O Lado Bom da Vida
4 Turbulência
Notas iniciais
Não é como se eu tivesse que agradecer.
Eu não tinha pedido a ajuda dele.
– Porque fez aquilo? – eu perguntei melancólico. Não era pra ter sido assim.
Sentei-me, ficando de frente para ele na mesa da cozinha. Estávamos em minha casa.
– Você sabe muito bem o porquê de eu ter te salvado, Sasuke – Naruto respondeu me olhando com seriedade. A decepção rondava seus olhos – você não tinha o direito de...
– Eu não tinha o direito? – Eu o interrompi, a revolta tomara todo o meu corpo – Eu não tinha o direito de fazer o que eu quisesse com a MINHA vida? – eu gritei, levantando-me da mesa e respirando fundo.
Quando olhei para Naruto, ele parecia querer chorar.
– O médico só me disse que você me levou para o hospital – eu suspirei. Uma das mãos apoiaram-se na pia de mármore negro, enquanto usava a outra para passar as mãos pelos cabelos – o que veio fazer aqui? O que te fez voltar?
– Eu tive a impressão de que você precisava de mim – Naruto respondeu e sorriu triste – depois que voltei para casa, achei que precisaria de apoio para poder se acostumar a viver aqui de novo. Eu fiz uma mala para passar o resto da semana com você, pra não te deixar sozinho, mas quando eu voltei você estava caído na mesa, desmaiado.
Eu apenas ouvia ele me contar o que havia acontecido depois de eu ingerir a grande quantidade de calmantes.
– Quando vi você daquele jeito, entrei em desespero. Vi os remédios, o copo de conhaque e percebi o que tinha acontecido, e não hesitei em levá-lo ao hospital – Ele disse, passando as mãos pelo rosto, contendo as lágrimas que teimaram em cair – Te atenderam no instante em que chegou. Kakashi disse que, se tivesse demorado mais, talvez eu não pudesse salvá-lo.
– Eu não queria ser salvo, Naruto – eu respondi, e ele me encarou – eu queria morrer.
– Você não pode fazer isso, Sasuke! Não pode simplesmente desistir da vida! O que a Keiko pensaria de você? – ele gritou, levantando-se e batendo as mãos na mesa, causando um baque forte – O que sua filha pensaria ao ver você dessa forma?
Aquilo me atingiu. Me deu uma pancada forte.
– Keiko? Asako? – eu perguntei, sereno – Elas não existem mais, Naruto. Elas morreram.
– É, elas morreram, mas você não morreu – ele disse, dessa vez mais calmo – não deixe acontecer o mesmo que da última vez, Sasuke.
Quando ele disse isso, minha respiração falhou por um segundo.
– Cale a boca – eu disse, quase como num sussurro.
– Sasuke, você precisa acordar pra vida! Já passou por isso antes e sobreviveu, você pode fazer isso de novo – Naruto disse, se aproximando de mim e me encarando com o olhar esperançoso.
Acho que ele esperava que eu simplesmente olhasse pra ele, sorrisse e dissesse que tudo está bem.
As coisas não funcionam desse jeito.
– Não dá – eu respondi, dessa vez mais frio.
– Claro que dá, Sasuke! – ele se revoltou novamente – você tem amigos aqui! Tem eu, Kakashi, até mesmo a Hinata para te apoiar.
– Estou dizendo que não dá! Mas que porra – eu gritei, e por alguns segundos Naruto ficou paralisado, unindo as sobrancelhas – você não sabe nada do que eu estou passando! Por acaso perdeu alguém importante?
Depois de perguntar, Naruto baixou a cabeça e eu suspirei, falando novamente.
– Como você, Kakashi e até mesmo Hinata podem me ajudar, se vocês nunca passaram pelo que eu estou passando agora? – eu perguntei, dessa vez calmo – Vocês nunca passaram por isso, e eu estou passando pela segunda vez.
– Você tem razão – ele disse — eu não sei o que é perder alguém importante. Eu não conheci meus pais, mas fui criado pelo meu avô com amor e carinho. Eu não tinha alguém que gostasse de mim, que me enxergasse, mas encontrei Hinata, que hoje é uma das pessoas que mais amo no mundo.
– O que você pretende, me dizendo isso? – eu perguntei confuso.
– Eu não tinha amigos verdadeiros, pessoas que me entendessem, mas eu encontrei você – eu o encarei, triste – e eu quase te perdi novamente, faz uma semana.
Depois disso, ficamos em silêncio por alguns segundos antes dele continuar.
– Sabe Sasuke, eu posso não saber o que é perder alguém importante, mas eu quase te perdi duas vezes só neste mês. Não quero mais ver você desse jeito – ele disse, cabisbaixo, e isso fez com que eu me sentisse triste também.
Eu não sou burro.
Eu sei que isso é difícil pra ele também. Naruto e eu sempre fomos unidos, mas... Eu sinto como se não pudesse mais ficar aqui sem elas.
– Eu já disse que não dá – eu repeti, e ele suspirou.
– Você já esqueceu o que houve da última vez? Se esqueceu do Itachi?
Eu arregalei os olhos e meu corpo tremeu. Lembranças dolorosas do passado inundaram minha mente como num tsunami e, por um segundo, eu tive a sensação de estar sendo dilacerado por elas.
– Não quero falar disso.
– Se esqueceu que ele deu a vida dele pra poder salvar a sua? Que ele pediu para que você sobreviva e seja feliz?
– Era o que eu estava fazendo – eu gritei e o empurrei, fazendo-o dar um baque forte na parede – eu estava vivendo por mim, vivendo pelo meu irmão que me salvou.
– E é dessa forma que você retribui? – Naruto gritou, me empurrando sem muita força, fazendo eu dar alguns passos para trás – você está sendo egoísta, Sasuke! Não está pensando em mim, não está pensando no Itachi, na Keiko e muito menos na Asako.
– E você? Está pensando em mim?! – eu gritei, e ele ficou surpreso – custa muito aceitar que eu quero morrer? Que não dá mais pra viver? Mas que merda Naruto, você nem ao menos tentou me entender!
Ao ouvir minhas perguntas, Naruto fechou os olhos, respirou fundo e então sorriu. Um sorriso triste, melancólico.
Um sorriso frio, assim como eu.
– Faça isso e jogue o desejo do Itachi, da Keiko e da Asako no lixo. Faça! – ele se virou e foi caminhando calmamente até a porta, parando ao colocar a mão na maçaneta – e você ainda dizia que se importava com eles... Egoísta. Hipócrita.
Pude ouvir o barulho da porta fechar e ecoar em minha mente por alguns segundos.
Aquela fora, sem sombra de dúvidas, a conversa mais turbulenta que tivera com Naruto há muito tempo. Porque ele precisava me lembrar do Itachi?
A maneira que ele foi embora me feriu.
Fechei os olhos e me lembrei daquele olhar azulado. Triste por eu relutar tanto em me recuperar, por eu insistir em ficar dessa maneira.
E então, ainda de olhos fechados, outros surgiram em minha mente. Olhos tão negros e penetrantes quanto os meus.
Um olhar cansado. Um olhar sofrido.
Um suspiro. Um grito. Uma lágrima. Uma voz. Uma palavra.
“Viva”
Abri os olhos com tudo e coloquei as mãos na cabeça, tentando espantar aquelas lembranças perturbadoras da minha mente.
Eu não quero me lembrar disso. Não posso me lembrar.
Respirei fundo e saí abrindo todos os armários da casa, procurando qualquer coisa que pudesse me fazer relaxar. Qualquer coisa que pudesse me fazer esquecer. Esquecer essa briga com o Naruto. Esquecer o Itachi. Esquecer todo o sofrimento que eu tive que passar nesse último mês.
Não aguento mais isso. Estou sobrecarregado.
Foi quando eu achei uma garrafa de Whisky cheia, em cima dos armários.
– Te achei – sorri satisfeito, ficando na ponta dos pés e esticando o braço direito para conseguir alcançar a garrafa que ainda nem tinha sido aberta.
Depois de pegá-la, corri para a cozinha, ansioso. Tentei abrir a garrafa sem muito sucesso, pegando uma faca e abrindo. Eu não estava com muita paciência.
Virei a garrafa no copo, fazendo o mesmo transbordar, vendo o whisky escorrer pelos meus dedos. Aquilo apenas aumentou a minha sede e eu senti como se minha garganta e todo o meu corpo pedissem pela bebida.
Levei o copo à boca tomando um longo gole.
Uma satisfação veio ao sentir o líquido quente descer pela minha garganta e uma tontura veio pelo fato da grande quantidade logo de início. Como o copo estava molhado, assim como meus dedos, o mesmo escorregou o caiu no chão, quebrando-se.
Observei o piso branco adquirir uma cor amarelada e aquilo misturar-se ao vidro do copo quebrado.
Gritei enfurecido quando percebi que meu pé havia sido cortado por um dos cacos, mas aquilo não me importou tanto.
Logo, peguei a garrafa e andei em direção a sala, sentando me no sofá e bebendo ali, direto dela. Copos não eram mais necessários.
Sorri satisfeito, sentindo minha mente ficar aérea de tudo o que havia acontecido nesse tempo, e logo eu me acostumei com a quentura e com o cheiro que o álcool estava proporcionando.
Respirando fundo, tomei novamente longas goladas da bebida, vendo a garrafa estar quase vazia, e então começou a fazer efeito.
Tive tonturas, não conseguia me mexer direito e então parei de lutar contra o meu corpo. Deitei-me ali mesmo no sofá, e tomei todo o resto da bebida, jogando a garrafa longe com toda a força que tinha em meu corpo, fazendo-a quebrar ao cair no chão.
Virei de lado no sofá e abracei os joelhos. Eu não quero mais pensar, não quero mais lembrar, não quero mais sofrer. Lágrimas brotaram em meus olhos, e eu me vi pensando no que eu estava fazendo com a minha vida. Me vi pensando no que o Naruto havia me falado hoje, mas não pude refletir, já que, por conta do álcool, eu adormeci.
Fale com o autor