O Lado Obscuro do Heroi
7 Garoto Inocente
Lembranças me vêm da pequena criança que era protegida pela mãe e espancada pelo pai. Ainda bebê chorava com fome no colo materno enquanto o pai gastava-se em farras e bebedeiras.
No aniversário estava acompanhado por seus poucos amiguinhos naquela mesa farta. Entretanto, nada desejou naquele dia tão somente agradecia, pois aquele seria um dia em que não apanharia. Durante a festa e com os olhos lacrimosos pedia às visitas para que ficassem um pouco mais, que sem saberem da dura realidade o abraçavam e o beijavam dizendo:
“Que gracinha!”
A mãe, religiosa, pedia aos deuses para que mudassem o comportamento dissimulado e violento do marido, que antes do casamento era afamado por ser um levyn imortal, senhor de terras, barcos e homens, a personificação da bondade, cavalheirismo e amor, mas agora não passava do assombro de cada noite, o espanto e o terror. Entretanto, agora não podia mais abandoná-lo, afinal os votos selados entre as famílias foram firmados com água pura e abençoado pelos homens de fé.
Pobre menino de mente fértil, que depois de ver a mãe apanhar por várias vezes, tornava-se ciente e quem o esclarecia dos fatos era a Maldade que pouco a pouco adentrava em sua mente.
***
Os anos se passaram e o garoto já entendia um pouco mais as coisas. Aquele dia estava quente e mesmo assim a mãe usava um vestido longo que iam até os pulsos, todos sabiam que ela escondia as marcas das agressões que ficavam facilmente registradas na pele branca. A pobre era de casta inferior e agora estava na cozinha com outras mulheres, preparando a ceia para o dia das Carnes Vermelhas, onde os imortais do porto de Karatas faziam um banquete para todos da vila. Mesmo que odiasse o marido corria para lá e para cá ajudando, provando, lavando panelas para aquelas de casta superior. Além do que, deveria cozinhar o dobro para provar o seu valor. O garoto ainda inocente apareceu ali na cozinha com um olhar triste e lacrimoso, o pai devia ter ralhado com ele novamente. A mãe atarefada lavou as mãos, enxugou-as no avental e foi afagar os cabelos da criança.
— Oh! Meu filho, esta não é a carinha do meu homenzinho! Vamos melhorar este rosto?! — ela sempre dizia com um sorriso que poderia mudar o dia de qualquer um. — Ajuda aqui a mamãe.
O sorriso e o afago foram suficientes para que o garoto se esquecesse do beliscão que levara por ter falado uma palavra errada. Começou a brincar ali perto, mas foi saindo de vagar, havia muita gente na cozinha e ele ainda não gostava de multidões. Uma empregada que trazia um cesto de comida percebeu a forma perdida como a criança brincava do lado de fora e perguntou carismática ainda segurando o cesto:
— Jovem senhor, o que faz aí sozinho?
— Só pensando — falou ainda brincando com os soldadinhos de madeira.
Ela achou engraçado, por isso insistiu:
— É mesmo...? E no que o meu pequeno senhor está pensando?
— Por que o papai bateu na mamãe de novo? — respondeu ainda brincando. — Sempre que a mamãe me chama de homenzinho é por que ela apanhou.
Desconcertada, a empregada ajoelhou-se até ficar da altura dele:
— Ora, jovem senhor, às vezes os casais brigam...
— Oryza, me explica uma coisa. — falou ainda brincando, não por estar ligando para seu divertimento, mas ele evitava olhar as pessoas nos olhos, pois seu pai tinha o olhar frio e duro, assim temia encontrar o mesmo em outras pessoas. — Ontem à noite, o pai reclamou que era ruim ficar em cima da mamãe, ele falou que ela não fazia o pau dele ficar duro... Não entendi... O pau não é duro?
Era impossível ficar mais desconcertada do que Oryza já estava.
— Ora... Jovem senhor... Não... Não fique pensando nisso... — ela conversava vendo sua senhora indo para lá e para cá, pensava até mesmo em todos os pretendentes que ela poderia ter e da vida melhor que conquistaria se não estivesse presa ao monstro que era o esposo.
— Ele ainda chamou a mamãe de feia... Não é verdade! — o garoto ficou nervoso. — A mamãe é a mãe mais linda de todas as mães. Mas o pai judia demais dela — ele falava como quem pensava em algo muito distante.
— Sua mãe é uma das mulheres mais belas que conheço, — levantou o rostinho do garoto para fazer contato visual, mesmo assim, ele a evitava olhando para os lados — tem o espírito forte e lindo que chega a mostrar na carne de tanto encanto. Veja como ela é esforçada!
O garoto observava a mãe instruindo, provando e concertando o trabalho das colegas.
Oryza brincou com o garoto por um tempo até ser chamada para dentro e voltar a ajudar.
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