O Lado Bom da Vida
20 Compreenda-me
Notas iniciais
– Filho, tem certeza de que não quer passar a noite aqui? – a voz chorosa de Mikoto deu em mim a sensação de estar sendo perfurado de dentro para fora, principalmente porque teria que negar pela quarta vez seu pedido – por favor, Sasuke. Não vou aguentar vê-lo embora novamente.
Sorri melancolicamente. Era compreensível essa relutância de minha mãe em deixar-me ir embora, mas isso era preciso.
– Mãe, eu não vou embora – expliquei pela quarta vez, segurando ambas as mãos da progenitora que teimava em chorar – estarei na casa de Yahiko até que o pai chegue amanhã.
– Não pode esperá-lo aqui? – ela suplicou e então eu fechei os olhos e suspirei. Era difícil negá-la tanto – Seu pai vai entender... Eu tenho certeza que...
– Eu estarei de volta pouco depois de vê-lo chegar – expliquei, interrompendo-a — Não quero surpreendê-lo assim que ele chegar cansado de viagem.
– Entendo
Acordei quase que sendo chacoalhado por Yahiko, enquanto dormia no sofá da casa deste. Quando me levantei para espancá-lo pela audácia, uma voz do lado de fora da casa acabara por me fazer perder toda a coragem que tomara posse de meu corpo.
– Hey, Kakuzu, moto nova?
– Não Sr. Fugaku, essa é de um amigo meu.
Bosta. Meu pai provavelmente já tinha chegado há um tempo e, como de costume, estava molhando o gramado como sempre fazia aos sábados. Tive que sorrir ao lembrar-me disso, sempre soube que velhos hábitos não mudam.
Olhei com certo receio para Yahiko enquanto ainda estava sentado no sofá. O ruivo apenas olhou-me e estendeu a mão direita para que eu pegasse e me levantasse, e foi isso que eu fiz.
O relógio indicava já ser 11hrs da manhã e eu acabo por perguntar a mim mesmo o motivo deles não terem me acordado antes. A julgar o humor de meu pai, Dona Mikoto não comentou nada com ele sobre minha volta, ou talvez ela tenha comentado, ele tenha sido extremamente compreensivo e esse seja o motivo de seu bom humor.
Pff, claro que não.
Espreguicei-me e fui até a cozinha, sentando-me na cadeira de estofado negro e confortável enquanto enchia uma xícara com café puro e quente.
– Onde está o Tazuna? – perguntei, bebericando em seguida um pouco do café na xícara azul.
– Não sei se você sabe, mas algumas pessoas precisam trabalhar pra sobreviver – Yahiko disse e riu – a movimentação em estacionamentos triplicam de final de semana, mas ele te deixou um bilhete.
Após dizer isso, ele tirou o mesmo do bolso e estendeu o braço para entregá-lo. Nele estava escrito... Força! Não fuja de suas responsabilidades...?
Tive que rir ao ler aquilo. Até mesmo ele estava desejando a reconciliação com meus pais, mas ele podia dizer isso em um bilhete que não faça parecer que eu sou um vagabundo.
Terminando meu café e tendo energia suficiente, vesti-me com jeans negros e um casaco cinza e fiquei por exatos 10 minutos, sentado no sofá tomando coragem o suficiente para falar com o velho e finalmente consertar as coisas.
Talvez meu medo fosse desnecessário. Talvez ele tenha mudado e, com a idade, tenha passado a ser mais compreensivo. Talvez em consideração à minha mãe, ele não faça um verdadeiro escarcéu quando me vir. Talvez eu seja apenas um medroso, apavorado por saber que todas as alternativas que eu considerara anteriormente são completamente improváveis.
Acontece que já estou aqui e fraquejar não é de meu feitio. Eu vim consertar as coisas e é isso que farei. Fechei os olhos, passando as mãos no rosto e respirando fundo, estufando e levantando rapidamente do sofá, indo em direção à porta.
– Sasuke – a voz de Yahiko me fizera parar, sem realmente virar para trás para olhá-lo. Eu já sabia o que ele ia falar – Tudo vai dar certo.
– Obrigado – foi o que eu disse, antes de abrir a porta com tudo e dar de cara com Kakuzu, que me encorajou com o olhar.
– Espere, Sasuke – Yahiko gritou e eu olhei para trás – não vai levar sua mochila?
– Não, obrigado.
Olhei para a casa ao lado vi e meu pai já havia entrado. Acenei com a cabeça para o mais velho e então praticamente corri. O gramado molhado abaixo de meus pés causara um som estranhamente melódico, mas isso não importava mais. Posicionei-me diante da porta e apertei a campainha, respirando fundo e guardando o ar dentro de mim, talvez com medo de não conseguir respirar quando estivesse cara a cara com Fugaku.
A movimentação dentro da casa não passou despercebida por mim. Minha mãe, provavelmente eufórica, feliz demais por agora ter certeza de que nossa conversa não fora apenas um sonho e por ter certeza de que eu voltei. Meu pai, confuso demais por toda a movimentação e euforia de Mikoto.
A porta abriu e eu recebi um sorriso quase que gigante de minha mãe, que se aproximara de mim e acabara por me abraçar com força. Como se este fosse nosso primeiro encontro novamente. Eu a abracei e com uma das mãos afaguei os cabelos negros e lisos da mesma, querendo mostrá-la através deste gesto que eu voltei. Que eu estava ali, que eu sou real.
A progenitora apenas olhou para mim e sorriu com lágrimas nos olhos, quando eu apenas pude sorrir para ela. Infelizmente, eu me dei conta da situação real quando olhei para frente e vi meu pai paralisado, olhando para a cena. Sua expressão indecifrável continuava ali e quando encarei seus olhos ônix eu finalmente soube: ele continuava tão intolerante quanto antes. Ele não havia mudado nem um pouco.
Soltei Mikoto e, tirando os sapatos para não molhar o piso, adentrei na casa em passos curtos e objetivos, ficando a apenas 1 metro de meu progenitor.
– Você é o Sasuke – ele disse, sua voz grave acabara por me lembrar de Itachi, não apenas por isso, mas também pela mesma marca de expressão que meu irmão tinha.
– Sim – eu disse, colocando as mãos sobre os bolsos do casaco cinza que trajava, encarando meu pai sem nem mesmo piscar direito.
Ficamos algum tempo assim. Ficamos nos olhando, sem dizer qualquer palavra sequer. No fim, falar com ele não seria tão fácil quando falar com minha mãe, que já era receptiva naturalmente. Itachi herdara isso dela, mas eu herdara de meu pai dois de seus maiores defeitos: a teimosia e o orgulho.
– Fugaku! – minha mãe o repreendia pela falta de palavras, ficando entre nós dois – É ele! Nosso Sasuke voltou! Fale alguma coisa!
Pude observar ele fechar o semblante para Mikoto e depois encarar-me com raiva.
– É. Ele voltou – ele disse com uma enorme indiferença. Como se falasse com um objeto inanimado – mas já está indo embora.
– Como assim? – Mikoto perguntou, também com raiva. Quando eu era criança, era difícil minha mãe enfrentar meu pai, mas felizmente alguém nessa equação mudou – meu filho não vai a lugar algum. Ele finalmente voltou e eu não o deixarei escapar desta vez.
Sensibilizado, coloquei uma das mãos sobre o ombro dela, que se virou e sorriu para mim como se pedisse para que eu me acalmasse. Como já implorasse para que eu não partisse como Fugaku estava dizendo para eu fazer.
– Mãe, está tudo bem – eu a tranquilizei, tirando-a do meio com gentileza – eu não vou embora. Não sem conversar com ele.
Franzi o cenho, encarando meu pai. Ele me encarava da mesma forma e isso acabara por me fazer pensar que nós dois não éramos tão diferentes. Não da forma que eu pensei que fosse, mas isso não importava agora.
Fugaku precisou de alguns segundos, seus olhares alternando entre mim e Mikoto, provavelmente pensando se aquilo era realmente uma boa ideia, e eu não o culparia por isso. Ele deve estar assim como eu: cansado de tudo, confuso. Eu não fui o único que sofri com minha partida, aliás, não devo ter nem mesmo ideia do sofrimento que causei a eles.
– Fugaku, por favor – minha mãe pediu e, nesse momento, eu tive vontade de chorar – apenas ouça o Sasuke – ela suplicava agora, aproximando-se do marido – ele tem muito a nos contar.
Observei meu pai fechar os olhos e respirar fundo, soltando um suspiro alto que demonstrava cansaço e insatisfação no que estava por vir.
– Está bem – ele concordou – irei ouvir o que tem para me dizer.
Alívio. Foi o que senti quando ele finalmente concordou, mas outra ansiedade tomou conta de mim nesse momento: a de contar tudo. Sobre Itachi, Keiko, Asako e minha internação na psiquiatria. Suspirei.
Meu pai começou a andar, sendo seguido por mim e minha mãe. Fomos até a cozinha novamente. Meus pais sentaram um ao lado do outro e eu contornei a mesa, sentando-me de frente para eles.
Fechei os olhos e fiquei assim por alguns segundos, respirando pelo nariz e soltando pela boca, tentando me acalmar para começar a próxima etapa, mas havia um problema: eu não fazia ideia de como começar.
– Sasuke? – minha mãe perguntou e eu abri os olhos, decidido. Eu começaria como todos: pelo início.
Juntei as mãos sobre a mesa, apertando-as com força, tentando arrancar pela dor a coragem para começar.
– Eu não sei se consigo encontrar palavras suficientes para dizer como eu me sinto agora, mas, sei bem definir o que senti 8 anos atrás quando fui embora – comecei, meu pai franziu o cenho novamente — vocês se lembram de nossa briga, quando descobriram o que aconteceu?
Meus pais se entreolharam. É claro que eles lembrariam dessa parte perturbadora que ambos compartilhávamos em nossa vida.
– Se você fosse um pouco mais responsável, isso não teria acontecido! Se... Se você ao menos tivesse escutado seu irmão, ele estaria aqui agora! – minha mãe dizia aos prantos, entre soluços, sendo praticamente segurada por meu pai para não cair no chão.
– É, eu deveria tê-lo escutado, já que ele é o único que realmente se importaria em me aconselhar enquanto vocês se atolam nas próprias brigas. Se eu precisei sair, foi por culpa de vocês, que preferem brigar do que resolver os próprios problemas! Que preferem as dívidas ao invés de passar um tempo com os filhos – eu gritei e minha mãe encarou-me totalmente horrorizada, enquanto meu pai parecia enfurecer-se ainda mais comigo — Se vocês tivessem me aconselhado, eu teria escutado – as lágrimas tomaram conta de meus olhos e eu mesmo já não me aguentava em pé.
– Pois então, ouça este meu conselho – meu pai disse, sua voz grave e fria fizera com que eu morresse por dentro – Saia daqui. Agora.
Meu pai continuava com aquele olhar severo, mas este, com o tempo, adquiriu um pouco de sofrimento e remorso.
– Você me pediu sair, foi o que eu fiz – eu disse, quando o vi unir as sobrancelhas e encarar-me novamente.
– Não coloque a culpa de sua imprudência em mim – sua voz aumentara de tom e eu tive que sorrir – uma parte de mim e de sua mãe havia acabado de morrer. Você queria que fossemos tolerantes e compreensivos?
Neguei com a cabeça e aquilo o impressionou.
– A culpa não foi de vocês – expliquei e ambos continuaram a me encarar confusos – a culpa foi minha, de acreditar no que vocês disseram.
– E nós estávamos mentindo? – Fugaku perguntou, a ironia era notável em sua voz
– Não – quando eu disse isso, ele deu um riso nasal – na verdade, até um tempo atrás eu ainda acreditava nisso. Ainda acreditava que eu era o culpado pela morte do meu irmão, mas uma pessoa me mostrou a verdade.
– Verdade? – Minha mãe perguntou, curiosa.
– A verdade é que o Itachi preferiu morrer a me ver morto – os olhos de minha mãe encheram-se de lágrimas novamente e então eu vi meu pai segurar-lhe a mão – não houve escolha fácil nesse dia, já que um de nós sairia morto. Infelizmente quem sofreu com isso foi Itachi.
O silêncio perdurou por um tempo na cozinha. Eu não sabia bem o que dizer e talvez meus pais estivessem digerindo totalmente tudo o que haviam escutado de mim. Pensando se agiriam de maneira positiva ou negativa. Felizmente, não estou esperançoso quanto a isso nem espero que eles sejam compreensivos, apesar de saber que Mikoto seria.
Mas, não é como se eu esperasse que Fugaku fizesse o mesmo.
– Olha, eu não estou aqui esperando que vocês simplesmente me aceitem de volta de braços abertos – meu pai arqueou uma das sobrancelhas, enquanto minha mãe arregalou os olhos – Primeiro porque eu não me aceitaria. Segundo porque eu não poderia ficar, eu só...
Fechei os olhos e suspirei, colocando uma das mãos na testa e lembrando-me do que passei há 2 semanas atrás e da angústia que ainda tenho por não saber o motivo de Sakura ter ido embora. De alguma forma, essa ação acabou por me fazer pensar e tirar a conclusão de que ela foi egoísta por ir sem me contar o motivo. Assim como eu fui egoísta quando fugi de casa sem dar qualquer satisfação aos meus pais.
Quando Sakura fez aquilo comigo, senti na pele parte do que meus pais devem ter sentido quando fiz a mesma coisa.
Frustração. Angústia. Raiva. Tristeza. Culpa.
Abri os olhos e encarei o rosto de minha mãe, confusa, e a feição indecifrável de meu pai.
– Só acho que vocês mereciam saber o motivo de eu ter ido embora. Saberem que a culpa não foi de vocês, e sim minha – expliquei, apertando as mãos uma na outra novamente – não quero que se martirizem, nem que sofram mais por nada do que eu disse ou fiz – vi minha mãe morder o lábio e agora meu pai colocava um dos braços sobre os ombros da mesma, a abraçando – Eu não fui culpado pela morte do Itachi, nem tenho peso algum na consciência, mas o peso de ter ido embora sem dar satisfação alguma de minha vida pra vocês ainda estava sobre meus ombros.
– Isso quer dizer que... – minha mãe começou, mas eu a interrompi.
– Quer dizer que agi por impulso. Que fui egoísta e que carrego em mim a culpa do sofrimento de vocês dois – sorri de canto ao perceber que eu estava praticamente sambando em cima do meu orgulho – quero dizer que nada justifica meus atos, que estou arrependido e que já colhi, e muito, pelo sofrimento que lhes causei.
– Sasuke... – ela tentou me interromper, provavelmente sabendo sobre o que eu estava falando e tentou falar, querendo contar ao meu pai, mas eu não deixei que o fizesse.
– Me desculpem.
Observei o homem moreno de cabelos lisos, meu progenitor, suspirar e fechar os olhos. As mãos sobre as têmporas indicavam o quanto estava pensativo e que provavelmente não sabia o que fazer sobre tudo o que eu havia dito.
– Mikoto, por favor, fique aqui – meu pai disse, levantando-se e indo em direção ao corredor – Sasuke, venha atrás de mim.
Assenti com a cabeça e o segui. Fomos até o segundo andar novamente e, olhar meu pai dessa maneira me fez lembrar de mim mesmo quando pequeno e sentir pouco da admiração que sentia por ele.
Entramos no quarto das fotos de família e ele fechou a porta com uma calma que eu achava não existir no mundo.
– Pai... – eu o chamei, mas ele levantou uma das mãos como se dissesse para que eu me calasse.
– Eu entendi – ele fez uma pausa e isso fez com que eu arqueasse uma das sobrancelhas – entendi o que quis dizer, mas, você acha que apenas se desculpar vai apagar tudo que eu e principalmente sua mãe vivemos?
– Eu não poderia fazer isso! – Exclamei e acabei vendo que isso o irritou – eu não quero que sofram mais! Pelo menos não por isso!
– E você precisou de oito anos pra se lembrar de nós?! – sua voz subiu uma oitava – Precisou de oito anos pra se dar conta de que deixou eu e sua mãe na merda? – ele deu um soco na porta e aquilo me assustou.
O silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos e então eu pude ver Fugaku suspirar, passando a mão pelo rosto.
– Nunca é tarde para se arrepender. Você pelo menos tomou a iniciativa de vir até aqui e pedir desculpas, e eu respeito isso – ele disse, colocando as mãos nos bolsos dos jeans surrados que usava – mas eu não posso deixar você se aproximar de nós para ir embora de novo, Sasuke – vi meu pai com lágrimas nos olhos e aquilo me fez chorar. Errei em minha suposição. Eu não conheço nem mesmo um pouco da dor deles – Seria demais pra mim e pra sua mãe. Nós não aguentaríamos perde-lo novamente, mesmo depois de recuperá-lo.
– Eu entendo – eu disse, cabisbaixo – então isso quer dizer que...
Fui interrompido por um baque forte na porta. Minha mãe havia entrado totalmente raivosa e carregava uma coisa que me deixou ainda mais surpreso.
Minha mochila.
– Mãe, o que você...- fui interrompido.
– Fugaku, você precisa parar com isso – ela gritou, respirando ofegantemente. Seu olhar carregava uma fúria que eu nunca havia visto – tem que se dar conta do que acabou de acontecer aqui!
– Mãe, espe...
– Cale a boca, Sasuke – ela ordenou e eu arregalei os olhos, surpreso – Fugaku precisa saber de algumas coisas antes de tomar a decisão final e, se você não contar, eu contarei.
– Do que está falando? – ele perguntou e eu fiquei, de certa forma, extasiado por saber o que ela estava prestes a fazer.
– Estou falando disso – ela disse, abrindo a mochila e tirando o retrato com Keiko, Asako e eu, entregando-o para Fugaku.
Ele o pegou e analisou rapidamente, olhando para mim e novamente para o retrato, tentando assimilar toda aquela informação que o atingiu rapidamente e com força, como um soco.
– O que... – Ele olhou para o retrato e para mim novamente – Sasuke, você é casado? Essa garotinha, ela...
– Elas estão mortas, Fugaku – minha mãe novamente jogou a informação pra ele – você não percebe o que aconteceu aqui? – ela se aproximou de meu pai que ainda olhava completamente atônito para o retrato, colocando ambas as mãos sobre os ombros dele – Ele veio aqui tirar o nosso sofrimento, mesmo estando repleto dele – Mikoto fechou os olhos e suspirou, dando um sorriso sôfrego – Ele veio nos ajudar com a nossa dor e agora precisa da nossa ajuda!
– Mãe, não precisava disso – eu disse, sentando-me no chão, sem saber o que realente fazer sobre essa situação.
Meu pai continuava ali. Paralisado. Estático. Impressionado.
– Precisava sim, filho – ela tirou o retrato das mãos de meu pai e estendeu para mim, que peguei com certo receio – ele não podia te mandar embora sem saber de toda a história.
– É exatamente por isso que não precisava, mãe – eu disse, olhando para os rostos felizes naquele retrato e sorrindo triste – não queria que meu pai tomasse uma decisão baseada na pena que ele ia sentir de mim.
O mesmo, que estava sem pronunciar-se até agora, decidiu falar.
– Porque não pode ficar aqui? – ele perguntou e eu desviei o olhar do retrato para o mesmo, confuso.
– Como assim?
– Você disse lá embaixo que em segundo lugar, não ficaria aqui porque não podia – ele explicou e eu lembrei de que realmente tinha falado isso – qual o motivo?
Suspirei. Eles realmente me fariam falar tudo sem eu querer fazê-lo.
– Não posso ficar porque estou internado – ambos olharam para mim de olhos arregalados – meu médico me deixou viajar porque é um amigo meu, mas ele me deu apenas 4 dias.
– Internado? Você está doente? – Mikoto perguntou, completamente preocupada – internado porquê?
– Eu tentei me matar.
Depois disso, a única coisa naquele quarto fora o silêncio, mas isso não durou muito porque o barulho do corpo de minha mãe contra o chão pareceu quase que ensurdecedor.
Era a segunda vez em dois dias.
Ela havia desmaiado. De novo.
***
Estávamos sentados na mesa, nós três. Meus pais tomavam suco e comiam pão, enquanto eu era servido de uma porção de tomates frescos.
– Preciso entender – meu pai disse, chamando a atenção – você fugiu, se casou, teve uma filha, elas morreram, você tentou se matar e está internado numa psiquiatria?
– Você esqueceu de falar que eu bebia – o lembrei – mas, sim.
– Filho, você entende agora que se matar não é o caminho certo? – Mikoto perguntou e eu assenti com a cabeça – você só precisa recomeçar, meu amor. Você se tornou um homem lindo, tem um bom emprego, não é difícil.
– É sim, mãe – eu respondi num suspiro sôfrego – é muito difícil.
– Só se você encarar dessa forma – ela sorriu pra mim, encorajando-me – filho, você não precisa desvencilhar-se do passado. Você precisa aprender a conviver com ele.
Sorri para ela, mesmo sem entender como eu conseguiria fazer isso. Talvez fosse impossível para mim.
Encarei meu pai que tomava seu suco sem dizer nada, quando o mesmo pigarreou.
– Me passe o número de telefone do seu médico – ele tirava o celular do bolso, já se preparando para a discagem.
– Hm? Para que? – perguntei.
– Você vai passar um tempo conosco.
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