O Lado Obscuro do Heroi
6 A Morte de um Pai
Tochas cintilavam e tremulavam nas ruas da cidade, onde deveria deixar a prova de seu trabalho. Umas poucas lanternas brilhavam na praça, onde os guardas faziam a ronda e alguns cadáveres enforcados denunciava que o carrasco havia feito bem seu trabalho, o reino de Kedari e Sekah não era muito tolerante e principalmente nada justo em seus julgamentos. Enquanto observava os cadáveres, Aknawe pensou no que poderiam fazer a ele e ao mandante do assassinato, caso descobrissem que o próprio filho havia mandado executar um de seus mais ilustres representantes.
Depois disso caminhou pelas ruas na madrugada até chegar a um casarão, as bandeiras baixadas indicavam que a família estava de luto, o que denunciava que seu trabalho já havia sido reconhecido. Ele sempre se preocupava de que a notícia chegasse antes dele, bem como observar aquela casa carregada de tristeza o fazia sentir-se melhor ainda, cada luto presenciado era a finalização de sua obra e ficava registrada no diário de sua mente, por isso, pagou a um homem de confiança para espalhar a notícia de que O Nobre de Kedari e Sekah, Raimu Luruxih VI, havia deixado este mundo, e as provas deixadas para trás eram inquestionáveis.
Já de fora avistava todo o jardim que cercava a casa de passeio, onde deveria fazer sua entrega, por isso, seguiu por trás e bateu na grade, um homem de aparência mal encarada o atendeu.
— O que você quer? — perguntou como se esperasse uma resposta codificada.
— Sou o “Lobo Mezek”. Trouxe uma encomenda à “Realeza”.
A porta fora aberta sem mais perguntas e o mercenário entrou. A vista por dentro do jardim deixava a propriedade maior, bem como suas combinações de cores e cortes, entretanto não teve a atenção tomada pela exuberância do local, de onde estava, teve uma vista melhor para dentro da casa, algumas velas estavam acesas e pessoas chorosas ainda lamentavam-se pela notícia, contudo sua atenção fora roubada por um único ponto iluminado por tochas, onde havia uma mesa redonda contornada por banquinhos de madeira à beira de um laguinho.
Sentado em um dos bancos havia um jovem branco de pele rosada um pouco acima do peso, tinha os cabelos negros e curtos, mais parecia uma réplica jovial da cabeça que Aknawe carregava, vestia também um roupão de seda azul e calçava sandálias escuras. Estava acompanhado por dois brutamontes, o rapaz fez um sinal para que o Lobo Mezek se aproximasse.
Sem demonstrar receios, porém sempre atento, achegou-se, retirou da mochila o anel e a cabeça do velho e os jogou em cima da mesa. O mercenário viu o sorriso de um palhaço sádico aflorar na face do moço, que pegou sem pudor o anel e colocou-o no dedo, observava à jóia como uma mulher gananciosa que acabara de ser pedida em casamento, ignorando a cabeça sobre a mesa. O Lobo Mezek já estava acostumado, não esperava menos. O que para muitos seria sadismo, para o Mercenário não passava de contentamento.
— Vejo que não preciso lhe dar mais prova alguma... Visto que o senhor está de luto... — o assassino comentou com descaso. — Não aconselho que fique com esta cabeça nem com o anel, o senhor precisa de discrição absoluta, livre-se deles o mais rápido possível! — era incrível como ele podia adaptar seus modos, cada um recebia o tratamento que merecia.
— Aknawe, meu caro, por favor, não estrague o momento... — falou levando a mão direita para que o assassino ficasse calado. — Esperei toda a minha vida para tê-lo em meu dedo e ver este velho abaixo de mim — a raiva e o desprezo pelo falecido eram típicos daqueles que encomendavam os trabalhos do Lobo Mezek.
— Sempre que realizo meus trabalhos, gosto de entender o porquê dos pedidos de meus clientes, tento ao máximo atendê-los com presteza e retidão. Se puder me responder, me diga, porque pediu a cabeça de seu pai?
— Meu pai dizia que ele era a cabeça da família, e eu quero tudo o que era dele — ele pegou a cabeça e olhava para ela enquanto conversava com Aknawe. — Seu trabalho foi como prometido, você faz jus a sua fama... Meu pai achava-se um deus.
— Eu matei um deus — Mercenário das Estradas pensou orgulhoso, afirmando para si mesmo que não havia trabalhos impossíveis.
— Entretanto... — o rapaz deu uma pausa fria, todavia aparentava refletir sobre coisas boas que viriam. — Mesmo em todo o seu poder, fama e glória... — o rapaz falava devagar como quem recitava um poema sádico — Não pôde evitar a morte.
— Ninguém pode... — o pensamento ocorreu-lhe como se houvesse sido soprado pelo Nada. — Se o velho era alguém nobre, ele tinha uma convivência social muito forte na região dele. O moleque assumiria em público o crime? Ou mentiria? Se ele assumisse, como reagiria a alta nobreza da região? Irão puni-lo ou ignorá-lo? — perguntas estas martelavam em sua cabeça, não por medo, mas por curiosidade. — Meu trabalho está feito, agora quero meu dinheiro.
— Mais respeito pelo meu finado pai! — deu uma repreensão carregada de sarcasmo. — Agora que a fortuna dele é minha... — o moço sorriu e jogou um saco de moedas na mesa. — Como dizemos por aqui: “As flores perfumam até mesmo os pés de quem as esmagam!” — Ah! Não há perfume melhor do que o cheiro do ouro que ele deixou para mim, após o seu... “Acidente”. Agora pegue seu dinheiro e suma daqui.
O assassino olhou para o que restou do corpo como quem aparentava pena, mas não podia se deixar levar por sentimentos como estes, por isso voltou sua mente para o trabalho e a família que esperava o dinheiro, foi quando pegou o saco de ouro e sem nada dizer, se retirou de lá seguiu para a paz e felicidade de sua casa.
Aquela era a tranquilidade que Aknawe buscava.
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