O Lado Bom da Vida
21 Open Your Heart
Notas iniciais
O cheiro de flores era completamente incômodo, assim como o barulho da terra sob meus sapatos. O clima nublado era, de certa forma, propício ao momento. Andando por entre os túmulos, coloquei uma das mãos nos bolsos do blazer negro que trajava, já que o vento frio me causara um arrepio intenso. Na outra mão, carregava um pequeno ramalhete de diversas flores vermelhas.
Há muito não visitava o cemitério. A última vez havia sido no enterro de minha esposa e filha e, depois disso, nem mesmo voltara no lugar para checar como estava.
Humpf, eu sou um desnaturado. Mas a culpa não era apenas minha. Não era como se eu pudesse sair da psiquiatria a hora que eu quisesse. Enfim, acho que não estou aqui para refletir sobre as regras daquele lugar, muito menos iludir-me ou culpar qualquer um por não me deixarem sair.
Eu vim agradecer.
Coloquei-me em frente ao túmulo levemente empoeirado e encardido de terra, coberto por algumas flores murchas. Tirei-as de lá e coloquei as que eu havia trazido, passando a mão sobre o epitáfio e tirando a pequena camada de poeira localizada também sobre a foto daquele que ali repousava em sono eterno.
Meu irmão.
Fechei os olhos e suspirei, passando lentamente os dedos pela foto dele ali como se aquele ato fosse um último gesto de carinho que eu não tivera a oportunidade de fazer. Como se ele realmente pudesse sentir que eu estava ali. Que eu não havia me esquecido dele, como o mesmo afirmara no sonho.
– Bom dia. São 10h 40min de uma manhã de domingo e fico feliz em poder finalmente dizer afirmar: eu voltei – falei, sorrindo triste – Sabe, Itachi, muita coisa aconteceu comigo desde que você morreu. Me mudei para Los Angeles, a cidade onde papai e mamãe se conheceram, e sabe de uma coisa? É uma cidade maravilhosa. Terminei meus estudos com louvor, fiz faculdade e me formei com honras, mas não posso negar que os tempos foram difíceis. A época de faculdade é a melhor da vida de um jovem, mas só se ele puder conciliar as coisas, você devia saber bem disso. Você sempre foi mais centrado e mais inteligente do que eu, mas já devo tê-lo ultrapassado depois de tanta prática – dei uma leve risada, passando as mãos pelo rosto e desgrenhando os cabelos – quando me formei, conheci minha falecida esposa na festa de formatura e devo dizer que não demorei para me apaixonar por ela e ela por mim. Me casei jovem e fui pai jovem também. 21 anos, para ser exato. Elas foram as melhores coisas que me aconteceram depois de você e... Você está cuidando delas, certo? Sei que está
Um nó formou-se em minha garganta e eu acabei por engolir a vontade repentina que tivera de chorar. Havia prometido a mim mesmo que não choraria mais, afinal, ele morreu para que eu tivesse uma nova oportunidade de felicidade, não para que eu ficasse chorando toda vez que me lembrasse dela, ou delas. Aliás, prefiro abastecer-me apenas de sorrisos quando lembrar-me de meu irmão, esposa e filha.
– As coisas estão melhores entre eu, mamãe e papai. Descobri que nesse tempo em que eu fiquei fora, eles se uniram de uma forma tão intensa que provavelmente eu nunca vi outro casal igual a eles. Papai ligou para o Kakashi e pediu que ele deixasse eu ficar aqui em casa por, pelo menos 1 mês, mas ele não permitiu. Deu-me apenas duas semanas com minha família, mas tudo correu bem – sorri, lembrando-me dos momentos nostálgicos que passei com os velhos nas últimas duas semanas — Você fez muito mais do que mudar minha vida – comecei a falar, fechando os olhos por alguns segundos e suspirando – você me amou incondicionalmente quando eu pensei que estava esquecido. Lembrou e se preocupou comigo quando nem eu mesmo o fazia, você...
Fui interrompido pelo barulho de buzinas vindas do carro de meu pai. Pedi que ele e minha mãe esperassem no carro enquanto eu tinha uma pequena conversa com Itachi, mas Fugaku havia me alertado que eu não poderia demorar muito. Eram exatos 50 minutos até o aeroporto e se demorássemos ali eu poderia perder o meu voo para Los Angeles.
Ergui um dos braços juntamente ao dedo indicador, pedindo aos meus pelo menos mais um minuto para, pelo menos, despedir-me de meu irmão de forma apropriada.
– Sabe... – sorri, dando um riso nasal – eu nunca pensei que minha vida seguiria pelo rumo que seguiu, e não posso mentir pra você. Se me perguntassem se eu tenho arrependimentos, diria que sim, apenas um: me arrependo de não ter ouvido você. De não ter escutado seu conselho e, se eu pudesse voltar atrás tendo a certeza de que ouvir seu conselho me daria mais tempo com meu irmão mais velho, eu não pensaria duas vezes. Você é o homem que eu idealizo ser no futuro, a pessoa que mais admiro e que me rendeu os momentos mais felizes de minha vida – suspirei e limpei algumas lágrimas que teimaram em cair, mas, ainda assim, continuei sorrindo – eu te amo.
Meu pai buzinou novamente e desta vez não contestei. Tratei de passar as mãos molhadas pelo jeans escuro, limpando-as, e então corri até a moto que estava ao lado do carro de meus pais. Eles iriam comigo até o aeroporto para despedir-se. Subi na moto e fiquei com o capacete em mãos, enquanto meu pai abaixava o vidro do carro para falar comigo.
– Está tudo bem, filho? – ele perguntou, sua feição preocupada não passou despercebida por mim.
– Estou bem sim – coloquei um sorriso, mesmo que curto, no rosto – é melhor nós três irmos, ou eu posso acabar perdendo o voo e Kakashi com certeza me mataria se eu ficasse mais tempo fora.
***
Coloquei, não apenas uma, mas duas mochilas na esteira enquanto terminava o check-in para entrar no avião. A segunda mochila foi cheia de presentes que meus pais insistiram em me dar, mesmo comigo dizendo que aquilo tudo já não era mais necessário. Entreguei meus documentos para a moça do check-in conferir e peguei minha passagem, segurando-a firme em minhas mãos.
– Bom, é isso – olhei para meus pais e minha mãe já tinha até mesmo lágrimas em seus olhos – mãe, não precisa chorar. Não vai ser como da última vez, eu prometo que vou ligar e manteremos contato.
– Mas, filho... – Mikoto fungou e aquilo fez com que eu soltasse um riso nasal, indo até minha progenitora e abraçando-a com força – você precisa nos ligar, sempre! Se precisar de algo, se não precisar, quando estiver no banheiro... eu não vou me importar! Apenas ligue.
Ao ouvir o que minha mãe disse, Fugaku riu e eu acabei por rir também, enquanto ela me abraçava com força.
– Ele vai fazer isso, Mikoto – meu pai disse, enquanto eu comecei a afagar os cabelos negros de minha mãe – Sasuke é um homem que, agora, parece que sabe o que faz.
Olhei meu pai com as sobrancelhas unidas, sabendo que aquela frase fora uma pura zombaria dele comigo, mas não revidei. Pra falar a verdade, é quase que revigorante estar na presença de meus pais e agir dessa maneira. Sorri ao perceber que Fugaku também abraçara Mikoto e nós três ficamos assim, abraçados, por algum tempo. Parecia que o tempo era alheio a nós três, mas sabíamos que isso não era verdade e que a hora de eu partir estava próxima, e então nos separamos.
– Filho, lembre-se do que eu disse, certo? – ela passou o polegar pelas bochechas, limpando-as – Recomece. O segredo não é esquecer o passado, mas aceita-lo e apender a conviver com ele.
– E, já que ela está lhe aconselhando, eu darei o conselho que todo o pai sempre dá ao filho – ele fez uma pausa e deu um sorriso de canto típico dos Uchiha – ouça sua mãe.
Sorri junto a ele e então o abracei, dando aqueles tapinhas masculinos em suas costas.
– Obrigado por tudo – sorri e então direcionei-me até a fila para entrar no avião.
Eu me despeço de Calgary e de meus pais com um sorriso satisfatório e agradecido no rosto. De fato, posso dizer que nos últimos meses eu não tenha tido boas escolhas, mas sei que vir até aqui fora, talvez, a primeira escolha realmente boa que eu tenha feito sozinho e em total lucidez, afinal, reencontrei amigos que há muito não via e me reconciliei com minha única família de sangue ainda viva.
É, fora realmente recompensador.
Entreguei minha passagem para a aeromoça e fui até meu assento não tão confortável assim na segunda classe, ao lado da janela. Quando o avião começou a levantar voo e eu comecei a ver a cidade de Calgary ficar para trás aos poucos, uma voz que há muito eu não ouvia invadiu minha mente.
“Ah, essa cadeira é horrível! É muito des... desc... desconvortabo”
Quando ouvi isso, fechei os olhos e esbocei um sorriso triste, tendo a certeza de que quando eu chegasse em Los Angeles teria outro lugar para visitar.
***
O voo seguiu sem problemas. Não houvera turbulências e acabamos chegando antes do previsto, o que fora realmente bom.
Passei pela alfandega sem problemas e peguei minhas duas mochilas na esteira, correndo com certa pressa até a saída do aeroporto para encontrar um taxi. Coloquei minhas mochilas no porta malas e sentei-me num dos bancos de trás do carro, dando instruções para o motorista seguir direto para o Cemitério Nacional de Los Angeles.
O motorista já era um senhor de cabelos grisalhos. Usava óculos quadrados e negros, e tinha diversas pintas no rosto de pele bronzeada. Aparentava ser um senhor simpático.
– Certo – ele disse, ligando o carro e começando a dirigir – o tempo está estranho, não concorda? Parece até que vai chover.
Ah, um taxista simpático e tagarela.
– É, parece – eu disse, olhando para o céu pela janela e percebendo o tempo parecia fechado — Espero que não chova quando eu estiver no cemitério – pensei alto e isso pareceu atiçar a curiosidade do velho.
– Quem você perdeu? – ele perguntou e recebeu de mim um olhar de incômodo – Oh, me desculpe. Minha esposa está enterrada neste mesmo cemitério, sabe? Eu a perdi há mais ou menos 4 anos, mas ainda sinto muito a falta dela – observei o sorriso do senhor, enquanto ele me contava sobre a vida dele – Ela costumava trazer pães frescos e quentes para mim e minha filha toda manhã, aliás, ela era padeira. Uma profissão que eu com certeza não recomendo! É muito trabalhoso, além do mais, ela...
Ah, a proeza que a maioria dos taxistas tem é a de falar demais quando não estamos interessados em ouvir. Na verdade, não é que eu não estava interessado em ouvir sobre a vida dele, eu só não estava com cabeça pra isso agora.
Quando o taxi passava pela rodovia, uma espécie de ansiedade surgiu na boca de meu estômago e eu acabei por me encolher no banco do carro. Eu estava indo para o túmulo de Keiko e Asako, afinal. Quem sabe o que aconteceria comigo ali? Fechei o punho com força, sabendo que eu não poderia fraquejar, não agora. Elas contavam com minha recuperação, e Itachi também.
Não posso decepcioná-los.
Observei a paisagem pela janela do carro e então, curiosamente, lembrei-me de Sakura. De quando ela havia me questionado sobre parecer que, quem na verdade está correndo é a paisagem, e não o carro. Suspirei. Aquela lembrança estava mais do que fresca em minha memória, e eu já não sabia mais como reagir a ida dela embora.
Como Sasori mesmo disse, eu fui um egoísta ao ter aquela reação, mas não pude evitar a frustração. Eu merecia explicações, não só pela ida dela, mas pelo dia anterior a isso. Ela havia me visitado, desabafado e então me beijou e... Ah, só pensar nisso já me deixa estranho.
Balancei a cabeça para espantar esses pensamentos, tentando me concentrar na voz do taxista.
– ... E, meu filho, nunca coma tanto repolho recheado, viu? Aquele dia eu tive uma diarreia das bravas e fedidas... – não pude conter a cara de nojo. Entre pensar em Sakura e ouvir sobre os problemas estomacais do motorista, não pensaria duas vezes para saber qual a melhor opção.
Suspirei novamente e tentei me manter alheio sobre tudo, contando os segundos para chegar logo ao meu destino e, graças a Deus, não demorou muito mais para que chegássemos.
– São 29 dólares – ele disse, enquanto eu abria a carteira para pegar o dinheiro – me desculpe se falei muito, sabe como é, né? É difícil encontrar um bom ouvinte.
– Tudo bem – entreguei o dinheiro e saí do carro, indo até o porta malas e pegando minhas duas mochilas – obrigado pelo serviço.
Acenei com uma das mãos, despedindo-me do taxista. Logo, virei-me para a entrada do cemitério e suspirei, colocando uma mochila em cada ombro, agradecendo a Deus por não estarem pesadas.
O tempo continuava fechado, mas nada comparado ao que se passava em minha mente agora. Andei lentamente até o cemitério, passando pela recepção e percebendo o quanto aquilo tudo estava vazio. Fui até a recepcionista.
– Seu nome? — ela perguntou.
– Sasuke Uchiha. Vim visitar Keiko e Asako Uchiha – respondi, já adiantando as informações.
– Eram sua esposa e filha, certo? — perguntou e eu assenti com a cabeça – túmulos 2877 e 2878.
– Obrigado – agradeci e fui em direção aos túmulos.
Era estranho olhar e saber que pessoas que já foram parte de mim estavam enterradas naquela imensidão de corpos sem vida. Fileiras e mais fileiras de pessoas que já fizeram ou não coisas significativas enquanto tinham vida. Pessoas que já tiveram sua importância, outras nem tanto.
Andar por entre os túmulos acabara por me fazer pensar nos desejos fúteis que a maioria das pessoas tem: poder, status, dinheiro. Pessoas que pensam que essa é a verdadeira felicidade. Humpf, iludidos.
Afinal, de que adianta adquirir tanto poderio financeiro, se quando baixarmos sepultura tudo ficará aqui? Muitos que estão aqui, enterrados, preocuparam-se demais com o trabalhar, com o conquistar, que acabaram por perder o viver. Afinal, a morte é a única certeza da vida, certo?
Se essa é a única certeza, qual a dificuldade que as pessoas têm em viver?
Posicionei-me entre os túmulos de número 2877 e 2878 um pouco ofegante por causa da caminhada carregando mochilas, lembrando-me que eu nem mesmo trouxera flores para elas e então sorri. Já era a segunda vez que eu estava conversando com gente morta no mesmo dia, seria este o momento de voltar logo para a psiquiatria e me internar?
– São quase 17 da tarde, me desculpem por demorar – eu disse, olhando o epitáfio de ambas e repetindo o ato de limpá-los com a mão, limpando depois a mão na calça – eu finalmente vim aqui e acho que, se estivessem vivas, estariam orgulhosas de mim – sorri, as lágrimas já inundando meus olhos – as coisas mudaram muito depois que vocês morreram, mas acho que as decepcionei em muitos aspectos. Eu desisti de viver, voltei a beber e magoei pessoas que eram muito importantes pra mim, inclusive vocês. Sério, me desculpem por tudo isso, mas eu acho que amadureci. Claro, eu tive ajuda – sorri, passando as mãos pelo rosto, tirando as poucas lágrimas que caíram – eles me acolheram quando eu estava agindo como um idiota insuportável.
Sorri, o olhar caído para meus pés que chutavam a grama sem força, enquanto eu coloquei ambas as mãos nos bolsos do blazer.
– Sabe o que é incrível? Naruto vai ser pai, e eu estou muito feliz por ele. É um garoto, vai se chamar Boruto e eu tenho certeza de que ele e Asako seriam amigos se ainda estivessem aqui – mordi o lábio inferior, prendendo o nó que aparecera em minha garganta – eu conheci pessoas incríveis nesses últimos 5 meses, acreditam? Komuro e Ino são pessoas engraçadas que sabem jogar vôlei muito bem. Além disso, soube que Hinata aprendeu a domar aquele loiro idiota e nós nos aproximamos mais, depois de tudo... Kakashi continua o mesmo desgraçado de sempre, mas ele me ajudou muito, em diversos aspectos. Eu também consertei as coisas com meus pais e saibam que sinto muito ter feito isso tarde demais... Eles adorariam ter conhecido vocês e tenho certeza de que esse sentimento seria mútuo se vocês ainda estivessem aqui – passei novamente a mão pelo rosto, desta vez apertando um pouco os olhos que doíam pela vontade de chorar – eles fizeram de mim um novo Sasuke, que eu tenho certeza de que vocês aprovariam.
Lembrar de todas essas coisas acabaram por me fazer pensar em Sakura novamente e em como ela, acima de todos, me ajudou mesmo quando eu não queria ser ajudado. Desde o começo, com sua simpatia, conselhos, ela foi uma das poucas pessoas no mundo que conseguiu ler através de mim. Que conseguiu ver a dor em meu ser e me tratou. Que me fez ter vontade de lutar, de ver a beleza nas coisas mais simples que existem e apreciar melhor minhas amizades.
– Keiko, Asako – dei um riso nasal – não existe lado bom para a morte, nem mesmo consequências. Apenas atos têm isso e, não tenho certeza se me arrependo de ter feito tudo o que fiz. Meus atos me renderam conhecer todas essas pessoas, assim como a pessoa que mais me ajudou. Sakura é uma boa mulher. Ela conseguiu me fazer contar coisas que eu não contei nem mesmo para o Naruto, e vocês sabem como ele é insistente quando quer algo, mas... – fechei os olhos, sentindo lágrimas caírem novamente enquanto o vento gelado batia em meu rosto, espalhando-as – eu não sei mais o que sinto por mim mesmo. Não sei mais o que sinto por ela... – respirei fundo e olhei para o céu, observando as nuvens negras andarem de acordo com o vento — É, as coisas mudaram muito desde que vocês morreram, mas as coisas também continuam as mesmas. Sabe, custa pra mim admitir, mas este é o ciclo da vida. O mundo não para quando alguém morre, mas o meu mundo parou quando vocês se foram e eu sei que isso pode ser considerado aceitável, mas... Não me sinto culpado em admitir que meu mundo voltou a girar quando eu a conheci, e tenho certeza de que vocês também não sentirão raiva de mim... Quer dizer, vocês me conheciam melhor do que todos e... – suspirei – Keiko, Asako, eu acho que gosto dela.
– Está falando da Sakura? – uma voz conhecida me assustou e então eu olhei para trás ainda com lágrimas nos olhos, constatando uma cabeleira grisalha que me olhava sorridente – pelo visto, sim.
– Kakashi? O que faz aqui? – perguntei, realmente curioso.
– Vim visitar minha mãe e acabei o vendo aqui, então decidi vir cumprimenta-lo e oferecer também uma carona – explicou, e eu passei as mãos pelo rosto, limpando-o.
– Ah sim, eu aceito a carona – disse, virando-me novamente para os túmulos e olhando uma última vez as fotos delas – vamos?
– Claro, mas... Por que me chamou de desgraçado? – ele perguntou e então eu ri. Parece que ter falado aquilo tudo havia me deixado muito mais leve.
Fomos até o conversível de Kakashi que desta vez estava coberto, provavelmente por causa da ameaça de chuva. Entrei no carro, sentando-me no banco do passageiro e Kakashi como motorista, é claro. Ligou o carro e começou a dirigir, provavelmente voltando para a psiquiatria. Eu provavelmente voltaria a ter minhas terapias com Kabuto ou algum outro psicólogo que ele tenha contratado para ocupar o lugar de Sakura.
Era engraçado o fato de eu e Kakashi sermos tão amigos mesmo sem nos falarmos muito. Talvez essa amizade seja derivada de nossas personalidades estupidamente parecidas, mas eu estava realmente curioso e aquilo era de meu interesse, então não havia problema algum em perguntar.
– Kakashi, eu vou voltar a terapia com o Kabuto? – perguntei e pude ouvir um riso do mesmo – qual a graça?
– Você não vai mais precisar de terapia – ele anunciou e aquilo fez com que eu unisse as sobrancelhas, assimilando o que ele estava me dizendo.
– Isso quer dizer que...
– Exatamente. Estamos indo até a psiquiatria para te dar alta – ele sorriu enquanto dirigia – você vai poder voltar pra casa.
– Sobre isso... – eu comecei, e Kakashi teve um olhar curioso na face – preciso que me leve até um condomínio, no centro. Meu pai deu entrada num apartamento pra mim, e eu vou começar a morar lá a partir de agora – expliquei, e meu amigo sorriu compreensivo. Não faria sentido eu continuar morando naquela casa gigante, sendo que era apenas eu. Mudar para um apartamento era o ideal e seria melhor para mim também.
– Boa decisão. No seu lugar, eu faria a mesma coisa – disse, apoiando-me, e eu apenas sorri de canto em resposta.
Eu estava realmente feliz. Significa que poderei voltar ao trabalho, minha mente vai ficar ocupada tempo o suficiente redecorando meu novo apartamento e, faltam alguns dias para iniciar o mês de outubro. Está na hora de eu começar a enviar currículos para dar aula em faculdades em alguns dias da semana... Dedicar-me à física que eu tanto gosto, já que, agora que vou morar sozinho, meu custo de vida vai diminuir bastante.
Ficamos alguns minutos em silêncio, mas, como eu já disse muitas vezes, a mente é uma coisa realmente incômoda. Não escolhemos no que vamos pensar, e quando nos damos conta, já estamos pensando no indesejado por horas e horas. Fora o que aconteceu agora, mas eu decidi eliminar aquela questão de minha mente de uma vez por todas.
– Kakashi, porque a Tsuna ficou tão estranha na consulta coletiva? – perguntei, e as sobrancelhas de Kakashi arquearam-se, surpreso pela pergunta. Ele suspirou, fazendo um sinal negativo com a cabeça.
– Tsuna tem ninfomania.
– Ela é ninfomaníaca? Isso realmente existe? – perguntei, realmente surpreso. Sempre soube do distúrbio daqueles que desejam sempre o prazer sexual, mas nunca pensei que conheceria alguém que o tivesse.
– Sim, mas ela já está bem melhor. Quando ela havia chegado na psiquiatria, conseguiu se deitar com metade dos psiquiatras e psicólogos. Pensei que, mudando para profissionais de sexo feminino ela não seria tão efetiva, mas... – ele suspirou, e eu fiquei apenas ouvindo atentamente suas explicações – não deu certo. O caso dela era realmente sério, o corpo dela pedia por prazer e, no momento era satisfatório, mas depois... Isso fez com que ela entrasse num caso sério de depressão, pior do que o seu.
– Entendo... – eu disse, não sabendo realmente o que pensar de tudo aquilo.
O resto da viagem até a psiquiatria seguiu em silêncio. Não sabia bem o que sentia no momento: se era felicidade por finalmente poder sair da psiquiatria, se pensava no caso da Tsuna ou se fazia os dois.
Quando Kakashi estacionou na psiquiatria, finalmente começou a chover. Pulei para fora do quarto e corremos para dentro com pressa, pois a chuva seria forte. Cumprimentamos a recepcionista com aceno de cabeça e dirimo-nos até a sala de Kakashi. Ele imprimiu alguns papéis, carimbou-os e depois colocou sua assinatura em todos eles.
– Prontinho, esses são seus papéis de alta – ele pegou os papéis e bateu-os na mesa, uniformizando-os um em cima do outro – é só ir na recepção e entregar pra eles, apesar de eu achar mais prudente você ficar aqui até essa chuva cessar. Eu posso leva-lo até seu apartamento se você esperar o fim do expediente aqui.
– Obrigado – peguei os papéis, direcionando-me até a porta da sala – hm, eu vou arrumar minhas coisas no quarto, então. Além do mais, preciso falar com uma pessoa.
– Que pessoa? – ele perguntou, a curiosidade tomava conta de seu olhar.
– Sasori está em algum tipo de consulta?
***
Corri pelo corredor do quarto andar, procurando pelo quarto 589. Kakashi havia me dito que ele estava de folga das consultas hoje, então eu o encontraria no quarto, com certeza.
Olhava pela parede das portas de números ímpares.
575. 577. 579.
Cada número fazia meu coração palpitar e minha respiração acelerar. Precisava perguntar algo à Sasori, e de hoje não passaria.
581. 583. 585. 587.
Parei em frente à porta cujo número 589 estava entalhado e bati três vezes nessa, esperando que o ruivo a abrisse, mas ele não o fez. Ao invés disso, ele ficou parado na parte de trás da porta, esperando que eu fosse embora. Como sei disso? Eu vi a sombra dele.
Bati novamente e, dessa vez, mais forte.
– Não sairei daqui até você abrir essa maldita porta! Preciso lhe perguntar algo que só você pode me responder – disse alto, e então ele a abriu, encarando-me com expressão de poucos amigos.
– O que você quer? – perguntou, as sobrancelhas unidas e a voz grave aparentavam raiva.
– Como sua pintura dos olhos de Sakura foram parar em Procyon, uma galeria de arte na cidade de Calgary? – perguntei e então percebi que um sentimento de surpresa invadiram o olhar dele.
– Você estava em Calgary? – Perguntou, e eu assenti com a cabeça – esse estúdio era de meus pais, antes deles morrerem. Boa parte das esculturas de lá são minhas. Mais alguma coisa? – Perguntou com grosseria e eu neguei com a cabeça, logo, ele fechou a porta com força, deixando-me ali parado e atônito.
Legal, meu lugar preferido no mundo tinha o conceito de unir as pessoas, mas o dono do lugar odiava contato humano.
Que ironia do destino.
Suspirei, eu também queria perguntar-lhe sobre o que ele havia falar com Sakura, mas preferi deixa-lo sozinho. Lembrar-lhe de seus pais pode ter sido uma decisão ruim, por isso fui até meu quarto no segundo andar e comecei a arrumar minhas coisas dentro da mala. Eu finalmente sairia daquele lugar.
As coisa finalmente vão dar certo.
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