O Lado Sombrio do Amor
42 Encontro
Narrado por Renesmee
Estar ali com minha mãe era surreal. Por tanto tempo, eu imaginei esse momento — o reencontro, as palavras não ditas, os abraços negados por anos de grades e silêncio. E agora ela estava aqui, de verdade, livre.
Bella se levantou do sofá e caminhou até a janela da casa de Renée. O sol batia suavemente no rosto dela, e por um instante, eu a vi como antes. Como a mulher forte, intensa e cheia de amor que havia lutado sozinha para me proteger.
— E então? — perguntei, tentando esconder a ansiedade. — Você vem comigo pra Annecy?
Ela se virou, os olhos marejados, mas com um sorriso sincero.
— Sim. — disse com a voz embargada. — Eu quero recomeçar ao seu lado. Quero conhecer minha neta, ver você sorrir sem carregar o peso do mundo nas costas. Eu vou com você, Nessie.
— Mãe… — abracei-a forte, e juntas choramos baixinho. Era o começo de algo novo.
O som do meu celular nos interrompeu. Olhei o visor e sorri ao ver o nome de Alec. Atendi, enxugando os olhos.
— Oi, doutor favorito. — disse em tom brincalhão.
— Oi, minha paciente favorita. — ele respondeu com um sorriso na voz. — Como está Nova York?
— Bagunçada como sempre mas acabei de ter o momento mais emocionante da minha vida. Minha mãe vai voltar comigo pra Annecy.
— Isso é maravilhoso, Renesmee. Ela vai adorar a casa. E eu mal posso esperar pra vê-la.
— E eu mal posso esperar pra voltar.— suspirei, olhando para Bella. — Minha mãe quer me ajudar a encontrar Sophie.
Do outro lado, Alec ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer:
— Ela é uma mulher corajosa. Se vocês estiverem unidas, Sophie vai ser encontrada. De um jeito ou de outro, eu acredito nisso.
— Obrigada, Alec. Por tudo.
— Cuide de você, Nessie. E quando estiverem prontas, eu estarei aqui.
Desliguei, o coração aquecido pelas palavras dele.
— Ele parece ser um bom homem. — disse Bella, se sentando ao meu lado novamente.
Assenti, mas depois sussurrei:
— Ele é. Mas o meu coração ainda tem cicatrizes.
Bella pegou minha mão com delicadeza.
— E juntas, vamos cuidar de cada uma delas. Inclusive a maior de todas: trazer Sophie de volta.
E naquele instante, eu soube. Estávamos começando uma nova história. Mãe e filha. Mais fortes do que nunca.
Nova York tinha o mesmo cheiro de sempre: mistura de café fresco, fumaça dos carros e a vida apressada que pulsava em cada esquina. Era uma cidade que engolia pessoas e memórias, e ainda assim, devolvia lembranças como se nunca as tivesse digerido por completo.
Caminhei sem rumo certo, com as mãos nos bolsos e a cabeça cheia de pensamentos. As luzes, os sons, as vitrines — tudo me remetia aos dias em que vivi aqui… aos dias em que sonhei, amei e perdi.
Meus passos me levaram ao Top of the Rock, um dos lugares que mais gostava de visitar quando precisava clarear a mente. A vista lá de cima ainda era magnífica, mas hoje eu queria ficar mais próxima do chão, dos rostos que passavam, da cidade viva.
Sentei em um banco no térreo e respirei fundo. Um grupo de estudantes passou por mim em fila dupla, acompanhados por duas professoras. Meninas com uniforme colegial azul-marinho e saias xadrez caminhavam animadas, rindo e apontando para o alto do prédio.
Sorri ao observá-las.
"Será que Sophie se vestiria assim?" — pensei.
Fechei os olhos por um instante, tentando imaginar minha filha entre aquelas garotas, com uma mochila leve nas costas e um sorriso despreocupado.
Quando abri os olhos novamente, vi algo brilhar no chão. Um celular.
Olhei em volta e logo percebi que uma das meninas havia deixado cair o aparelho. Me levantei, peguei o celular e fui atrás do grupo.
A multidão de visitantes tornava tudo mais difícil, mas então, uma das adolescentes retornou, visivelmente aflita, olhando para o chão. A mochila caía de um lado do ombro e ela apertava os olhos como se procurasse algo perdido entre o concreto e os passos apressados.
— Você perdeu alguma coisa? — perguntei, me aproximando.
Ela se virou, surpresa, e assentiu rapidamente.
— Meu celular… é branco, tem uma capinha com flores…
Estendi a mão com o aparelho.
— Seria esse?
Os olhos dela se arregalaram, e um sorriso se abriu no rosto jovem.
— Sim! Nossa, muito obrigada! Eu nem percebi que tinha deixado cair.
Ela pegou o aparelho com gratidão, mas eu fiquei ali… parada. Observando.
Algo nos traços dela me paralisou.
O formato do rosto. O nariz levemente arrebitado. As sobrancelhas… tão familiares.
Os olhos dela cruzaram com os meus, e por um instante, senti o chão sumir sob meus pés.
Ela agradeceu novamente e virou para correr até o grupo, mas antes que eu pudesse reagir, meu coração disparou.
— Qual o seu nome? — soltei sem pensar.
A menina parou e olhou por cima do ombro.
— Clara. — disse com naturalidade. — Clara Black.
Narrado por Jacob
O vento lá em cima era frio, mas nada que Clara já não estivesse acostumada. A vista do Top of the Rock sempre impressionava os turistas, mas para mim, Nova York nunca pareceu tão grande… e tão pequena ao mesmo tempo.
A professora falava animadamente sobre os arranha-céus e a importância histórica daquele ponto turístico. Clara mantinha-se próxima do grupo, e Rebecca, que me acompanhava, comentava sobre a vida.
— Vou sair de casa no fim de semana, Beca, minha situação com Claire se tornou insustentável.
— Você nem deveria ter casado com ela. Agiu por impulso depois que foi atrás da ruiva e a viu grávida com outro homem — disse Rebecca.
Minha mente se ausentou com aa lembranças de Annecy . Ver Renesmee grávida nos braços de outro homem foi um golpe que talvez eu jamais tenha superado. Tentei me manter presente, focado na paisagem, mas… algo em mim estava inquieto. Era instinto.
Olhei ao redor.
Cadê a Clara?
— Becca… vou procurar Clara. Volto em dois minutos.
Ela assentiu e eu caminhei entre os visitantes e alunos com uma ponta de preocupação queimando no estômago.
Foi então que a vi.
Clara estava parada um pouco mais à frente, próxima à mureta de vidro. Falava com uma mulher.
Parei. Meus pés enraizaram no chão.
Ela virou o rosto devagar e então, eu soube.
Renesmee.
Meu coração disparou. Um trovão silencioso estourando no peito.
Ela estava ali. Tão perto. Tão real. Os cabelos levemente ondulados pelo vento. Os olhos presos nos de Clara com um brilho indescritível.
Me aproximei, como quem caminha no fio de uma navalha.
— Clara. — chamei, minha voz saindo mais grave do que esperava.
A menina se virou, surpresa.
— Pai! Você chegou rápido. Essa moça achou meu celular.
Renesmee ergueu o olhar, devagar. Nossos olhos se encontraram e o tempo parou.
— Jacob... — ela sussurrou, como se meu nome tivesse sabor antigo.
Fiquei parado, respirando fundo, tentando manter o controle.
Ela parecia a mesma e, ao mesmo tempo, completamente diferente. Os anos haviam passado, mas algo nela permanecia. E agora… ela estava ali. Com a minha filha.
— Obrigada por ajudar minha filha. — consegui dizer, tenso.
Renesmee assentiu, mas seus olhos estavam marejados.
— De nada...
Clara olhou de um para o outro, confusa.
— Vocês se conhecem?
Fiquei em silêncio.
Renesmee também.
Mas naquele instante… tudo havia mudado.
E eu sabia que o passado acabava de nos alcançar.
Narrado por Renesmee
Ver Jacob foi como ser atingida por uma onda gelada e quente ao mesmo tempo. Meu coração tropeçou no peito, os pulmões esqueceram como respirar. Os anos passaram, mas nada me preparou para encarar aquele olhar outra vez. O mesmo olhar que tantas vezes me fez sentir segura… e agora, tão cheio de confusão.
Mas o que realmente me tirou o chão foi ela.
Clara.
A menina tinha algo familiar, um brilho nos olhos, um jeito de sorrir torto, a mesma forma de apoiar os dedos sobre o celular — como se cada movimento fosse ensaiado pela memória do meu corpo.
— Você conhece meu pai? — ela perguntou com a naturalidade de quem tenta ligar pontos.
Respirei fundo. Meu coração ainda acelerado.
— Sim… já trabalhamos juntos. Há um tempo. — sorri, tentando manter o controle da voz.
Clara sorriu de volta, com doçura.
— Você é linda.
A simplicidade daquele elogio me desarmou. Senti meus olhos se encherem, mas mantive a compostura.
— Obrigada, você também é uma menina muito gentil.
Ela pareceu gostar disso e sorriu ainda mais.
— Quer fazer o passeio com a gente? É sobre a história de Nova York, e depois vamos comer pizza. É legal.
Meu peito apertou com o convite. Quis dizer sim. Quis caminhar ao lado dela, de Jacob, como se o tempo não tivesse sido cruel.
Mas não podia. Não ainda.
— Eu adoraria, mas estou com pressa hoje. Tenho um compromisso. — menti com delicadeza.
Foi então que ele falou. A voz dele. Meu nome nos lábios dele. A mesma entonação, como se os anos não tivessem passado.
— É bom te ver de novo. — Jacob disse.
Olhei para ele. Deus… ele estava ainda mais bonito. Os traços mais marcados, o olhar mais sério, mas aquele mesmo Jacob de sempre. Aquele que eu nunca consegui esquecer.
Assenti, sem conseguir responder.
Jacob pousou a mão no ombro de Clara e se afastou com ela. Vi os dois caminhando juntos, e por um instante… um único e dolorido instante…
Imaginei que fosse ele e Sophie.
A filha que ele nunca conheceu.
A filha que ainda buscava.
Fiquei ali, com o coração em pedaços, assistindo-os sumirem entre os turistas. Meu peito apertado e uma única certeza ecoando em minha mente:
O destino acabava de traçar o reencontro que eu tanto temia.
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