Todos os dias ele ouvia de seu “padrasto consanguíneo” que era ele quem o alimentava, lhe dava roupas e educação. Era desaforo demais e o rapaz começou a trabalhar escondido. Tocava nas praças, junto aos vagabundos e para as mulheres da vida, facilmente se destacara da corja e viu-se com o dom da música, maldosamente herdada do velho assassino. As pessoas maravilhavam-se com o som melódico de sua voz e da gaita sempre bem afinada que aprendera a tocar com um malandro. Nunca fora descoberto, pois usava máscara e era conhecido como “Voz D’ Alma”. O velho queria conhecer o grande gaiteiro e por ser regente do coral do templo procurava uma bela voz para um de seus cânticos.

— Um dia irei vê-lo, nem que seja arrastado pelo fedelho que tenho aqui dentro — ele reclamava na casa sempre que ouvia suas visitas comentarem do talento do moço.

A doença se agravou e os remédios já não surtiam efeito, as orações dos homens de fé e as mandingas dos viajantes já eram inúteis, afinal o veneno espalhava-se cada vez mais, fazendo o velho deixar de andar como antes e envelhecer mais rápido. Por se envergonhar da aparência que transparecia na carne isolou-se em casa, assim não pôde conhecer a revelação de sua cidade.

— “Para um imortal não havia vergonha na morte, mas sim em deixar que sua idade fosse refletida na pele, esta marca significava o grau de distância com os deuses” — era o que o velho sempre dizia àqueles que envelheciam mais rápido, geralmente os levyn de sangue fraco, pois ele mesmo vinha de uma linhagem antiga, porém extinta.

***

O rapaz agora era homem, entretanto ainda morava na casa do pai. Em um dia como outro qualquer, descansava na sala. Os sócios do velho bateram à porta, a serva atendeu e logo chamou seu senhor, que se levantou com dificuldade apoiando na bengala, pois na perna há muito anos ferroada começava a abrir uma ferida que não sarava.

Encontrou os sócios na sala, estes o viam quase todos os dias para prestarem contas dos negócios que agora ele não podia mais acompanhar, nunca conseguiam deixar de demonstrar o espanto ao ver o destino do amigo imortal, que era tocado pela velhice sem piedade, e pouco a pouco demonstrava que um dia deixaria este mundo.

Quando viu o filho deitado na poltrona, berrou:

— Levanta vagabundo! — jogou os pés do jovem para fora do banco onde repousavam. Mas tudo o que ele queria era demonstrar autoridade, e todos sabiam disto, não era porque estava enfermo que havia deixado de ser imortal de sangue puro, descendente direto dos deuses do céu e seguidor de Levyn. Depois continuou falando alto, em tom de sermão, mostrando aos amigos o filho que tinha. — Já lhe disse que de dia devemos trabalhar, não criei filho para ser vagabundo! Não tem vergonha de já ser um homem e ainda ser sustentado pelo pai?! A gente se vira com qualquer coisa. Tem um tal de “Voz D’ Alma” por aí. Dizem que é pobre, mas ele não está vadiando como você!

— Não seja tão duro com o rapaz — pediu um dos sócios em tom camarada, todavia não retirando a autoridade do patriarca.

— Não, Vamir! Deus entrega um dom para cada um de nós. Mas parece que Ele se esqueceu desse aí! — apontou para o rapaz revelando um desgosto impassível, talvez um escravo fosse melhor tratado e um desconhecido mais admirado. Todos os dias o rapaz se perguntava o porquê de tanto ódio. Será por que era filho único? Por que tinha sangue mortal? Ou por ser o único filho que ele teve com suas mulheres? Quem sabe um erro, pois seu passado com as antigas esposas não revelavam filho algum. — Estou quase acreditando que temos filhos para quando O Cão Come Vidas chegar, venhamos encará-lo como amigo por nos livrar de um fardo como esse! — ele voltou sua atenção para o moço. — Você é uma vergonha para sua mãe...

Neste momento a fúria cresceu no coração do moço, que cerrou os punhos enquanto encarava o monstro aleijado, mas conteve-se, foi para o quarto, afinal era um jovem bonito e educado nas melhores escolas e não quebraria a máscara de submissão ao velho, tudo isso para o grande momento em que revelaria a sua ira e não poderia estragar tudo com uma simples briguinha, por isto, ninguém desconfiava que em seu íntimo ardia um ódio incontrolável pelo próprio pai.

Mas aquele era o momento. Como sempre havia feito, pediu perdão ao pai e se retirou para seu quarto, assim fazendo o velho liberar um sorrisinho altivo, mostrando a todos quem mandava naquela casa.

Acompanhado pelos colegas o moribundo se dirigiu à biblioteca, aparentemente mais feliz, fechou a porta e lá passou a discutir sobre os negócios, como se o ato vergonhoso cometido há pouco nunca houvesse acontecido.

Em seu quarto, Voz D’ Alma conversava consigo dizendo “basta” enquanto vestia a melhor roupa, comprada com o próprio dinheiro, aquela usada para tocar suas músicas: calça preta e blusa marrom, ambas folgadas. Uma faixa branca dava voltas na cintura onde guardava a gaita. A blusa era amarrada por cordões no colarinho. Os cabelos longos e negros amarrados e a face coberta por uma meia máscara branca que encobria os olhos cor de mel.

Logo retirou uma caixa que estava escondida debaixo da cama. Lá continha todo o dinheiro que havia juntado, estranhamente era o suficiente para comprar a liberdade de um escravo de luxo educado e prendado, como ele mesmo fora. Após isso foi um pouco mais longe, pegou um copo e masturbou-se, guardou o líquido lá e foi até a biblioteca. Arrombou a entrada com os truques que aprendera nas ruas e entrou. Os sócios o olharam sem entender e perguntavam-se porque Voz D’ Alma estava ali, pois o rapaz estava irreconhecível, mas não para o velho assassino.

— Por acaso está louco, garoto, o que faz aqui vestido deste jeito parecendo um idiota?! — mesmo que o rapaz estivesse bonito e bem vestido, o velho preferia não admitir e tentar ridicularizá-lo sempre foi sua diversão.

O moço jogou na mesa a caixa contendo as moedas e disse como se comprasse um direito dado livremente a todos:

— Aí está cada moeda que gastou comigo, já não lhe devo mais nada e exijo minha alforria — em seguida pegou o copo com seu próprio sêmen e o jogou sobre a mesa, derramando o líquido pegajoso para que todos vissem. — Infelizmente temos um vínculo que não posso quebrar, mas aí está, faço questão de lhe devolver até mesmo isto. Não foi tudo o que fez por mim?

— Agriel, seu filho desgraçado, eu te dei tudo! — falou com raiva cerrando os dentes, mas sem gritar.

— Eu nunca lhe pedi nada, nem lhe escolhi como pai ou se quer pedi para nascer! Devia ter me matado como os kawalu fazem quando tem um filho defeituoso! Teria sido mais piedoso...

— Nem eu pedi para que você nascesse! Você não passou de um mero acidente da qual tive que conviver... Mesmo sendo indesejado você teve casa, comida! Uma boa vida! — enumerava caminhando para o filho. — E é assim que me agradece, moleque ingrato? Por que deseja me envergonhar assim? O que sua mã...

— Não, velho! — Agriel explodiu, interrompendo o monstro aleijado pela primeira vez em sua vida, gritou como sua mãe havia feito no passado, urrou como deveria ter feito naquele dia em que chorou e presenciou a morte dela, mas a grande diferença era que ele poderia lutar e vencer. — Nunca pedi ouro ou prata, somente uma família! Os pais são os heróis dos filhos, já você não passou do monstro que visitava sadicamente meus piores pesadelos. Minha mãe, sim, ela foi guerreira, até no último dia de vida. Não é, seu nojento? — falou como quem demonstrava que sabia de tudo o que havia acontecido naquela noite. — Ou acha mesmo que todos não sabem de seus atos criminosos acobertados pela fortuna que acumulou de suas antigas esposas? Minha mãe estava certa e sua profecia finalmente se cumpriu, pois você era belo por fora, mas sua alma sempre foi podre e velha e finalmente esta maldade transpareceu em sua carne!

As palavras atingiram o velho como um raio, agora ele tinha certeza de que o filho sabia de tudo, com raiva levantou-se para agredi-lo arremessando o primeiro objeto que sua mão alcançou, mas Agriel esquivou-se com facilidade da estátua de mármore perfeitamente atirada em sua direção.

— Não mais, velho! O mundo me ensinou muito mais do que apanhar. Vou escrever uma canção sobre esse dia e vou chamá-la de “A Revelação do Velho Asqueroso.” Um dia veria o tal Voz D’ Alma, nem que fosse arrastado pelo fedelho que tinha em casa. Não foi o que me disse? Aqui estou... Eu sou o cantor a quem você admira — ele jogou a máscara sobre a mesa, logo após saiu, deixando o pai sem palavras e envergonhado diante dos amigos.

Enquanto saía, sacou a gaita e liberou um ritmo alegre carregado de sarcasmo, como quem se banqueteava com o momento.

O Agriel não viu o semblante assombrado do pai, mas imaginou com perfeição enquanto seguia para fora. E agora pensava em tudo o que veria neste vasto mundo que estava para ser descoberto, agora que alcançara a liberdade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.