O Lado Obscuro do Heroi
8 O Monstro
O tempo passou e como se tudo não bastasse o mundo precisava ser mais sádico com o garoto inocente. O garoto pelejava em sair do pesadelo onde via uma mulher sendo enforcada por um monstro.
Mas um trovão o faz despertar na madrugada e o tempo maldizia aquele momento. A chuva parecia desgraçar a paisagem, o mar estava bravio fazendo com que de longe se pudesse ouvir os gemidos e gritos cruéis das ondas que quebravam contra as rochas, os relâmpagos iluminavam o ambiente dando vida às árvores, fazendo com que elas parecessem seres bizarros com longos braços e dedos envelhecidos enquanto os animais uivavam agourando o tempo que reforçavam o poder da enxurrada que parecia que derrubaria a casa a qualquer momento.
Ele olhou para o vidro da janela e as gotas que escorriam lhe davam a impressão de que brincavam na escuridão, rabiscavam-na como lágrimas tristes de algo que estava prestes a acontecer dando maior força ao vento que assobiava como um profeta da Morte que passeava de porta em porta esperando a quem o atendesse.
Um pressentimento?
Talvez...
Ele ainda não sabia, porém tinha certeza de que algo terrível estava prestes a acontecer.
O garoto teve sede e foi beber água, mas a voz da mãe chamou-lhe a atenção. A porta do quarto estava entreaberta. Tomou coragem e levou os olhinhos lá para dentro e viu os pais nus deitados na cama. Cena comum e rotineira, bem mais agradável do que ver e ouvir os socos abafados desferidos contra ela, mas durante o ato houve mais um comentário infeliz.
— Você está ficando velha e feia rápida demais... Mas ainda dá pro gasto. — naquela noite o pai havia enchido a cara, eram nestes dias que ficava mais violento, e sempre reclamava sem pudor, mas nunca havia dito algo daquele nível, a vergonha fora tanta que ela o empurrou e cobriu-se. — Tá ficando doida, mulher?! — entretanto aquela noite parecia diferente, e ela disse algo baixinho como se falasse para si:
— Envelheço mais rápido...
— Você disse alguma coisa? — ele havia entendido e ouvido cada palavra, contudo queria intimidá-la, como sempre, e novamente houve silêncio, ela não respondeu, não queria ou não conseguia. — Ao invés de murmurar besteiras abra as pernas, quero você agora, tenho que aproveitar enquanto seus peitos estão de pé.
Desconcertado com o que ouviu e viu, o garoto deu o primeiro passo para se retirar, mas ouviu a mãe gritar.
— Não! Saia! — aquilo já era de mais, reclamava enquanto relutava com o homem que queria ter seus desejos satisfeitos, não importava como, porém ela não era um pedaço de carne, nem mesmo um buraco para se entrar e sair. — Envelheço mais rápido sim! Eu e todos deste mundo infeliz sabemos disto! — ela gritou como sempre quis berrar. — Nunca foi segredo a ninguém! Quando se casou comigo já sabia!
— Cala a boca, sua vadia! — ele serviu-lhe um tapa que a fez cair da cama, porém não a impediu de continuar, ela sequer sentiu o rosto quente e latejante, talvez já estivesse acostumada ou até mesmo preparada.
— Ficarei velha sim! Decrépita! E com os peitos caídos um dia! O tempo pedira de volta cada gota de beleza que ele me conferiu! — gritava ainda sentada. — A velhice me tocará! Rápida e sem piedade. Já que não tenho beleza ou vida eterna, mas fico imensamente feliz em saber que não possuo uma migalha de sua natureza correndo em minhas veias... — ela fez uma pausa mortal, que ao primeiro instante pareceu provocativa — E que o deixarei em breve! Pois os seus tratamentos aceleram minha velhice e apressam a Morte que me ronda!
— Cala a boca, vagabunda! — outro tapa fora dado, mas não por raiva ou desrespeito, contudo por ter tido uma verdade dura jogada contra ele.
— Me apaixonei por um homem tão lindo... Você era carinhoso, dedicado, esforçado! — ela falava como quem se lembrava de tempos dourados, porém distantes. — Você pode ser belo por fora, mas sua alma é podre e velha e um dia isso transparecerá em sua carne! — não havia lágrimas somente gritos, fúria, um rosto latejante e a boca sangrando.
Em sua mente o garoto torcia pela mãe:
— Vai! É isso mesmo! Fala mais, fala tudo!
Em um ímpeto furioso o pai saltou e agarrou a esposa pelo pescoço, começou a estuprá-la enquanto a enforcava, o velho nunca pareceu tão cruel, tão grande, agia com uma ferocidade animalesca.
— É para isso que você e todos da sua raça servem e mais nada! Nunca se esqueça disso!
Por alguns segundos o garotinho apenas ficou lá, em silêncio observou a batalha desigual de sua mãe que lutava cada vez menos. Ele queria que ela batalhasse, torcia tanto para isso, até mesmo queria ajudá-la, mas suas pernas não respondiam, a voz não saía, era como se as trevas estivessem vivas e tomassem a forma de garras que impediam suas ações.
Quando finalmente pôde fazer algo, o garoto tapou a boca evitando um grito e, no momento em que as lágrimas queimavam seus olhos, começou a soluçar baixinho observando paralisado pelo medo a peleja desleal de sua mãe que não conseguia lutar pela vida. Em meio ao combate o pequeno teve a atenção tomada pelo estrondo da porta da sala que fora arrombada pela tempestade e invadida com o som da chuva, a força do vento que agora assobiava lá dentro indicava que a Morte não havia encontrado quem a solicitasse, por isso, resolveu entrar sem um convite. A ventania passou forte e rápido por toda a casa logo invadindo o quarto, como quem sabia para onde deveria caminhar.
E da forma mais perfeita e cruel, fez-se o maligno.
Sua mãe havia abandonado este mundo, deixando somente o som do vento que ainda castigava dentro da casa e a porta que abria e fechava.
Quando tudo terminou, ela estava jogada e o monstro ainda a agarrava firmemente pelo pescoço, como quem queria ter certeza. Ele sabia que o desgraçado roubara a vitalidade dela, sabia que tinha coragem de agredi-la no físico e no espírito, entretanto jamais imaginou que teria a audácia de lhe tirar a única coisa que caberia somente aos deuses...
A vida.
Ele correu para seu quarto chorando baixinho, pegou o cobertor, foi para um dos cantos da parede e cobriu-se com a cabeça abaixada enquanto abraçava os joelhos, sentia como se a manta pudesse protegê-lo, enquanto remoia em sua mente o “por quê?” de tudo aquilo.
Nesta noite não dormiu, chorou por horas em silêncio, foi quando a visão da mãe afagando sua cabeça no dia das Carnes Vermelhas veio-lhe à mente, sequer percebeu que ele mesmo afagava-se. Essa foi uma das lembranças que o manteve de pé, era assim que ele queria lembrar-se dela.
Mas estava morta!
E quando lhe veio à mente a cena que presenciara, explodiu em fúria muda e as lágrimas tornaram a correr, entretanto, estavam quentes, carregadas de raiva e mágoa e agora deixava de ser uma criança comum que falava pouco, todavia alegre, para iniciar seu próprio destino, precisava aprender a ter controle de suas emoções, assim começou a enxergar como o mundo era mau e precisava se adaptar, tornar-se mutável como o pai sempre dizia a todos.
A casa agora jazia em um túmulo sem cor, carinho e amor e, naquela noite, a Maldade invadiu sua mente e ele não mais era um garoto inocente.
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