O Lado Obscuro do Heroi
5 Reflexão
Na viagem de volta pensava em sua família e reforçava em sua mente “o porquê e para que ainda fazia tudo isso”, queria convencer-se de que o que fazia não era errado, mas sim necessário.
Cada morte, cada vida retirada por suas mãos, o fazia crer cada vez mais que todos tinham o mesmo destino, de que só havia uma coisa certa na vida:
“Um dia todos seriam assassinados.”
O autor do crime... A Morte é claro!
Ele encarava que suas mãos não passavam de ferramentas bem aproveitadas... Já que todos irão morrer um dia, porque não ganhar a vida com algo que já é certo a todos?
Afinal a Morte era criativa, seus instrumentos... Inúmeros: uma queda, uma comida, uma doença, uma pessoa. A questão não era como, mas quem seria a próxima vítima do exterminador mais perfeito, cruel e frio de todos. O único assassino em série que não seguia um padrão: criança, velho, rico, plebeu, homem, mulher, animais, plantas... Não importava quem ou o que fossem. Ela não desejava ouro, terras, súditos ou qualquer outra coisa detida ou tocada por mãos de mortais, tão somente a vida de cada um, acompanhado do desejo de ouvir o último suspiro e ver o corpo desanimar, tornando ainda mais incalculável o valor de uma alma.
A Morte equilibrava o mundo e mesmo que a odiassem e desejassem que Ela fosse encarcerada para sempre, nunca a pegariam. Além de executora, era advogada de si mesma. Afinal, sempre teriam pessoas e coisas que pagariam em seu lugar o que lhe dava álibis para sua defesa no plano espiritual. A culpa sempre seria do coração frágil, do animal indomável, da corda que quebrou ou do louco que matava sem pudor, mas nunca culpariam a Morte.
E no final todos diriam... Trágico...
Infelizmente era inevitável. Poderiam clamar, no entanto Ela iria chegar e o Mercenário das Estradas seria somente mais um de seus vários instrumentos ou outro de seus álibis, e isto o fazia sentir-se um deus, afinal tinha ao seu alcance o “Toque da Morte”, mesmo que por um instante ele recebia os poderes e o aval de sua Senhora para fazer aquilo que caberia somente a Ela.
Todos estes sentimentos vinham acompanhados do gosto em saber que, antes de serem abatidas, suas vítimas o temiam, o respeitavam e ele podia dar a elas o que procuravam...
Misericórdia,
Mas para ele, nenhuma delas merecia. Foi por conta de nobres excêntricos que passou fome, dormiu desconfortável, por isso gostava de matar estes porcos, vê-los clamar e depois sangrar.
Certamente, gostava de ter suas vítimas cara a cara prontas para serem abatidas, era um sentimento terrível... E ele sabia... Entretanto relutava em gostar disto, contudo sempre que recebia suas encomendas sentia-se feliz, entendia que a morte de um traria uma nova vida para sua família, compraria brinquedos à suas crianças e daria o conforto que sua mulher merecia. Além disso, o Mercenário das Estradas lutava contra seu maior inimigo: a Mortalidade. Sabia que poderia cair em um de seus combates, mas sentia-se vitorioso não somente por matar, mas também por sair vivo, assim vencendo a Morte ou quem sabe por ser um servo fiel e prestativo fora poupado, quem sabe até mesmo protegido.
Morrer?
Ele já sabia que um dia isto iria acontecer, por isto não seria idiota como os levyn que preocupavam-se com a imortalidade da carne que era passageira, aprendeu isto com os kawalu de patas douradas, e o próprio Bordo fora seu mentor nos costumes da vida.
A Morte um dia reclamaria a sua alma, mesmo sendo um servo leal e prestativo, um dia o assassino seria assassinado.
Por mais este motivo é que ele estava nesta vida, desejava marcar seu nome na história, ser lembrado como o Ceifador de Vidas, O Lobo Mezek, O Mercenário das Estradas, o Arauto da Morte. Não importava como o chamariam desde que ele fosse lembrado, assim se tornaria imortal. Pois sabia que viveria alguns anos e depois seria esquecido, entretanto, se continuasse a trabalhar com tamanho afinco...
Seria lendário!
Talvez os grandes heróis o temessem, quem sabe os músicos cantassem suas histórias ou os grandes atores encenariam suas sagas, mesmo que todas elas remetessem ao horror que ele trazia, mas estava cansado do “talvez”, queria e precisava ter certeza e por isto trabalhava tanto. Assim não matava qualquer um desejava a vida dos nobres, dos poderosos, dos reis e soberanos da terra, daqueles que eram considerados intocados, para que assim, por intermédio de suas ações provasse que não passavam de homens.
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