Narrado por Renesmee


O reflexo no espelho mostrava uma mulher que tentava parecer segura. Vesti um vestido preto de cetim simples, de alças finas, ajustado ao corpo, elegante, mas discreto — como se isso fosse possível com todas as emoções que estavam em ebulição dentro de mim. Prendi um dos lados do cabelo com uma fivela delicada e coloquei brincos pequenos de prata. Era curioso como preparar-se para um jantar podia parecer mais difícil que um tribunal.

Ajustei os últimos detalhes da maquiagem quando senti braços firmes envolvendo minha cintura. Jacob.

— Você está linda — ele disse no meu ouvido, com aquela voz grave e carinhosa que sempre conseguia atravessar minhas defesas.

— Obrigada… — respondi, soltando o ar lentamente.

Ele apoiou o queixo no meu ombro e continuou:

— Você não é obrigada a ir, Nessie. Se não se sente pronta, a gente janta aqui mesmo. Eu faço até aquele seu macarrão preferido com manjericão, mesmo que eu sempre erre no ponto.

Sorri com ternura. Virei de leve o rosto para encontrar os olhos castanhos dele, e selei seus lábios com um beijo suave.

— Eu preciso ir. Encarar isso. É parte do que ficou mal resolvido em mim. Mas saber que você e Sophie estarão me esperando… me dá coragem.

Antes que ele respondesse, ouvimos passos apressados pelo corredor.

— Mãããe! — Sophie entrou com sua camiseta de lobo e cabelo preso num coque desajeitado. Ela segurava uma caixinha azul nas mãos. — Espera! Eu tenho uma coisa pra você.

Sorri, ajoelhando-me à sua frente.

Ela abriu a caixinha com orgulho e me mostrou uma pulseira com pequenos pingentes em forma de lobo, todos prateados, com olhinhos minúsculos de pedras verdes.

— O papai me deu, mas eu quero que você use hoje. A gente tá com você, mesmo de longe — disse, toda séria.

Meus olhos encheram de lágrimas.

— É a coisa mais linda que já ganhei… — coloquei a pulseira no pulso e a puxei para um abraço apertado. — Obrigada, meu amor.

— Vai dar tudo certo, mamãe.

Beijei sua testa, depois a de Jacob. Ele me segurou pela mão com força por um instante antes de soltar.

— Se algo te incomodar, me liga. A qualquer hora. Você sabe disso.

Assenti com um sorriso tranquilo. Peguei minha bolsa, respirei fundo e saí do apartamento. As ruas de Nova York me esperavam. E, com elas, uma parte do meu passado que eu estava finalmente pronta para enfrentar.


O carro parou em frente ao Le Coucou, um dos restaurantes mais requintados e discretos de Manhattan. Luzes douradas saíam pelas grandes janelas de vidro, revelando um interior refinado, com mesas elegantes, arranjos de flores brancas e luz de velas tremeluzindo sobre taças de cristal.

Respirei fundo antes de entrar. O aroma de especiarias suaves e vinho me envolveu. Observei as mesas ao redor. Casais, famílias, executivos. Tudo parecia em câmera lenta, como se o mundo não estivesse prestes a virar do avesso de novo.

Meus olhos os encontraram. Estavam sentados próximos à janela. Bella, com um vestido azul-marinho elegante, sorriu ao me ver. Edward, impecável como sempre, se levantou ao meu encontro. Ao lado deles… um homem.

Alto. Elegante. Olhos acinzentados que pareciam me reconhecer antes mesmo de eu chegar perto. Eu o conhecia… de anos atrás. Flashes confusos. Um corredor. Uma tentativa de conversa que nunca se concretizou.

— Boa noite — disse, tentando manter o tom educado enquanto me aproximava.

— Renesmee — Bella se levantou e me envolveu num abraço caloroso. — Que bom que veio.

— Filha — Edward disse, com um pequeno sorriso contido. — Gostaria de te apresentar seu meio-irmão. Eliot Cullen.

Eliot se levantou, estendendo a mão com um sorriso gentil.

— Eu sempre quis te conhecer. Tentei anos atrás… mas você me evitou.

Segurei a mão dele, surpresa com sua franqueza.

— É verdade. Eu... não estava pronta. Tanta coisa parecia errada naquela época. Confusa. E perigosa.

— Eu entendo — disse ele, com naturalidade. — Na verdade, passei boa parte da minha vida tentando entender esse lado da nossa família também.

Sentei-me ao lado de Bella, de frente para Eliot. Ele continuou:

— Nosso pai sempre me disse que Bella era inocente. Mesmo quando todos preferiram acreditar no contrário. E agora que sabemos que Logan Young esteve envolvido... ele precisa pagar.

Meu olhar buscou o de Edward. Ele não disse nada, mas havia dor em seus olhos. Talvez culpa. Talvez arrependimento.

— Eu estou fazendo minha parte, Renesmee. — Eliot disse, com firmeza. — Minha mãe foi usada. E a sua também. Logan destruiu vidas por ambição. E agora... é nossa vez de reagir.

Por um instante, me desarmei. Eliot falava com verdade. Eu podia sentir. Talvez o sangue Cullen não fosse todo veneno como eu imaginava.

Mas então...

A porta do restaurante se abriu, e o ar congelou ao meu redor. Meus olhos foram automaticamente para a entrada. Alec.

Ele entrou… de mãos dadas com Heidi.

Os dois estavam sorrindo, íntimos demais para serem apenas amigos. Ela usava um vestido vinho justo, cabelos soltos e ondulados sobre os ombros. Alec murmurou algo ao ouvido dela e ela riu, inclinando o rosto na direção dele.

Senti o estômago apertar.

— Renesmee? — ouvi a voz de Eliot me chamando.

Desviei os olhos, forçando um sorriso.

— Está tudo bem. Só... achei que vi alguém conhecido.

Bella seguiu meu olhar e cerrou os olhos ao ver Alec.

— Ele está com Heidi… — murmurou, tensa.

Edward apenas observava, como se já esperasse essa reação.

Eu pisquei algumas vezes, tentando manter o foco. Mas o nó na garganta se formava. E Eliot, atento, parecia começar a perceber.

— Se quiser, podemos ir a outro lugar — disse ele, gentilmente.

Balancei a cabeça, firme.

— Não. Eu não vou fugir mais de nada nem de ninguém.

Mas por dentro… meu mundo começava a tremer novamente.


A conversa seguia tranquila. Bella comentava sobre o restaurante e a escolha dos vinhos, Eliot fazia perguntas gentis sobre meu trabalho no hospital e até Edward, com sua habitual sobriedade, se permitia sorrir diante de alguma lembrança do passado.

Mas... os olhos de Alec me queimavam.

Mesmo à distância, da mesa ao fundo, eu sentia. Ele segurava a mão de Heidi sobre a mesa, fazia um esforço para parecer relaxado. Quando a beijou, rápido, nos lábios, o ar faltou no meu peito. Ainda assim, continuei sorrindo, respondendo algo que Bella me perguntou — sem saber o quê.

Mas então... ele me encarou.

Seus olhos, finalmente, encontraram os meus. E por um momento, o tempo parou. O sorriso dele desapareceu. Seu maxilar travou. A máscara caiu. Ele sabia.

Eu sabia.

Heidi se levantou sorrindo e caminhou em direção ao toalete. Aproveitei a deixa.

— Com licença... — murmurei, me levantando da mesa. Bella me lançou um olhar compreensivo. — Só um instante.

Caminhei firme, mas sentia as mãos geladas.

O banheiro feminino do Le Coucou era decorado com espelhos em molduras douradas, mármore branco e vasos com flores frescas. O som da água correndo preenchia o ambiente.

Heidi estava de frente ao espelho, retocando a maquiagem com movimentos lentos e cuidadosos. Seus olhos verdes encontraram os meus pelo reflexo. Ela congelou por um instante — e então sorriu, como se estivesse se divertindo com a coincidência.

— Que coincidência agradável — disse ela, calmamente.

— Nem tanto — respondi, cruzando os braços. — Eu só não imaginei que você conhecesse o Alec.

Heidi ergueu uma sobrancelha, fingindo surpresa.

— O mundo é pequeno, Nessie. Você sabe disso.

Me aproximei um passo. Havia algo no jeito dela que me incomodava. Talvez fosse o mesmo ar que ela tinha quando se aproximou de Jacob… antes.

— Ou talvez você só goste de se cercar dos meus ex-namorados.

Heidi riu com a ponta dos lábios, apoiando o batom de volta na bolsa.

— Vai me dizer que está com ciúmes?

— Claro que não — respondi rapidamente. Rápido demais.

Heidi se virou então, me encarando de frente.

— Olha, Renesmee, eu não te devo satisfações. E sinceramente, se tem alguém a quem você deve fazer perguntas... é ao Alec. — Sua voz baixou, ríspida. — Porque ele era seu noivo quando transou comigo.

Senti meu coração disparar no peito.

As palavras pairaram no ar como veneno. Minhas mãos se fecharam em punhos, mas mantive o rosto impassível.

— O que?

Heidi deu de ombros.

— Pergunte a ele. Eu não sou do tipo que mente para proteger homem nenhum.

Ela passou por mim com um leve toque no ombro. E, por um momento, fui tomada por uma onda de raiva, de tristeza e — o mais assustador — de dúvida.

Fiquei ali, diante do espelho. Respirando fundo. Sentindo a maquiagem pesar, os olhos arderem. Eu sabia que havia algo naquela última viagem de Alec. Mas não queria acreditar.

Até agora.

Voltei à mesa com o coração acelerado, mas o rosto calmo. Treinado. Fingi o que sempre fiz tão bem: que nada estava acontecendo.

Bella me olhou de imediato.

— Está tudo bem?

Antes que eu respondesse, Eliot franziu a testa.

— Nessie… você está pálida.

Pálida. Eu sabia. Sentia como se todo o sangue tivesse fugido do meu rosto.

— Só um mal-estar. Acho que o jantar foi pesado demais — sorri brevemente, me sentindo sufocada naquela cadeira de veludo, naquele salão de luzes amareladas e taças tilintando.

— Quer que eu te leve pra casa? — Edward se prontificou, já puxando o paletó.

Balancei a cabeça.

— Não Edward. Por favor. Aproveitem a noite. Vocês merecem. Eu vou ficar bem, prometo.

— Eu levo ela — Eliot disse, de maneira tranquila, se levantando ao meu lado. — Estou de carro. E posso garantir que ela chegue segura em casa.

Olhei para ele e sorri, grata.

— Obrigada, Eliot.

Edward hesitou, mas Bella assentiu com um olhar firme. Ela sempre soube quando me deixar ir. Mesmo sem todas as respostas.

Nos levantamos. Peguei minha bolsa e caminhei ao lado de Eliot até o estacionamento. O ar fresco da noite me trouxe um pouco de alívio. Não olhei para trás. Não queria ver Alec. Não queria confirmar com os olhos o que o coração já sabia.

Chegamos ao carro. Eliot, sempre gentil, abriu a porta para mim.

— Se quiser conversar... — começou ele, mas não terminou.

— Obrigada, Eliot. Só quero… silêncio — murmurei.

Mas então, eu ouvi.

— Renesmee, espera! — a voz veio forte, abafada pelas buzinas ao fundo. Era ele. — Por favor, me deixa te explicar!

Virei lentamente. Alec atravessava o estacionamento em passos apressados, o paletó aberto, o olhar desesperado.

Eliot olhou para ele e depois para mim.

— Quer que eu fique?

Assenti devagar.

— Só um instante.

Fechei a porta do carro com suavidade e caminhei alguns passos à frente, parando diante de Alec. Nossos olhares se encontraram sob o céu escuro de Manhattan. As luzes dos postes e o barulho dos carros não abafavam o silêncio entre nós dois.

— Heidi? — perguntei, com a voz baixa, firme.

Alec passou a mão pelos cabelos, visivelmente nervoso.

— Eu não queria que você soubesse assim.

— Então é verdade? — perguntei, quase sem reconhecer minha própria voz.

Ele hesitou. Não tentou negar.

— Foi um erro. Um único erro. Eu estava confuso, com medo de te perder. Você estava tão distante, e eu tão... sozinho. Mas isso não justifica. Eu sei. — Ele respirou fundo. — E nunca quis te machucar. Nunca.

Olhei para ele por longos segundos. E percebi, com um nó na garganta, que já não havia mais o que salvar.

— Não foi só um erro, Alec. Foi uma escolha.

E com isso, virei de volta para o carro. Eliot já tinha entendido tudo. Abriu a porta novamente para mim. Entrei sem olhar para trás.

A dor ainda queimava. Mas agora, pelo menos, ela vinha acompanhada de clareza.

E da certeza que eu havia carregado uma culpa que não precisava mais carregar.