O Lado Sombrio do Amor

44 Especulações ( parte 2)



Narrado por Renesmee


A noite caía silenciosa na casa de Renee, mas dentro de mim tudo era barulho. Eu estava deitada no sofá, com o notebook apoiado nas pernas, a luz da tela refletindo no meu rosto enquanto eu rolava, impaciente, por imagens e mais imagens na internet.

Digitando Clara Young Black mais uma vez, meus olhos pousaram em algo novo: um perfil do Instagram.

@clara.y.black

O coração disparou.

A foto de perfil era apenas um ícone com fundo rosa e um emoji de flor, nada revelador. Mesmo assim, cliquei em Seguir. A conta estava privada. Suspirei frustrada. Tentei procurar publicações marcadas, amigos em comum. Nada.

Fechei o notebook devagar e me levantei. Aquele vazio no peito se transformava em urgência. Eu precisava de uma comparação. Uma imagem. Algo mais do que lembranças turvas do hospital, ou do rostinho de Sophie envolto em um cobertor.

Caminhei até a sala onde Bella e Renee estavam vendo TV.

— Vocês têm… fotos minhas quando eu era pequena? — perguntei, tentando parecer casual, mas a minha voz soou mais ansiosa do que gostaria.

Renee, sentada com uma xícara de chá nas mãos, sorriu com doçura.

— Tenho sim, querida. Guardei todos os álbuns da sua infância. Estão no baú, no armário do quarto de hóspedes.

— Você pode me mostrar?

— Claro — disse ela, se levantando. — Vamos pegar.

Antes que ela saísse da sala, Bella me olhou com atenção. Seu olhar parecia me atravessar.

— Nessie — ela disse suavemente — o que está acontecendo?

Fiquei em silêncio por um momento. Olhei para ela, então para Renee, que esperava minha resposta.

— Eu sei que vai parecer loucura — murmurei, com a garganta apertada. — Mas… eu acho que encontrei a Sophie.

Bella ficou imóvel. Os olhos dela se arregalaram, o ar preso entre os lábios. Renee apertou o álbum de fotos contra o peito.

— Como assim? — Bella sussurrou, como se não quisesse que o universo escutasse.

— A dois dias , quando eu estava no Top of the Rock… eu vi uma menina. Ela deixou o celular cair, e quando fui devolver… eu olhei nos olhos dela, e senti. Era como se o tempo tivesse parado. Como se meu corpo inteiro soubesse quem ela era. — Engoli em seco. — Era como se eu estivesse olhando pra mim mesma. Aos doze anos.

— E quem é essa menina? — perguntou Renee, quase sem ar.

— Clara. A filha do Jacob. — Olhei para as duas, sentindo o chão sumir sob meus pés. — A filha da Claire.

O silêncio caiu sobre nós como um trovão mudo. Bella se aproximou e segurou minhas mãos.

— Você está dizendo que… acha que Clara é sua filha?

Assenti, com os olhos marejados.

— Eu não tenho certeza, mas preciso saber. Por favor… me ajudem a encontrar uma foto minha com essa idade. Eu preciso comparar. Eu preciso ter certeza.

Bella me puxou para um abraço apertado.

Minha voz saiu baixa, mas firme:

— Jacob não sabia da minha gravidez. Quando eu fui embora… eu nunca contei.

Bella respirou fundo, como se já estivesse esperando aquilo. Seu olhar ficou mais sombrio, mas ainda assim cheio de ternura.

— Eu sei. Você seguiu meu conselho. Protegeu seu bebê. Mas, Nessie… talvez Jacob não saiba da gravidez, mas… ele pode também não saber que Clara não é filha da Claire. E você também não sabe. Ainda não. — Ela soltou minhas mãos, apenas para acariciar meu rosto. — Você está tão esperançosa em encontrar Sophie que… talvez esteja vendo ela em qualquer menina.

Balancei a cabeça, com o coração disparado.

— Não. Eu sei que parece loucura, mãe… mas quando eu olhei para ela… quando Clara sorriu pra mim… — Meus olhos se encheram de lágrimas. — Era como olhar para mim mesma. Como se uma parte minha estivesse ali, viva. Pulsando.

— Nessie…

— Clara é Sophie. — Interrompi, sentindo meu peito doer com a força da certeza. — Eu sei disso. Eu senti. No momento em que a vi. É como se o meu coração reconhecesse ela antes mesmo da minha mente entender.

Bella fechou os olhos, apertando os lábios.

— Eu só tenho medo de que você se machuque. De que isso seja mais uma falsa esperança.

— Eu também tenho medo, mãe — confessei, a voz embargada. — Mas mais do que isso… eu tenho medo de deixar minha filha viver longe de mim mais um dia, achando que sou uma estranha. Eu preciso descobrir a verdade.

Bella respirou fundo, vencida pela força da minha convicção. Ela passou os braços ao meu redor e me envolveu em um abraço protetor.

— Então vamos fazer isso juntas. — sussurrou em meu ouvido. — Vamos descobrir se ela é sua filha. E se for… eu prometo que nada nem ninguém vai nos impedir de tê-la de volta.

Eu assenti contra seu ombro, segurando as lágrimas.

Era isso.

Eu estava pronta para enfrentar tudo — inclusive Jacob — se fosse preciso.

Porque Sophie… minha filha… estava perto.

E eu não deixaria que a arrancassem de mim de novo.


Narrado por Jacob

O novo apartamento ainda estava com cheiro de tinta fresca e caixas abertas por todos os lados. Eu estava no sofá, com a cabeça encostada na parede, enquanto minha mãe, Sarah, passava os olhos pela sala analisando o espaço.

— Claire foi clara? — ela perguntou, sentando ao meu lado. — Disse mesmo que vai deixar Clara com você?

Assenti devagar, esfregando as mãos no rosto cansado.

— Disse que não quer lidar com uma pré-adolescente. Pra ela, Clara virou um estorvo.

Sarah soltou um suspiro pesaroso, cruzando os braços.

— Isso não me surpreende. Claire e os Yong sempre trataram Clara como uma moeda de troca. — Ela virou o rosto pra mim. — Você sabe disso, Jacob. A única razão deles aceitarem o casamento foi por medo de perderem o controle sobre a menina.

— Eu sei, mãe. — murmurei. — E isso me mata por dentro.

Olhei em volta, vendo caixas ainda espalhadas.

— Me ajuda a arrumar esse lugar? Quero que Clara se sinta em casa. Que ela veja que esse vai ser o lar dela de verdade.

Sarah sorriu e assentiu.

— Claro que ajudo. Não apenas por você… mas por ela. Clara precisa disso. E precisa de você inteiro.

Fiquei em silêncio por um momento. Depois completei:

— Amanhã vou levá-la ao parque. Vamos conversar. Só nós dois. Ela merece entender o que está acontecendo. Sem mentiras.

Minha mãe assentiu mais uma vez, mas percebi um olhar diferente em seus olhos. Ela hesitou por um segundo e então disse:

— Já que estamos colocando tudo às claras… tem outra coisa que precisamos conversar.

— Sobre o quê? — perguntei, desconfiado.

Ela me olhou nos olhos.

— Sobre a Renesmee.

Na mesma hora, meu peito se apertou. Aquela lembrança — o reencontro breve, seu olhar surpreso, a voz doce da minha filha dizendo que ela era linda — voltava com força toda vez que eu respirava.

— O que tem a Renesmee? — perguntei, tentando soar indiferente, mas minha voz falhou.

Sarah pousou a mão sobre a minha.

— Ela está de volta, Jacob. E não foi por acaso. Eu conheço aquele olhar. Ela voltou por algum motivo… e eu acho que tem a ver com você.

— Por que está falando da Nessie agora? — perguntei, evitando seu olhar.

Sarah pousou a almofada no sofá e cruzou os braços.

— Porque ela procurou a Rachel.

Me virei devagar, surpreso.

— Procurou a Rachel? — repeti, franzindo o cenho.

— Sim — respondeu Sarah, firme. — E você sabe tão bem quanto eu que ela nunca dá ponto sem nó. Renesmee é… ardilosa. Se apareceu agora, depois de tanto tempo, é porque quer alguma coisa.

Engoli em seco. As imagens de Clara sorrindo para ela, o jeito como a menina olhou pra Renesmee com familiaridade… tudo voltava à minha mente. Por que ela procuraria justamente a Rachel?

— Tem certeza disso? — perguntei, tenso.

— Absoluta. Rachel me contou ontem. Disse que a conversa foi estranha. Que Nessie inventou uma desculpa sobre trabalho, mas estava claramente sondando… — Sarah deu de ombros. — Está querendo alguma coisa. Talvez de você. Talvez da Claire. Ou talvez da menina.

Fiquei calado, pensativo, sentindo o peso daquela informação.

Renesmee estava de volta.

E talvez, no fundo, eu já soubesse que ela não tinha voltado à toa.


Já era noite quando o celular vibrou sobre o balcão da cozinha. Peguei sem olhar e, ao ver o nome de Clara na tela, sorri.

— Oi, meu amor — atendi, encostando no batente da porta com um copo de água na mão.

— Pai… liguei só pra dizer boa noite — disse ela, com a voz mansa e arrastada de quem já estava quase deitada.

— Boa noite, princesa. Dorme bem, hein? Amanhã cedo vou te buscar. A gente vai tomar aquele café na padaria que você gosta.

— Eu sei. Tô animada — ela fez uma pausa e depois soltou, quase em tom casual: — Ah, pai… aquela sua amiga bonita, que você tava conversando lá no passeio da escola… ela me adicionou no Instagram.

Meu coração acelerou, mesmo que eu tentasse disfarçar.

— A Renesmee?

— É… esse é o nome dela. Posso aceitar? — perguntou, com a naturalidade de quem só queria agradar alguém que achou legal.

Levei alguns segundos pra responder.

Por que ela teria adicionado Clara?

— Pode… pode aceitar, sim — falei enfim, tentando manter a voz firme. — Se ela te mandou o pedido, é porque gostou de você também.

— Eu gostei dela. Ela é legal… e tem um sorriso bonito — Clara comentou, como quem fala de uma princesa de filme.

Sorri sozinho.

— Ela tem mesmo. Boa noite, filhota. Dorme com os anjos.

— Boa noite, pai. Te amo.

— Também te amo.

Desliguei devagar e fiquei ali, com o celular ainda na mão, olhando para o vazio da sala. O nome dela não saía da minha cabeça.

Renesmee.

O que você quer com a minha filha?

E por que agora?


Narrado por Renesmee


Renee voltou à sala com o álbum em mãos. O mesmo álbum que ela guardava há anos — memórias da minha infância, pedaços de um tempo que parecia tão distante.

— Aqui está — disse ela, me entregando com cuidado.

Sentei-me no sofá, ajeitando uma almofada no colo, e abri a capa. As páginas se abriram como portais. Minha infância corria ali, entre as fotos com os Newton, alguns aniversários, outras com Bella sorrindo ao fundo. Mas foi quando virei a terceira página que meu coração disparou.

— Sophie… — sussurrei, quase sem voz.

— Sim — disse Renee, se aproximando, com os olhos marejados — ela se parecia muito com você, quando era bebê.

Toquei com os dedos a borda de uma foto onde eu tinha aproximadamente a mesma idade que Clara tem agora. Meus olhos, meu sorriso… até o jeito como eu segurava o cabelo, era igual.

Um som agudo quebrou o silêncio. A notificação do meu celular.

Peguei o aparelho, e a tela exibia uma mensagem:

"ClaraY.black aceitou sua solicitação de amizade."

Meu dedo deslizou rapidamente. Abri o perfil. Lá estava ela. Clara.

A foto mais recente era de um passeio na escola. Ela ria ao lado de duas amigas, usando uma camiseta com estampa florida. Meu coração parou. A mesma covinha do lado direito. Os olhos amendoados. O contorno do queixo. A testa larga. Tudo nela gritava o meu sangue.

Eu soltei um soluço contido, apertando o celular contra o peito. Meus olhos ardiam.

— É ela… — sussurrei, quase sem ar — Clara é minha filha.

Renee se aproximou devagar e se ajoelhou à minha frente, pegando minhas mãos trêmulas entre as dela.

— Essa menina se parece mesmo com você — ela afirmou, com a voz quebrada.

— Eu senti. Desde aquele primeiro instante. Agora não há dúvida. Ela é minha.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto.

A busca tinha acabado. Doze anos. Tantas pistas falsas, tantos becos sem saída. E agora, o destino mostrava que ela esteve ali o tempo todo… tão perto de mim. Tão perto de Jacob.

Minha filha.

Minha Sophie.

Acordei com a luz filtrando pelas cortinas e o gosto amargo da noite anterior ainda presente na boca. Minha cabeça latejava. Me sentei devagar, sentindo o corpo pesado, como se eu tivesse corrido uma maratona emocional — e talvez tivesse mesmo.

Bella estava sentada na poltrona ao lado da cama, com uma xícara de chá entre as mãos. Seu olhar preocupado pousou em mim assim que abri os olhos.

— Mãe…? — sussurrei, confusa — o que… o que aconteceu?

Ela se inclinou para frente e tocou minha mão com carinho.

— Você teve uma crise, Nessie. Uma crise nervosa. — sua voz era baixa, cheia de dor — Ficou em choque depois de comparar a sua foto com a da Clara… ficou repetindo que ela era sua filha. Tentou sair correndo atrás do Jacob, mas eu te impedi. Você precisava descansar.

Franzi a testa, apertando as têmporas. Tudo voltava aos poucos. A foto. O perfil. O olhar. A covinha.

— Eu não lembro de ter tentado sair… — murmurei.

— Foi instinto. Coração de mãe — Bella disse, com um sorriso triste. — Você estava desesperada.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, observando a parede branca à minha frente. Clara. Sophie. Minha filha. Jacob…

Bella respirou fundo.

— O que você vai fazer agora? — ela perguntou com firmeza. — Precisa ir à polícia, Nessie. Se aquela menina é mesmo sua filha… se te tiraram ela, você tem que lutar por ela com tudo que tem.

Eu virei o rosto para ela, e pela primeira vez em anos, senti minha força de volta. Não a força do corpo — mas a da alma.

— Eu vou à polícia, sim. Mas antes disso…

Parei por um instante, apertando o lençol entre os dedos.

— …antes, eu preciso olhar nos olhos da pessoa que fez isso comigo. Preciso confrontar quem roubou minha filha.

— Claire Yong.

Bella cerrou os lábios e assentiu lentamente, compreendendo a tempestade que eu carregava por dentro.

Eu iria até o fim.

Ninguém tomaria Sophie de mim de novo.