Narrado por Jacob


Eu estava decidido. Tinha visto Renesmee sozinha, encostada perto da fonte, olhando para o nada com um copo de suco na mão. O vestido leve que ela usava balançava com o vento, e por um momento, tudo ao redor pareceu ficar em silêncio. Eu respirei fundo, ajustei a gola da camisa e comecei a caminhar na direção dela.

Mas como se o destino tivesse senso de humor, Heidi surgiu no meu caminho.

— Vai aonde, bonitão? — ela perguntou, com aquele sorrisinho sagaz.

— Só ia conversar com Renesmee — respondi, tentando desviar, mas ela já havia enlaçado os braços ao redor do meu pescoço.

— E perder a chance de dançar comigo? — rebateu com uma piscadela. — Vamos lá, só uma música.

Antes que eu pudesse protestar, ela já me puxava para o centro improvisado da pista no jardim, rindo. Cedi. Afinal, não tinha mal em dançar um pouco. Heidi sabia como me desmontar com facilidade, sempre soube.

— Sabe o que funciona pra conquistar uma mulher indecisa? — ela perguntou, girando devagar sob meus braços.

— Você está bem informada pra quem chegou hoje — brinquei. — Rachel e Rebecca te deram um dossiê completo em menos de uma hora?

Ela riu.

— Óbvio. Suas irmãs têm boca solta e eu sou curiosa. — Ela se inclinou, com um olhar sincero. — Olha, Jake... eu admito, adoraria reviver nossos velhos tempos, mas não sou o tipo de mulher que fica com um cara que pensa em outra.

Assenti. Aquilo foi direto. E verdadeiro.

— Eu sei... — murmurei.

— Então, meu conselho como sua amiga e primeira decepção amorosa: mulheres tomam decisões importantes quando percebem o que estão prestes a perder.

Fiquei em silêncio por um instante. As palavras dela ficaram ecoando. E quando finalmente desviei os olhos para procurar Renesmee, ela não estava mais lá.

Heidi apenas sorriu e deu um tapinha no meu peito.

— Vai lá e mostrar pra ela o que está prestes a perder...

Eu dei um passo para longe da pista, meu olhar varrendo o jardim.



Narrado por Renesmee


A festa estava linda. Sarah sorria radiante, cercada pelos filhos, netos, bisnetos e amigos. A música suave preenchia o jardim iluminado por pequenas luzes douradas, e eu devia me sentir parte daquilo tudo. Mas a cada minuto, meu peito parecia mais apertado.

O motivo era simples. Jacob.

Ele ainda não tinha sequer trocado uma palavra comigo. Desde que chegara com Heidi, parecia deliberadamente evitar meu olhar. Como se a presença dela fosse um escudo conveniente. Tentei fingir que não me importava, mas me conhecia bem demais pra acreditar nisso.

Peguei uma taça de champanhe da bandeja que passava. Bebi tudo de uma vez. O gosto borbulhante e adocicado não disfarçou o amargor daquilo que eu realmente sentia.

Peguei outra.

— Mãe — a voz doce de Clara me despertou. Ela se aproximou com um sorriso — Você vai dormir comigo hoje?

Eu hesitei. Meu olhar vagou, instintivo, em direção a Jacob... ele conversava com Sarah e Heidi, descontraído. Eu respirei fundo.

— Não sei, meu amor. A gente vê mais tarde, tá bom?

Antes que ela insistisse, Luna, filha da Rachel, surgiu correndo:

— Clara, vem! Estão montando os espetinhos de marshmallow!

— Já vou! — Clara respondeu, empolgada, e saiu correndo até a mesa de doces.

Fiquei ali, parada, com a taça nas mãos. E então, como num reflexo que eu não consegui controlar, vi Jacob. Ele caminhava na minha direção.

Por um segundo, meu coração acelerou.

Mas então, Heidi o interceptou com aquele jeito leve e atrevido. Ela pegou sua mão. E Jacob deixou. Seguiram juntos para a pista de dança.

Riram.

Conversaram.

Ela o tocou no ombro e ele sussurrou algo em seu ouvido.

Engoli em seco. E então, soube que eu precisava ir embora dali. Antes que fizesse uma besteira. Antes que dissesse algo que não devia.

Procurei Clara.

— Filha, a gente vai...

— Mãe, posso dormir aqui? A tia Rachel disse que tudo bem, e eu queria muito ficar com a Luna. A gente não dorme juntas faz tempo!

Olhei para ela, os olhos brilhando de expectativa. Não tive coragem de dizer não.

— Claro, meu amor. Amanhã passamos o dia juntas.

Clara assentiu, correu de volta com Luna, e eu fui me despedir discretamente de Sarah.

Estava prestes a passar pelo portão quando ouvi minha voz favorita me chamar:

— Nessie.

Parei. O coração bateu mais rápido do que eu queria admitir. Virei devagar.

Era Jacob, parado a poucos metros de mim, com as mãos nos bolsos e o olhar... intenso.

— Ja esta ihdo embora?— ele perguntou, a voz mais baixa que o som da festa.

Assenti, cruzando os braços para esconder o desconforto que crescia em mim.

— Sim... só ia embora. Está ficando tarde.

Jacob arqueou uma sobrancelha.

— Achei que fosse dormir com a Clara.

Suspirei.

— Ela pediu pra dormir com a Luna na mansão. As duas estão empolgadas. Não quis atrapalhar.

Ele assentiu com um meio sorriso.

— Clara e Luna são inseparáveis. Como Rachel e Rebecca eram na infância.

Dei um leve sorriso, mas meu coração estava apertado. Tentei não olhar diretamente nos olhos dele, mas era impossível ignorar a presença.

Então ele soltou:

— Clara comentou sobre o seu casamento. Disse que vai ser em algumas semanas.

— Sim... — respondi, tentando parecer firme — Eu e Alec decidimos dar um tempo maior. São muitas coisas pra resolver. Não quero fazer tudo às pressas.

— Claro — ele disse, com um tom calmo demais. Quase... indiferente. — Faz sentido.

Aquela resposta seca me atravessou como um corte. Estreitei os olhos, sentindo a raiva me subir pelo peito.

— Bom — continuei, forçando um sorriso — Acho que vou indo. Boa festa, Jacob.

Virei o rosto para não demonstrar o que sentia, mas ele falou antes que eu desse o primeiro passo.

— Aproveita e marca um programa, sabe? Nós quatro. Você, o Alec... eu e a Heidi.

Virei de volta devagar, sentindo minhas mãos formigarem.

Ele tinha mesmo dito aquilo?

— Um programa a quatro? — repeti com desdém. — Claro. Vai ser incrível. Vou colocar na minha lista de prioridades entre marcar o bufê, escolher flores e fingir que estou vivendo a vida que todo mundo espera de mim.

Ele me olhou em silêncio. Mas não recuou. E aquilo me irritou ainda mais.

— Boa noite, Jacob. — falei com frieza. — Espero que aproveite a festa. A Heidi deve estar... te procurando.

Virei antes que ele dissesse qualquer outra coisa. Antes que eu mesma dissesse o que não devia.

Porque por dentro, tudo que eu queria era que ele me pedisse pra não ir.

Mas ele não pediu.

E eu fui embora com a sensação de que algo dentro de mim estava prestes a explodir.


Abri a porta do apartamento e fui recebida por um silêncio estranho, denso... quase sufocante. Tirei os sapatos devagar, como se qualquer barulho pudesse quebrar o pouco de equilíbrio que ainda me restava.

Caminhei até a cozinha, tentando não pensar. Peguei um copo e enchi com água gelada. O líquido escorreu pela minha garganta, mas não foi o suficiente para engolir o nó que havia nela.

— Chegou cedo — disse uma voz familiar atrás de mim.

Virei devagar e encontrei minha mãe, encostada no batente da porta, usando um roupão leve. Os cabelos soltos, os olhos atentos.

— A festa estava... monótona — respondi, dando de ombros, tentando fingir naturalidade. — E Clara quis dormir com Luna, então...

Bella assentiu com um sorriso contido e entrou na cozinha.

— Alec estava na sala até pouco tempo. Trabalhando no notebook. Mas acho que foi descansar.

— Entendi — murmurei, me encostando ao balcão, girando o copo entre os dedos.

Ela me observou por alguns segundos em silêncio. Depois se aproximou devagar.

— Sabe, Ness... você não parece animada. E eu conheço você. Pra alguém que vai se casar em poucos dias, seu rosto parece... perdido.

Fechei os olhos por um instante.

— Mãe...

— É o Jacob? — ela perguntou com delicadeza, mas foi direto ao ponto.

Senti meu peito afundar. A lágrima veio antes que eu pudesse conter. Tentei desviar o rosto, mas ela já estava me puxando para os braços dela.

— Ei... calma, meu amor. — sua voz era um sussurro cheio de ternura. — Chora. Eu estou aqui.

Desabei em silêncio. O rosto afundado no ombro da minha mãe, como quando eu era criança. Mas agora a dor era outra. Muito mais difícil de entender. Muito mais impossível de conter.

— Eu não sei o que fazer, mãe... — sussurrei com a voz trêmula. — Eu achei que estava tudo certo, que era isso... Alec, a estabilidade... mas quando olho pro Jacob...

Bella acariciou meus cabelos.

— O coração, querida, não entende de estabilidade. Ele entende de verdade. E às vezes a verdade é confusa, dolorosa... mas é a única coisa que importa no final.

Eu a abracei com mais força.

E pela primeira vez, admiti em voz baixa:

— Eu ainda o amo, mãe. Mesmo com tudo. Mesmo com a dor. Mesmo depois de tudo o que passamos...

Bella suspirou e beijou minha cabeça.

— Então você precisa ser honesta. Com Alec. Com Jacob. E com você mesma. Antes que seja tarde demais.

— Eu não posso fazer isso — murmurei, limpando uma lágrima teimosa. — Alec está esperando por isso há doze anos, mãe... Ele esteve ao meu lado quando ninguém mais estava. Quando eu não era nada além de dor e cicatriz.

Bella respirou fundo, se afastando apenas o suficiente para olhar nos meus olhos.

— Justamente por isso, Nessie. Você precisa ser honesta com ele. Alec não merece um amor pela metade. E você não deve se casar por gratidão.

Essas palavras me atravessaram como uma flecha silenciosa. Doeram, porque eram verdadeiras. Doeram porque me fizeram enxergar o que eu estava tentando esconder até de mim mesma.

— Eu... — minha voz falhou. — Eu me sinto tão culpada. Tão... perdida. Eu não posso voltar atrás agora, mãe. Não posso.

— Pode, sim — ela respondeu com firmeza, mas com doçura. — Antes do altar, antes das promessas, sempre há tempo. É disso que se trata o amor verdadeiro... de escolher. E de ter coragem de desistir do que não é inteiro.

Engoli em seco, sem conseguir responder.

Bella me deu um beijo na testa.

— Boa noite, minha pequena. Pensa com o coração.

Ela se afastou pelo corredor, e o som dos passos leves foi tudo que restou. Fiquei ali, na cozinha escura, ouvindo a pulsação no meu peito martelar a dúvida com força.

Minutos depois, caminhei lentamente até o quarto. Abri a porta devagar.

Alec dormia.

Estava deitado de lado, o rosto tranquilo, os traços suaves como sempre. A luz do abajur fazia sombra nas maçãs do seu rosto. Parecia um retrato de serenidade.

Apoiei-me no batente da porta e fiquei observando.

Ele era lindo. Leal. Meu porto seguro por tantos anos.

E mesmo assim... não era ele que invadia meus pensamentos quando eu estava sozinha.

Não era ele que me fazia sentir o chão sumir sob os pés com um olhar.

Suspirei e caminhei até a beira da cama. Sentei devagar, com cuidado, para não acordá-lo.

Observei suas mãos entrelaçadas sobre o lençol e os sussurros leves da respiração calma.

Toquei sua mão com os dedos.

— Me perdoa — sussurrei quase sem som. — Eu queria muito conseguir te amar como você merece...

Mas meu coração...

Meu coração ainda não soube dizer adeus a Jacob.