O Lado Sombrio do Amor
38 Annecy
Narrado por Renesmee
O abraço de Renée foi mais apertado do que qualquer outro que já me deu. E Phil, sempre tão tranquilo, me desejou força e fé. Eles ficaram me observando até que a porta de embarque se fechasse. Parte de mim queria voltar correndo… mas outra parte — a que conhecia a dor da perda, da mentira, da traição — sabia que eu precisava partir.
Horas depois, o avião tocava o solo francês, e a brisa de outono me envolveu como um abraço estrangeiro.
Annecy parecia um lugar saído de um livro antigo. A cidade era recortada por canais calmos, casas com floreiras nas janelas, bicicletas paradas nas esquinas e um céu tão azul que doía. Caminhei até a entrada da vila onde ficava minha nova casa — um chalé de pedras claras e janelas verdes, com uma pequena varanda cheia de vasos de lavanda.
Destranquei a porta com mãos trêmulas.
O interior era delicado, aquecido por madeiras claras, um sofá com mantas artesanais, e quadros em aquarela pendurados pelas paredes. Havia até uma lareira, e uma cozinha que parecia feita para abrigar cheiros de comida quente e risadas que eu ainda não sabia se teria.
Estava me sentindo uma estranha, uma fugitiva… e ao mesmo tempo, segura.
No fim da tarde, uma senhora baixinha com cabelos brancos e olhos vivos me chamou pelo portão. Falava francês rápido demais para minha mente cansada, mas o sorriso era universal. Entendi que ela era minha vizinha — Madame Céleste — e que já sabia que uma jovem “americana com alma triste” viria morar ali. Ri, um pouco sem jeito. Talvez eu fosse isso mesmo.
Mais tarde, já no sofá, com uma xícara de chá entre as mãos, o celular vibrou.
Era Renée.
Atendi.
— Oi, vó... — minha voz saiu baixa.
— Filha? Já chegou? Como foi a viagem? — ela perguntou com aquela ansiedade doce que só as avós têm.
— Foi tranquila. Annecy é linda... parece um cartão-postal.
— Conseguiu entrar na casa direitinho? Está tudo como te mostrei nas fotos?
— Sim, tudo. A casa é perfeita... aconchegante. Parece que... me acolheu.
— Você chorou? — ela perguntou com um tom brincalhão.
Sorri.
— Talvez um pouco. Mas estou bem. Uma senhora apareceu por aqui, Céleste. Acho que já sabe da minha vida inteira.
— Ela é uma fofa. Vai gostar dela. Nunca vi alguém cuidar tão bem de um jardim... e de estranhos.
— Obrigada, vó. Por tudo. Por me ajudar a fugir... por me proteger... mesmo quando eu não entendi.
— Você ainda vai entender, Nessie. Às vezes, a gente precisa de distância para ver com clareza.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que ela completou:
— Sua mãe... ela queria que você tivesse um recomeço. E agora você tem. Cuida de você. E do que carrega aí dentro.
Levei a mão ao ventre. Fechei os olhos.
— Eu vou cuidar. Prometo.
— Boa noite, minha menina. Ligue quando quiser.
— Boa noite, vó. Te amo.
Desliguei e por um instante, o silêncio de Annecy pareceu acolher também minhas lágrimas silenciosas.
Eu tinha uma nova vida. E precisava fazer valer a chance que o destino me dava.
Os primeiros dias foram mais dificeis do que eu esperava. Annecy tinha uma beleza calma, quase terapêutica, mas também despertava em mim saudades que eu mal conseguia nomear.
A casa começou a se tornar um lar. Aos poucos, as malas viraram gavetas organizadas, os quadros que estavam embrulhados tomaram suas paredes, e até o velho toca-discos herdado de Renée ganhou espaço na sala.
Mas eu precisava de mais do que flores em janelas e chá na varanda. Eu precisava... de propósito.
Foi durante uma caminhada pela margem do lago que a ideia nasceu. Entre as barracas do mercado local, vi um espaço pequeno com a placa “À vendre” — à venda. Uma antiga loja de chás, com vitrine de vidro e pergolado coberto de hera. Era ali. O lugar perfeito.
“Le Jardin Secret” — esse seria o nome da minha floricultura.
Com ajuda de um advogado local, resolvi a documentação em poucos dias. Logo depois, comecei a reforma: pintei as paredes de um azul suave, mandei fazer uma placa com letras douradas e convidei as flores a dançarem comigo naquele espaço.
Contratei duas jovens que logo se tornaram minhas aliadas e companheiras de risadas:
Éloïse, que amava plantas medicinais e arranjos rústicos, e Lina, uma estudante de arte que sonhava abrir uma galeria.
No fundo, nenhuma de nós estava completamente inteira. E talvez por isso, nos conectamos tão bem.
Com o tempo, a loja começou a ganhar vida. Clientes vinham atraídos pelo aroma de lavandas, peônias e eucalipto. Eu sorria mais. Dormia melhor. O bebê crescia, silencioso, dentro de mim — e mesmo sem entender tudo o que havia acontecido, eu sentia que aquela criança era minha chance de luz.
Mas eu também precisava cuidar da parte médica. Então, naquela manhã de primavera, marquei uma consulta na clínica da cidade. Um lugar claro, acolhedor, com janelas grandes e cheiro de camomila.
— Mademoiselle Swan? — a recepcionista chamou.
Levantei com uma pasta na mão e fui conduzida até uma sala ampla, onde um homem alto, de jaleco branco, sorria gentilmente ao me ver entrar.
— Bonjour, sou o Dr. Alec Vultieri, disse, estendendo a mão.
— Renesmee Swan, respondi, apertando a dele com firmeza.
— Renesmee... nome bonito. Italiano?
Sorri.
— Talvez... talvez tenha sido uma escolha poética.
Ele indicou a cadeira ao lado da mesa.
— Você está com quantas semanas, Mademoiselle?
— Dezesseis. Mais ou menos.
— Fez acompanhamento nos primeiros meses?
— Não. A verdade é que... eu descobri há pouco tempo.
Ele assentiu com um olhar compreensivo.
— Vamos cuidar de você e do bebê a partir de agora, sim? Annecy tem poucos mistérios... mas novos começos são sempre bem-vindos.
Senti algo na forma como ele falou. Era diferente. Alec parecia calmo, envolto em empatia e silêncio. Como se ele próprio soubesse o que era recomeçar.
Naquele dia, ele fez os primeiros exames. Viu o bebê na tela, com o som forte do coração preenchendo a sala. Me emocionei, e ele respeitou o momento com um toque leve no meu ombro e um sorriso discreto e saiu da sala.
— Oi princesa, eu sou a mamãe.
Sussurrei em meio às lágrimas ao ver que esperava uma menina.
A floricultura exalava o aroma doce das gardênias naquela manhã, misturado ao frescor do alecrim recém-banhado pela chuva fina da madrugada. O sol filtrava-se pelas janelas, lançando raios dourados sobre as bancadas repletas de cores.
— Entrega especial pra Mademoiselle Swan.
Alec surgiu à porta com um sorriso no rosto e uma rosa branca nas mãos.
Sorri, mas arqueei uma sobrancelha.
— Alec... se você quer me impressionar, talvez devesse evitar comprar flores da minha própria loja.
Ele riu, se aproximando.
— Você tem razão. Mas juro que pedi à Lina para esconder a nota fiscal.
Lina, que ouvia tudo do balcão, soltou uma gargalhada enquanto enrolava uma fita azul num buquê recém-pronto.
— A culpa é minha. Ele pagou direitinho. Mas só porque eu disse que a chefa não gosta de bajulação barata.
— Traidora, brinquei.
Éloïse apareceu de dentro da estufa, com as bochechas coradas e as mãos cheias de terra.
— O que está acontecendo aqui?
— Alec tentando conquistar minha aprovação com uma rosa.
— Pelo menos é romântico, comentou Lina. Pior seria se ele trouxesse uma planta carnívora.
Rimos.
Alec me entregou a rosa, agora com um toque suave na minha mão.
— Brincadeiras à parte, você está linda, Renesmee. Mesmo com o barrigão. Ou talvez... especialmente por causa dele.
Acariciei o ventre, que já parecia querer me desequilibrar nas manhãs mais apressadas. Estava com trinta e nove semanas. A qualquer momento, minha filha poderia chegar.
— Última semana, doutor. Estou contando os minutos.
— Ela está perfeita. Só esperando o momento certo, respondeu Alec, profissional como sempre, mas com o olhar gentil de um amigo que acompanhava cada batimento daquela nova vida.
— Estou de olho na chefa, disse Lina, piscando. Ela não dá um passo sozinha. Se piscar, eu já trouxe uma cadeira e um chá.
— E se tossir, eu já chamo a ambulância, completou Éloïse, rindo. Mas falando sério... não vejo a hora de ver sua filha correndo por entre as flores. Vai ser a mascote da loja.
— Não vamos cobrar aluguel dela pelos primeiros cinco anos, garantiu Lina.
Senti um calor no peito. Aquela loja, aquelas meninas, Alec... haviam preenchido um vazio que eu nem sabia nomear. Não era uma substituição para tudo o que eu havia deixado para trás. Era uma construção nova. Uma chance de paz.
— Eu não sei o que seria de mim sem vocês, sussurrei.
Alec me olhou por um momento mais longo e disse:
— E nós não sabemos o que seria desse lugar sem você.
A floricultura não era apenas um negócio. Era nosso jardim secreto, onde floresciam amizades, recomeços... e logo, uma nova vida.
O silêncio parecia mais denso, e minha mente... mais barulhenta.
Sentada na cama, com as luzes apagadas e a penumbra da noite filtrando-se pelas cortinas, abri o celular — um gesto automático, quase masoquista. Entrei no perfil de Jacob.
Mais uma foto. Um pôr do sol sobre o mar aberto. Nenhuma legenda. Nenhum rosto. Nenhuma pista.
— Ainda está no mar... — murmurei, tocando de leve a tela antes de deslizá-la para baixo. — Você devia estar aqui.
Minha mão se moveu até minha barriga, agora mais baixa, mais arredondada, como se ela também esperasse, ansiando por um rosto familiar.
— Ele está perdendo tudo isso, meu amor...
Suspirei, tentando conter a tristeza que teimava em crescer. Fechei o celular e me deitei de lado, mas um som seco do lado de fora me fez levantar imediatamente.
Abri a janela.
Nada.
A noite estava quieta, escura e fria. Apenas a brisa gelada deslizando pelos telhados. Talvez só um galho... ou minha imaginação.
Fechei a janela com cuidado e voltei para o quarto. Meus pés tocaram o tapete macio e, no instante seguinte, senti o calor escorrer pelas minhas pernas.
Meu corpo gelou.
— Não... não agora.
Olhei para baixo. Um líquido claro, quente... e então veio a cólica. Forte. Apertada.
Minha bolsa havia estourado.
Por um segundo, o pânico me atingiu. Minhas mãos tremiam enquanto eu tentava lembrar do que o médico disse, do que Alec explicou, das aulas, dos livros, de tudo.
Respira, Renesmee. Respira.
Peguei o celular e disquei com dedos trêmulos. O número do Alec. Meus lábios balbuciavam uma prece silenciosa para que ele atendesse logo.
— Alô? — a voz rouca dele surgiu do outro lado, meio sonolenta.
— Alec... É a hora. Minha bolsa estourou.
Um silêncio, depois o som das chaves, sapatos, movimento.
— Fique calma, Nessie. Estou indo agora. Vai ficar tudo bem. Respire fundo. Você consegue. Estou com você.
E, ao desligar, sentei-me na cama novamente, ofegante, segurando o ventre e sussurrando para minha filha:
— Você escolheu agora... Está pronta para o mundo, pequena. E eu... estou pronta para você.
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