O Lado Sombrio do Amor
12 A Escolha Errada
Narrado por Jacob Black
O sol atravessava as cortinas do quarto de Claire quando abri os olhos. Seu corpo ainda descansava sobre meu peito, a respiração calma e o rosto sereno. A lembrança da noite anterior pesava mais do que deveria.
Fechei os olhos por um instante, tentando silenciar a confusão dentro de mim.
Renesmee.
A ruiva não saía da minha mente. Mas aquele momento — o que aconteceu ontem com Claire — era real. E eu precisava respeitar isso.
Ela se mexeu, os olhos se abrindo lentamente, e sorriu como se tudo no mundo estivesse certo.
— Bom dia… — ela murmurou, esticando-se levemente.
— Bom dia — respondi, forçando um sorriso.
Claire se aproximou mais, passando os braços em volta do meu pescoço.
— Preciso te dizer uma coisa… ontem foi perfeito. E eu acho que... a gente devia marcar logo a data do casamento.
Ela me olhou nos olhos, esperando uma resposta.
Respirei fundo. Ela estava feliz. Confiante. Me amava. E mesmo que uma parte de mim gritasse outra coisa, eu não podia simplesmente destruí-la.
— Tem razão — disse, assentindo. — Podemos anunciar hoje à noite na festa.
— Sério?! — ela pulou no colchão, me enchendo de beijos. — Jake, você não sabe o quanto isso significa pra mim!
Ela me beijou com intensidade, e antes que eu pudesse pensar ou hesitar, nossos corpos se reencontraram em mais um momento íntimo.
Depois, durante o café da manhã, o clima era leve. Claire cantarolava uma música qualquer enquanto preparava torradas e café. Eu observava, calado, carregando um peso no peito.
Ela falava sobre flores, sobre o vestido, sobre a reação de sua mãe. E eu... apenas concordava.
Quando saímos juntos do apartamento dela, o sol já aquecia a cidade. Eu ainda buscava convicção nas minhas decisões, quando meu celular tocou.
Era Sarah, minha mãe.
— Mãe? — atendi, ajeitando o paletó.
— Jacob! — disse ela com alegria. — Finalmente resolveu dormir com sua noiva, não é? Claire me mandou mensagem avisando que vocês passaram a noite juntos. Fiquei tão feliz!
Fechei os olhos por um momento, tentando não demonstrar o incômodo em minha voz.
— É… sim, mãe. Está tudo bem.
— Isso é maravilhoso. Precisamos marcar o jantar de noivado. Logan vai amar saber. Seu pai vai apoiar. E… Jacob, você sabe que está fazendo o certo, não é?
— Claro, mãe — respondi automaticamente.
Mas será que eu estava mesmo?
Claire segurou minha mão, sorrindo ao meu lado, completamente alheia ao turbilhão que me consumia por dentro.
E no fundo, eu já sabia: eu estava tomando decisões baseadas no que todos esperavam de mim… menos no que meu coração gritava.
E essa escolha… ainda cobraria um preço.
O dia se arrastou em silêncio. Fiz de tudo para manter minha mente ocupada — reuniões, relatórios, conversas com a equipe — qualquer coisa que me impedisse de pensar nela. Renesmee.
Claire e eu almoçamos juntos, caminhamos pelo jardim de Sarah, e cada gesto dela só aumentava o peso em meu peito. Ela estava feliz. Serena. Planejando detalhes da festa e do anúncio do nosso casamento. E eu... apenas fingia.
No fim da tarde, deixei Claire em casa para que ela se preparasse para a festa. Dei-lhe um beijo leve na testa, desejei que ela aproveitasse cada instante e segui em direção à casa da minha mãe.
Quando estacionei, meu pai já me esperava na varanda, braços cruzados, semblante carregado.
— Precisamos conversar — disse ele, sem rodeios, antes mesmo que eu passasse pelo portão.
Assenti. O segui até o escritório, onde ele fechou a porta atrás de nós com firmeza.
— Vai mesmo casar com a filha do Logan Yong? — perguntou Billy, encarando-me nos olhos.
Cruzei os braços.
— Vou. Já tomei minha decisão.
Ele se aproximou, voz firme:
— Você fez exatamente o oposto do que eu pedi. Era pra se aproximar da menina Newton… da Cullen! Você sabe o valor dessa união, Jacob. A sua mãe pode estar cega, mas eu não estou.
Soltei o ar devagar, sentindo o sangue subir.
— E desde quando usamos mulheres como peças num tabuleiro, pai? Claire é uma boa pessoa. Ela me ama. E... eu preciso honrar isso.
Billy bateu a bengala no chão, impaciente.
— Você está cometendo um erro. Logan Yong está afundado em dívidas. Esse casamento é conveniente apenas para a sua mãe e para os Yong! Mas com a Cullen, você teria o mundo a seus pés. Pense na empresa. No futuro!
— E o meu coração, pai? Vai ser ignorado também?
Billy apertou os lábios, mas antes que pudesse dizer algo, a porta do escritório se abriu.
Era minha mãe.
— O que está acontecendo aqui?
Billy respirou fundo, disfarçando a tensão.
— Apenas discutindo negócios. — Ele olhou para mim, firme. — Nada que você precise se preocupar.
Sarah arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— Negócios agora? Vocês não cansam? — Ela se aproximou. — Deixem isso para depois. Jacob, venha comigo. Bonnie acaba de chegar.
Meu peito se apertou ao ouvir aquele nome.
Bonnie Black.
Meu tio. Meu mentor. E o homem por quem metade das feridas da minha família nunca cicatrizou. Vinte anos fora do país. E agora ele estava de volta.
Saí da sala com minha mãe, sentindo o olhar de Billy pesar sobre minhas costas. Quando chegamos à sala de estar, lá estava ele.
Alto, imponente como sempre, os cabelos negros com alguns fios prateados, o olhar penetrante e enigmático.
Bonnie se virou para mim e abriu um sorriso contido.
— Jake.
— Tio Bonnie.
Nos abraçamos brevemente, um gesto contido, como se ambos soubéssemos que aquele reencontro estava carregado demais para palavras vazias.
O silêncio entre nós dizia tudo.
E eu pressentia que sua volta não era coincidência.
Era o início de algo muito maior.
A sala de estar estava cheia, e o cheiro de madeira antiga misturado ao perfume de lavanda da minha mãe me dava a sensação de estar em um daqueles jantares que pareciam eternos na infância. Mas hoje, tudo estava diferente. Tenso. Prestes a explodir.
Bonnie estava encostado na poltrona de couro, conversando com Rachel e Rebecca. Minhas irmãs o abraçaram com emoção genuína, lembrando dos velhos tempos. Ele sorriu com elas, aquele sorriso discreto de quem já viu demais na vida.
— Quando parti, Jake era um moleque — ele disse, olhando diretamente pra mim. — E agora é um homem feito. Um líder. Aprendeu direitinho o que você e o velho Billy ensinaram, hein, Sarah?
Minha mãe sorriu com o queixo erguido, o orgulho transbordando pelos olhos.
— Ele é o nosso orgulho, Bonnie. E logo estará se casando com a filha de Logan Yong. Uma união estratégica e perfeita.
Bonnie franziu o cenho e bufou.
— Yong está falido, Sarah. A única coisa que essa união vai garantir é um buraco maior no caixa da Black Enterprises. Estratégico? Não me faça rir.
O sorriso da minha mãe desapareceu num piscar de olhos.
— Cuidado com o que você diz, Bonnie. Logan é nosso aliado e Claire é como uma filha para mim.
— E talvez seja exatamente esse o problema — retrucou ele, com a voz firme. — Estar cega por afeto em vez de enxergar os fatos.
Antes que a tensão tomasse conta de vez, levantei as mãos e soltei um suspiro.
— Tudo bem. Vamos mudar de assunto, ok?
Bonnie me encarou por alguns segundos antes de recostar de novo, silencioso. Rebecca logo puxou outra conversa com ele, e Sarah se afastou para buscar mais chá. Eu aproveitei a brecha para respirar.
Foi quando Rachel me puxou discretamente pelo braço e sussurrou:
— Vem comigo. Precisamos conversar.
Fomos para a varanda. A brisa fresca da tarde ajudava a aliviar o clima carregado, mas o olhar dela era afiado.
— Jake... você vai mesmo casar com a Claire?
Assenti, mesmo sentindo o peso disso na garganta.
— Ela me ama, Rach. E é uma mulher incrível. Está comigo, acredita em mim...
Rachel cruzou os braços, encarando o céu por um momento antes de voltar o olhar pra mim.
— E você ama ela?
Fiquei em silêncio por um segundo que pareceu longo demais.
— Eu gosto dela. Confio nela.
— Gosta? Confia? — Ela deu uma risadinha sem humor. — Parece mais que você está se convencendo disso.
— Rachel... — comecei, mas ela me cortou.
— Jake, me escuta. Você sempre foi o cara que seguia o coração, mesmo quando isso complicava tudo. E agora parece que está prestes a casar com alguém só pra não decepcionar nossa mãe.
— Isso não é verdade. Claire é... — hesitei, e ela me encarou mais firme.
— Você acha mesmo que ela te ama como diz? Porque pra mim, tem algo forçado aí. E eu sou boa em notar essas coisas.
Ela me deu um beijo no rosto e virou as costas.
— Pense bem antes de dizer "sim", mano. Tem coisas que não dá pra desfazer depois.
E ali fiquei eu, parado naquela varanda com o som do vento e os gritos abafados da minha consciência ecoando dentro de mim.
O carro preto parou em frente ao The Plaza, em Nova York. Um dos hotéis mais luxuosos da cidade — e palco da festa que, supostamente, mudaria o rumo da minha vida.
Claire ajeitou a maquiagem no espelho do carro e me lançou um sorriso radiante.
— Pronto? — ela perguntou, entrelaçando seus dedos nos meus.
Assenti, mesmo com a garganta seca. O carro foi aberto pelos seguranças e fomos recebidos por uma chuva de flashes. Repórteres, colunistas, blogueiros. Todos pareciam interessados na "queridinha da alta sociedade" e seu noivo CEO.
— Claire! Um sorriso, por favor! — gritou uma voz do meio da multidão.
Claire ergueu o queixo, treinada para esses momentos. Eu a acompanhei, colocando uma das mãos em sua cintura. Era tudo calculado, coreografado... quase mecânico.
Lá dentro, o salão estava impecável. Lustres de cristal refletiam o dourado das cortinas, os arranjos de rosas brancas se estendiam por cada mesa, e a trilha sonora clássica preenchia o ambiente como uma pintura sonora.
— Jacob, venha! — disse a mãe de Claire, puxando a filha para apresentar aos amigos influentes. — Temos pessoas importantes esperando para conhecê-la, querida!
Claire sorriu para mim, mandando um beijo no ar, e desapareceu no meio da multidão. Eu fiquei ali. Sozinho. Noivo. E vazio.
Me aproximei do bar e pedi um uísque. Sem gelo. O copo mal encostou no balcão e já estava nos meus dedos. Dei o primeiro gole. Ardido. Fiel. Silencioso.
— Senti falta dessas festas. — A voz grave e descontraída surgiu ao meu lado.
Bonnie.
Me virei e sorri.
— Achei que você estivesse achando tudo muito formal pra seu gosto.
— Tokio é organizada demais. Perfeita demais. Me faz sentir falta do caos daqui. — Ele pegou um copo e serviu algo mais leve. — Mas, preciso admitir... isso aqui tá bonito.
Dei de ombros. Ia dizer algo quando Bonnie parou de falar. Seus olhos congelaram, fixos na entrada.
— Quem é aquela jovem? — ele sussurrou.
Me virei, curioso.
E então a vi.
Renesmee.
Vestido vermelho, justo e elegante, como se tivesse sido desenhado para aquele corpo. O cabelo preso num coque frouxo, deixando algumas mechas caírem suavemente pelo rosto. Havia uma delicadeza altiva em sua postura, como se ela pertencesse a um lugar entre os mortais e os deuses. Os olhos... aqueles olhos âmbar.
Senti meu peito ser atingido por algo difícil de explicar. Não era apenas beleza. Era presença.
— A nova cara da Black's Enterprises — murmurei, sem tirar os olhos dela. — Renesmee.
— Renesmee? — Bonnie assoviou, impressionado. — Se eu tivesse vinte anos a menos... com certeza essa mulher seria minha.
Sorri, mas foi um sorriso curto. Amargo.
Porque, naquele momento, eu soube que já era tarde demais.
Renesmee não era minha. E talvez nunca fosse.
Mas já estava dentro de mim. Como um raio que acerta em silêncio, sem pedir permissão.
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