Do alto dos Montes dos Homens Caídos, na escuridão da noite, um homem-cavalo robusto de dorso negro e patas cor de madeira observava passar uma carruagem guardada por três cavaleiros.

Depois de analisá-los, o assassino pertencente à raça dos kawalu colocou a aljava nas costas, prendeu o arco e duas facas na cintura, desembainhou a espada, checou com batidinhas no chão se as quatro ferraduras estavam bem postas, para que assim não escorregassem durante o massacre que aconteceria em alguns instantes, logo se dirigiu para um local mais próximo da condução, por onde ela seria obrigada a passar.

A penumbra se adensava cada vez mais conforme a lua prateada era sobreposta pelas nuvens, por entre as árvores via-se uma névoa que também se formava nas margens pálidas do rio Mohbis, o som forte das águas camuflava qualquer ruído de suas pisadas e o vento soprava mais gelado com o passar do tempo. Naquela região, as montanhas cortavam grande parte do norte em uma longa cordilheira cheia de picos que terminava em uma praia ao sul-deste, deixando ainda mais enegrecida a região por onde ele passava. O lado leste da montanha era íngreme e complicada, o que tornava aquele local seguro aos olhos de todos. Por toda a noite ele avançou naquele terreno irregular, subindo à crista do primeiro morro, que era o mais alto, e descendo outra vez para dentro da escuridão de um vale profundo e sinuoso, para que estivesse mais próximo de sua presa.

Escondeu-se atrás dos arbustos e manteve-se à espreita, a neblina fria formava camuflagem junto à pele de lobo que cobria seu corpo avermelhado. Não havia animais próximos, menos ainda o som dos insetos, tão somente a respiração inaudível do Assassino das Estradas, pronto para mais um trabalho naquela noite sem estrelas.

Ali, quase na última hora que antecedia a aurora, ele sabia que sua perseguição deveria acabar, pois a luz do dia denunciaria sua posição tão próxima, e a lua já estava quase sumindo, mas a claridade ainda não havia atingido o lado escuro das montanhas...

O mundo estava calmo.

Entretanto não era a calmaria que os homens bons buscavam.

Os soldados cantavam alegres, conversavam e sorriam na estrada que era considerada segura, as poucas árvores deixavam às claras seja lá quem estivesse escondendo-se, mas não o Assassino, ele possuía uma capacidade indescritível de camuflar-se, mesmo com o porte que possuía.

E fora assim que no momento certo e sem sutilezas, do meio dos arbustos mostrou-se a fera saltando das folhagens, rompendo o silêncio da noite com um grito que se assemelhava a um rugido, pois era longo e alto.

Sem que pudessem reagir, o homem-cavalo degolou um dos guardas, largando a arma. Com as mãos livres derrubou outro cavaleiro e esmagou a cabeça dele com uma patada. Antes que o terceiro sacasse a espada, o agressor arremessou uma faca contra seu peito o fazendo cair preso pelo pé, tendo o cadáver arrastado pelo animal, que correu desembestado. O cocheiro tentou atiçar os animais, mas o assassino sacou o arco e disparou uma flechada certeira na cabeça do homem.

Quando tudo acabou, o matador trotou até a carruagem. Ao abrir a porta viu um velho gordo de roupas pomposas em tons claros, tinha a barba falha, pele branca e bochechas rosadas, estava assustado, mas conteve-se e disse com tom de um coração frio e arrogante, como quem havia sido machucado por afrontas indevidas.

— Quem você pensa que é? Seu cavalo fedorento! Ao invés de importunar pessoas de bem, por que não vai puxar carroças? — sem nada dizer ou expressar, o Assassino das Estradas deu meia-volta. — Isso mesmo... Vá embora e “talvez” eu esqueça este incidente — o gordo agiu como se não temesse a fera, mas só por precaução desceu da carruagem e correu.

Ao olhar para trás, o homem viu seu algoz se aproximar limpando a espada que havia acabado de pegar do chão. Desesperado corria gritando por socorro, mas quem ouviria ali, o assassino havia calculado tudo. O homem caía, todavia aos barrancos levantava-se, sem pressa o assassino trotou e facilmente o alcançou.

— Vem cá, bolinha rosada, você não vai fugir — disse o homem-cavalo levantando o gordinho pelas roupas.

— Solte-me, criatura imunda! Está cometendo um grande erro! — berrava como uma puta maltratada. — Você sabe quem sou eu? — jogou a pergunta na esperança de ser ouvido. — Sabe quem ousa roubar?

— Seu nome não me interessa, homenzinho, pois o ouro sempre se chamará ouro! — disse tão próximo que o homenzinho podia sentir o hálito quente ser tomado pelo tom frio. — “Sempre caçador, nunca a caça.” — falou como quem recitava um mantra.

A voz impassível era como sua face, que neste momento estava dura e inflexível.

— Você pertence ao povo kawalu, não é?! Tenha calma! Vamos conversar! — o desespero começava a aflorar e o Assassino das Estradas gostava daquilo, naquele instante ele começava a pensar em tudo que se passava na mente de sua presa, bem como sabia quais eram os arrependimentos mais comuns quando a Morte batia a porta. — Eu posso lhe tornar rico, você e quem mais quiser! Posso lhe dar títulos, terras, escravos, mulheres, prestígio, tudo, tudo e muito mais! Só o que tem a fazer é me esquecer! Ou melhor, — falou como quem tinha uma grande ideia desesperada. — trabalhe para mim, conte-me quem o mandou aqui, acabaremos com o desgraçado e lhe pagarei sete vezes mais! — ofertava enquanto gaguejava. — E o “tudo” ainda será pouco perto do que posso lhe conceder se me deixar vivo! — era estranho como o homenzinho compreendia um duro “Não” mesmo que o assassino não houvesse dito nada, assim foi tomado pelo desespero novamente. — Você não pode me matar! Sou um nobre da casa Kedari e Sekah! — talvez a menção de seu nome o salvasse de assassinos comuns, mas não do Assassino das Estradas.

— Diante da morte todos somos iguais... — ele estava com esta resposta na ponta da língua, afinal não fora a primeira vez que ouvira de uma de suas vítimas promessas e mais promessas, talvez até fossem verdadeiras, quem sabe até cumprissem o acordado, porém tudo estava baseado em palavras motivadas pelo desespero e medo, dois sentimentos facilmente vencidos pelo tempo, e não cometeria este erro novamente, não jogaria a reputação conquistada com tanto suor, menos ainda por conta de algumas moedas ou uma posição da qual poderia cair em breve.

— Pegue o que quiser e vá embora, por favor! — com os olhos lacrimosos e a voz falha, o homem pareceu ceder, após entender que aquela não seria uma noite comum, ele ficou pálido e naquele momento o mercenário sabia que o gordinho refletia sobre a vida que tivera, pensava no mal que implantara sobre muitos, sobre o beijo que não deu no filho, sobre a mulher que se tornou sua amante. O assassino sabia que tudo o que aquele miserável queria era apenas uma segunda chance para, talvez, fazer diferente. Lentamente a imagem de alguém que possuía voz ativa era destruída, onde seu ego era esmagado e pisoteado, fazendo-o compreender que ele não passava de qualquer um, como todos os outros naquele mundo.

A fama dos kawalu não vinha por serem assassinos, malfeitores ou cruéis, mas por serem implacáveis e grosseiros. Geralmente tê-los em casa seria um infortúnio, pois comeriam e beberiam tudo e ainda reclamariam por não ter mais. Até mesmo poderiam ser comprados como qualquer outro povo, porém aquele kawalu em especifico tinha algo diferente, seus olhos escuros demonstravam que ele estava muito distante dos costumes reais de sua raça, naquela noite ele estava disposto a retirar vidas e aquele infeliz era um dos escolhidos.

O nobre se debatia impotente, já sabia que não fugiria. Nos olhos do assassino havia a determinação fria e bem paga em acabar com sua vida.

Sua hora havia chegado.

Agora o Mercador da Morte, como era conhecido, começava a sentir-se melhor, gostava de ver o terror em suas encomendas, isto o fazia sentir-se superior sobre tudo e todos. Como era bom saber que aquele homem, mesmo em toda a sua glória, ainda que cercado por riquezas, servido e atendido quando bem queria, não possuía algo que o assassino detinha em suas mãos! “A autoridade para deixá-lo vivo” pertencia a ele e naquela noite não estava disposto a dá-la a mais ninguém. Ele poderia fazer com a vida deste homem o que bem entendesse, sabia que poderia pedir o que quisesse, mesmo que no final o matasse mesmo assim, entretanto, tudo o que desejava era sentir o gostinho do dever cumprido.

— Eu já peguei o que vim buscar! — logo após, houve um silêncio de gelar a espinha, o assassino encarou o homenzinho por alguns segundos e tornou a observar no rosto dele o que sempre notava em suas vitimas:

Terror...

Independente de quem fosse todos teriam o mesmo destino...

Um encontro com a Morte.

Por fim, o Assassino trespassou o golpe demonstrando a frieza usada até então. O gordo sentia cada centímetro do aço que atravessava suas vísceras, vomitava engasgando-se com o próprio sangue enquanto se debatia indefeso nas mãos do algoz. Lenta e sadicamente, o Mercenário observava a insignificância de mais uma vida que pouco a pouco deixava este mundo, por fim, aquela lâmina brilhante tornou-se fosca com o sangue que banhava o aço prateado.

O Mercenário sempre observava suas vítimas até o último segundo, gostava de ver a vida se esvair até que não houvesse mais nada, até que não ouvisse o coração palpitar ou os espasmos não acontecerem mais, em sua cabeça orava ao seu deus agradecendo a caça digna de um ferimento único e as glórias que viriam com aquele abate.

Quando não sentia mais a vida no homenzinho, deixou o corpo cair jogado ao chão e olhava a miséria de mais um que antes tinha tudo e todos aos seus pés, mas agora não passava de um pedaço de carne que em breve seria devorada pelos vermes e apodreceria como todo ser comum.

Depois de levar a vida de outro poderoso: saqueou o local, decapitou o velho, colocou a cabeça em um saco, retirou o anel do cadáver e guardou em uma algibeira. Por fim, partiu deixando os sinais de que o Mercenário das Estradas esteve ali.

E depois de tudo isso o nascer do sol glorificava o seu momento, fazendo a escuridão desaparecer das cordilheiras e revelarem as cores e sons do mundo que despertava: o verde das plantas, o cantar dos pássaros, o correr do rio e a névoa que se dissipava conforme o tempo esquentava e bem adiante a trilha que o levaria ao seu pagamento.

Novamente o mundo estava calmo e esta era a calmaria que os homens bons procuravam.