Narrado por Jacob Black


O sol atravessava as cortinas do quarto de Claire quando abri os olhos. Seu corpo ainda descansava sobre meu peito, a respiração calma e o rosto sereno. A lembrança da noite anterior pesava mais do que deveria.

Fechei os olhos por um instante, tentando silenciar a confusão dentro de mim.

Renesmee.

A ruiva não saía da minha mente. Mas aquele momento — o que aconteceu ontem com Claire — era real. E eu precisava respeitar isso.

Ela se mexeu, os olhos se abrindo lentamente, e sorriu como se tudo no mundo estivesse certo.

— Bom dia… — ela murmurou, esticando-se levemente.

— Bom dia — respondi, forçando um sorriso.

Claire se aproximou mais, passando os braços em volta do meu pescoço.

— Preciso te dizer uma coisa… ontem foi perfeito. E eu acho que... a gente devia marcar logo a data do casamento.

Ela me olhou nos olhos, esperando uma resposta.

Respirei fundo. Ela estava feliz. Confiante. Me amava. E mesmo que uma parte de mim gritasse outra coisa, eu não podia simplesmente destruí-la.

— Tem razão — disse, assentindo. — Podemos anunciar hoje à noite na festa.

— Sério?! — ela pulou no colchão, me enchendo de beijos. — Jake, você não sabe o quanto isso significa pra mim!

Ela me beijou com intensidade, e antes que eu pudesse pensar ou hesitar, nossos corpos se reencontraram em mais um momento íntimo.

Depois, durante o café da manhã, o clima era leve. Claire cantarolava uma música qualquer enquanto preparava torradas e café. Eu observava, calado, carregando um peso no peito.

Ela falava sobre flores, sobre o vestido, sobre a reação de sua mãe. E eu... apenas concordava.

Quando saímos juntos do apartamento dela, o sol já aquecia a cidade. Eu ainda buscava convicção nas minhas decisões, quando meu celular tocou.

Era Sarah, minha mãe.

— Mãe? — atendi, ajeitando o paletó.

— Jacob! — disse ela com alegria. — Finalmente resolveu dormir com sua noiva, não é? Claire me mandou mensagem avisando que vocês passaram a noite juntos. Fiquei tão feliz!

Fechei os olhos por um momento, tentando não demonstrar o incômodo em minha voz.

— É… sim, mãe. Está tudo bem.

— Isso é maravilhoso. Precisamos marcar o jantar de noivado. Logan vai amar saber. Seu pai vai apoiar. E… Jacob, você sabe que está fazendo o certo, não é?

— Claro, mãe — respondi automaticamente.

Mas será que eu estava mesmo?

Claire segurou minha mão, sorrindo ao meu lado, completamente alheia ao turbilhão que me consumia por dentro.

E no fundo, eu já sabia: eu estava tomando decisões baseadas no que todos esperavam de mim… menos no que meu coração gritava.

E essa escolha… ainda cobraria um preço.


O dia se arrastou em silêncio. Fiz de tudo para manter minha mente ocupada — reuniões, relatórios, conversas com a equipe — qualquer coisa que me impedisse de pensar nela. Renesmee.

Claire e eu almoçamos juntos, caminhamos pelo jardim de Sarah, e cada gesto dela só aumentava o peso em meu peito. Ela estava feliz. Serena. Planejando detalhes da festa e do anúncio do nosso casamento. E eu... apenas fingia.

No fim da tarde, deixei Claire em casa para que ela se preparasse para a festa. Dei-lhe um beijo leve na testa, desejei que ela aproveitasse cada instante e segui em direção à casa da minha mãe.

Quando estacionei, meu pai já me esperava na varanda, braços cruzados, semblante carregado.

— Precisamos conversar — disse ele, sem rodeios, antes mesmo que eu passasse pelo portão.

Assenti. O segui até o escritório, onde ele fechou a porta atrás de nós com firmeza.

— Vai mesmo casar com a filha do Logan Yong? — perguntou Billy, encarando-me nos olhos.

Cruzei os braços.

— Vou. Já tomei minha decisão.

Ele se aproximou, voz firme:

— Você fez exatamente o oposto do que eu pedi. Era pra se aproximar da menina Newton… da Cullen! Você sabe o valor dessa união, Jacob. A sua mãe pode estar cega, mas eu não estou.

Soltei o ar devagar, sentindo o sangue subir.

— E desde quando usamos mulheres como peças num tabuleiro, pai? Claire é uma boa pessoa. Ela me ama. E... eu preciso honrar isso.

Billy bateu a bengala no chão, impaciente.

— Você está cometendo um erro. Logan Yong está afundado em dívidas. Esse casamento é conveniente apenas para a sua mãe e para os Yong! Mas com a Cullen, você teria o mundo a seus pés. Pense na empresa. No futuro!

— E o meu coração, pai? Vai ser ignorado também?

Billy apertou os lábios, mas antes que pudesse dizer algo, a porta do escritório se abriu.

Era minha mãe.

— O que está acontecendo aqui?

Billy respirou fundo, disfarçando a tensão.

— Apenas discutindo negócios. — Ele olhou para mim, firme. — Nada que você precise se preocupar.

Sarah arqueou a sobrancelha, desconfiada.

— Negócios agora? Vocês não cansam? — Ela se aproximou. — Deixem isso para depois. Jacob, venha comigo. Bonnie acaba de chegar.

Meu peito se apertou ao ouvir aquele nome.

Bonnie Black.

Meu tio. Meu mentor. E o homem por quem metade das feridas da minha família nunca cicatrizou. Vinte anos fora do país. E agora ele estava de volta.

Saí da sala com minha mãe, sentindo o olhar de Billy pesar sobre minhas costas. Quando chegamos à sala de estar, lá estava ele.

Alto, imponente como sempre, os cabelos negros com alguns fios prateados, o olhar penetrante e enigmático.

Bonnie se virou para mim e abriu um sorriso contido.

— Jake.

— Tio Bonnie.

Nos abraçamos brevemente, um gesto contido, como se ambos soubéssemos que aquele reencontro estava carregado demais para palavras vazias.

O silêncio entre nós dizia tudo.

E eu pressentia que sua volta não era coincidência.

Era o início de algo muito maior.


A sala de estar estava cheia, e o cheiro de madeira antiga misturado ao perfume de lavanda da minha mãe me dava a sensação de estar em um daqueles jantares que pareciam eternos na infância. Mas hoje, tudo estava diferente. Tenso. Prestes a explodir.

Bonnie estava encostado na poltrona de couro, conversando com Rachel e Rebecca. Minhas irmãs o abraçaram com emoção genuína, lembrando dos velhos tempos. Ele sorriu com elas, aquele sorriso discreto de quem já viu demais na vida.

— Quando parti, Jake era um moleque — ele disse, olhando diretamente pra mim. — E agora é um homem feito. Um líder. Aprendeu direitinho o que você e o velho Billy ensinaram, hein, Sarah?

Minha mãe sorriu com o queixo erguido, o orgulho transbordando pelos olhos.

— Ele é o nosso orgulho, Bonnie. E logo estará se casando com a filha de Logan Yong. Uma união estratégica e perfeita.

Bonnie franziu o cenho e bufou.

— Yong está falido, Sarah. A única coisa que essa união vai garantir é um buraco maior no caixa da Black Enterprises. Estratégico? Não me faça rir.

O sorriso da minha mãe desapareceu num piscar de olhos.

— Cuidado com o que você diz, Bonnie. Logan é nosso aliado e Claire é como uma filha para mim.

— E talvez seja exatamente esse o problema — retrucou ele, com a voz firme. — Estar cega por afeto em vez de enxergar os fatos.

Antes que a tensão tomasse conta de vez, levantei as mãos e soltei um suspiro.

— Tudo bem. Vamos mudar de assunto, ok?

Bonnie me encarou por alguns segundos antes de recostar de novo, silencioso. Rebecca logo puxou outra conversa com ele, e Sarah se afastou para buscar mais chá. Eu aproveitei a brecha para respirar.

Foi quando Rachel me puxou discretamente pelo braço e sussurrou:

— Vem comigo. Precisamos conversar.

Fomos para a varanda. A brisa fresca da tarde ajudava a aliviar o clima carregado, mas o olhar dela era afiado.

— Jake... você vai mesmo casar com a Claire?

Assenti, mesmo sentindo o peso disso na garganta.

— Ela me ama, Rach. E é uma mulher incrível. Está comigo, acredita em mim...

Rachel cruzou os braços, encarando o céu por um momento antes de voltar o olhar pra mim.

— E você ama ela?

Fiquei em silêncio por um segundo que pareceu longo demais.

— Eu gosto dela. Confio nela.

— Gosta? Confia? — Ela deu uma risadinha sem humor. — Parece mais que você está se convencendo disso.

— Rachel... — comecei, mas ela me cortou.

— Jake, me escuta. Você sempre foi o cara que seguia o coração, mesmo quando isso complicava tudo. E agora parece que está prestes a casar com alguém só pra não decepcionar nossa mãe.

— Isso não é verdade. Claire é... — hesitei, e ela me encarou mais firme.

— Você acha mesmo que ela te ama como diz? Porque pra mim, tem algo forçado aí. E eu sou boa em notar essas coisas.

Ela me deu um beijo no rosto e virou as costas.

— Pense bem antes de dizer "sim", mano. Tem coisas que não dá pra desfazer depois.

E ali fiquei eu, parado naquela varanda com o som do vento e os gritos abafados da minha consciência ecoando dentro de mim.


O carro preto parou em frente ao The Plaza, em Nova York. Um dos hotéis mais luxuosos da cidade — e palco da festa que, supostamente, mudaria o rumo da minha vida.

Claire ajeitou a maquiagem no espelho do carro e me lançou um sorriso radiante.

— Pronto? — ela perguntou, entrelaçando seus dedos nos meus.

Assenti, mesmo com a garganta seca. O carro foi aberto pelos seguranças e fomos recebidos por uma chuva de flashes. Repórteres, colunistas, blogueiros. Todos pareciam interessados na "queridinha da alta sociedade" e seu noivo CEO.

— Claire! Um sorriso, por favor! — gritou uma voz do meio da multidão.

Claire ergueu o queixo, treinada para esses momentos. Eu a acompanhei, colocando uma das mãos em sua cintura. Era tudo calculado, coreografado... quase mecânico.

Lá dentro, o salão estava impecável. Lustres de cristal refletiam o dourado das cortinas, os arranjos de rosas brancas se estendiam por cada mesa, e a trilha sonora clássica preenchia o ambiente como uma pintura sonora.

— Jacob, venha! — disse a mãe de Claire, puxando a filha para apresentar aos amigos influentes. — Temos pessoas importantes esperando para conhecê-la, querida!

Claire sorriu para mim, mandando um beijo no ar, e desapareceu no meio da multidão. Eu fiquei ali. Sozinho. Noivo. E vazio.

Me aproximei do bar e pedi um uísque. Sem gelo. O copo mal encostou no balcão e já estava nos meus dedos. Dei o primeiro gole. Ardido. Fiel. Silencioso.

— Senti falta dessas festas. — A voz grave e descontraída surgiu ao meu lado.

Bonnie.

Me virei e sorri.

— Achei que você estivesse achando tudo muito formal pra seu gosto.

— Tokio é organizada demais. Perfeita demais. Me faz sentir falta do caos daqui. — Ele pegou um copo e serviu algo mais leve. — Mas, preciso admitir... isso aqui tá bonito.

Dei de ombros. Ia dizer algo quando Bonnie parou de falar. Seus olhos congelaram, fixos na entrada.

— Quem é aquela jovem? — ele sussurrou.

Me virei, curioso.

E então a vi.

Renesmee.

Vestido vermelho, justo e elegante, como se tivesse sido desenhado para aquele corpo. O cabelo preso num coque frouxo, deixando algumas mechas caírem suavemente pelo rosto. Havia uma delicadeza altiva em sua postura, como se ela pertencesse a um lugar entre os mortais e os deuses. Os olhos... aqueles olhos âmbar.

Senti meu peito ser atingido por algo difícil de explicar. Não era apenas beleza. Era presença.

— A nova cara da Black's Enterprises — murmurei, sem tirar os olhos dela. — Renesmee.

— Renesmee? — Bonnie assoviou, impressionado. — Se eu tivesse vinte anos a menos... com certeza essa mulher seria minha.

Sorri, mas foi um sorriso curto. Amargo.

Porque, naquele momento, eu soube que já era tarde demais.

Renesmee não era minha. E talvez nunca fosse.

Mas já estava dentro de mim. Como um raio que acerta em silêncio, sem pedir permissão.