O Lado Bom da Vida
23 Dívida
Notas iniciais
13 de fevereiro de 2016, 17hrs.
As buzinadas vindas do carro de Naruto foram os sons mais maravilhosos que eu ouvira neste mês. Respirei fundo, me olhei no espelho uma última vez e conferi se tudo estava certo. Eu usava sapatos sociais simples, calças jeans negras, uma camisa social azul marinho e por cima desta um blazer negro.
Eu estava muito gato.
Logo, batidas na porta foram ouvidas e eu estranhei. Havia combinado com Naruto de que eu o seguiria até o local do casamento, já que eu não sabia ir e chegar lá de carona era totalmente broxante. Novamente batidas na porta foram ouvidas e então eu corri até lá para abri-la, dando de cara com Naruto, Hinata e Boruto no colo desta, todos muito bem arrumados.
– O que houve? – perguntei, mas Hinata entrou correndo para dentro da casa sem nem me cumprimentar. Olhei o trajeto que esta fizera e arqueei uma das sobrancelhas, estranhando o que estava acontecendo. – achei que me esperariam lá em baixo.
– É que ela precisa trocar a fralda do Boruto... – Naruto me explicou e sorriu sem graça, entrando na sala – como está?
– Ansioso, e você? – eu fechei a porta e o segui, sentando-me no sofá junto a ele.
– Animado! – ele respondeu sem animação, encostando a cabeça no sofá e fechando os olhos.
– Não me parece animado – comentei e ele sorriu sem abrir os olhos.
– Acontece que o Boruto não me deixa dormir – ele explicou e então eu entendi do que se tratava – ele acorda todo santo dia às 3:45 da manhã e então eu vou cuidar dele para deixar a Hinata descansar e então não consigo dormir mais. Eu só consigo tirar alguns cochilos à tarde quando chego do serviço, isso quando Hinata não insiste em fazer um jantar em conjunto... Tudo isso é legal, mas eu sinto que estou morrendo, Sasuke!
Ri da reclamação idiota que Naruto estava fazendo. Ah, os primeiros meses de uma criança são, sem dúvidas, os melhores e os piores. Quando o tempo passar ele vai sentir falta desses tempos assim como eu senti quando era com minha filha.
– Seu filho vai ser tão agitado quanto você, não importa a idade – comentei e então Naruto soltou um riso nasal – apesar de que agora você está tão desanimado quanto o meu natal.
– Se ele for, eu e Hinata estamos ferrados – abriu os olhos e me encarou – como foi o seu natal? Você passou sozinho?
– Não, meus pais vieram passar o Natal e o Réveillon comigo – comentei e ele arqueou as sobrancelhas, surpreso.
– E não foram me visitar?! – fiquei surpreso com a força que ele tirou de dentro do corpo para gritar – eu tenho saudades dos seus pais! Eles poderiam ter conhecido minha esposa e meu filho, visto minha casa! Teríamos conversado muito, também, nossa...
– Calma, Naruto, eles não foram te visitar porque Hinata tinha acabado de voltar do hospital. Eles pensaram que seria melhor não incomodá-los agora – expliquei e então o loiro abriu a boca como se dissesse “Aaaah”.
– Entendo... E mesmo com seus pais aqui, o natal foi desanimado?
– Não digo desanimado, mas nostálgico, sabe? Como quando eu era mais jovem e tínhamos o Itachi – fechei os olhos, lembrando-me do nosso último natal juntos e do quanto tudo fora engraçado – além do mais, não imagino meus pais fazendo um festão de natal. Sempre fomos muito reservados.
Antes que o Naruto pudesse responder, o barulho da porta do banheiro sendo aberta bruscamente chamou nossa atenção. Hinata saiu de lá com a cópia do Naruto nos braços, que dormia tranquilamente. Ela sorriu para mim, sem graça.
– Me desculpe, Sasuke, eu precisava limpá-lo – disse, sentando ao lado de Naruto no sofá.
– Tudo bem – levantei uma das mãos para simbolizar que aquilo não era um problema. Observei Hinata suspirar e me encarar, sem poder esconder o cansaço dos olhos – parece que o pirralho está acabando com vocês.
– Você não faz ideia – ela deu um riso nasal e aninhou Boruto em seu colo.
– Na verdade faço, sim – sorri de canto e senti que ambos ficaram sem graça, mas não me importei. Me levantei, contornando o sofá e ficando atrás de Hinata para poder olhar melhor o rosto da criaturinha em seus braços.
O jovenzinho dormia tranquilamente, mas sabia que tinha olhos azuis como os do pai, cabelos loiros e pelo jeito era tão animado quanto o progenitor, também. Dei um riso nasal ao perceber que provavelmente os genes agitados de Naruto expulsaram todos os genes calmos de Hinata e que tudo isso era a causa do cansaço do casal.
Não que apenas crianças agitadas dessem trabalho. Asako não foi um bebê muito agitado, mas fez meus cabelos caírem. Lembro-me de uma ocasião em especial, quando eu estava num beijo apaixonado com minha esposa e, quando ela me acariciou a nuca, alguns cabelos ficaram entre os dedos da mesma.
– Mas... Sasuke, o que é isso? – Keiko interrompeu o beijo e olhou para as mãos pálidas, assimilando o que havia acabado de acontecer – seu cabelo está caindo!
– N- não, claro que não! – passei as mãos na dela, tirando os fios que saíram ali e jogando-os pelos ares – estou apenas trocando de cabelo.
– Você não é um animal pra trocar de pelo, Sasuke! – a ruiva se aproximou e passou a mão por toda a minha cabeça bruscamente, tirando fios e fios de cabelos com as mãos – Olhe isso! Sasuke, você ainda é jovem! Seu cabelo é seu charme, você não pode ficar careca!!!!!!
– Eu não vou ficar careca! – falei, elevando um tom de voz enquanto sentia as bochechas esquentarem. Nunca havia passado por essa humilhação, e então virei a cabeça e fechei o semblante, quase que sussurrando – eu só estou cansado.
Keiko parou suas reclamações e começou a rir, se dando conta de que a queda de cabelo era devido ao cansaço que Asako nos proporcionava.
– Sasuke, eu sei que meu filho é lindo, mas você precisa parar de olhar assim tão profundamente pra ele, você está me assustando – Naruto me tirou de meus pensamentos e eu tive de piscar algumas vezes para sair do meu transe de lembranças.
– Desculpe – desviei o olhar do garoto e então Hinata se levantou como se num pulo que acabou por assustar eu e o loiro ao seu lado.
– Melhor irmos logo, certo? Não quero chegar atrasada ao casório – ela sorriu simpaticamente para nós, entregou Boruto para o pai e ajeitou o vestido amarelo que estava usando.
– Certo – Naruto concordou e segurou o filho devidamente – Sasuke, tem certeza que quer ir de moto? O tempo não parece estar dos melhores.
– Que nada, tenho certeza que não vai chover – falei e o loiro deu de ombros.
Assim que Hinata terminou de arrumar o vestido e ir ao banheiro retocar o batom vermelho, ela pegou Boruto, que estava nos braços do pai, e nós fomos até os automóveis estacionados na rua. Eles entraram em seu respectivo carro, um Honda HRV, e eu fui para minha respectiva moto, uma Harley Davidson 2015. Coloquei o capacete e buzinei para que Naruto começasse seu caminho para o Hearst Castle, e ele o fez.
O local da cerimônia, graças a Deus, ainda ficava na Califórnia, mas não era em Los Angeles, e sim em San Siemon, uma cidadezinha hospitaleira entre Los Angeles e São Francisco. Sabendo disso e, por nunca termos ido lá, eu e Naruto decidimos sair de casa duas horas antes do festejo. Sempre dizem que chegar adiantado é melhor do que se atrasar e, eu sempre concordei com o dito. Aliás, em casamentos, o único atraso tolerado é o da noiva e, mesmo que eu não conheça Ino tão bem, sei que ela abusará do atraso em pró da beleza.
Particularmente, eu nunca havia ido à San Siemon, mas o local do casamento sempre foi muito famoso. O noivo da loira provavelmente desembolsou muitos milhões para poder reservar pelo menos parte do lugar para festejar o dia, e isso foi algo que eu achei desnecessário e exagerado, mas se o casal entra num acordo e me convida pra uma festa dessa magnitude, onde eu vou comer, me divertir e aprender de graça – já que a arquitetura do lugar tinha uma beleza fascinante -, quem sou eu pra achar?
Haha, com certeza não sou ninguém.
Além do mais, mesmo depois disso tudo, eu ainda me beneficiaria, já que a festa me dera a oportunidade perfeita para reencontrar Komuro, que eu não via desde novembro de 2015, e o principal: reencontrar Sakura.
Só pensar na possibilidade fizera minhas mãos soarem frio. Eu não via a coisa rosada desde o dia em que ela se demitiu e isso fora há quase 5 meses. Ah, eu tenho tantas perguntas a lhe fazer.
Por quê havia me beijado e depois se demitiu? E o que havia conversado com Sasori, momentos antes de me visitar?
Qual era o real motivo de sua demissão? O que haveria feito durante esses últimos 5 meses?
Ela estaria bem, agora? E quais eram seus problemas pendentes?
Ela aceitaria fazer feng shui em minha casa? Com certeza não.
Perguntas que inundavam minha mente como um tsunami, uma chuva interminável. Eu ansiava por respostas, precisava de respostas, ou então enlouqueceria novamente. Certo, Sasuke, sem exageros.
Pra falar a verdade, acho que a última vez que me senti tão bem foi quando eu estava em meu pico mais alto de felicidade. Vai fazer um ano que perdi minhas meninas, eu ainda me sinto só às vezes, mas conquistei pequenas alegrias e dou valor a elas.
Agora, sentindo o vento bater em minha roupa e fazer meu blazer negro se agitar, eu penso no laço recuperado com meus pais, meu apartamento, em minha consciência limpa, não voltar a beber, amigos verdadeiros e meus alunos de física na faculdade. Minhas pequenas alegrias, que me causam plena satisfação e dão sentido à minha existência. Que fazem eu me sentir útil, necessário.
Eu me pego pensando se eu realmente não sou tão feliz quanto eu era antes, e se eu realmente posso comparar essa felicidade com aquela. Aliás, felicidades são comparáveis? Talvez não, já que, no fim, tornam-se apenas lembranças guardadas nos confins do nosso cérebro. Tratam-se de momentos da nossa vida, momentos que podemos encarar de forma boa ou de forma ruim.
Afinal, de que depende a felicidade se não de nós mesmos e a forma como encaramos e reagimos à vida? E, se eu estiver certo, o que podemos chamar de vida?
Respirei fundo, puxando o ar gelado pelos meus pulmões. Cessei por hora meus pensamentos filosóficos e segui o carro de Naruto quando este adentrou numa estrada de asfalto encardido de terra. Nós subíamos o pico numa velocidade baixa para evitar qualquer risco de queda, mesmo que esse fosse pouco e, à media que nós subíamos, mais eu ficava ansioso, afinal, estava chegando o momento em que eu finalmente reencontraria Sakura.
Quanto mais nos aproximávamos do Hearst Castle, mais o asfalto se limpava e árvores bem cuidadas tomavam o lugar das mixurucas que encontramos no início do caminho. Decidi acelerar um pouco mais para poder chegar mais rapidamente no lugar, mas Naruto não deixou. Exatas cinco buzinadas foram ouvidas e eu fiquei confuso, até ver o loiro colocar o braço para fora pela janela do carro e apontar para o lado, encostando. Encostei a moto atrás do carro dele e direcionei meu olhar para onde meu amigo apontava. O que eu vi foi de tirar o fôlego.
A vista do oceano pacífico acompanhada do fim do pôr do sol, mesmo que cheio de nuvens que pareciam carregadas, era de fato, magnífica. Meu corpo estremeceu com tamanha beleza e, no momento em que o sol se pôs e deixou o céu num misto de cores alaranjado e roxo, eu soube.
Eu estou vivo.
Isso é viver e, depois disso, nada mais importava. Aconteça o que acontecer neste casamento, seja qual for a resposta de Sakura, eu sei que posso superar. Que posso seguir em frente, enxergar toda a situação pelo lado bom. Ela me ensinou isso e, por ser professor, sei que sou um ótimo aluno.
Novamente, buzinadas vindas do carro de Naruto me tiraram do transe e nós prosseguimos adiante. Aos poucos, o céu roxo alaranjado deu lugar para um céu azul que fora escurecendo, já dando uma bela visão da lua... Além disso, também consegui visualizar de longe um pequeno muro de design rústico com gárgulas médias, entre estas, o nome Hearst Castle.
Chegando lá, um homem atendeu Naruto primeiramente e, depois de alguns segundos, deixou que ele prosseguisse seu caminho. Na minha vez ele me parou, perguntou meu nome e me entregou algo que parecia ser uma comanda com um botão. Ela funcionava para o horário da saída, já que era só eu apertar esse botão que alguém traria minha moto até a saída do castelo.
Eh, tudo muito chique.
Prossegui meu caminho até a entrada real do lugar, onde haviam portões gigantescos de ferro com estatuetas de anjos em ambos os lados deste. Observei Naruto e Hinata – com Boruto nos braços – descerem do carro e entregarem à um dos 4 manobristas que estavam ali. Fui um pouco mais pra frente com a moto e desci desta, entregando a chave para outro manobrista, vendo ele ir para sabe-se lá onde com minha querida moto. Um cutuque em minhas costas me puxou a atenção.
– Vamos? – Hinata sorriu, encorajando-me. Olhei para meu amigo loiro que também sorriu para mim e então eu assenti.
Agora o céu era completamente escuro e, quando parei para prestar atenção na entrada do local, senti que aquela festa se assemelharia à uma festa da realeza. Literalmente.
Na entrada havia um grande chafariz e, ao redor deste, rampas redondas que o contornavam, formando um círculo. Estas, ligadas à um lugar nos informaram ser apenas os quartos de hóspedes do castelo e que estava incluso na hora de alugar o local, mas só para os noivos. Provavelmente a lua de mel também seria ali, mas isso é trivial.
Eu, Naruto e Hinata andamos pelas rampas, todos muito maravilhados pela beleza do local. O murmúrio dos convidados já poderia ser ouvido dali e então, acabamos por nos apressar. Olhei o relógio em meu pulso e conferi já ser 19:15 e, por isso, decidimos nos apressar. Após passar pelo lugar onde os hóspedes ficam, nos deparamos com uma piscina maravilhosa, decorada com pilares e estátuas de origem grega. Haviam luzes na água e em cada pilar, cores que mudavam de forma harmônica e sofisticada, mas o casamento ainda não seria ali. Seria no lugar que, por ali, tínhamos acesso.
La Casa Grande. A parte principal e maior do castelo, que também dava acesso à piscina interna, que causava uma ilusão de ótica com as paredes e o teto do local, decorado com minúsculas partículas formava maravilhosos mosaicos. Ah, um local cheio de diversas arquiteturas, ótimo para ser estudado, de fato.
Suspirei, olhando em volta. Talvez, depois da cerimônia, eu pudesse voltar ali para admirar. É, eu faria isso.
– Sasuke, vamos, venha logo – Naruto me chamou e, quando me dei conta, eles já estavam longe de mim, na entrada da Casa Grande. Apressei-me e então entramos, os 4, juntos.
Sinceramente, quando coloquei meus dois pés no grande salão e olhei em volta, eu tive a impressão de que eu havia acabado de entrar no castelo da Bela e a Fera. Eu estava tendo a sensação de ser algum duque convidado para um baile real, tudo bem antigo, mas ainda assim belo. Não é porque é rústico que vai ser feio, certo?
Meus olhos fixaram-se no teto e eu logo lembrei-me do teto das igrejas barrocas. Estes não eram tão coloridos ou chamativos, estavam em cor neutra e formavam apenas detalhes simples em formatos geométricos, mas muito bonitos. O chão era simples, entretanto, as cadeiras estavam em cima de gigantescos tapetes vindos da Persa e em cada parece havia, pelo menos, 5 quadros de pintores famosos como Da Vinci e Botticelli. Além disso, em cada canto de parede haviam pequenas estátuas angelicais, além de toda a estrutura do local ser devidamente decorada, com acabamentos barrocos que lembram o de muitos lugares históricos da Europa.
Suspirei e parei de prestar atenção no lugar para então poder me concentrar em procurar as pessoas, mais especificamente, Sakura. Tentei avançar pelo tapete vermelho por onde Ino andaria, mas fui parado por um senhor que também usava terno.
– Com licença, mas qual o seu nome? – o senhor aparentava ter, pelo menos, 40 anos. Usava uma barba grande e era careca.
– Sasuke Uchiha – respondi sem rodeios. Ele procurou meu nome na lista e depois de o achar, marcou meu comparecimento com uma caneta.
– Vamos, vou leva-lo até seu lugar.
Concordei com a cabeça, apesar de me sentir desapontado por dentro. Esse era o momento em que eu finalmente poderia começar a procurar pela rosada por todos os cantos, apesar de que, pensando bem, uma cabeleira rosa não é difícil de ser vista. Principalmente por mim, que sou alto o bastante para enxergar diversas cabeças passeando pelo salão, então ficar parado e observar também era uma boa estratégia.
Havia grandes e confortáveis cadeiras de madeira que formavam diversas fileiras e eu estava na segunda delas. Extremamente perto do pequeno altar – provavelmente móvel – que estava ali junto com muitos instrumentos, como piano, violoncelos, violinos, trompetes etc, e, agora, percebo que me distraí tanto com o local que acabei me perdendo de Hinata e Naruto. Merda.
Dei um tapa em minha própria testa e comecei a procura-los euforicamente. Eles provavelmente apenas se distraíram, ou também foram abordados pelo senhor careca e foram levados para seus respectivos lugares. Longe de mim. Isso me deixou extremamente apavorado. Por quê?
Detesto multidões. Multidões só são toleradas quando se tem algum conhecido por perto e acabo de notar que este não é o caso. Naruto, Hinata e o pequeno Boruto foram levados para longe de mim e agora eu sentia a estranha sensação de estar sendo observado.
Olhei em volta novamente com o semblante desconfiado. Sei que isso é paranoico, mas eu simplesmente não posso evitar.
– Procurando alguém?
– Porra – falei sem querer, me virando para a pessoa que havia me dado um susto enquanto eu tinha meu surto interior.
– Perdeu a educação, Sasuke? Aliás, você já teve educação?
– Você realmente é um desgraçado, Kakashi – eu disse e então ouvi um riso do meu amigo, que sentou-se ao meu lado – mas estou feliz em saber que seu lugar é aqui.
– Sinceramente, a companhia não me agrada muito – ele disse e eu o encarei, unindo as sobrancelhas – eu preferia estar sentado ao lado de uma moça ruiva que vi agora a pouco, mas você até que é bonitinho.
– Vá à merda, Kakashi, seu imbecil — cruzei os braços e novamente fui dar uma olhava em volta, para ver se encontrava Naruto, Hinata, Komuro ou Sakura, mas a única coisa que pude perceber foi que o salão ficara totalmente cheio de um minuto para outro!
– Ora, deixe de ser impaciente. Logo você também vai encontrar sua dama – ele novamente disse e eu não sei por qual motivo eu fiquei bravo com este comentário. Provavelmente ele apenas me deixou mais ansioso.
– Apenas fique em silêncio – eu pedi.
Conferi em meu relógio de pulso e agora já eram 19:40 e então eu soube que a Ino realmente usou e abusou do seu direito de se atrasar. Entretanto, contudo, todavia, antes mesmo que eu começasse a ficar completamente impaciente com a demora e irritado com os comentários de Kakashi, pude ouvir o som de um piano se sobressair sobre as vozes de todos os convidados que falavam sem parar. Ao ouvi-lo, todos calaram a boca e tiveram suas atenções direcionadas ao altar, mais especificamente ao homem de cabelos longos muito parecido com Hinata, que estava tirando melodias maravilhosas do instrumento.
Logo, uma mulher negra de cabelos vermelhos sentou-se na cadeira e pegou o violoncelo, juntando-se à melodia. Depois desta, um homem gordinho também apareceu, mas este pegou o trompete e assim vários músicos juntaram-se numa música que havia começado apenas com o piano e logo tornara-se um lindo som, digno de uma orquestra. A única coisa que acabara por me fazer estranhar, era que o violinista ainda não havia aparecido, mas tudo bem.
Quando esta música acabou, um pastor chegou e subiu ao palco segurando um microfone. Em alguns minutos este foi ajustado. Mesmo com ele não dizendo nada, prestei atenção no que ele falava para os músicos e, com muita dificuldade, pude ler que ele disse daremos início à cerimônia.
Logo, um rapaz tão pálido quanto eu, se não mais, entrou pela porta e andou com muito estilo pelo tapete vermelho, parando em frente ao altar.
– Este é o Sai – Kakashi sussurrou para que eu soubesse quem era aquele, já que eu apenas conheci Ino e não tive oportunidade de conhecer o noivo, com tantos problemas que me aconteceram depois.
Novamente, os músicos começaram a tocar algo que parecia ser a música tema do filme... Bela e a Fera? Sério? Tive que soltar um riso nasal, já que havia comparado o lugar ao castelo deste mesmo filme. Mas, de certa forma, eu já não estava achando aquilo engraçado. Levantei e virei para então ver as madrinhas e padrinhos entrando.
Os primeiros foram os pais da noiva, é claro. Infelizmente, soube ali também que Sai era órfão, por isso não haveria ninguém para ocupar o lugar destes no casamento.
Os segundos foram uma mulher ruiva, muito bonita por sinal. Tinha olhos púrpuros marcantes e usava um vestido longo que lembrava um vermelho goiaba. Ao lado desta, um rapaz de cabelos médios e grisalhos, usando um terno preto. Seus nomes eram Karin e Suigetsu.
Os terceiros foram uma moça de cabelos longos e castanhos, com olhos da mesma cor. Ela usava um vestido verde escuro, que contrastava muito bem com o tom de pele dela e a deixava de certo elegante, seu nome era Tenten. Seu acompanhante era, nada mais, nada menos que o psicólogo Kabuto, que também trajava um terno preto refinado.
Suspirei e mordi o lábio inferior com força. A música já estava acabando e eu não consegui ao menos vê-la.
– Afinal, onde diabos está a Sakura? – Sussurrei para mim mesmo, olhando em volta.
– Ali – Kakashi me respondeu, apontando discretamente na direção da porta. É, eu fui burro o suficiente pra procurar ela pelo salão quando estava óbvio que ela entraria pela porta.
Mas isso felizmente não importava mais. Ela estava linda.
Seus cabelos rosados estavam maiores e soltos em cachos bonitos e modelados. Ela usava um vestido lilás de alças finas, que deixavam um pouco mais daquela pele branca e macia à mostra. Ah, lembrava-me do toque dos dedos dela em minhas costas, quando esta passava protetor solar. Lembrava-me dos abraços protetores e quentes. Dos lábios macios e vermelhos.
Assim que a vi, lembrei-me de tudo e meu coração disparou. Queria sair correndo e ir embora, mas também queria ficar.
Queria me esconder, mas também queria que ela me visse ali. Eu estava eufórico novamente.
Respirei fundo e então percebi que a rosada era acompanhada por um homem alto e forte de cabelos castanhos e pele bronzeada. Era impossível não ser alarmado pela dúvida de que este poderia ser um namorado dela, afinal, ela havia ficado 5 meses longe, certo?
Tempo o suficiente para conhecer um cara e se envolver. Hoje em dia as pessoas fazem isso no instante em que se conhecem... Imagina em 5 meses.
Não gostei da possibilidade. Encarei ela como se a repreendesse com o olhar, mesmo que ela não me visse. Eu precisava disso, pra tirar do meu peito toda essa dúvida e angústias de alguma forma e, nada melhor que usar o olhar, afinal, como dizem, olhar não arranca pedaço.
Só quando o olhar é correspondido e, posso dizer que isso (in)felizmente aconteceu.
Olhos esmeralda encontraram ônix e, não sei se fora alguma impressão minha, mas pareceu que quando ela me viu, se surpreendeu. E, Ah, como eu gostaria de desligar aquela vozinha chata que fica na nossa cabeça supondo coisas ou mandando-nos fazer coisas. Por quê?
Pareça simpático! Dê um sorriso.
Não, idiota! Ela vai pensar que você não liga pra tudo que aconteceu.
Exatamente! E isso vai fazer ela se aproximar de você sem culpa alguma.
Será mesmo? Duvido muito, você não está vendo? Ela está a-com-pa-nha-da!
E o que esses pensamentos causaram? Um sorriso escroto forçado, que fez parecer com que meu rosto estivesse com os músculos das bochechas paralisados ou tivesse aplicado botox em exagero.
É. Ela desviou o olhar.
Eu só não bati na minha própria cara porque sabia que assustaria as pessoas e faria barulho. Decidi apenas focar no que a rosada faria acompanhada daquele homem que eu mal sabia quem era. Entretanto, contudo, todavia, o que eu vi me surpreendeu. Sakura abandonou o homem no altar – como se fosse ela que estivesse casando – e foi até o violino. Ao invés do cara do piano, desta vez, ela começou a música. A marcha nupcial.
Todos os convidados se levantaram e olharam para trás, presenciando a entrada triunfal da noiva. Ah, Ino estava muito, muito linda. Quase uma hora de atraso realmente valeu a pena para o Sai. Um vestido digno de uma princesa, de apenas uma alça e esta rendada, assim como a parte de cima do vestido, que ia até a cintura. O resto seguia liso e, ao lado, havia um pequeno laço, mas sofisticado. A loira usava os cabelos soltos e uma linda tiara na cabeça, não sei se é de alguma pedra preciosa, mas muito, muito bonita.
Deslumbrante, de certo.
Ver Ino entrar e flutuar pelo tapete vermelho era realmente uma visão divina. Olhei para o rosto do Sai e este parecia o homem mais feliz do mundo e eu, de coração, esperava que o casal fosse.
Quando ela chegou até lá, a cerimônia começou e eu pensei que ela seria extremamente longa e cansativa, mas me enganei. Foi uma coisa curta, de 15 ou 20 minutos, falando sobre o amor e o quanto ele é poderoso. Eu não prestei atenção em muita coisa, eu apenas encarava Sakura, que às vezes me encarava, às vezes desviava o olhar.
Ah, como eu queria saber o que se passava naquela cabeça de cabelos rosados! O que teria pensado quando me viu ali, ao lado de Kakashi. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe dela.
– Pode beijar a noiva – a voz do pastor tirou-me de meus pensamentos, junto ao urro feliz de todos os convidados, que se levantaram para aplaudir o beijo do mais novo e oficial casal. Acompanhei-os, batendo palmas e não pude deixar de observar o quão Sakura parecia feliz por Ino.
Acho que, em todos os meses em que estivemos juntos, eu não me lembrava dela sorrindo desta maneira. Não tão abertamente, pelo menos. Depois do beijo, outra música começou, desta vez para acompanhar a saída dos noivos.
Sorri e cumprimentei o casal com um aceno de cabeça quando estes andavam pelo tapete vermelho para a saída do salão. Ino sorriu para mim e Kakashi, e então, quando estes saíram, fora a vez das madrinhas e padrinhos fazerem o mesmo caminho na mesma ordem em que entraram. Observei Sakura e aquele rapaz irem embora de minha vista e então recebi um cutuque de Kakashi no ombro.
– Olha, eu sei que ver a Sakura ir embora assim, acompanhada de um cara, deve dar uma sensação de derrota inacreditável, mas...
– Cale a boca, Kakashi – eu disse e então ouvi ele abafar o riso.
– Deixe-me terminar – ele me cortou e então eu me virei para olhá-lo com as sobrancelhas unidas – não interprete as coisas errado e nem tire conclusões precipitadas. Lembre-se de que você já se ferrou imensamente por fazer isso com ela.
– Do que está falando? – perguntei, mas sabia que esta havia sido uma pergunta idiota. Lembro-me que na primeira semana em que eu estava na psiquiatria, Kakashi disse que comandava a equipe de médicos que estavam encarregados sobre o meu caso, logo, ele deveria ter um relatório completo das minhas consultas com Sakura, Ino, Kabuto e até mesmo de Komuro e as enfermeiras do andar em que eu ficava.
– Estou falando da sua primeira consulta com Sakura – arqueei as sobrancelhas, surpreso por ele tocar neste assunto – você a estava conhecendo ali, tirou diversas conclusões e, no fim, voltou pro quarto com o braço roxo.
Ah, os beliscões. Eu nem mesmo me lembrava deste fato.
– Eu só estou tentando dizer que, bem...
– Eu entendi, Kakashi, obrigado – respondi e então olhei para aquela multidão, que agora estava espalhada por todo o salão, sentados em suas respectivas mesas onde eram servidos os comes e bebes.
Olhei para trás de mim e minha cadeira de madeira já havia sido retirada, dando lugar à mesa poucos metros atrás de nós. Realmente, Sai e Ino haviam contratado pessoas extremamente profissionais, afinal, fizeram isso e eu nem mesmo percebi. Ou talvez em esteja distraído demais.
Andando até a mesa, vi alguns nomes escritos num papel branco. Sasuke Uchiha, Kakashi Hatake, Naruto Uzumaki, Hinata Uzumaki, Kiba Inuzuka e Sakura Haruno.
Oh, certo. Sentei-me ali, ao lado de Kakashi, e logo garçons chegaram para nos servir.
– O senhor prefere champanhe, vinho ou algo mais forte? – o jovem de terno perguntou, equilibrando as bebidas na bandeja enquanto as taças já estavam na mesa.
– Refrigerante, por favor – pedi e o rapaz me olhou surpreso, enquanto enchia a taça de Kakashi com um champanhe caro. Ele saiu de lá, provavelmente em busca do refrigerante que eu havia pedido, e isso fez com que meu amigo de cabelos grisalhos risse.
– Refrigerante? Você realmente está levando a sério essa coisa de não voltar a beber – disse, dando uma bebericada no champanhe.
– É, é verdade. Nada melhor do que curtir essa festa gigantesca e me lembrar de tudo no dia seguinte – disse, sentando-me um pouco de lado e apoiando meu braço nas parte de cima da cadeira.
– Eu não vou ficar bêbado com uma taça de champanhe, Sasuke – deu um riso abafado, bebendo novamente do líquido da taça.
– Oh, tenho certeza que não – Naruto havia acabado de chegar na mesa, sentando-se ao meu lado e Hinata ao lado dele, com o garoto no colo – nunca me lembro de tê-lo visto bêbado, Kakashi.
– Claro que você não se lembra, quem fica bêbado é você! – retruquei e isso fez com que os presentes ali dessem risada do meu comentário.
No colo de Hinata, estava o pirralho cópia do Naruto, que ainda dormia tranquilamente. Eu me perguntava como o garoto conseguia dormir tanto, em meio à tanto barulho e nada me veio em mente para responder isso.
Olhei em volta novamente, procurando uma cabeleira rosa e não avistando nada. Agora, grande parte do salão estava coberta de mesas, mas ainda assim o meio estava totalmente vazio. Vi toda a equipe trabalhando naquele local, ligando as caixas de som, ajeitando a iluminação e estendendo tapetes Persa totalmente refinados. Estavam transformando aquele lugar numa pista de dança e então, começou.
O som extremamente alto da música Le Freak veio, e quase todos os convidados jovens levantaram de suas mesas em urros de completa felicidade, andando e dançando até a pista de dança. Olhei para as pessoas falando e, como o som estava alto, nada poderia ser ouvido de suas bocas. Era engraçado.
Isso até eu olhar pro lado e ver Boruto abrindo o berreiro, sem som algum sair de sua boca. Aquilo foi medonho. Era um misto de baba, choro e pais desesperados olhando-os.
Hinata se aproximou de Naruto e provavelmente gritou algo no ouvido do rapaz, que assentiu com a cabeça. Quando a moça de cabelos negros ia dirigir-se até a saída, ele a segurou pelo braço e se aproximou de mim, gritando agora em meu ouvido.
– Sasuke, o Boruto se assustou com a música alta!
– E daí? – Eu também gritei e então pude ver o loiro bufar enquanto Hinata observava tudo.
– Você também não gosta muito dessa barulheira – gritou novamente, arqueando ambas as sobrancelhas pra mim com uma cara deveras sugestiva.
– E daí? – Gritei novamente, me fazendo de desentendido.
– Vocês dois tem muito em comum! – Gritou e riu um pouco, antes de continuar – porque não fica um pouco com ele, enquanto Hinata e eu temos uma folga?
– Sem chance – respondi na lata, e então o loiro uniu as sobrancelhas.
– Sasuke, caralho, por favor! – implorou – se você não fizer isso, eu vou te puxar pra pista de dança e...
– Tá, tá, certo – fui até Hinata e o peguei cuidadosamente do colo dela, andando com o garoto até a saída do salão.
Até que não era uma má ideia sair um pouco, mesmo que com um bebê. Eu poderia ir até aquela piscina externa com arquitetura e estátuas de origem grega dar uma olhada. Eu faria isso mais cedo ou mais tarde, mesmo, então acabei optando por mais cedo. Seria bom, tanto pra mim, quanto pra Naruto e Hinata, que estavam precisando de um pouco de folga e diversão, e Boruto, que estava assustado demais com a gritaria e a música alta.
Saí do salão e, à medida que o som ia diminuindo, meus tímpanos se aliviavam. Não completamente, mas isso era devido ao fato de Boruto estar chorando muito alto, também. Suspirei e mordi o lábio inferior, balançando-o levemente em meus braços enquanto andava até a piscina, mas aquilo não estava adiantando muito, mas eu não podia desistir.
Continuei balançando-o até chegar ao local, que ficava entre os quartos de hóspedes e o jardim belíssimo que dava na Casa Grande. O Som ainda era ouvido lá de fora, mas não era alto. Eu estava sozinho lá com um bebê gritante.
Ótimo.
Respira. Solta. Respira. Solta. Tá.
Me acalmando e tentando com todas as forças não pensar em jogar esse garoto pelos ares e apenas me sentar ali no chão, ficar observando os pilares gregos e os anjos perfeitamente modelados, segurei-o de frente para mim, um pouco inclinado. A pequena cabeça estava apoiada na palma de minhas mãos com muito cuidado, o corpo apoiado em todo o braço. Os pezinhos apoiados em minha barriga e os joelhos levemente flexionados. Olhei para o mini Naruto berrante e tentei fazer carinho no rosto. Vai que a criança só precisasse de atenção, certo? E ele não tinha dentes ainda, então eu não corria o risco dele me morder.
Boruto sentiu o carinho que eu havia feito em seu rosto e se acalmou um pouco, e então, quando eu fui fazer o carinho novamente, desta vez na pequenina boca, ele parou de chorar e sorriu. Os olhinhos azuis da cor daquela piscina me olharam sorridentes, suplicantes para que eu fizesse o carinho de novo e... Cara, que se dane, aquela criança era muito fofa e eu não resisti!
Entretanto, algo que eu jamais, em toda a minha vida, pensei que aconteceria comigo acabou por acontecer.
Ele fechou a boca enquanto eu fazia carinho, com o meu dedo lá dentro. Ele começou a chupar meu dedo indicador como se fosse uma chupeta.
Legal. No meio do Hearst Castle sozinho com um bebê chupando meu dedo, enquanto os pais dele estavam lá no salão dançando frenéticamente. Pelo menos eu estava sozinho.
– Ora, o que temos aqui?
Ou não.
Virei-me para saber quem era a dona daquela melodiosa voz feminina quando, depois de tempos procurando, ela estava ali. Sakura. Ah, ironias do destino, sempre maravilhosas! Fazendo eu procura-la, quando na verdade quem me encontrou foi ela.
E agora eu estava do lado de fora do salão com Sakura e um bebê que gostou de chupar o meu dedo.
– Esse é o Boruto? – ela se aproximou de mim, sorrindo graciosamente. Posicionou-se ao meu lado e ficou observando a figurazinha chupar o meu dedo com vontade e alegria, fechando os olhos de vez em quando – Porque ele está chupando o seu dedo? – Perguntou, olhando pra cara de merda que eu provavelmente estava fazendo perante toda aquela situação.
– Não me pergunte. Eu não sei como isso tudo foi acontecer – respondi, sem encará-la realmente. Minha cara de merda era provavelmente uma junção de tudo o que eu estava sentindo agora.
Ansiedade, dúvida, desespero, vergonha, raiva e felicidade.
– Eu posso segurá-lo? – Perguntou. Ela olhava em meu rosto e sorria, como se nada estivesse acontecendo. Como se nada tivesse acontecido entre nós.
Entreguei Boruto pra ela aos poucos e, tendo um dos braços livres, eu agora poderia me concentrar em tirar o meu dedo de dentro da boca do pirralho enquanto conversava com a rosada de maneira civilizada e, conversar apenas o necessário.
Minha mãe sempre dizia que roupa suja se lava apenas em casa e, por isso, eu não perguntaria o que eu realmente queria saber. Pelo menos hoje não.
– Ele é lindo, não é? Mesmo que chupando o seu dedo – ela disse e deu um riso abafado, esperando que eu concordasse, mas eu não o fiz. Na verdade, eu não disse nada e nem ela depois disso. Ficamos um tempo em silêncio, ouvindo o barulho de corujas e cigarras que estavam por ali.
Era estranho. Como se eu não a conhecesse mais e tivesse perdido toda a minha pouca habilidade em socialização. Talvez começar de maneira simples fosse o melhor, no fim.
– Como você está? – perguntei.
– Estou bem – ela respondeu, sem tirar os olhos de Boruto, acariciando os cabelinhos loiros do bebê – Soube que você recebeu alta da psiquiatria.
– Sim, já faz um tempo que estou sozinho – respondi, e ela apenas assentiu com a cabeça.
– Entendo, e você... está conseguindo lidar bem com tudo? – perguntou e eu pude perceber o receio em sua voz. Algo dentro de mim dizia que ela estava preocupada comigo, assim como eu estava com ela. Mas isso era normal, eu era seu paciente.
– Quase tudo – respondi com sinceridade. Ela desviou o olhar para mim, seus olhos esmeraldinos arregalados e brilhantes me encaravam – e você?
– O que tem eu? – perguntou, dando um curto sorriso.
– Está lidando bem com tudo? – ela arqueou as sobrancelhas e desviou o olhar para Boruto, que mexeu um pouco seus bracinhos e segurava minha mão enquanto chupava meu dedo. Observei a coisa rosa fechar os olhos e dar um riso nasal.
– Eu fiquei feliz em saber que você estava bem – ela disse, abrindo os olhos e mordendo o lábio inferior – fiquei feliz em saber que minha demissão não prejudicou o seu tratamento.
– Prejudicou sim, de certa forma – disse e a encarei, esperando que ela também me olhasse, mas ela não o fez. Ela apenas ficou calada, talvez esperasse que eu a acusasse – é que...
Ela me olhou novamente, curiosa, esperando a minha próxima fala.
– Eu não pude completar todos os meus desejos – minha fala a fez rir, mesmo que baixo, e então eu uni as sobrancelhas sem entender muito bem o motivo daquilo – o que foi?
– Pra quem nem mesmo queria cumprir desejos, você mudou de ideia rápido. Qual era o próximo? – perguntou ainda sorrindo.
– Bom, o próximo eu realizei sozinho, que era ir até Calgary para que eu me reconciliasse com meus pais e... – fiz uma pausa, olhando sugestivamente para um pilar que estava um pouco longe de nós – como eu o completei sozinho, acho que você está me devendo.
– Lhe devendo? Eu? – soltou uma risada sarcástica que acabou fazendo o pequeno Boruto abrir os olhos e voltar a chupar abruptamente o meu dedo – e como eu deveria pagá-lo?
– Bom, meu apartamento novo precisa de um toque feminino, sabe – comentei, e vi a rosada unir as sobrancelhas, estranhando meu pedido – talvez Feng Shui.
Sakura deu um sorriso torto e focou sua atenção na criaturinha loira em seu colo, pensativa.
– Hmm... Não sei se isto é certo...
– E porque não seria? – perguntei, tentando parecer totalmente inocente. Como eu disse, roupa suja se lava em casa e, nada melhor que o meu apartamento para abordá-la e tirar a limpo tudo o que aconteceu – Vamos, eu tenho certeza que o Feng Shui vai me ajudar muito! – ela continuou pensativa e com uma cara de negação, e então eu suspirei – Olhe, se não quiser fazer por mim, faça por essa bela visão do Boruto chupando meu dedo.
Minha frase a fez rir, colocando uma das mãos sobre a boca para abafá-lo.
– Tudo bem, eu vou.
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