso sair. Só um pouco.
Levantei, peguei minha bolsa e o celular, saí sem ouvir qualquer protesto. O vento da manhã cortou meu rosto assim que pisei na calçada. Meus dedos tremiam quando desbloqueei a tela.
Percorri a lista de contatos, o coração batendo mais forte do que deveria.
Liguei.
Encostei o celular no ouvido, com os olhos fechados.
Uma chamada.
Duas.
Três.
— Alô? — a voz de Rachel Black soou do outro lado.
— Rachel… é a Renesmee. — respirei fundo. — Preciso te ver. É urgente.
E enquanto ela respondia, uma certeza tomava conta do meu peito:
Alguma coisa estava errada. Clara não era só uma coincidência.
Narrado por Jacob
A manhã estava abafada, e o silêncio em casa parecia mais pesado do que nunca. Esperei até ouvir a porta bater — Clara havia ido para a escola — antes sair de casa subir as escadas e fui até o escritório. Claire estava sentada na poltrona, com o notebook no colo e um café já pela metade.
— Podemos conversar? — perguntei, firme, mas calmo.
Ela ergueu os olhos lentamente, como se já soubesse.
— Claro, — respondeu, fechando o notebook.
Respirei fundo.
— Eu não vou mais continuar com isso, Claire. — deixei as palavras saírem de uma vez. — Hoje mesmo saio de casa.
Por um momento, esperei reação. Gritos. Ironias. Chantagens emocionais. Mas ela apenas… assentiu.
— Tudo bem.
Franzi a testa.
— É só isso?
Claire deu de ombros, se levantando da poltrona.
— Você quer ir? Vá. Só se certifique de que Clara tenha um quarto na nova casa.
— Como assim Clara ter um quarto? — perguntei, me aproximando, confuso.
— Jacob… — ela suspirou, como se explicasse algo óbvio — Clara vai ficar com você. Eu não vou lidar com uma pré-adolescente sozinha. Ainda mais nessa fase.
A ficha caiu.
— Claire, isso não tem nada a ver com ela! Eu estou terminando com você, não abandonando minha filha. Você é a mãe dela!
Ela deu um meio sorriso irônico e pegou a xícara.
— Exato. E por ser mãe, sei que você é mais paciente, mais presente. Clara sempre foi mais sua do que minha. Estou apenas facilitando as coisas. Você não precisa brigar por guarda, nem lidar com advogados. Fica com a filha, e pronto.
Meu estômago revirou. Eu não esperava isso. Não assim. Não dessa forma tão fria.
— Você está se livrando dela, Claire?
Ela não respondeu.
— Sabe o que é pior? — continuei, sentindo a raiva ferver — Você diz que está facilitando, mas está apenas fugindo. Como sempre.
Claire cruzou os braços.
— Fugindo? Porque prefiro ir para um spa do que lidar com suas crises existenciais por causa da sua ex-noiva por quem você claramente ainda é obcecado?
Trinquei os dentes. Ela sabia como cutucar. Mas eu não ia cair naquela.
— Assim que tudo estiver pronto venho buscar a Clara.
— Ótimo. E Jacob… — ela falou, quando eu já me afastava — só cuidado pra não repetir os mesmos erros. Clara merece mais do que um pai perdido no passado.
Saí do cômodo sem responder. Porque no fundo, eu sabia…
Ela estava certa.
Narrado por Renesmee
O dia estava nublado, como se Nova York refletisse o turbilhão dentro de mim. Marquei de encontrar Rachel num café discreto no Upper West Side. Quando ela chegou, percebi o quanto o tempo havia passado. Estava diferente, mais madura… mas ainda tinha aquele brilho nos olhos.
Ela me viu e parou por um segundo, surpresa.
— Renesmee? — disse se aproximando. — Você aqui? Eu nem sabia que estava em Nova York.
Fingi um sorriso discreto.
— Cheguei há alguns dias… Não queria fazer alarde. As coisas ainda estão… delicadas.
Ela me abraçou, ainda um pouco sem acreditar. Sentamos, pedimos dois cafés.
— Mas me conta, — ela disse curiosa — por que me procurou? Depois de tanto tempo...
Inclinei levemente a cabeça, deixando meu olhar parecer vulnerável.
— Na verdade, estou pensando em voltar a trabalhar como modelo. Senti que precisava me reinventar, ocupar minha mente. Pensei que talvez você pudesse me ajudar a retomar contatos.
Rachel sorriu com simpatia.
— Claro, você sempre foi linda, carismática… ainda tem todos os atributos. Vai ser fácil voltar.
— Obrigada. — respondi, tocando a borda da xícara de café. — E então me diz o que eu perdi?
Ela suspirou.
— Quer saber sobre meu irmão? Ele passou 6 meses em alto mar, voltou e fez tudo errado como sempre.
Meu coração acelerou, mas me mantive serena.
— E Claire? Fiquei surpresa deles retomarem depois do escândalo.
Rachel fez uma careta e balançou a cabeça.
— Ela apareceu com Clara. Depois de passar quase um ano em Veneza. A garota nasceu lá.
Fiquei imóvel.
— Veneza? Clara nasceu lá?
Rachel assentiu, tomando um gole do café.
— Sim. Quando ela voltou, fez Jacob fazer o teste de DNA. Deu positivo, claro. E ela usou isso como argumento para se casar com ele. “Pelo bem da filha.” O que nunca me desceu bem.
Engoli seco.
— Mas... ninguém viu Claire grávida?
Rachel ergueu as sobrancelhas e fez um gesto negativo com a cabeça.
— Não. Ela saiu de cena, disse que estava em um retiro de gravidas e que queria poupar o bebê doa holofotes… quando voltou, apareceu com Clara nos braços. Foi tudo muito rápido. Mas, com aquele DNA positivo… ninguém questionou.
Senti o chão tremer sob meus pés. A confirmação não vinha só do meu coração de mãe, agora havia algo mais. Uma falha, uma brecha, uma nova trilha para a verdade.
— Claro — hesitei, quase como quem não quer ousar — Vocês nunca a acharam isso estranho?
Rachel ficou em silêncio por alguns segundos. Depois desviou o olhar.
— Um pouco. Mas Claire sempre foi boa com histórias mas ela voltou com a filha não havia o que ser questionado. E Jacob… bem, ele sempre acreditou em tudo que envolvesse o bem-estar de Clara. Nunca quis questionar demais.
O nome da menina queimava na minha boca. Clara. Minha mente começou a girar com mais força. As peças… estavam começando a se mover.
— Obrigada, Rachel. — falei, pegando minha bolsa. — Você não faz ideia do quanto me ajudou.
Ela franziu a testa, desconfiada.
— Nessie… tem certeza que está aqui por trabalho?
Sorri de canto, me levantando.
— Digamos que é mais do que isso. É sobre recuperar algo que nunca deveria ter sido tirado de mim.
E então saí, com o coração em chamas, e um nome ecoando em minha mente:
Voltei para o apartamento de Renee com as mãos tremendo. Cada palavra dita por Rachel ainda martelava na minha mente como um alerta que grita e não cala. Claire esteve fora por quase um ano. Clara nasceu em Veneza. Ninguém viu sua gravidez. E as feições da menina...
Liguei o notebook e comecei a vasculhar tudo que podia.
"Clara Young Black." Digitei e iniciei a busca.
As primeiras imagens que surgiram eram recentes: a menina com trajes de escola particular, em eventos da alta sociedade, ao lado de Jacob e Claire. Clara aos 12. Clara aos 10. Clara aos 6.
Mas nenhuma… nenhuma imagem de bebê. Nenhuma imagem de Claire grávida.
— Não é possível… — murmurei, clicando em mais uma página de uma matéria antiga.
Nada.
Vasculhei as redes sociais, fóruns, blogs antigos de celebridades. Encontrei uma imagem de Claire voltando de Veneza com um bebê no colo. A legenda dizia:
"Claire Young Black retorna dos meses de descanso com a filha recém-nascida."
Mas o rosto da criança estava coberto por um lençol leve. Nada que provasse nada.
Senti minha garganta se fechar.
Levantei, andando de um lado para o outro no quarto, até finalmente puxar o celular. Disquei para Alec. Ele atendeu no segundo toque.
— Nessie ..
Minha voz estava baixa, contida, mas firme.
— Oi Alec. Preciso da sua ajuda. Urgente.
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