O Lado Obscuro do Heroi
3 O Retorno
Depois de acordar sentiu a cabeça tontear, o ar voltar-lhe plenamente e a luz do sol incomodá-lo. Ele fechou uma pequena cortina, mas ainda estava perdido e notou-se molhado de suor, a respiração ofegante denunciava outro pesadelo, mais constantes naqueles últimos dias. Sempre o mesmo tormento, do qual nunca via o desfecho. Olhou ao redor e não sabia onde estava até ouvir o resfolegar do mato e sentir o sacolejar rítmico da carruagem que o levava para casa. Observou á própria face em um espelhinho preso a frente e notou que a pele branca estava pálida. As íris vermelhas estavam foscas. Entretanto a aparência madura retornava aos poucos. Prendeu os longos cabelos ruivos e desamassou as vestes brancas, simples, todavia de corte e bordado aristocrático.
O cocheiro, um homem velho de olhar matreiro. Usava um pano na cabeça que chamava de chapéu e chupava um pedaço de folha que lhe mantinha acordado, mesmo depois de todos esses anos o serviçal ainda era alegre e cantarolava a mesma canção pela milésima vez, ele abriu a pequena cortina prateada e sorriu, entretanto ao ver o estado de seu senhor perguntou preocupado:
— Mestre Zew Gawgo! Não me diga que teve aquele pesadelo novamente! — o olhar sincero daquele empregado era sempre do agrado de Rumiah, agora também chamado de Zew Gawgo, mas aquela seria a última vez que ele o veria, após anos de serviços prestados ele poderia enfim seguir sua vida como queria deixando Lindetuhia para traz e seguir como um homem sem senhores.
Talvez por isso a carruagem andasse tão vagarosamente e o servo escolhera os caminhos mais seguros, afinal, na parte de trás da condução carregava uma riqueza dada pelos senhores de Lindetuhia como recompensa pelos anos prestados e dedicados a Zew Gawgo, assim ele poderia dar uma vida melhor a sua família que o esperava em outras terras.
— Sim... Ainda não parou. Sou atormentado por este pesadelo dia e noite! — respondeu já corado com o tom educado que adquiriu nas montanhas de Lindetuhia. — As ervas para relaxar e dormir já não fazem efeito, meus mestres me disseram que este sonho não é normal e que devo prestar atenção aos pressagies.
O sonho foi tão real que suas mãos ainda tremiam um pouco. Quase podia sentir o cheiro podre das criaturas, enquanto refletia sobre o pesadelo. Enxugou o suor do rosto com um lenço, enquanto bebia água e admirava a paisagem, tentando acalmar-se. Experimentava uma mistura de sentimentos que lhe causavam angústia e medo. Aquilo o fez pensar por alguns instantes em sua vida, em sua casa, no homem que se tornara e naquele que ainda seria. Sabia que toda aquela emoção não fora causada por um simples pesadelo, havia algo a mais, embora tivesse dito para si mesmo que não era nada. Mas aquela sensação era idêntica a de quando seu pai negociava com a Morte.
Mesmo que sem querer, acabou perdido em seus pensamentos e agora se concentrava, entretanto, desta vez, na morte. Refletir sobre ela era fascinante, ainda mais para ele, que na visão dos mortais viveria “para sempre”, quando ele mesmo sabia que o “para sempre” um dia acabaria. Voltou a si em um susto, quando a carruagem deu um pulo ao passar em uma poça funda e jogou água para os lados.
— Ora, tenha calma, homem! — o jeito descontraído do servo e o sotaque de gente humilde, faziam-no parecer mais alegre e às vezes até inocente. — Parecia que tinha sido arrebatado! Mas, se meu senhor me permite, — disse num leve tom de sermão — o senhor parece preocupado, esqueça tudo e pense no novo nome que tem e no que conquistou! Ando com o senhor há anos, indo e vindo daquelas montanhas, sempre que retorno conto a seus pais como o senhor está grande e sábio, — ele deu uma risadinha. — nem parece aquele moleque magrelo que corria comigo fazendo besteiras. — depois ficou mais sério como quem iria dar um conselho. — Seus pais não estão esperando sua volta agora, foi uma surpresa saber que o senhor sairia agora, por isso, quando vê-los mostre-se seguro, acredite meu senhor, isso será muito importante neste momento.
— É verdade, meu caro! — mesmo que falasse com um empregado, o tom era aristocrático e educado, como todos os homens bons mereciam ser tratados. — Quero ver meus pais e lhes mostrar isto — disse segurando e olhando orgulhoso para um pergaminho aberto, nele havia a inscrição dos objetivos que deveria seguir em sua longa jornada, agora que se tornara um Sábio:
“Todos que carregam esta prova de bravura em suas mãos são reconhecidos pelos senhores de Lindetuhia e, depois que deixarem nossos portões para pelejarem, deverão alcançar o autoconhecimento, adquirir elevação espiritual e intelectual para conduzir aqueles que são inferiores a ti; assim, deverão revestir-se do equilíbrio social e emocional, para que enfim saibam dominar seu próprio destino, tanto no Mundo Carnal quanto no Plano Espiritual.”
Sempre que lia aquela frase lembrava-se do árduo treinamento, das noites em claro, dos dias com fome, das meditações profundas e dos vários livros e pergaminhos que precisava conhecer, das feras estranhas que viu e das que não queria se quer conhecer. Ele nunca duvidou merecê-la, entretanto este seria o momento de colocar todas as teorias em prática e mostrar a todos que possuía conhecimentos únicos e restritos a ele. Observou por um instante com leves risadinhas como quem se lembrava de momentos bons o anel dourado em seu dedo, que fora enviado pelo próprio rei dos imortais levyn, assim se tornando um nobre da casa de Lorien. — Sou o primeiro Sábio de minha família! — lembrou-se feliz, pois fora um dos poucos que resistira ao rigoroso ensinamento da arte oculta da Distorção da Realidade. Lembrava-se que fora levado de casa ainda jovem e fora lapidado das piores maneiras nas montanhas de Lindetuhia, e ainda assim tinha muito a aprender, muito do velho homem a deixar para trás, porém havia coisas que a teoria não poderia ensinar nem mesmo que as montanhas pudessem simular. Somente o trabalho duro, sofrimento e experiências árduas com pessoas e problemas reais lhe moldariam naquele que deveria ser. — Como estarão meus pais...? — perguntou baixinho como se fosse para si mesmo, entretanto olhou para o cocheiro, talvez esperando uma resposta.
O empregado pareceu não ter ouvido, no entanto viu o olhar matreiro de seu servo tornar-se velho como suas rugas, antes que tornasse a perguntar, a carruagem parou de trepidar e avançava suavemente por uma rua lisa de cascalho batido.
No céu havia poucas nuvens e ele estava tão azul, que os deuses pareciam abençoar aquele momento, e ele esperava por isto, pois aguardava este dia a muitos anos: O momento em que chegaria á sua cidade e se mostraria quem era agora, mesmo que seu empregado estivesse proibido de lhe dar qualquer informação sobre sua terra, afinal não quebraria a tradição nem mesmo com ordens diretas de seu mestre e os votos de silêncio deveriam ser honrados ou ele seria amaldiçoado, porém ele recitou um verso de Lindetuhia como se fosse para si mesmo, mas sabia que seu senhor estaria ouvindo e que se lembraria da jornada que viria:
“Ele chegará cego e somente em seu destino final terá luz.”
“Chegará desprevenido, para aprender a antecipar-se.”
“O Sábio sempre será parte da solução, assim deve solucionar os problemas da terra para o qual foi enviado, bem como para onde for levado pelo vento ou por seu discernimento.”
Graças aos deuses ele foi enviado para sua região, porém diversas perguntas martelavam em sua cabeça: O que se passava por lá? Será que o reino estava com fome e ele deveria tornar a terra mais fértil, ou o rei precisava de conselhos? Será que isso? Será aquilo? Eram tantos “será” que ele queria chegar logo e mostrar-se capaz em resolver os problemas de sua terra verde e experimentar novamente a comida de sua mãe.
— Mestre Zew Gawgo, chegamos onde o senhor queria. Tem certeza que não quer mesmo que eu o deixe em sua cidade natal? Essa pode ser a última vez que nos veremos! — o homem insistia como se quisesse dizer-lhe algo.
— Não, aqui está ótimo, aproveite sua vida e, por favor, da próxima vez que nos virmos me chame apenas de Zew Gawgo...
A porta fora aberta por seu servo e finalmente ele saiu da carruagem, a tocou lembrando-se que da primeira vez em que esteve nela e partiu era apenas o jovem Rumiah, uma criança levada contra sua vontade que demorou anos para compreender que sua partida e principalmente seu retorno traria honra a sua família e resoluções para o mundo. Agora ele não saía daquela condução como homem, menos ainda como um imortal, mas como Zew Gawgo, o Mago da Luz, um dos três escolhidos de Lindetuhia.
Deu uma suspirada olhando a carroça ainda por dentro, desceu a escadinha com passos firmes e compassados e só agora percebera que a postura desengonçada fora corrigida por uma postura elegantemente ereta, ele olhou o homem nos olhos como os sábios de Lindetuhia faziam, mesmo que ele ainda não fosse um, deveria começar a agir como tal, o título deveria ser acompanhado de feitos de bravura e conhecimento, entretanto, Zew Gawgo não sabia que em breve seu conhecido seria posto à prova da forma mais dura e cruel.
— Preciso rever algumas pessoas, daqui seguirei para minha terra, não será uma caminhada longa. Respirar um pouco o ar da cidade me fará bem depois de tanto tempo — respondeu sem ligar para o tom triste de seu servo, poderia ser somente euforia por retornar a sua cidade, ou a tristeza comum de servos que perdem bons senhores.
— Mas meu senhor, eu devo levá-lo até sua casa como minha última prova de servidão! Não afaste de mim esta alegria! O que dirão por ai sobre meu trabalho?
Rumiah deu uma risadinha e realmente achou bonito o que ele dissera, afinal, aquele homem sempre fora preocupado com seu senhor e a imagem de seu trabalho era tudo, por isso Zew Gawgo disse carismático.
— Ora homem, deixe de besteiras, mas me diga... Você trouxe a sela que lhe pedi?
— Mas é claro mestre! Tudo e mais um pouco!
— Então não se preocupe, eu prefiro ir sozinho, por isso trocarei sua última prova de servidão por um destes cavalos, sele e coloque meus pertences, tenho muito a ver.
— Sim senhor, mesmo que deixá-lo chegar sozinho me incomode, o deixarei à vontade para que veja com seus próprios olhos o que está próximo de sua terra — ele falou como se quisesse evitar chamar a presença do mal, porém Rumiah ignorou a advertência, afinal o que estava em sua mente era refazer aquele caminho de volta sozinho, e retornaria como quem pisa a cabeça de animais peçonhentos.
Assim viu a carruagem desaparecer no horizonte pintado de azul e branco, acendeu o cachimbo e soltou um tênue fio de fumaça, fumou em silêncio por alguns instantes antes de começar a cavalgar, assim refletia mais um pouco sobre seu passado e vislumbrava seu futuro.
Este dia era muito especial, pois havia planejado tudo, ele queria passar por esta cidade no dia do festival aos deuses e, até agora, tudo seguia como o planejado. Esperava encontrar a cidade colorida com enfeites nas casas, as ruas pintadas com tinta tiradas da natureza e perfumada com flores que cresciam somente ali, e mesmo que houvesse algo errado, agora estava preparado. Os problemas não passavam de um pequeno acaso do destino, facilmente concertados por sua lógica e complexidade de pensamento. E mesmo que fosse involuntário, Zew Gawgo olhava sempre para frente como se tudo a sua volta fosse uma equação facilmente resolvível, assim passava a imagem de alguém importante, mesmo que ele ainda não fosse. Deu leves risadinhas consigo mesmo, enquanto refletia sobre todas as mudanças em sua vida, pois agora tudo era visto com um olhar diferente, maduro e calculado.
O som dos cascos dos animais e das vozes era familiar, ele havia chegado a Pahma e o sotaque carregado dos moradores lhe dizia que estava próximo da sua terra, porém algo estava errado:
Por que a cidade ainda não estava arrumada?
Onde estava o movimento?
Aquele seria o seu grande dia, onde todos que duvidaram de sua competência o veriam como um imortal de Lindetuhia, onde não mais o chamariam por seu antigo nome “Rumiah”, mas tão somente enxergariam Zew Gawgo, capaz de distorcer a realidade e mover montanhas com a força do seu desejo.
Além disso, por lá todos eram felizes, um povo batalhador para a vida e preguiçoso para as guerras e questões mais sérias, tudo sempre fora motivo de festa:
O nascimento de um filho,
A morte de um pai,
O casamento de uma mulher
Ou a morte de quem trai...
Rumiah escutou este verso de um jovem cantor e nunca mais se esqueceu. E mesmo que aquele dia fosse preparado para comemorações, ainda assim nada havia sido organizado.
Caminhou pela cidade degustando o cachimbo até chegar à praça, observou as grandes fachadas coloridas das casas e a harmonia com que se encaixavam umas sobre as outras, mesmo que agora estivessem um pouco mais sem vida. O pequeno templo as margens da praça central da cidade continuava com seus fiéis, contudo diferente de suas lembranças, agora todos pareciam mais crentes e apegados e uma praga de insetos parecia se espalhar lentamente pela cidade, além de um mau cheiro atípico começava a tornar o local cada vez mais desconhecido.
Ele sentia no espírito que as ruas já não estavam tão belas como antes, mesmo que o sol ainda estivesse quente e radiante, a luz batia nas árvores que neste tempo estavam com as folhas em tons de amarelo, vermelho e laranja. O chafariz ainda estava lá no centro da praça, parecia uma torre que afunilava e três pratos o cortavam. O jato estava fraco, o prato do meio quebrado, lembrava-se que a fonte era cinza, porém agora estava marrom e algumas partes esverdeadas pela falta de cuidados, muitos reis e poderosos vinham de longe para vê-lo funcionar, principalmente na festa aos deuses, pois naquele dia, faziam água colorida fluir da fonte e os festeiros faziam seus pedidos que, segundo os cantores, eram realizados depois da primeira noite de amor, logo assim nomeada Pahma, a cidade multiplicadora.
Veio à memória as crianças com quem brincava, e quando as reconheceu tomou um susto, elas estavam grandes, demorou até que ele mesmo soubesse com quem estava falando e cumprimentava no caminho, só depois que notou uma cicatriz aqui, uma marca de nascença ali, percebeu que falava com seus amigos de infância e notara o quanto o tempo havia passado...
Estavam todos velhos.
Alguns tinham filhos e netos. Lembrou-se que chegou a apaixonar-se por algumas das velhas que caminhavam apoiadas em bengalas que na época eram joviais, de seios duros e olhar penetrante, veio também à memória que apanhara de alguns dos velhinhos que na época tinham o corpo firme e aparência ameaçadora, entretanto, agora jogavam conversa fora debaixo de árvores.
Rumiah ficou fora somente quarenta anos e quando retornou todos estavam velhos, outros mortos. Ser amigo de mortais era muito massacrante, já que morriam rápido de mais. Para ele foram alguns anos nas montanhas de Lindetuhia conhecendo e aprendendo, mesmo que ainda não fosse o conhecedor do oculto que sonhara ser, mesmo que ainda precisasse galgar seu próprio caminho e só agora havia percebido que o tempo havia passado.
E como havia passado.
Todavia ele era imortal, descendente do deus Levyn, não havia aflorado sequer uma ruga na pele branca, os cabelos continuavam ruivos e os olhos vivos como chamas, diferentes de seus amigos mortais que estavam com os olhos foscos e acinzentados, seus ossos nunca estiveram tão fortes e os músculos nunca foram tão firmes, por isto era estranho observar a velhice alheia, notar que o tempo para ele não existia, no entanto a mortalidade era uma realidade, mesmo que muito distante.
Os imortais pareciam esquecer-se de que o tempo era cruel e que um dia os levyn também seriam alcançados por Ele. Por isso, lembrava-se que a mortalidade existia, justamente e somente quando observavam o mundo a sua volta.
O sol, agora coberto por nuvens, enchia o céu com uma luz pálida e fria. As saliências das montanhas à frente, onde estava sua casa, ficaram menos visíveis por uns instantes, ainda assim pode ver por entre elas a grandiosidade da terra esmeralda que o esperava.
Assim pensava na beleza daquela terra, de quando caminhava pelas inúmeras árvores frutíferas que formavam profundas cavernas sombreadas através do campo, das antigas casas feitas ao redor das frondosas árvores milenares que escadeavam para cima como se fizessem parte do ambiente.
Enquanto seguia, teve a sensação de que algumas pessoas o observavam friamente. Não era a recepção calorosa que esperava, ainda mais por estar evidente quem ele era e no que havia se tornado, receber alguém como ele sempre fora motivo de alegria para todos. Porém percebera que sua presença não fazia diferença alguma naquele local, chegou a ficar irritado ao notar que não lhe vinham cumprimentar, não pediam truques, nem queriam conhecer seus mistérios, sua grande jornada não parecia interessar a ninguém.
Mesmo assim cumprimentava a todos, como os governadores faziam quando queriam algo do povo. As poucas pessoas que respondiam às suas gentilezas o fizeram com certa tristeza no olhar, como se escondessem algo, porém ele estava muito feliz para se preocupar com o que julgava ser inveja alheia. Aprendera que deveria ser superior a isso, era conhecedor dos mistérios de Javah Adamah, se destacaria até mesmo entre os imortais, reis e poderosos lhe deviam respeito por deter em suas mãos o poder para acalmar o mar, fechar fendas e cessar incêndios. Foi neste instante que lhe veio à mente quando andava com um de seus mestres nos vulcões de Kandih e a montanha começou a reclamar e a cuspir fogo, todavia com apenas algumas palavras de seu mentor a fera rochosa se acalmou.
— Será que sempre foram assim e a saudade me enganou, ou algo estranho aconteceu? — Rumiah divagava enquanto seguia rumo a sua casa, já que a cidade não estava como ele esperava.
Avistou um velho pedinte no caminho e foi até ele por curiosidade, queria entender porque as pessoas davam voltas para não se aproximar do mendigo que estava acompanhado de um cãozinho que fazia gracinhas para conseguir esmolas. Quando chegou perto náuseas o atacaram, após ver feridas expostas no corpo do pobre que se abanava com dificuldade, para evitar que insetos depositassem larvas sobre as chagas, cobria-se apenas com alguns panos e lutava para impedir que a parte mais afetada, a perna, permanecesse a salvo.
O mendigo enfermo viu a sua frente aquele belo rapaz, poderia ser estranho, mas o sol estava por detrás dele, o fazendo brilhar e impedindo que o pedinte olhasse diretamente para Zew Gawgo.
Poder?
Coincidência?
O que isso importava agora?
O mendigo estendia a mão, talvez julgando que ele teria o coração piedoso o bastante para lhe ceder um pouco de sua graça.
Quem sabe a cura.
— Pobre criatura, amaldiçoado com a mortalidade, você sofrerá e as feridas consumirão seu corpo, até que venha perecer ou a piedade de alguém possa lhe dar o descanso eterno. — pensava Rumiah, observando o desgraçado, como se entendesse que aquela fosse a lei natural da vida, um princípio que não se aplicava a ele, talvez aquele homem até fosse um bom objeto de estudo depois que partisse. Pensamentos como estes faziam com que os Sábios de Lindetuhia parecessem frios e duros, quando para eles mesmos não passava de simples lógica. — Mas a questão não é essa... O que me custa uma moeda? Eu tenho toda a imortalidade para juntar as riquezas de muitas vidas — continuava a raciocinar, enquanto observava o homem que estava com a Morte esperando ao lado.
Enfiou a mão na algibeira tateando em busca de uma moeda. Parecia procurar a de menor valor, fazendo com que o pedinte sorrisse desapontado. Por fim, sacou uma grande e reluzente moeda de ouro e a arremessou a certa distância nas mãos do senhor que se estivesse são apanharia a moeda com grande destreza, contudo por conta das chagas a deixou cair, no entanto recuperou-a rapidamente, como uma ave carniceira.
Não se esquecendo do rapaz, o doente se virou para agradecer, porém ele já estava distante.
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