O Lado Bom da Vida
22 Oportunidade
Notas iniciais
E se o destino realmente agir a nosso favor?
– Ora, parem de falar besteira e me ajudem a arrastar isso – eu disse, emburrado, enquanto ia até a ponta de meu sofá bege, enquanto Naruto andava rindo até a outra ponta, me ajudando a arrasta-lo.
És uma bela tarde de sábado, onde eu, Naruto e Komuro estamos em meu mais novo apartamento terminando de ajeitar os móveis, enquanto Kakashi mexia com as instalações. Ele sempre entendeu de eletricidade e alegou que poderia fazer isso sem que eu chamasse um técnico, então deixei que ele o fizesse.
O apartamento é mediano. Tem uma sala grande, dois quartos – sendo um grande e outro pequeno -, um banheiro pequeno e uma cozinha média. Eu e Naruto terminamos de empurrar o sofá e então eu ergui as mangas de minha blusa cinza, passando o braço por minha testa pouco suada. Afastei-me um pouco do sofá, indo até o canto da sala para poder olha-la como um todo. O rack de fórmica amadeirada e escura já estava suspenso, encostado na única parede que tinha tom vinho no cômodo, enquanto Kakashi apenas instalava a TV em seu suporte. O sofá bege posicionado agora corretamente e um belo quadro de uma paisagem rural na parede que ficava de frente para a TV e, ao lado de cada ponta do sofá, duas poltronas da mesma cor. Engasguei com um suspiro preso quando Naruto e Komuro começaram a rir, provavelmente comentando sobre minha cara.
Sabe, não importa o quanto você seja um homem maduro, crescido e nem o quanto você já tenha sofrido na vida: se você se juntar com seus amigos, não importando de que sexo eles sejam, apenas besteiras sairão de suas bocas.
– Que cara era essa que estava fazendo, Sasuke? – Komuro provocou, direcionando a mim um sorriso zombeteiro – estava pensando na doutora Sakura?
– Acho que ele estava pensando que falta algo cor de rosa nessa sala – Naruto brincou e logo ambos começaram a rir.
– Há há há – fingi uma risada, tratando de colocar o máximo de ironia que eu podia em meu tom de voz – vocês não tem nada melhor pra fazer do que encher o meu saco? Ainda falta arrumar a mesa na cozinha – disse, acenando para que eles seguissem até lá. Eles o fizeram, mas ainda assim, rindo de mim.
Suspirei e contornei uma das poltronas, sentando-me nela. Estávamos assim desde as 10hrs da manhã. A única diferença era que, à essa hora, o apartamento estava completamente vazio e agora está cheio de móveis. Ainda não estava completo, mas de móveis eu já tinha o necessário.
– Perdido em seus pensamentos? – Nem havia notado que Kakashi já terminara de colocar a TV e liga-la, sentando-se no sofá ao lado da poltrona. As mangas da camisa social cinza que usava também estavam dobradas, o cotovelo apoiado no braço do sofá e o queixo apoiado na palma das mãos. O rosto com um sorriso malicioso – Pensando na...
– Nem termine a frase – eu o interrompi e ele deu um riso nasal.
– Só estou cumprindo o meu papel de amigo desgraçado – sua voz foi sarcástica e logo eu entendi que ele estava se referindo à quando eu o chamei assim no cemitério.
– Ah ta, e você ficou muito chateado com isso, eu imagino – também fui sarcástico e ele riu novamente. Paramos para ouvir o barulho de Naruto e Komuro arrastando a mesa da cozinha e logo Kakashi se apressou.
– Certo, vamos ao que interessa antes que os panacas voltem – ele, que estava olhando em direção ao pequeno corredor que levava à cozinha, voltou seu olhar sério para mim – o que você disse antes, é mesmo verdade? – uni as sobrancelhas, tentando entender o que ele estava perguntando.
– Sobre você ser um desgraçado? – perguntei e ele suspirou com decepção.
– Sobre gostar da Sakura – disse sem ânimo e eu apenas arqueei as sobrancelhas, surpreso com a pergunta que ele estava me fazendo.
– Qual o seu interesse nisso? – voltei meu olhar a ele, lembrando-me da época em que o desgraçado e a coisa rosa flertavam abertamente pelos corredores da psiquiatria. A rosada havia me dito que não tinham nada, mas isso não era por falta das tentativas de Kakashi – se me lembro bem, eu não sou o único que deveria ser zoado aqui por gostar de alguém – falei um pouco alto para que Naruto e Komuro ouvissem, mas estes apenas riam de algo que prefiro não saber o que é.
– E quem disse que eu gosto de alguém? – Kakashi perguntou e novamente eu estava surpreso – Se eu tenho algum interesse nessa história é unicamente por sua causa, meu querido amigo.
– Mas então... não entendo – disse sincero e Kakashi arqueou uma das sobrancelhas grisalhas, perguntando-me com o olhar o que eu não entendia – você não gosta dela, mas dava em cima dela porquê...? – Deixei com que a dúvida morresse no ar para que ele me respondesse.
– Você é mais jovem do que eu, mas quando se trata disso, você é bem tradicional – ele sorriu – não é preciso gostar romanticamente de alguém pra dar em cima, Sasuke. Achei que soubesse disso.
– Sinto muito por não ser um paquerador patológico – disse, usando mesma expressão que Sakura usara para se referir a ele. O grisalho apenas riu disso.
– Mas você ainda não respondeu minha pergunta – lembrou-me, e eu acabei por morder o lábio inferior.
– Não tenho certeza se sim... tenho muitas dúvidas sobre ela ainda e, Kakashi, eu ainda amo minha esposa. Ainda sinto a falta dela – eu disse e o desgraçado apenas sussurrou um entendo, dando aquele assunto por encerrado por enquanto. Não porque não queria mais falar abertamente disto, mas Naruto e Komuro haviam acabado de voltar da cozinha e, se ele falou disso apenas quando eles estavam ausentes, com certeza queria conversar sem interrupções e comentários idiotas.
– Missão cumprida, chefe – Komuro disse e sorriu, sentando-se na poltrona que ficava do outro lado do sofá – vamos fazer uma pausa? Que cômodo falta arrumar?
– Acho que só o quarto do Sasuke, né? – Naruto perguntou, sentando-se ao lado de Kakashi no sofá – só faltava a mesa na cozinha, a sala já está com o básico e o banheiro já estava pronto...
– Sim, mas no meu quarto não vai ser preciso fazer muito. Só colocar a televisão enquanto nós três montamos a cama – expliquei e suspirei – podemos descansar um pouco – logo ouvi um suspiro prazeroso deles, que esparramaram-se no sofá.
De fato, precisávamos descansar um pouco. Havíamos arrumado todos os cômodos da casa e nem mesmo comemos direito para repor as energias. Sem contar que, estou no quinto andar e o elevador não é grande o suficiente pra caber coisas como um sofá, então tivemos que subir e descer os lances de escada pra pegar móveis e eletrodomésticos de porte grande. Só pra carregar as poltronas a barra foi pesada, tenho certeza de que acordarei amanhã com o corpo completamente dolorido e, se eu não os tivesse chamado, não teria feito metade do que fizemos e ainda teria que gastar dinheiro com um técnico.
Tirei o relógio do bolso, vendo faltar 20 minutos para 16 da tarde. Acho que meia hora de descanso estava bom, já que para arrumar o quarto ia ser bem mais simples.
– E então, Naruto, como está a Hinata? – perguntei, tentando puxar algum assunto.
– Ah, ela está cansada – ele comentou de olhos fechados, colocando o braço sobre os olhos e deitando a cabeça no sofá – a barriga está pesando, e o Boruto não para de se mover. O garoto parece que puxou minha personalidade ativa e está com pressa de nascer – ele sorriu e isso fez com que nós também o fizéssemos.
– Se a criança puxar sua personalidade, Hinata vai ter que jogar muitas almofadas – comentei e Komuro caiu na risada, enquanto Kakashi apenas deu um riso nasal e balançou a cabeça em sinal negativo.
– Vocês dois não se cansam mesmo, em – Komuro comentou, mas logo mudou de assunto – o que pensa em fazer agora, Sasuke? Aliás, o que você fazia antes? Nem isso eu sei – ele fez a observação e eu sorri de canto.
– Gosto de arquitetura, mas não ficarei por muito tempo no ramo. Pretendo enviar currículos para faculdades e trabalhar como professor de física – expliquei para Komuro, que me ouvia com atenção – eu sempre quis ser isso e, agora que vou morar sozinho, serei um arquiteto independente e darei aula umas três vezes por semana.
Ele assentiu com a cabeça e logo o silêncio fora se instalando no lugar, fazendo com que ninguém se encarasse. Acho que estavam exaustos demais para puxar assunto ou fazer qualquer brincadeira que fosse, e isso é estranho. Estranho não ter assunto com os amigos, mas eles já me zoaram tanto que acho injusto eu ter que puxar o assunto.
– Então, Kakashi – Naruto iniciou a conversa, puxando a atenção de todos cansados no cômodo – você encontrou alguém bom o suficiente para substituir a Sakura?
– Verdade! Quem entrou no cargo dela de chefe de psicologia? – Komuro perguntou ainda mais curioso e eu acabei por ficar, também. Será que ele havia encontrado alguém que estivesse à altura?
E agora, quem estava encarregado de cuidar do Sasori e de todos os outros pacientes que a coisa rosa tinha?
– Pra falar a verdade, ainda não encontramos ninguém para a vaga dela e devo dizer que está sendo difícil. Não é qualquer um que pode ser chefe de psicologia e eu decidi não promover ninguém da equipe por enquanto, mas não estou irritado com ela por ter se demitido, na verdade – ele comentou, estalando os dedos das mãos e depois estalando o pescoço. Sua última frase fez com que eu ficasse em alerta sobre o que ele ia dizer – ela fez isso para resolver problemas que estavam pendentes e eu apenas apoiei aquela decisão.
Problemas pendentes? Parece que o Kakashi estava com vontade de continuar aquela discussão, mesmo que de forma mascarada para que os outros dois não entendessem. Provavelmente ele havia dito aquilo porque eu disse que estava com dúvidas sobre ela, e ele sabia que eu não fazia a mínima ideia do motivo de Sakura ter ido embora.
– E você faz alguma ideia de que problemas eram esses? – Naruto perguntou, tão curioso quanto eu estava por dentro. Eu apenas não perguntava pois sabia que eles me zoariam – sei lá, ela é psicóloga...
Assim que Naruto disse isso, uma raiva súbita tomou conta de mim. Lembrei-me da discussão que tive com Sasori no jardim da psiquiatria e da surra que ele me deu. Lembrei-me exatamente das palavras que ele havia desferido a mim naquele dia.
“Você acha que os psicólogos sabem lidar com os próprios problemas e, bem, era pra ser assim na teoria. Mas a questão é que ainda assim nós temos problemas. Temos muitos. Meus problemas me fritaram e eu enlouqueci, assim como você. Porque seria diferente comigo? Porque teria que ser diferente com ela? ”.
– Sakura é realmente muito forte – sussurrei sem pensar no que estava fazendo, e isso não passou despercebido por meus amigos que pararam de falar e me encararam. Fechei os olhos e bufei, para me explicar – comparando ela comigo, por exemplo. Eu tive problemas e não consegui aguentá-los e por causa disso acabei pirando. Eu fui tão fraco que precisei dela pra me ajudar com meus problemas, agora, pensem nela – assim que os encarei, todos me olhavam como se dissessem “que fofo, ele está a defendendo”. Bufei novamente — A questão é que, para ela, talvez ter problemas seja pior do que pra gente. Afinal, ela não cuida apenas dos problemas dela, mas sim dos problemas de um monte de gente louca e mal orientada – tentei explicar e tirar a mim mesmo de uma situação constrangedora, mas agora já era tarde demais.
– Ora, vocês precisam concordar com ele – Kakashi comentou e sorriu maliciosamente, seguido de Komuro e Naruto.
– Ora, parem com isso – eu disse e eles riram.
– Sinto muito, não tem como evitar – Naruto falou – você pegou muito no meu pé por causa do nome do meu filho, preciso revidar de alguma forma – falou, coçando a cabeça e sorrindo sem graça – agora vamos falar sério: porque você não falou com ela ainda?
– Sei lá... talvez porque eu não saiba onde ela está, não fazer a mínima ideia de onde procurar, por não saber se ela quer falar comigo o real motivo de ela ter ido embora... deve ser por isso – falei com sarcasmo e Naruto me encarou raivoso.
– O Kakashi deve ter o número do celular dela – Komuro exclamou como se tivesse finalmente encontrado a solução para os meus problemas – se você ligar, pode tentar conversar e descobrir o que você...
– Não vai funcionar – eu disse e logo o brilho no olhar dele desapareceu – a última vez que falei com a Sakura foi pelo celular de Ino e ela simplesmente desligou na minha cara.
– Entendo... – Komuro disse e logo ficamos em silêncio por alguns segundos, pensando no que deveríamos fazer. Olhei meu relógio e pensei que já estava na hora de dar um fim à pausa, mas Kakashi agiu e se levantou antes mesmo que eu tivesse a pequena chance de falar.
– Vamos terminar logo esse serviço, ficar aqui parados não vai ajudar em nada – ele disse e nós assentimos.
Andamos até meu quarto. As paredes num tom salmão deixaram o lugar, de certa forma, aconchegante já que não ficou um quarto extremamente claro. Minha intenção era pintar as paredes num tom de gelo, mas as paredes brancas da psiquiatria acabaram por me fazer ter repulsa desta cor. Pedi numa marcenaria para fazerem um belo painel de madeira escura para meu quarto e este já estava suspenso na parede, já na outra parede que ficava ao lado direito do quarto, estava apenas o meu guarda roupa vazio e aberto. Eu o havia limpado e deixei aberto para que ventilasse e acabei esquecendo ele ali. Fechei as portas dele e pedi ajuda à Komuro para que ele fosse até a ponta do guarda roupa e me ajudasse a empurrá-lo, encostando-o totalmente na parede.
Peguei a caixa de ferramentas dentro do banheiro e levei-a até Kakashi, que pegou a furadeira e ligou-a na tomada. Ele precisaria disso para fazer os furos e instalar o suporte da televisão corretamente naquele painel de madeira escura. Logo, voltei-me para a cama desmontada, onde Naruto já a estava montando, e juntei-me a ele.
O barulho da furadeira iniciou novamente a conversa.
– Você poderia perguntar à Ino como é a rotina da Sakura e surpreendê-la enquanto está indo fazer algo. Tipo, aparecer na frente dela, do nada – Komuro sugeriu e eu realmente pensei naquela possibilidade como algo que poderia dar certo, mas logo desiludi-me.
– Não, ela pode ficar contra a amiga e eu não quero envolver ninguém nisso – eu disse, fazendo uma pausa por causa do barulho irritante da furadeira novamente – sem contar que, se eu aparecesse do nada, Sakura pensaria o que de mim? Que sou um stalker, ou um maluco. Eu daria a pior impressão possível pra ela.
– Isso é verdade – Naruto concordou comigo – então, diga pra Ino te convidar para ir até a casa dela e convidar a Sakura no mesmo dia. Ela deixa vocês dois sozinhos e então a mágica acontece...
– Naruto – eu chamei a atenção dele, que me olhou curioso – eu acabei de dizer que não quero envolver ninguém nisso. E o que você quer dizer com “a mágica acontece”? Está pensando alguma besteira?! – O ameacei com o olhar, enquanto encaixávamos algumas peças da cama e novamente o barulho da furadeira foi ouvido – e mesmo que eu fizesse isso, ela poderia simplesmente me ignorar ou ir embora sem nem me ouvir. Aliás, isso pode acontecer com qualquer plano que qualquer um de vocês bolarem, então eu dispenso.
– Ora, não seja tão negativo, Sasuke – Kakashi disse, antes de fazer o último furo e desligar a furadeira da tomada, começando a colocar o suporte em seu lugar – sabe, eu fiquei sabendo que a Sakura é ótima em feng shui.
– O que é feng shui? – Komuro perguntou e eu apenas fiquei calado, esperando a explicação de Kakashi. Eu já sabia o que era, já que sou arquiteto, mas preferi deixa-lo explicar.
– Feng Shui é uma arte chinesa que diz que se seu ambiente estiver com a organização certa dos espaços, poderá atrair uma influência benéfica da natureza – ele parou o que estava fazendo e se virou, vendo a cara de Komuro e Naruto totalmente confusas e riu – é, eu também não entendo, mas eu acho que você deveria convidá-la para te ajudar a decorar seu apartamento com feng shui, sabe? Você precisa das influências benéficas da natureza – ele riu e voltou a colocar o suporte – Naruto, preciso que pegue a televisão na sala pra mim, por favor.
O loiro logo fez o que ele havia pedido, enquanto eu matutava a ideia que Kakashi havia proposto e pensava no quão meu amigo grisalho pareceu burro ao me sugerir isso.
– Você não ouviu nada do que acabamos de falar, não é? – perguntei, observando Naruto adentrar em meu quarto enquanto carregava a televisão. Estendi a última peça da cama para Komuro, que a encaixou perfeitamente em seu devido lugar e agora faltava apenas trazer o colchão de casal para seu lugar – como eu iria encontrar a Sakura para convidá-la sem envolver ninguém ou parecendo um maluco?
Observei Kakashi pegar a televisão com cuidado e encaixá-la no suporte, ouvindo apenas um click. Ele observou o próprio trabalho satisfeito, antes de virar-se para mim com um sorriso no rosto.
– Simples – pegou a maleta dele que estava no canto do quarto e abriu-a, tirando algo de lá e o estendo para mim. Um envelope lilás e decorado, com o meu nome em dourado escrito nele.
Komuro e Naruto logo sorriram, provavelmente já sabendo do que se tratava. Por isso, sem demora, abri o envelope com cuidado e tirei de lá o papel branco contendo frases de caligrafia bonita e refinada.
Li os nomes talhados no papel e logo soube do que se tratava. Sorri de canto.
Ino e Sai
Convidam você para a celebração de seu casamento!
A realizar-se às dezenove horas do dia treze de fevereiro de dois mil e dezesseis no Hearst Castle, 750 Hearst Castle Rd, San Siemon, Califórnia.
Nem terminei de ler o resto e olhei para todos os homens presentes ali, balançando a cabeça em sinal negativo.
– Você vai encontrá-la no casamento da Ino.
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