No velório, o garoto chorava e, mesmo com a voz falha, conversava com o corpo da mãe morta ali na sala, que parecia dormir confortável e ter sonhos bons, no entanto, ele sabia que ela não se levantaria, mas consolava-se em saber que a maldição da Morte finalmente deu a ela o descanso e a felicidade pela qual tanto sonhara, todavia o deixava só com um monstro que o espancava. Ele ainda não entendia, buscava a resposta no íntimo, não compreendia como o pai havia superado com tanta facilidade a morte dela, principalmente não entendia como alguém poderia assassinar quem deveria amar.

Enquanto isto, o pai berrava sua dor, sua falsa dor, afinal havia ficado impune, usara de seu nome para livrar-se do crime e, para maquiar e florir o funeral tentava aproximar-se do menino, que se afastava como um cachorrinho espancado. O viúvo perguntava chorando em alta voz “Porquê de tal desgraça, meu Deus?!”, enquanto desdobrava-se sobre o corpo da ex-mulher. Da mesma forma como fez no velório da última esposa que o deixou de forma trágica ao cair do cavalo em um passeio onde estavam somente os dois.

Então vieram os discursos que o fizeram lembrar-se da hipocrisia do pai, que uma vez por semana visitava o templo para entregar ofertas à vista de todos e “orar ao Senhor”. Agradecia em alta voz pela família abençoada que tinha. E pedia aos deuses do céu discernimento, sabedoria e fé para conduzi-los em um caminho justo e digno dos antigos sábios imortais.

— ... Kalia, minha amada e querida esposa, sempre fora uma boa mãe, uma boa mulher, — ele mesmo tão clerical, tão cheio de pesar que até parecia verdadeiros os seus sentimentos — me pergunto por que os deuses resolveram retirá-la da terra assim tão cedo... O que me felicita é saber que agora ela descansa em paz ao lado dos nossos irmãos; mesmo sendo mortal, minha esposa honrou até o último dia o sangue do nosso povo...

Seguindo as lentas horas do velório, as pessoas, os amigos e os curiosos passavam e prestavam pêsames. Agradeciam pelos cuidados e amor que ela dedicara àqueles que ainda estavam aqui. O corpo foi levado por toda a cidade até chegar ao local de seu sepulcro e lá, em meio a rochedos esculpidos, o garoto teve a real noção da multidão que acompanhava sua mãe, o fazendo perceber que aquela não era somente uma despedida, mas uma celebração pela grande mulher que ela fora.

Levaram o corpo até a cova enrolado em tecidos dignos para aquele momento, antes de descê-la, o viúvo fez um corte na mão e deixou que gotas de sangue caíssem sobre o corpo enrolado, colocaram uma máscara no corpo de Kalia para que quando seu espírito chegasse ao templo dos deuses, Eles a confundissem com uma levyn e caso a máscara falhasse ela estaria impregnada com sangue puro, o que era prova final, assim podendo burlar o plano espiritual e seguir para o reino dos imortais e desfrutar das glórias e paz eterna no Jardim Sagrado.

Quando tudo estava acabando e a multidão se dispersava, o garoto viu o canalha assassino conversar com uma mulher jovem e bela, no começo ela parecia consolá-lo, porém havia atenção demais dedicada ao velho, contudo a atenção evoluía e de vez em quando o velho soltava um sorriso discreto, retribuído pela mulher. Já parecia um casal flertando na escuridão da praça, talvez firmando um encontro casual, quando as cinzas da esposa morta já estivessem baixadas.

Desta forma o garoto percebeu como as coisas eram e sempre seriam e mesmo que a criança estivesse com maldade na mente ainda tinha muito do pequeno garoto inocente.

Neste mesmo tempo, adquiriu uma resistência muito grande para lembrar-se de coisas dolorosas, o que o ajudou a bloquear as imagens daquela noite desastrosa, entretanto esta habilidade o fazia esquecer-se gradativamente do rosto da mãe.

***

Tão logo acabou o luto e o velho colocou outra mulher dentro de casa tão bela, dedicada, prendada e rica quanto a anterior.

— Essa será sua nova mãe — o velho falou como se “mãe” fosse um título dado a bons empregados. No primeiro instante o garoto estranhou e inocentemente disse:

— Mas ela não é minha mãe.

— Não seja grosso com ela, moleque, está surdo?! Eu disse que ela será sua nova mãe e pronto! — o velho agarrou-lhe a orelha e puxou tão forte que depois de um tempo ele nem sentia mais o aperto.

Entretanto, a “nova mãe” descobriu rápido a índole do velho, como a família da moça não era tradicional, na primeira surra ela o deixou.

Ele tornou a colocar outra mulher em casa. Desta vez branca, de olhos grandes e castanhos, os cabelos cacheados eram tão negros que podiam ser confundidos com a escuridão.

“Exótica”,

Como ele costumava chamar, na realidade todos que não possuíam o sangue imortal eram exóticos para ele. O garoto não compreendia porque ele insistia em juntar-se a mortais, sabendo que um dia elas envelheceriam e partiriam cedo.

— Esta é sua nova mãe.

— Mas está não é minha mãe — tornou a apanhar por dizer a verdade.

Quatro mulheres dentro de casa, o garoto apanhou quatro vezes pelo mesmo motivo e na quinta já estava mais velho e mais esperto, assim percebeu que dizer a verdade às vezes poderia doer um pouco. Cada “nova mãe” o fazia descobrir as histórias de como o pai ficara rico e de tudo que ele precisou fazer para chegar onde estava, todo aquele prestígio e renome fora conquistado sobre sangue, força e escândalos e sua mãe fora só mais uma vítima do imortal que sempre tivera esposas ricas e mortais.

— Esta é sua nova mãe.

— Ela pode ser minha “nova mãe”, mas nunca será minha mãe então não estarei mentindo — foi o que pensou e logo depois cumprimentou a moça sorrindo:

— Olá, “nova mãe.”

A moça negra de cabelos lisos e olhos escuros não entendeu o que o jovem quis dizer, poderia ser só mais uma brincadeira, mas foi assim que ele evitou apanhar, sendo como o pai: dissimulado, astuto ou tão somente “adaptável”, como ele preferia. As mulheres até que gostavam de como eram chamadas, ele sempre falava de um jeito meigo e sorridente: “Olá, nova mãe.” “Não senhora, nova mãe.” “Bom dia, nova mãe.” E quando cresceu continuou com a mania fazendo parecer um apelido carinhoso: “nova mãe”, bem como participou de outros funerais.

Entretanto, as “novas mães” não impediram que por anos ele apanhasse, não importava o motivo, ele sempre seria castigado, mesmo que não houvesse um. Mas as dores físicas não mais o atingiam. Um dia disse ao pai: “Você bate feito uma menina!”, e o velho assassino o encheu de chutes e tapas, cortou-o no chicote como a um cão sarnento. Era assim que se preparava para um dia reagir, afinal, sua única ferida estava no orgulho e na visão de um estranho que o obrigava a chamá-lo de “pai”.

Mas parecia que o castigo por fim viera, pensou o rapaz. O assassino fora ferroado na perna por um peixe raro e venenoso quando acompanhava os amigos boêmios em uma pescaria, a picada do Knidário seria capaz de matar qualquer ser vivo, mas por ser imortal, o pai do rapaz passou a sentir os efeitos do veneno espalhar-se pelo corpo. Tão terríveis eram as dores que passou a andar mancando e fazer caretas de um sofrimento profundo, todavia aqueles passos mancos e senis eram nada, se comparados com o sofrimento do jovem.