Narrado por Renesmee


A porta se abriu lentamente e meu coração se apertou.

Ela estava ali. De preto. Cabelos presos com força, os olhos vermelhos, como se tivesse passado a noite inteira chorando — ou odiando.

Claire.

Por instinto, meus dedos apertaram os lençóis, puxando-os discretamente até a altura do ventre. Seu olhar me atravessou, gélido e cheio de algo que não consegui identificar de imediato. Raiva, talvez. Dor. Ou os dois.

— O que você quer? — perguntei sem rodeios, a voz firme, apesar do aperto no peito.

Ela fechou a porta devagar e deu dois passos à frente, como se quisesse se certificar de que ninguém ouviria o que estava prestes a dizer.

— Eu só… precisava te olhar. — sua voz era baixa, seca. — Olhar bem nos seus olhos, Renesmee Cullen.

Fiquei em silêncio.

— Você entrou na minha vida… e destruiu tudo.

Engoli em seco. Claire continuou:

— Você me tirou o Jacob. Os Black. Tirou a única família que eu conhecia. Tirou minha liberdade. E, por fim… o meu pai.

Seu tom se elevou gradativamente, a raiva transbordando a cada palavra.

— Eu não faço ideia do que está falando — retruquei, com firmeza. — Foi Logan quem me sequestrou. Foi ele quem me agrediu.

— Você é uma assassina — cuspiu ela, os olhos vidrados nos meus. — Pode fingir o quanto quiser, mas foi por sua culpa que Logan morreu. Foi por sua culpa que tudo isso aconteceu!

— Eu me defendi! — exclamei, sentindo o sangue ferver. — Ele me espancou. Me arrastou pelo chão como um animal.

Claire cerrou os punhos e desviou o olhar por um segundo. Mas não recuou.

— Ele era meu pai.

— E eu sou mãe — rebati com dureza. — E quase perdi meu bebê por culpa de vocês dois. Não se atreva a vir aqui me culpar pelas consequências das escolhas que vocês fizeram.

O silêncio se instalou entre nós como uma lâmina suspensa no ar.

Ela respirou fundo, o olhar vacilando pela primeira vez.

— Você começou isso — disse por fim. — Você manipulou a todos, a mim, Jacob e continua manipulando.

E então, sem esperar resposta, ela deu meia-volta e saiu do quarto, deixando a porta entreaberta.

Meu corpo tremia. Mas não era medo.

Era cansaço de carregar culpas que não me pertenciam.


Minhas mãos ainda tremiam.

O som do tiro ecoava na minha cabeça como um trovão. A lembrança vinha em flashes confusos — Logan gritando, o gosto metálico do medo na minha boca, o cheiro da pólvora, a dor. A dor em tudo.

Fechei os olhos, tentando afastar a imagem do rosto dele se contorcendo em raiva. Suas palavras ainda me queimavam por dentro: “Você tirou tudo de mim”.

Eu sabia que não era verdade.

Mas mesmo assim… doía.

A maçaneta girou e eu me sobressaltei.

— Amor? — a voz de Jacob chegou suave, junto com o som leve de sacolas de papel amassando-se umas nas outras. — Olha só o que eu trouxe…

Mas assim que me viu, o sorriso dele se desfez.

— Nessie?

Ele largou as sacolas no sofá e veio até a cama, sentando-se ao meu lado com o cenho franzido. Seu olhar varreu meu rosto e então encontrou meus olhos marejados.

— O que aconteceu? — ele perguntou, tocando meu rosto com delicadeza.

Não consegui responder.

Apenas me joguei contra o peito dele, apertando sua camisa com força, como se meu corpo ainda não acreditasse que estava em segurança.

Jacob envolveu meus ombros com os braços, firme, protetor.

— Ela veio aqui — murmurei entre soluços abafados. — Claire. Ela… ela me culpou por tudo. Disse que eu tirei tudo dela. Que sou uma assassina…

— O quê?! — ele se afastou ligeiramente para me olhar, os olhos arregalados de incredulidade. — Claire esteve aqui?

Assenti, sentindo as lágrimas escorrerem livres agora.

— Eu tentei ficar forte, Jake. Mas ver o rosto dela, ouvir aquelas palavras… e eu… eu lembrei do Logan. Da briga. Da arma… — minha voz falhou e toquei instintivamente meu ventre. — O som do tiro. Eu só queria proteger nosso filho.

Jacob me puxou novamente para seus braços, com mais força agora. Seu peito subia e descia com raiva contida, mas sua voz foi baixa e firme quando falou:

— Você fez tudo certo, Nessie. Tudo. Você sobreviveu. Salvou a si mesma… e nosso bebê. Não deixa ninguém te fazer esquecer disso. Muito menos Claire.

Eu respirei fundo contra ele, sentindo o perfume da sua pele. A segurança que só ele me dava. O lar que eu carregava no peito desde o momento que me apaixonei por ele.

— Você está segura agora — ele murmurou, beijando o topo da minha cabeça. — Eu estou aqui. E não vou deixar ninguém mais te machucar.

Demorei a me acalmar, mas naquela promessa sussurrada, naquele abraço, eu finalmente senti… que podia respirar de novo.


Narrado por Jacob


Depois da crise, seus olhos finalmente se fecharam, mas mesmo adormecida, o rosto dela ainda carregava os traços da tensão. Suas sobrancelhas levemente franzidas, os lábios entreabertos como se ainda lutasse contra os próprios fantasmas.

Sentei-me na poltrona ao lado da cama e apenas a observei.

Ela era tão forte… e mesmo assim tão frágil naquele instante. Era inacreditável que alguém tivesse coragem de lançar qualquer acusação contra ela, principalmente depois de tudo que suportou.

Passei a mão nos cabelos, tentando conter o nó que crescia na garganta. Eu só queria protegê-la. Ela e nosso bebê. Ela e Sophie. Nossa família.

O som leve da porta se abrindo me tirou dos pensamentos. Bella entrou no quarto com passos calmos, mas o olhar preocupado.

— Como ela está? — perguntou baixinho.

Levantei-me devagar e a conduzi para fora do quarto, fechando a porta atrás de nós. Não queria que Nessie ouvisse nada, mesmo em sonho.

— Dormindo — respondi, mantendo a voz baixa. — Finalmente. Depois da visita que recebeu… ela teve uma crise de choro.

— Claire? — Bella deduziu, e eu apenas assenti com um movimento tenso da cabeça. — Você me ligou, eu vim direto.

Encostei-me à parede do corredor do hospital, cruzando os braços, tentando conter o impulso de esmurrar algo.

— Eu não sei como deixaram Claire entrar — falei, com raiva contida. — Ela apareceu vestida de preto, olhos vermelhos, como se tivesse vindo de um velório. Disse que a Nessie tirou tudo dela. Jacob. Os Black. A liberdade. E, por fim, o pai.

Bella suspirou pesadamente, encostando-se ao meu lado.

— Quando ela vai ter paz, Jake? — murmurou. — Quando nossa menina vai poder simplesmente viver sem que alguém a culpe, a machuque, a castigue por coisas que não foram culpa dela?

— Eu vou dar isso a ela, Bella. — respondi com firmeza. — Eu juro. Por tudo que sou. Ela vai ter paz. Vai viver segura. Vai ser feliz. Eu não vou permitir mais nenhum ataque, nenhuma ameaça, nenhuma dor. Eu protegerei a Nessie com a minha vida. Protegerei minha família.

Bella me olhou por um momento, os olhos marejados, e assentiu com um pequeno sorriso.

— Você é o lar que ela procurava, Jacob. Ela merece isso.

Assenti, e juntos, voltamos para o quarto. Ao abrir a porta, encontrei Renesmee ainda dormindo, mas dessa vez, seu rosto parecia um pouco mais tranquilo. Talvez, enfim, o pesadelo estivesse passando.

Mas eu manteria minha promessa.

Mesmo que o mundo inteiro se voltasse contra nós — eu cuidaria dela.

De Renesmee. De Sophie.

Do nosso bebê.

Da nossa vida.


Narrado por Renesmee


Acordei com o som leve de vozes do lado de fora do quarto. O quarto do hospital já não parecia tão sufocante. Talvez fosse o cheiro do perfume de Jacob ou talvez o simples fato de tê-lo ali. De saber que, apesar de tudo, eu estava viva.

Depois da visita de Claire, meu corpo e minha mente finalmente cederam ao cansaço. Dormi nos braços dele. E agora, mais tranquila, senti que poderia respirar um pouco melhor.

— Você esta linda— Jacob falou entrando no banheiro me vendo ajeitar o cabelo. — O médico nos aguarda para o ultrassom.

Assenti e sorri levemente. Ele estendeu a mão, e eu segurei sem pensar duas vezes. O contato me acalmava.

Caminhamos juntos até a sala de imagem onde a médica já nos esperava, ela foi gentil e receptiva. Deitei-me na maca, o coração acelerando um pouco, mas dessa vez, não de medo. Era ansiedade. Jacob se manteve ao meu lado o tempo inteiro, com os dedos entrelaçados aos meus.

O gel frio na barriga me fez estremecer, mas logo a imagem surgiu na tela. Pequena. Delicada. Perfeita.

E então... o som.

A batida forte, rápida e intensa do coração da nossa filha.

— Está tudo ótimo — disse a médica, sorrindo. — E vocês vão ter uma menina.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Olhei para Jacob e vi que ele também estava emocionado, embora tentasse esconder com aquele meio sorriso de sempre.

— Uma menina... — sussurrei, com a mão livre tocando a tela, como se pudesse alcançá-la.

— Sophie vai enlouquecer de felicidade — Jacob disse baixinho. — Ela queria tanto uma irmã.

— Nossa nova Sophie — murmurei, virando o rosto para ele. — Duas Sophies em nossa vida.

Ele se abaixou e beijou minha testa, depois meus lábios, com tanto carinho que o mundo pareceu parar.

Naquele instante, enquanto o coração da nossa filha preenchia a sala com sua força, eu soube que, apesar de tudo, estávamos juntos.

Com cicatrizes, é verdade.

Mas também com amor.