O Lado Bom da Vida
5 Mudança de Conduta
Notas iniciais
Suspirei.
Por quantas vezes aquilo iria se repetir? Sermões, sermões e sermões.
Estava internado naquela psiquiatria havia menos de uma semana, e broncas foram a única coisa de que realmente pudera me lembrar.
Puxei o ar com força dessa vez, como se há muito eu não respirasse, e o soltei devagar. Logo, passei as mãos pelos meus cabelos, olhando curiosamente a caneta de forma estranha que estava nas mãos da doutora... Ino? Acho que era esse o nome.
Observava aquela cor meio esverdeada com círculos prata, enquanto ela fazia o mesmo movimento, batendo-a na mesa. Minha mente começou a se afastar, e eu pude ouvir o som do baque da caneta na mesa aumentar gradativamente.
Pensei em como eu realmente pudera parar num lugar assim.
Em um mês eu consegui parar no hospital duas vezes, e agora estou aqui internado. Não sei bem o que Kakashi pretende me deixando aqui.
Ele deve me amar muito, ou me odiar muito, já que este lugar é um inferno total. Ah.
Suspirei e passei a mão pelos cabelos novamente. Minha mente estava longe, e eu apenas podia ver os lábios da doutora mexendo-se, sem nem um som sair dali. E então, depois de piscar algumas vezes, todo o som do local entrou em meus ouvidos de uma vez só.
– Sr. Uchiha? Sr. Uchiha, está me ouvindo? balancei a cabeça e observei sua expressão serena passar para uma levemente irritada.
– Me desculpe Srta...- olhei seu crachá para identificá-la Srta. Yamanaka.
Sorri um pouco. Acho que estou ficando louco.
Ela largou a caneta que estava segurando e juntou as mãos entrelaçando os dedos, soltando um suspiro pesado.
– Sr. Uch... Sasuke ela me chamou pelo nome, e aquilo puxou minha atenção se não prestar atenção, nem seguir à risca o que os médicos daqui lhe pedem, mais tempo você fica aqui neste lugar.
Apenas balancei a cabeça, tentando não prolongar aquela conversa cansativa e desnecessária. Ela suspirou novamente e se levantou, abrindo a porta para me dar passagem.
– Pense no que eu estou lhe dizendo, ok? ela pediu. — Apertamos nossas mãos e um dos seguranças do local apareceu na porta, para poder me levar até o meu quarto.
Mesmo depois de dizer 500 vezes de que aquilo não era necessário, sentei na cadeira de rodas e então fui guiado pelo segurança até meus aposentos.
Paramos em frente ao quarto 273, que era onde eu estava internado, e ele me estendeu a mão para ajudar a levantar. Ignorei sua ajuda e me levantei sozinho.
– Bom, melhoras Sr. Uchiha — o segurança deu meia volta, e eu apenas acenei para ele. Eu não precisava agradecer.
Esse era o trabalho dele. Me transportar. Não era necessário qualquer tipo de demonstração de simpatia. Enfim.
Abri a porta do quarto e dei de cara com uma figura que eu realmente queria ver.
– Kakashi — eu disse seu nome e passei reto por ele, sentando-me no sofá desconfortável que se situava ao lado direito da cama.
– Olá Sasuke — ele disse da maneira mais simpática possível, sentando em minha cama — preciso conversar com você.
– Antes de me dizer qualquer coisa — eu o encarei com muita raiva Quem você pensa que é? Você não tem o direito de simplesmente me internar. Não pode fazer isso!
– Eu sou seu médico e, de acordo com o meu diploma, eu estou apto a decidir se um paciente meu precisa ou não de internação, então eu não só posso como tenho total direito de fazer isso — ele retrucou e sorriu ao olhar minha feição indignada — mas eu não vim aqui para discutir.
– Veio para que então? Seu sorrisinho idiota me deixa irritado.
Minha fala o fez sorrir, e eu fiquei com mais raiva ainda. Esse velho charlatão veio aqui para me deixar ainda pior!
– Bom, a questão não é se minha adorável presença te agrada ou não, apesar de eu saber que no fundo você está feliz em me ver — ele sorriu novamente, mas então depois de alguns segundos sua feição mudou para preocupada — fiquei sabendo que você deu muito trabalho aos psicólogos e psiquiatras nesses últimos quatro dias.
– Dei sim. Não que eu me importe muito com isso — eu respondi, e arqueei uma das sobrancelhas — o que você realmente quer aqui, Kakashi?
– Vim pra lhe prevenir. Porque você acha que eu me encarreguei de te internar exatamente aqui? Essa psiquiatria é bem mais do que aparenta — ele suspirou e esperou alguma reação minha, antes de perguntar — Ino lhe deu um conselho, não foi?
– Ino? — eu perguntei, mas logo me lembrei da figura loira e certamente irritada comigo há alguns minutos atrás. Lembrei-me do que ela havia dito antes de eu voltar para o quarto — sim, ela me disse algo.
– Bom, eu aconselho você a dar ouvidos a ela e fazer as coisas direito aqui. Essa psiquiatria tem uma conduta rigorosa com pacientes desobedientes — Kakashi disse, levantando-se da cama e encostando-se à parede do quarto.
– conduta rigorosa? — eu perguntei, curioso e envolto na conversa.
– Exatamente. Se você não seguir o que os médicos falam, toda a equipe responsável por você vai se tornar inflexível e intolerante.
Fechei os olhos e sorri alto. Ele espera que eu fique com o que? Medo? Eu já estou todo ferrado mesmo. As coisas não podem ficar piores do que já estão.
– Kakashi, poupe sua preocupação para outro paciente seu. Não me importo com a conduta dessa psiquiatria de merda, não me importo com esses remédios e nem com o que os psicólogos imbecis tenham dito pra você. Eu não vou mudar minha atitude! — eu disse de forma grossa, e isso o fez balançar a cabeça em sinal negativo.
– Bom, é uma pena você dizer isso, porque eu faço parte da equipe responsável por você, e não estou nada satisfeito com seus resultados — ele caminhou até a porta e a abriu, parando antes de sair do quarto — sinto muito, mas antes de ser seu médico, sou seu amigo, e eu vou fazer você melhorar mesmo que seja da pior maneira possível.
Ele fechou a porta com cuidado e eu fiquei por um bom tempo sentado no sofá, ouvindo os passos do lado de fora do quarto.
Pra ser sincero, não aguento muito mais essa rotina de psiquiatria. Acordar cedo, comer e fazer exame com a doutora Ino. Depois almoço, e ter uma consulta de duas horas com o psicólogo Kabuto. Sem contar eu ter de ficar aguentando aqueles seguranças babacas me levarem pra cá e pra lá numa cadeira de rodas sem nem ter real necessidade disso.
Tsc. Perda de tempo.
Um psiquiatra ou um psicólogo não pode curar algo que feriu minha alma. Remédios não podem fazer isso, conversar ou falar sobre o que aconteceu? Pior ainda. Só faz a ferida se abrir ainda mais.
Quem eles pensam que são? Apenas estudaram, quase nunca vivenciaram algo de verdade, e se acham no direito de cobrar para dar conselhos de algo que eles nunca souberam e talvez nunca saibam como resolver... Sinto muito, mas não levo nada disso a sério.
Não irei tomar os remédios, e estou pouco me ferrando para os conselhos que esses palhaços têm para me dar. A única coisa que eu quero é arrumar um jeito de ir embora daqui, voltar para a minha casa e, principalmente, tomar um bom e gelado copo do whisky mais caro que eu conseguir comprar.
Além deles me fazerem perder tempo, me privaram de tudo que me deixava aéreo.
Sério, não está dando mais.
Respirei fundo e me levantei, dando uma volta pelo quarto e esperando que alguma coisa interessante realmente aconteça aqui. Foi quanto bateram na porta do quarto e abriram.
Era um segurança. Merda.
– Eu vim lhe buscar para uma consulta na área de psicologia -ele disse, trazendo a cadeira de rodas até onde eu estava.
Sentei-me ali contra gosto e respirei fundo novamente. Mais duas horas ouvindo o merda do Kabuto me falar sobre o quanto é importante eu me abrir e blá blá blá.
O segurança começou a andar comigo na cadeira de rodas e então eu pude observar melhor todas as áreas que aquela psiquiatria possuída.
Passamos por diversos lugares, como área de tomografia, ressonância magnética, área da pediatria. Estávamos chegando à sala do psicólogo, onde eu já até podia avistar de longe a porta branca com o nome Kabuto gravada nela. O problema é que passamos direto por essa sala, e isso acabou por me deixar confuso.
– Minha consulta não era com o doutor Kabuto? perguntei curioso.
– Não. Seu médico, Kakashi, fez uma mudança de profissional de última hora. Você agora vai se consultar com a psicóloga Haruno até o fim de sua internação — o segurança — explicou ouço pelos enfermeiros que ela é uma das melhores e mais prestigiadas do país, além de ser muito bonita. É um homem de sorte, Sr. Uchiha.
Não respondi e nem esbocei reação. Uma mudança de última hora? O que Kakashi estava tramando?
Eu estava inquieto, até nós sairmos da área de psicologia e atravessarmos por um jardim belo, que havia para proveito daqueles que precisariam ficar internados ali por um longo tempo...
Admirei a paisagem por um tempo, até entrarmos então em outro prédio, bem diferente daquele em que estava o meu quarto. Lá, as paredes eram simplesmente brancas, não havia cor, vida, ou qualquer resquício de felicidade. Era apenas um local calmo.
Esse prédio era diferente do outro. As paredes estavam pintadas em um tom de azul claro com alguns pontos em branco, e assim continuou pelos corredores. Chegando perto da área de enfermagem, o corredor abriu-se em um grande e redondo espaço, onde haviam alguns poofs pretos e uma mesa de centro de vidro... Provavelmente aquela era a sala de espera.
Eu me levantei da cadeira de rodas e sentei-me num dos poofs, e o segurança em outro. Aquele lugar era realmente muito bonito e chamava a atenção, mas esse não era o principal.
Quando eu olhei para a frente vi que, a parede da porta estava com uma ilustração um tanto quanto interessante. Ainda com a parede de fundo azul claro, havia o desenho de uma árvore, onde seu tronco é bege e, do tronco puxavam-se galhos marrons. Dos galhos, folhas e folhas verdes em diversos tons estavam localizadas, e nas folhas, estavam às frutas de cor laranja. Claro que, nenhuma das cores estava de forma gritante, mas eu fiquei um pouco curioso por esse desenho estar situado num local como esse. Também fiquei curioso para saber o porquê dessa psicóloga estar longe da área correspondente à psicologia... Parece que eu irei descobrir logo.
– É um belo desenho, não? — o segurança perguntou, mas eu apenas assenti com a cabeça — dizem que ele possui um significado, mas só aqueles que se consultam com a senhorita Haruno o sabem. Dizem que, esse desenho, é praticamente a base de todo o método que ela usa para ajudar os pacientes. Ela é a única nessa psiquiatria que consegue lidar com todos os tipos de pacientes usando de métodos similares. Ela é espetacular.
Eu ouvia atento o que ele dizia sobre essa mulher, e já começara a ficar impaciente. Foi quando, do meio do tronco bege a porta se abriu, e uma silhueta fina de cabelos rosados surgiu.
– Você deve ser o Senhor Uchiha, certo? — ela perguntou, abrindo um sorriso deveras simpático.
Arqueei a sobrancelha e fiquei realmente surpreso com o que eu estava vendo. A figura de estatura baixa, magra e não tão arrumada me encarava com um sorriso que eu nunca pensei que poderia ver. Pensei que o Kakashi havia dito algo sobre conduta inflexível e intolerante. O que ele está pensando me encaminhando para uma mulher que parece ser o contrário disso?
Assenti com a cabeça, olhando-a de cima a baixo. Diferente de todos os psicólogos que trabalhavam no local e trajavam roupas sociais, ela estava vestida com uma calça legging preta, uma camiseta larga e um pouco comprida de cor verde e tênis esportivo. Aquilo me deixou ainda mais intrigado.
Encarei aqueles olhos verdes brilhantes, que continuavam a sorrir pra mim, até que ela manifestou-se.
– Você trouxe um avental, ou algo do tipo? — eu neguei com a cabeça — bom, não tem problema. Vamos, entre!
Ela entrou no consultório e me deu passagem, continuando a falar.
– Você não parece ser do tipo que curte uma conversa, não é mesmo? — Ela riu um pouco e esperou eu entrar para fechar a porta.
O que eu vira dentro do consultório me impressionou ainda mais. Nada de poltronas ou cadeiras de massagem.
Havia a mesa dela, um pouco bagunçada. Um sofá marrom ao lado da mesa e, em cima deste, diversos tipos de pincéis, tintas e até mesmo dardos. Ali dentro mesmo, havia uma porta de vidro que dava de vista para outro jardim que havia atrás do prédio, numa sacada média. Situada ali, haviam duas telas para pintura, um rádio pequeno e uma caixa com muitos e muitos CDs.
Ela é hippie ou algo do tipo? Estou começando a ficar ainda mais intrigado!
– Bom Sasuke, se é que posso chamá-lo assim — ela me encarou, e eu apenas assenti com a cabeça — fiquei sabendo pelo meu amigo Kakashi e por Kabuto que você tem tido reações difíceis com todos os meus colegas de trabalho.
– Hn — eu disse, para que ela pudesse prosseguir.
– Bem, vamos fazer algo diferente. Você não vai abrir a boca hoje.
O que? Ela não é psicóloga? Não deveria estar me convencendo a falar?
– Como assim, não vou abrir a boca? — eu perguntei, e logo após isso, eu levei um belisco fraco no braço, e a encarei ainda mais curioso.
– Se disser algo, vai levar um beliscão. Diferente de Kabuto, eu não quero que você se expresse pra mim. Quero lhe conhecer de outra forma — ela sorriu, entregando-me um pincel na mão e um tubo de tinta vermelha — vamos começar?
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