O Lado Bom da Vida
19 Privações
Notas iniciais
O cheiro do café sendo preparado entrara em minhas narinas e acabara por dar-me uma sensação estranhamente prazerosa. Eu jogava a água na cafeteira e observava todo o líquido escuro e cheiroso cair na segunda xícara marrom e chamativa, formando aquela espuminha.
Respirei fundo e suspirei, desviando meu olhar para a mulher desmaiada no sofá negro da sala e o sentimento de culpa invadiu meu peito como um ladrão, sem prévio aviso.
– Ola, mãe
Sentia-me como um animal num corpo humano. Não. Nenhum animal ficaria longe por 8 anos, voltaria repentinamente e, no primeiro reencontro, diria apenas um oi mãe enquanto observa a progenitora gaguejar, chorar e, por causa de muitos sentimentos virem à tona de uma só vez, desmaiar.
Inicialmente eu havia ficado desesperado. Segurei-a antes que caísse no chão e levei-a com pressa até o sofá, deixando-a lá para que se recuperasse, mas já faz pouco mais de 20 minutos que está assim e eu acabo por perguntar-me se ela não precisa ir a um hospital.
Sinceramente? Continuo com medo, desesperado. Tenho receio do que ela vai falar quando acordar, medo de esse desmaio ser mais do que fortes emoções e mais medo ainda da possibilidade de meu pai chegar, ver minha mãe desmaiada e tirar conclusões erradas disso tudo.
Andando até a mesa de madeira escura e envernizada, sentei-me numa das cadeiras de estofado creme e deliciei-me com um pequeno gole daquele café cheiroso. Senti o líquido quente passar por minha garganta e instantaneamente meu corpo aqueceu e os pelos de meu braço se eriçaram. Suspirei e, talvez aquele arrepio tivesse outras origens nada relacionadas ao café que estou saboreando.
Olhei em volta e aquele lugar havia mudado muito. A sala, antes de paredes salmão, tivera estar pintadas em um tom gelo. O sofá, antes azul marinho, agora era negro e a televisão aumentara de tamanho. Minha mãe sempre foi uma mulher que adorava decoração e, por isso, o lustre branco em forma de losango havia detalhes prateados e um quadro estava posicionado na parede. Um lugar chamativo para ser entrada principal da casa.
Suspirando e deixando em cima da mesa a xícara com café pela metade, levantei-me da cadeira e decidi que, enquanto minha mãe não despertava, eu poderia olhar como estava o resto da casa.
Caminhei pela ponta dos pés e saí da cozinha – que ficava nos fundos – voltando para a sala e, por esta, acessando um grande e espaçoso corredor, que dava para a escada que levava ao andar de cima. Subi cada degrau feito de pedras cujo nome eu não me lembrava de forma lenta. Eu sentia que aquilo que eu estava fazendo era errado, mas não podia mais me segurar.
Cheguei ao andar de cima, onde estavam localizados os quartos. Dos meus pais, meu, do meu irmão e então senti novamente um aperto no peito. Aquilo era muito errado, então, porque eu insistia nisso? Curiosidade, talvez, em saber se meu quarto continuava o mesmo. Se ele ainda continuava lá, se meus pais tinham se desfeito dele. Queria ter certeza se eles tinham me esquecido ou guardado as lembranças que tinham de mim. Enfim.
O porcelanato acinzentado dali ainda era o mesmo de oito anos atrás. Eu respirei fundo, andando com lentidão. O braço direito erguido e a mão tocando a parede gelada enquanto eu direcionava-me ao primeiro quarto do corredor.
O quarto de Itachi.
Respirando fundo novamente, posei a mão com cuidado na maçaneta da porta e girei-a sem pressa. Não gostaria de fazer barulho e acordar minha mãe ou algo parecido, mas... A situação fizera com que minha mente trabalhasse o suficiente a ponto de eu imaginar que, por causa da cautela, assemelho-me a um ladrão.
Fui abrindo a porta com lerdeza proposital, para que não causasse nenhum ruído, mas minha mão começou a tremer e aos poucos a ansiedade tomara conta de todo o meu corpo. Era como se parte de mim não quisesse abrir essa porta, mas... Eu precisava abrir. Precisava saber o que havia acontecido com o quarto do meu irmão.
Com medo, mas curioso, fechei os olhos e abri a porta de uma só vez, causando um barulho não tão alto por causa do baque da porta na parede, mas que me assustou. Respirei fundo e fui abrindo apenas o olho direito, aos poucos, mas o que eu fui vendo acabou por me deixar, de certa forma, surpreendido.
Aquele não era mais o quarto do meu irmão.
Meus pais modificaram totalmente o lugar e o transformaram em algo como o quarto das... Fotos da família?
Tudo isso parecia estranho demais para mim. Dei um passo, entrando completamente no lugar. Haviam tirado todos os móveis do quarto exceto a TV, esta desligada. A parede à direita pintada num tom de lilás agradável. A parede que estava em minha frente não era bem uma parede, e sim uma grande janela de vidro que iluminava todo o quarto e dava uma bela visão do jardim dos fundos. A parede à minha esquerda era o que realmente chamava a atenção. Também em lilás, no centro, estava um retrato da família. Minha mãe e meu pai sentados em cadeiras, eu no colo de minha mãe e Itachi em pé rindo de minha cara emburrada.
Eu sorri. Ah, eu me lembrava exatamente do que aconteceu no dia em que tiramos essa foto.
Minha mãe preparava o molho de tomates no fogão e eu sempre amei tomates. Desde pequeno. Ao sentir o cheiro, queria provar do molho, mas a progenitora não autorizou, mas eu não desisti. Eu realmente queria aquele molho e faria de tudo para consegui-lo.
Por isso, assim que ela deu as costas, fui para perto do fogão e ergui os braços para alcançar a panela, mas eu não consegui. Eu era pequeno na época, tinha 6 anos e por isso, baixei a tampa do forno e subi, ganhando altura o suficiente para alcançar a panela. Ficando na ponta dos pés, segurei o cabo e sorri satisfeito, mas...
Infelizmente, o conteúdo dentro desta não era o molho, mas sim a carne e isso fez da mesma um pouco pesada para um menino baixinho e magrelo de 6 anos segurar. Quando a puxei, não consegui me equilibrar e aguentar o peso ao mesmo tempo e, por isso, deixei a panela cair. Quando olhei para o chão, um pouco do caldo da carne havia caído em minha blusa e eu pude ver o nosso jantar espalhado pelo chão.
Olhei para o lado e encontrei meu irmão, encarando-me com ódio. O carnívoro estava com fome e eu havia acabado de estragar o jantar dele.
– O que aconte... – minha mãe chegou à cozinha e olhou para a sujeira que eu havia feito – Sasuke! Venha aqui agora!
Eu olhava as expressões de minha mãe e meu irmão, totalmente raivosas e, como qualquer criança quando se sente ameaçava, eu simplesmente corri.
– Ah, Sasuke! Voltei aqui, pirralho – ele me chamou com raiva, enquanto eu contornava a mesa de jantar e passava pela porta correndo.
Ele veio atrás de mim, lógico.
Podia apenas ouvir minha mãe gritando para que eu voltasse na cozinha, mas já não poderia fazer isso tendo o risco de ter minha pele arrancada pelo meu irmãozão.
Eu corria de Itachi enquanto batia os dois braços, como se imitasse um pássaro tentando voar de maneira totalmente desengonçada. Meu irmão mais velho corria atrás de mim com rapidez para dar-me a devida lição que eu merecia, já que havia aprontado, mas naquele momento eu realmente pedia para Deus que fizesse com que eu pudesse voar e escapar da bronca que levaria.
Infelizmente isso não aconteceu.
Itachi era maior, mais forte e mais rápido do que eu e, por isso – e apenas por isso – ele me pegou rapidamente, segurando-me pelo braço e puxando-me, dando de uma só vez um único, forte e raivoso tapa no traseiro.
– AI! – eu berrei e comecei a chorar – IDIOTA!
O sorriso vitorioso dele acabara por me deixar com mais raiva ainda, mas isso logo passou quando encarei minha mãe, que estava muito nervosa.
– Pro banho! Já! – ela ordenou, e eu saí correndo e chorando até o chuveiro.
Quando voltei, ainda estava com raiva de Itachi e com o bumbum dolorido pelo tapa que tinha levado, mas meu pai havia acabado de comprar uma câmera nova e praticamente implorou para que tirássemos a foto.
Quando minha mãe me colocou no colo dela, meu traseiro doeu e não pude evitar a careta e, quando Itachi viu, teve que rir.
Bem, eu não o culpo por isso. Nessa época eu era uma peste e fazia de tudo para chamar a atenção deles. A nostalgia fora gigantesca e, agora, eu analisava o restante da parede que estava repleta de colagens de fotos da família, mas... Isso encheu meu peito de uma curiosidade gigantesca e eu acabei por sentir um aperto.
Porque haviam feito isso com o quarto do Itachi? E o meu quarto como estaria? Eu não poderia mais ficar ali com essa dúvida.
Corri sem me importar se faria barulho e dirigi-me para o quarto ao lado, abrindo a porta com brusquidão. A visão fez meus olhos lacrimejarem.
Caminhei quase que em câmera lenta e sentei-me onde estava minha antiga cama. Meu antigo cobertor, meu antigo travesseiro.
Tudo estava no lugar que eu havia deixado. Eles não mudaram nada. Tudo estava em seu devido lugar.
Levantei-me da cama e andei até a janela, passando a mão pelas cortinas e abrindo-as, deixando com que a claridade entrasse diretamente em meu quarto, tirando o cheiro de mofo que eu começara a sentir. A vista para o jardim dos fundos, antes viva, agora estava um tanto quanto triste. Por quê? Porque mudaram totalmente o quarto do meu irmão, mas não encostaram um dedo sequer no meu?
Não faz sentido. Eu os abandonei.
– Por quê? – sussurrei comigo, aproximando-me da parede e encostando a testa na mesma, achando que talvez a frieza da mesma pudesse me ajudar a pensar.
Mexer no quarto do Itachi e fazer dele um quarto de lembranças boas da família fora, sem dúvida, uma boa ideia. Talvez, quando eu voltasse para os Estados Unidos, fizesse algo parecido com as lembranças que eu tinha de Keiko e Asako, mas... Eu, no lugar dos meus pais, teria mudado este quarto também. Teria tirado algum bom proveito do espaço vazio que aqui estava ao invés de deixar tudo aqui e fazer com que os fantasmas e as lembranças ruins rondassem a vida de ambos.
Essa fora uma má ideia, mas, de qualquer forma, fora a escolha deles. Suspirei, decidindo descer e checar como minha mãe estava. Desci as escadas com pressa e contornei aquele corredor onde Itachi havia me dado um tapa no traseiro e, talvez por um acesso de loucura, eu até mesmo sentisse aquela mesma dor. Sorri e fui até a sala, encontrando Mikoto sentada no sofá e olhando para mim de forma séria.
– Sasuke – as lágrimas em seus olhos voltaram e aquilo fez o aperto em meu peito voltar com força. Ela chorava por mim novamente e quantas vezes já não o fez?
Andei até ela e sentei ao lado da mesma no sofá, sem dizer nada. Seu olhar penetrava-me e eu sentia como se todos os meus sentimentos e possíveis falas fugirem do meu alcance. Ergui um dos braços e passei o polegar pela bochecha dela, limpando aquelas lagrimas silenciosas enquanto permitia a mim mesmo fazer no rosto de minha mãe um carinho a mais, que ela fechou os olhos para sentir.
– Mãe, por favor, não chore – eu pedi, enquanto as lágrimas insistiam em cair e encharcar minha mão que continuava ali com teimosia, mais espalhando do que limpando.
– Meu filho – ela se aproximou de mim e me abraçou com tanta força que eu acabei por sentir-me sufocado. O choro afagado em meu pescoço acabara por molhar o local e nós ficamos assim por muitos minutos.
Logo, ela se afastou de mim e riu por entre as lágrimas, segurando em meu rosto com ambas as mãos e enchendo-me de beijos pelas bochechas, nariz, testa e queixo.
– Você voltou – ela disse e repetiu todo o ato de carinho, enquanto eu fechava os olhos e apreciava o momento – Meu filho voltou! – e continuou a rir enquanto chorava, e isso acabara por me fazer sorrir alto e abraçá-la.
– Mãe, eu...
– Por onde você andou? – ela perguntou ainda rindo, desfizemos o abraço e ela limpou as lágrimas que já tinham borrado toda a maquiagem que usava – Meu filho, o que houve com você? – ela olhou para mim nos olhos e continuou sorrindo, as lágrimas ainda persistiam em cair – Você mudou tanto! Está tão lindo, tão parecido com seu pai.
– Onde meu pai está? – eu perguntei e ela me olhou surpresa, passando as costas das mãos pelos olhos, fungando e limpando as lágrimas definitivamente.
– Ele está numa viagem a trabalho, volta apenas amanhã cedo – Mikoto explicou e eu pude apenas assentir com a cabeça, quando ela me abraçou com animação novamente – tenho tantas perguntas a lhe fazer, nem sei por onde começar – ela riu e eu sorri um pouco deprimido para ela.
No dia em que decidi ir embora, privei minha mãe de me ver amadurecer, fazer uma faculdade e tornar-me um homem de bem. Eu a privei de ver eu me casar, de conhecer minha esposa e a neta, a privei de minhas conquistas profissionais. Privei-a de meus aniversários, dos aniversários dela e do dia das mães... Eu a exclui de minha vida e agora voltara sem prévio aviso.
– Tudo bem – eu respondi e sorri – eu tenho muitas coisas para lhe contar mãe, mas não achar melhor tomar ou comer algo? Você desmaiou e...
– Ora, não se preocupe – ela disse levantando do sofá, animada e correndo até a geladeira, voltando com um copo de suco de morango – pronto, você deve ter muita coisa para me contar.
– É verdade, nem mesmo sei como começar – disse, coçando a cabeça e sorrindo sem graça para minha progenitora.
– Primeiro, para onde você foi? – ela perguntou, tomando um longo gole do líquido vermelho no copo de vidro que soava por causa da baixa temperatura.
– Eu fui para os Estados Unidos, mas especificamente, Califórnia, na cidade onde você e o papai se conheceram – eu expliquei e ela sorriu para mim, animada.
– Você foi para Los Angeles? – ela ficou mais animada ainda, tomando um pouco mais do suco.
– Sim, vocês falaram tanto deste lugar que eu tive vontade de conhecê-lo, e acabei gostando – eu disse, enquanto encostava-me no sofá e ficava um pouco mais a vontade – tenho uma casa lá e... – eu olhei para o rosto de minha mãe, as lágrimas voltaram para seus olhos e isso fez com que eu me assustasse – mãe, o que houve?
– Porque foi embora? – ela perguntou, sorrindo melancólica enquanto chorava. É, estava fácil, lindo demais para ser verdade – porque fez isso? – perguntou novamente, agora chorando mais desesperadamente do que todas as vezes que chorou, encolhendo-se no sofá e abraçando os joelhos.
– M- mãe eu...
– PORQUE FEZ ISSO? – ela disse, virando-se para mim e desferindo tapas e socos repletos de raiva e dúvida do motivo de eu tê-la abandonado logo depois de termos perdido o Itachi. Eles não eram fortes, na verdade eram fracos, mas mesmo assim os sentia tão... sofridos. – por quê... fez... isso – ela gritava e me batia, e eu apenas deixava, porque nada podia ser feito. Eu entendia a frustração que ela sentia, e merecia apanhar. Do mesmo jeito que mereci aquele tapa no traseiro, 20 anos atrás.
Aos poucos ela ficou ofegante e seus golpes pararam. Ela chorava, soluçava e continuava privando-se de mim, já que estava acostumada a isso. Acostumada a não me ter mais em sua vida.
– Eu não sei – eu disse e seus olhos ônix me encararam incrédulos enquanto ainda molhavam-na com o próprio choro – eu apenas fugi das minhas responsabilidades. Fugi de você, do papai e do Itachi por que encarar tudo isso era difícil demais pra mim.
Ela continuava lá, chorando, soluçando e ofegando e eu acabei por ficar ainda mais preocupado com ela. Se ela, que era minha mãe, teve essa reação ao me ver, imagina meu pai? Talvez eu não saia dessa casa vivo.
– Me desculpe por te bater – ela disse, limpando as lágrimas novamente – isso não importa mais – ela sorriu para mim, ainda triste – o importante é que você está aqui, Sasuke.
– Me desculpe mãe – eu disse e a abracei – eu te amo.
– Eu também te amo querido. Sempre te amei e sempre vou te amar – ela sussurrava, agora fazendo carinho em minha cabeça.
Depois disso, fomos até a cozinha e eu preparei novamente café para nós dois, enquanto eu contava para ela coisas sobre a minha faculdade, meu trabalho como arquiteto. Contava para ela apenas coisas boas que eu havia vivenciado em Los Angeles, enquanto ela ouvia atenta e alegremente a tudo que eu falava, fazendo diversas perguntas.
– Conte-me, Naruto o encontrou? – ela perguntou e aquilo me fez rir – eu me lembro que ele ficou indignado por você ter ido embora e foi atrás de você.
– Ah, ele me encontrou sim – eu disse e ela ficou extremamente feliz.
– Como ele está? O que ele faz da vida? Conte-me.
– Resumidamente, bem, ele se casou – pude ouvir um Oh alegre de minha mãe e ri – se casou e vai ter um filho daqui uns meses – dessa vez ela arregalou os olhos e colocou as mãos sobre os lábios, totalmente surpresa e aquilo me preocupou – mãe?
– Meu Deus! – ela exclamou, feliz – aquele garoto vai ter um garoto?! Não posso acreditar – ela ria como uma criança, e eu acabei por perguntar-me quando foi que Mikoto havia ficado tão sensível às noticias que lhe eram dadas – vocês são dois cabeça-oca , não acredito que me excluíram dessas coisas! Ah, eu adoraria ter ido ao casamento dele e conhecido a esposa dele... – eu a ouvia tagarelar sobre o quanto estava feliz por Naruto que acabei sorrir triste. Eu não sei se estou pronto para contá-la sobre tudo o que me aconteceu.
– Ele tem uma ótima esposa, Hinata é o nome dela – eu expliquei e ela novamente ficou surpresa. Terminando de fazer o café, coloquei-o em duas xícaras e entreguei uma delas para minha mãe, mas ri quando percebi que ela me observava com um sorriso deveras sugestivo no rosto.
– E você, meu filho? – ela perguntou, seu sorriso malicioso na face – está namorando? Noivo? Conte-me sobre sua vida amorosa, meu bem.
Ao ouvir aquilo, não pude evitar um suspiro sôfrego que não passou despercebido por Mikoto. Eu não queria falar disso para ela, não hoje, mas não mentiria para minha mãe depois de tê-la excluído de tanta coisa da minha vida. Continuar excluindo-a de minhas dores só a deixaria ainda mais chateada comigo e talvez proporcionasse a mim outra surra. Sorri com tristeza e me levantei, indo até a sala e pegando minha mochila.
– Sasuke? – ela perguntou da cozinha, eu podia sentir o receio em sua voz.
Continuei vasculhando a mochila quando o encontrei. Um retrato de família comigo, Keiko e Asako. Após achá-lo, voltei à cozinha e entreguei-o nas mãos de minha mãe, que arregalou os olhos que lacrimejaram novamente, num sorriso terno e repleto de felicidade.
– Sasuke... – ela fungou, analisando a mulher de madeixas ruivas no retrato, assim como a criança que carregava as mesmas madeixas, mas os olhos que todo Uchiha possuía – você se casou meu amor? Essa é minha neta? – ela sorria para mim e chorava de felicidade, enquanto lágrimas inundavam meus olhos e sentia as mesmas escorrerem por minhas bochechas, assentindo com a cabeça – elas vieram com você?
– Não – eu falei, minha voz num tom extremamente sofrido chamou a atenção de minha mãe que deixou de olhar para a neta por alguns instantes para fitar-me.
– O que houve? – ela perguntou, esticando os braços e segurando minhas mãos, confortando-me – vocês se divorciaram, é isso?
– Não, mãe, queria poder dizer que era esse o caso – eu disse, e ela uniu as sobrancelhas tentando entender o que eu estava falando – mãe, eu sou viúvo.
– Viúvo? O que aconteceu? – ela perguntou, sentindo em si o sofrimento que eu havia sentido quando tudo aconteceu.
– Houve um acidente de carro, ela acabou falecendo – eu disse, já baixando a cabeça e deixando que as lágrimas caíssem de forma silenciosa, não querendo ver a reação dela quando eu lhe contasse sobre Asako.
– Oh meu bem, eu sinto muito – ela disse, afagando minha mão num carinho – você e sua filha devem ter sofrido tanto, eu queria estar com vocês para...
– Não, mãe – eu a interrompi, fechando os olhos – Eu fui o único sobrevivente.
Ouvi o gemido sôfrego de minha mãe e então não pude mais segurar as lágrimas. Deitei a cabeça na mesa e fiquei ali, chorando e soluçando quando senti os braços da mesma em volta de minha cintura, abraçando-me. Permiti-me abrir os olhos por uma fração de segundos para presenciar o corpo de minha mãe ajoelhado no chão enquanto me abraçava com força perante aquele momento de angústia e sofrimento. Ela chorava junto a mim, por saber o quanto eu sofri e estava sofrendo ainda pela morte delas, afinal tínhamos essa dor em comum. Não a perda de uma esposa, mas a perda de um filho.
– Quando... – ela soluçou e acariciou meu braço – quando aconteceu?
– há 5 meses – eu disse, num sussurro deveras baixo e ela apenas erguei a cabeça e ergueu um dos braços, tentando limpas as lágrimas de meu rosto.
– Eu... Eu sinto muito, filho.
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