Narrado por Jacob


Eu estava sentado ao lado da cama, as luzes suaves do quarto contrastando com o turbilhão que girava dentro de mim. Olhar Renesmee ali, tão frágil, cheia de curativos e ligada a tantos aparelhos, era como reviver meu maior medo. Mas agora… ela estava viva. Ela e o bebê.

Passei os dedos devagar pelos dela, tentando transmitir toda a força que eu tinha. Ela não reagia, mas eu sabia que, de alguma forma, ela podia me sentir.

A porta se abriu com um rangido baixo, e o médico entrou, segurando uma prancheta.

— Senhor Black — ele disse com uma expressão cansada, mas serena —, sua esposa fraturou uma costela e teve escoriações nos braços e costas. Mas o sangramento foi controlado e, felizmente, o bebê está bem. A batida foi superficial e o útero está preservado.

Soltei um suspiro profundo, como se tivesse prendido o ar desde que a vi naquele galpão.

— Obrigado, doutor… de verdade — sussurrei, com a garganta apertada.

Ele assentiu e se retirou discretamente.

Minutos depois, a porta se abriu novamente. Bella entrou, acompanhada por Sophie, que segurava forte a mão da avó. Quando viu a mãe, seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela tentou manter a postura, como se não quisesse preocupar ninguém.

— Mamãe… — sussurrou, quase sem voz.

Eu me abaixei, abrindo espaço para ela ao lado da cama. Envolvi seus ombros com um braço e beijei o topo da sua cabeça.

— Ela está bem, filha — falei baixinho, acariciando seus cabelos. — A mamãe foi muito corajosa. Ela só precisa descansar agora.

Sophie olhou para Renesmee, tocando com cuidado a mão dela, como se tivesse medo de machucá-la.

— O bebê também está bem? — perguntou, com a voz embargada.

Assenti, sorrindo.

— Está sim. Você foi muito forte, Sophie. Agora a mamãe precisa sentir essa força também.

Ela deu um sorrisinho pequeno e colocou a cabeça no meu peito, respirando fundo.

— Eu sabia que você ia encontrar ela, pai.

Meus olhos arderam, mas segurei. A dor, o alívio, o amor… tudo num só momento.

— Eu nunca deixaria a mamãe sozinha, pequena. Nunca.


Deixei Sophie sentada ao lado da mãe, com as mãozinhas entrelaçadas às de Renesmee, que ainda dormia profundamente. Toquei os cabelos da minha filha com carinho, sussurrei que voltaria logo e saí do quarto, sentindo o peso da noite ainda grudado nos meus ombros.

Desci até a lanchonete do hospital, onde Solomon havia marcado de me encontrar. Ao entrar, avistei-o já sentado a uma das mesas do canto, com uma expressão séria. Bella e Edward estavam com ele. Sinalizei com a cabeça e me aproximei.

— O que aconteceu? — perguntei direto, sentando à frente dos três.

Solomon respirou fundo e disse com a firmeza de sempre:

— Logan Young morreu, Jacob.

Senti o estômago revirar. A lembrança do rosto de Renesmee ensanguentado piscou na minha mente. A imagem dela no chão, o som do tiro… por um segundo, o mundo pareceu girar devagar.

— Como? — perguntei, encarando Solomon. — Ela… ela atirou nele?

— Foi um tiro acidental — respondeu Edward, colocando uma das mãos sobre a mesa. — Ela apenas tentou se defender. Logan avançou sobre ela, ela reagiu. A arma disparou.

Bella apertou meus dedos por cima da mesa, num gesto silencioso de apoio.

— Eu sabia que ela estava tentando me dar uma pista naquela chamada — murmurei. — O “iate”, o “mar”… ela sabia que a gente ia encontrar.

Solomon assentiu.

— E graças a isso ela está viva. Agora, sobre a parte jurídica… — ele cruzou os braços — Nessie está completamente isenta de qualquer acusação. Ela foi a vítima desde o início. Sequestrada, mantida em cativeiro, agredida… e se defendeu no momento em que sua vida estava em risco. Tudo foi devidamente registrado e validado pelas perícias e testemunhos.

Soltei o ar que estava prendendo.

— Ela não sabe que ele morreu — falei, pensativo. — Quando acordar… isso vai ser um peso a mais.

— E um alívio também — disse Bella com firmeza. — Logan não vai mais machucar ninguém. Nunca mais.

Solomon ajeitou a pasta sobre a mesa e disse:

— Vamos manter tudo sob controle. A imprensa vai tentar se aproximar, então é melhor blindar a Nessie e a Sophie por um tempo.

Assenti.

— Eu cuido disso. Ninguém vai chegar perto delas.

Olhei pela janela da lanchonete. A madrugada já cedia lugar à luz tímida da manhã. Um novo dia começava. E com ele, a esperança de que, apesar das cicatrizes, Renesmee e nossa família poderiam finalmente ter paz.


Narrado por Renesmee


A primeira coisa que senti foi a dor. Uma fisgada incômoda nas costas, como se algo estivesse quebrado dentro de mim. Tentei abrir os olhos, mas a claridade me incomodou. Pisquei algumas vezes até que a imagem ao meu redor ganhasse nitidez.

E então vi… o rosto de Jacob.

Ele estava ali, sentado ao meu lado, com as sobrancelhas levemente franzidas e os olhos atentos aos meus, como se estivesse esperando por mim há séculos.

— Jake… — minha voz saiu rouca, baixa, arranhada.

— Ei… — ele se inclinou, aliviado, e segurou minha mão com carinho. — Você está acordada… Graças a Deus.

Eu levei a outra mão até o abdômen, assustada.

— O bebê…?

Jacob sorriu, e foi como respirar de novo depois de minutos sem ar.

— Está tudo bem. Nosso bebê está bem, Ness. — Ele beijou delicadamente meus dedos. — Mas tenho que admitir… você foi criativa demais pra dar essa notícia. Um sequestro? Uma mensagem enigmática? — ele brincou, tentando aliviar o peso da situação com seu humor carinhoso.

Não consegui evitar. Sorri.

— Não era bem o plano… — sussurrei, sentindo lágrimas brotarem mesmo com o esforço que fazia para sorrir.

— Eu sei… — ele murmurou, se inclinando para beijar minha testa.

— E a Sophie? — perguntei, sentindo uma pontada de urgência.

— Ela está bem. Bella a levou pra casa… ela estava dormindo sentada na cadeira, não queria sair daqui de jeito nenhum.

Fechei os olhos por um momento.

— Eu tive tanto medo, Jacob… de nunca mais voltar, de nunca mais ver vocês… — minha voz falhou, e senti os soluços começarem.

Mas ele me puxou para seus braços com tanta delicadeza, como se eu fosse feita de vidro.

— Shh… acabou, amor. Eu tô aqui. Você tá segura. Ele não vai mais te machucar. Ninguém vai.

Me aninhei no peito dele como tantas vezes havia feito. Mas dessa vez… era diferente. Era real. Eu estava viva. Nosso bebê estava bem. E Jacob estava ali — sendo meu porto seguro.

E depois de horas de medo e terror, mesmo cercada de dores e memórias difíceis, eu me permiti respirar fundo… o pior tinha passado.


◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇


A luz suave da manhã invadia o quarto pelas cortinas entreabertas. O cheiro do café fresco preenchia o ambiente, misturado ao perfume das flores que alguém havia deixado no criado-mudo ao meu lado. Eu estava recostada na cama, apoiada por travesseiros, tentando comer alguma coisa mesmo com o enjoo ainda me rondando.

— Você precisa se alimentar, mocinha — disse Bella, sentada em uma cadeira próxima, com aquele olhar protetor que só ela sabia ter.

Eu sorri fraco, levando mais um pedaço de pão à boca.

De repente, a porta do quarto se abriu devagar e uma voz doce e familiar me fez esquecer de tudo por um segundo.

— Mamãe?

— Sophie... — murmurei, sentindo meu peito se aquecer de imediato.

Minha menina entrou no quarto segurando um buquê de rosas cor-de-rosa com uma fita delicada e, na outra mão, um ursinho de pelúcia com um lacinho no pescoço. Seus cabelos estavam soltos, e o sorriso dela parecia iluminar todo o quarto.

— Eu comprei pra você e pro meu irmãozinho… com a minha mesada. — Ela disse com orgulho, estendendo o presente até minha cama.

As lágrimas vieram sem aviso. Daquelas que não doem — mas curam.

— Ah, meu amor… — estendi os braços e ela veio direto para o meu colo, cuidadosamente, como se soubesse que eu ainda estava frágil. — Você é a melhor parte de mim.

Beijei seu rosto, seus cabelos, seus olhos. E desejei parar o tempo ali.

Bella sorriu ao nosso lado e, com delicadeza, tirou a bandeja do meu colo.

— Eu vou deixar vocês duas curtirem esse momento. — Ela piscou pra mim e foi até o canto do quarto, organizando algumas coisas.

Sophie me abraçou apertado e eu fiquei ali, acariciando seus cabelos.

— Mamãe, você tá mesmo bem? — ela perguntou baixinho, olhando nos meus olhos.

— Agora que estou com você, estou. — respondi, sorrindo com ternura. — E sabe… esse buquê é o mais lindo que já recebi.

Ela sorriu, feliz com o elogio, e olhou para o ursinho que tinha deixado ao meu lado.

— Ele chama Tobias. Vai proteger você e o bebê até o papai voltar.

— E onde está seu pai? — perguntei, notando a ausência de Jacob.

Bella respondeu por ela:

— Jake precisou resolver algumas burocracias no hospital, coisas como pagamentos, e falar com Solomon… mas disse que volta antes do almoço.

Assenti, acariciando os cabelos da minha filha, e olhando novamente para o ursinho. Tobias. Era um bom nome.

Aquela manhã, estava cercada de amor, flores e esperança, mesmo com dores ainda vivas, meu coração estava tranquilo.