O Lado Sombrio do Amor
34 Decepção
Narrado por Renesmee
Me encarei no espelho por longos segundos. Meus olhos estavam cansados — não pelo trabalho, nem pelos ensaios para as fotos ou pelas provas da faculdade. O cansaço vinha de dentro. Um desgaste silencioso por estar correndo em círculos, cercada de nomes, memórias distorcidas e verdades ocultas.
Estava irritada. Inquieta.
Passei semanas recolhendo fragmentos de um passado enterrado sob camadas de mentiras, mas agora... estava tudo estagnado. Nenhuma pista nova, nenhum deslize útil, nenhum movimento inesperado. Desde que os Black encontraram a câmera no escritório de Billy, os passos passaram a ser mais cautelosos. Os sorrisos deles, antes espontâneos, agora carregavam desconfiança velada.
E eu? Eu estava me afundando em um mar de suposições.
O celular vibrou ao meu lado, me fazendo despertar. Olhei para a tela. Era Rebecca. Em poucos segundos, a foto dela desapareceu e foi substituída pela de Sarah. Chamadas em grupo. Respirei fundo antes de atender.
— Alô?
— Finalmente! — disse Rebecca do outro lado. — Estamos aqui na loja, Nessie. A decoradora precisa da sua aprovação para os arranjos da mesa principal.
— E dos guardanapos! — completou Sarah animada. — A cor que você escolheu não combina com os tons do buffet.
— Você precisa vir agora — insistiu Rebecca. — A gente te busca se for preciso.
Sorri automaticamente, mas não havia alma naquele sorriso.
— Eu tô indo. Me deem alguns minutos — respondi, desligando em seguida.
Deixei o celular de lado e encostei a testa contra a vidraça do quarto. O casamento estava próximo. A fachada perfeita ganhava força a cada dia. Mas eu...
Eu me sentia cada vez mais distante da verdade. E do que restava de mim.
Jacob estava apaixonado. Estava envolvido. Talvez demais. E agora, havia uma criança em meu ventre. Algo que deveria ser luz, mas se misturava a tantos nós.
Suspirei com o peso da realidade. Precisava refazer a rota. Traçar um novo plano. Usar minha posição com inteligência. Tocar as feridas certas. Provocar o suficiente para fazer alguém falar. Bonnie ainda era a peça mais promissora — e vulnerável.
Mas não hoje. Hoje, eu escolheria guardanapos.
E fingiria que tudo era por amor.
Mas será que realmente não era?
O escritório da decoradora tinha cheiro de flores frescas e tecido recém-passado. Sarah e Rebecca estavam mergulhadas em catálogos, trocando opiniões com a profissional, quando entrei.
— Até que enfim! — Sarah exclamou, se levantando e vindo me abraçar. — Se demorasse mais cinco minutos, a gente teria escolhido margaridas em vez de rosas!
— E um vestido de noiva lilás — brincou Rebecca, piscando para mim. — Mas relaxa, ainda dá tempo de salvar tudo.
Sorrir era um gesto automático naquele ponto. Fingi leveza, me permitindo ser levada pela empolgação delas, comentando sobre os arranjos da mesa principal, as toalhas rendadas e os tons dourados que combinavam com o convite.
Terminada a reunião, seguimos juntas até a loja de vestidos. O local era sofisticado, de luz suave e música clássica. Assim que entramos, uma atendente já nos reconheceu e acenou, conduzindo-nos ao provador especial reservado com antecedência.
Foi quando a voz de Sarah me fez parar.
— Eu chamei uma pessoa especial para esse momento — ela disse, sorrindo ao lado de Rebecca. — Achei que você merecia alguém que fosse como uma mãe nesse dia tão importante.
Meus olhos seguiram a direção do olhar dela. E lá estava Renée.
Minha avó.
Vestida com elegância, um sorriso contido nos lábios, como se tentasse mascarar a apreensão.
— Renée — murmurei, com surpresa calculada. — Que bom te ver aqui.
— Também estou feliz em estar — ela respondeu, se aproximando com passos firmes. — Sei que não fui exatamente entusiasmada quanto ao casamento... mas hoje não vim para discordar. Vim para te apoiar.
Sarah e Rebecca seguiram para o fundo da loja, em busca dos modelos, enquanto Renée e eu ficamos sozinhas por alguns instantes.
— Embora eu tenha minhas preocupações — ela começou, num tom mais baixo —, quero que saiba que meu maior desejo é que você seja feliz, Renesmee. Se Jacob é quem te faz sorrir, então que seja com ele.
Fitei os olhos dela por alguns segundos. Tão parecidos com os meus. Não sabia se era medo genuíno o que eu via neles ou culpa.
— Obrigada — respondi com doçura. — Isso significa muito pra mim.
Ela apertou minha mão, mas seus olhos se desviaram. Eu a conhecia demais. Aquilo não era entrega... era rendição forçada.
E mesmo fingindo gratidão, eu sabia: Renée estava ali para vigiar. Controlar. Impedir que eu cavasse mais fundo.
Mas o que ela ainda não havia percebido...
...é que já era tarde demais.
O vestido era exatamente como eu havia imaginado em meus devaneios mais secretos — delicado, elegante e com um toque sutil de ousadia. A saia fluía como uma brisa suave e o decote era romântico sem perder a classe. Quando saí do provador, o silêncio de Sarah e Renée foi mais expressivo do que qualquer palavra.
Os olhos de Sarah brilharam e ela levou as mãos à boca, emocionada.
— Meu Deus... você está maravilhosa, Renesmee — disse com a voz embargada. — Você é a nora perfeita!
Renée, ao lado dela, também parecia tocada, mesmo tentando esconder.
— Está deslumbrante, querida. Realmente... parece que o vestido foi feito para você.
— Obrigada — murmurei, sorrindo, mas por dentro, meu coração estava inquieto. Tão perto da verdade... e, ao mesmo tempo, tão mergulhada nesse teatro.
Antes que eu pudesse voltar ao provador, meu celular vibrou discretamente. Vi o nome de Jacob na tela e atendi imediatamente.
— Oi, amor — falei, tentando manter o tom leve.
— Oi, minha futura esposa — ele respondeu com aquele tom envolvente que sempre me fazia sorrir. — Onde você está?
— Estou na loja experimentando o vestido... — falei em voz mais baixa, me afastando discretamente das outras.
— Então com certeza está ainda mais linda do que já é — ele disse, e pude ouvir o sorriso na voz dele.
— Está sendo emocionante — confessei, quase sem querer. — Sarah está encantada. Até a Renée se emocionou.
— Gostaria de ter visto — ele disse. — Mas ainda bem que poderei te ver hoje à noite. Jantar só nós dois... que tal?
— Eu adoraria — respondi, com a voz suave. — Vou estar te esperando.
— Mal posso esperar, Nessie. Te amo.
— Também te amo.
Desliguei, ainda com o celular na mão. Olhei uma última vez para o espelho. A noiva perfeita. A mulher apaixonada. A filha querida.
Mas só eu sabia quantas verdades estavam escondidas por trás daquele
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A noite estava morna e acolhedora, com uma leve brisa entrando pela fresta da janela. Coloquei uma música suave para tocar — algo instrumental, apenas um fundo calmo para quebrar o silêncio — e terminei de me arrumar. Vestido justo, mas elegante, e maquiagem leve, como Jacob gostava. Ele disse que me encontraria para um jantar só nosso, e só o pensamento já fazia meu estômago se revirar com um misto de ansiedade e encanto.
Andei até a cozinha e enchi meu copo com suco de frutas vermelhas. Dei um gole, sentindo o sabor doce e fresco na boca, e fui até a sala. Ajeitei o vaso sobre a mesa de centro e coloquei o copo ao lado.
A campainha tocou.
Sorri automaticamente, certa de que era Jacob. Olhei rapidamente no espelho, ajeitei uma mecha do cabelo e fui até a porta. Girei a maçaneta e, para minha surpresa, não era Jacob quem estava ali.
— Boa noite, vizinha — disse Nahuel, com aquele sorriso educado e quase envergonhado. — Me desculpa te incomodar, é rapidinho...
— Oi — sorri, relaxando a postura. — Que foi? Está tudo bem?
— É que... — ele riu, meio sem graça — estou fazendo um jantar e percebi que fiquei sem sal. Achei que talvez...
— Ah, claro! — o interrompi com um gesto e abri mais a porta. — Entra um segundo, eu pego pra você.
Ele assentiu e ficou parado na porta enquanto fui até a cozinha. Abri o armário, peguei um potinho pequeno e despejei um pouco de sal num copo descartável. Voltei à porta e estendi para ele.
— Aqui está. Não é muito, mas deve dar pro seu jantar improvisado.
— Já ajuda muito! — ele disse, recebendo o copo. — Obrigado mesmo. E desculpa de novo a interrupção.
— Imagina. Boa noite, Nahuel.
— Boa noite, Renesmee.
Fechei a porta com um leve sorriso. Nahuel era gentil. Um pouco reservado, mas sempre educado.
Voltei até o sofá, peguei o copo com o suco e tomei o resto em um único gole. O gosto já estava um pouco mais ácido, talvez por estar parado ali por tempo demais... mas não me incomodei.
Suspirei, olhei para o relógio e sorri de novo, imaginando Jacob a caminho. Mal podia esperar para ver a expressão dele ao me encontrar vestida daquele jeito.
O copo de suco ainda estava em minha mão quando comecei a sentir o peso das pálpebras. Uma sonolência repentina, estranha, como se algo dentro de mim tivesse sido desligado. Pisquei algumas vezes tentando focar o olhar no relógio da parede, mas os ponteiros pareciam dançar, embaralhados.
— Que droga... — murmurei, apoiando a mão no encosto do sofá.
Meus passos ficaram mais lentos. Eu estava confusa. O mundo parecia girar. Tentei balançar a cabeça para afastar aquela sensação, mas só piorou.
A campainha tocou.
Suspirei aliviada. Jacob.
Com esforço, fui até a porta. Cada passo parecia mais pesado do que o anterior. Minhas mãos trêmulas alcançaram a maçaneta. Girei-a devagar. E ali estava ele.
— Jacob... você demorou... — murmurei, sorrindo, apesar de tudo estar embaçado.
— Nessie? — a voz dele soou tensa, mas firme. — O que houve?
— Tá tudo... tudo girando — sussurrei, me apoiando no batente da porta. — Acho que... tô com sono demais...
Ele me segurou antes que eu pudesse cair. Meus joelhos cederam, mas os braços dele me envolveram com força e segurança. Eu senti o perfume que conhecia tão bem e isso me deu uma breve sensação de alívio.
— Calma, princesa. Eu tô aqui — ele disse com doçura, mas sua voz carregava preocupação.
Senti quando ele me ergueu com facilidade, me pegando no colo. A cabeça repousou contra o peito dele, e por mais que o mundo girasse, ali nos braços dele, eu me sentia segura.
— Jacob... — murmurei, a voz embargada — que estranho... eu só... tomei um suco...
— Shhh... — ele roçou os lábios na minha testa — você vai ficar bem. Vamos pro quarto, tá?
Não consegui responder. Senti o corpo ceder por completo, entregue aos braços dele, enquanto ele me levava para o quarto. Cada passo dele ecoava com firmeza no silêncio do apartamento.
Algo estava errado. Muito errado.
Narrado por Jacob
Já era quase hora de sair. Peguei a carteira sobre a cômoda e ajeitei o colarinho da camisa diante do espelho. Estava ansioso. A ideia de vê-la, com aquele sorriso de quem sabia que me desarmava, fazia o coração acelerar.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Olhei para a tela. Claire.
Suspirei, sentindo o peso daquele nome e tudo que o envolvia. Respirei fundo antes de atender.
— Alô?
— Jacob — a voz dela soou firme, mas com um leve tremor. — Eu… queria dizer que meu pai não deveria ter contado sobre a gravidez. Isso era meu. Eu deveria ter falado com você… quando estivesse pronta.
Passei a mão pelos cabelos, tentando manter a calma.
— Claire… olha… se essa criança for minha, você sabe que nada vai faltar. Eu vou assumir, cuidar… — fiz uma pausa. — Mas você não deveria ter viajado assim. Eu queria poder estar ao seu lado nesse momento.
— Eu não queria atrapalhar, Jacob — ela rebateu rapidamente. — Você vai se casar com ela em poucos dias… não achei certo.
Olhei para o relógio e depois para a aliança que descansava sobre a escrivaninha.
— A Renesmee já sabe — confessei. — Ela ficou surpresa, claro, mas… estamos seguindo em frente.
Houve silêncio do outro lado por alguns segundos.
— Então é isso… — ela disse, com uma voz baixa, quase inaudível. — Cuida de vocês, Jacob. E… cuida dele também. Se for seu.
— Pode deixar. E você também se cuida, Claire. Por favor.
— Tchau, Jacob.
— Tchau.
Desliguei devagar e deixei o celular sobre a mesa. O peso do que estava por vir ainda pressionava meus ombros, mas havia um destino me chamando — e ela tinha nome, olhos intensos e um segredo que eu ainda não conhecia .
O Tempo parecia passar mais devagar do que o normal. A cada quilômetro, meu peito apertava. Liguei para a Nessie assim que entrei no carro. Uma vez. Duas. Três.
Nada.
Ela sempre atendia, mesmo que fosse só para dizer “já volto a ligar”. Mas agora, silêncio.
A preocupação se alojou no estômago, pesada, fria. Pisei fundo no acelerador.
Quando cheguei ao prédio, estacionei de qualquer jeito, sem nem lembrar se travei o carro. Cumprimentei o porteiro com um aceno distraído e subi às pressas.
A porta estava entreaberta.
Meu coração parou.
— Nessie? — chamei, entrando com cautela.
Nenhuma resposta. Só um gemido abafado vindo do quarto.
Senti o sangue gelar.
Avancei, e a cena diante de mim me atingiu como uma facada no peito.
Ela.
Na cama.
Com um homem que eu nunca tinha visto na vida.
Minha visão se turvou de raiva. Sem pensar, sem respirar, avancei sobre ele. O primeiro soco foi cego, instintivo. O segundo ele nem teve tempo de esquivar. O homem caiu no chão, gemendo de dor.
— Jacob! — a voz dela soou fraca, pastosa, e só então notei como seus olhos mal conseguiam focar. Ela tentou se sentar, segurando o lençol contra o corpo, grogue, como se nem entendesse o que estava acontecendo.
Mas eu entendi.
Ou pelo menos, achei que tinha entendido.
— Não… não é… — ela sussurrou, tentando se levantar.
Mas o estrago já estava feito.
O quarto girava. Minha respiração estava descompassada, como se cada parte de mim estivesse sendo estraçalhada por dentro.
— Como… você pôde? — sussurrei, a voz quebrada, quase irreconhecível.
Ela tentou se aproximar, mas eu recuei, sentindo o gosto amargo da traição se misturar ao gosto do sangue na minha boca — o dele ou o meu, eu não sabia mais.
O mundo havia desabado.
E era ela quem tinha puxado a primeira pedra.
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