Notas iniciais
Capítulo para arodasnep, muito obrigada pela recomendação maravilhosa ♥ Segurem as tripas e boa leitura, ♥

Turno: Sakura Haruno

Olhei-me no espelho pela segunda vez. Os olhos verdes pareciam mais brilhantes do que da primeira vez em que me olhara, a saia midi de cetim vinho cabia perfeitamente e ajustava-se em minha cintura como se feita sob medida, assim como a regata branca que escolhi para a ocasião. Calcei o par de sapatilhas prateadas e, com as mãos na cintura, analisei o look com um suspiro. Estava pronta para ir até a casa do Sasuke, ajuda-lo com a decoração do apartamento. Ajudá-lo com Feng Shui.

Eu havia tomado a decisão correta, ou havia me precipitado? Decidido o que fazer na emoção ao invés de usar a razão.

Ah, perguntava-me sobre isso, mas sabia que a questão era muito mais profunda do que apenas ir até a casa de meu não mais paciente. Conscientemente, eu sabia que a questão da razão e da emoção se tratava de todo um passado acoplado nos confins de meu cérebro, um passado que fora desenterrado não tão recentemente, mas ainda assim me abordava e tirava noites de meu sono.

Passei a mão pela testa, desanimada, e joguei-me na cama. Olhando para o relógio na parede, soube que ainda faltava meia hora para meu encontro com o moreno e isso acabou por me deixar aliviada. Ele, felizmente, mora perto então eu não precisarei me preocupar em sair cedo de casa. Não estava devidamente pronta para encontra-lo e, no fundo, eu sabia que não deveria ter aceitado o convite que ele havia feito. Eu havia sido manipulada por um antigo paciente armado apenas com vontade e um bebê – muito fofo, devo ressaltar. Sorri.

Sentia-me diferente do que eu realmente era há quase um ano. Diferente do que eu era quando tinha meus 15 anos e saí de casa para morar com Ino.

As coisas eram muito diferentes antigamente e eu estou a tanto tempo longe daquilo que nem mesmo me recordo do que eu fazia. Apenas lembro-me de ser diferente e um cheiro em especial... Cheiro de madeira nova, envernizada. Era assim que as mãos de meu pai cheiravam, afinal, depois da advocacia, ele seguia seu maior hobbie: marcenaria. É, é estranho, porém dava gosto olhá-lo cerrando a lenha. Ele parecia feliz, livre, satisfeito. Era essa a sensação que eu procurava ter. Essa satisfação pessoal e realização profissional que rondavam minha mente, meus sonhos.

Eu nunca entendi o motivo deles não terem me apoiado e, provavelmente, a falta do apoio de meus progenitores, a falta de atenção e direção me fizeram chegar onde estou hoje. Não que eu não gostasse de ser psicóloga, amo meu trabalho, mas simplesmente não é o que eu sonhei pra mim. Estou para fazer 24 anos e, 9 anos atrás, eu imaginava que estaria agendando shows como violinista solo, com o nome mundialmente conhecido ou participando de alguma orquestra que faz os filmes da Disney. Dei um riso nasal.

Isso é totalmente diferente de ser professora numa escola de música, ensinando violino. Diferente de ter trabalhado como psicóloga, de não ter terminado o tratamento com meus pacientes e por estar com peso na consciência, não só por tê-los deixado, mas também por ter me apaixonado por um deles. Coincidentemente, estarei encontrando aquele que fez meu coração balançar daqui a alguns minutos, em seu apartamento.

Sasuke.

Quando eu o conheci, ele não era nada mais que um homem cheio de traumas encoberto por uma camada grossa, dura e quase que impenetrável. Um homem coberto de grosseria, sarcasmo, falta de confiança na vida e nas pessoas. Uma camada protetora, de fato. Kabuto havia me prevenido de seu gênio difícil, mas, sinceramente, eu o achei pior que isso. Sasuke era um homem com traumas que eu já havia lidado, situações parecidas, pacientes parecidos... Contudo, ele tinha algo que chamava a minha atenção, algo que ia além da beleza inigualável e das dores que escureciam sua alma: a forma que ele debochava da ajuda que lhe era oferecida.

Percebi isso em nossa primeira consulta. Sasuke sabia que precisava de ajuda, sabia que a dor que ele sentia não iria embora sozinha – principalmente com tanta relutância vinda de sua parte -, mas ele simplesmente não acreditava que alguém conseguiria ajuda-lo. Não confiava em meu método, não confiava em mim e não confiava em si mesmo. Ele, talvez, pensava que não merecia ajuda.

Ah, e isso me assustou de uma forma gigantesca, assim como me deixou encantada. Todo dia eu estudava, raciocinava, refletia. Minhas manhãs e tardes eram todas doadas ao meu mais novo e complexo estudo chamado Sasuke Uchiha e, quando percebi, não havia um dia sequer em que eu não pensara pelo menos em seu nome.

Se alguém ouvisse meus pensamentos, diriam que eu faria exceções de pacientes. Que me dedicava mais ao Sasuke do que ao Sasori, e, durante um tempo, isso se tornou verdade. Sasori é o tipo de paciente que apenas com a psicologia não se pode alcança-lo. São também necessárias análises psiquiátricas, um estudo mais profundo e isso cansava minha mente. Pensar em Sasori me deixava exausta, diferente de pensar em Sasuke e, depois de nosso encontro no jardim, eu soube que se fosse com sede ao pote, eu nada conseguiria. Eu precisava conhece-lo, precisava entende-lo para então, finalmente, ajuda-lo. E essa fora a minha pior decisão.

Levá-lo num encontro de fãs de Star Wars fora cômico e fofo. As caras que ele fazia, tanto de tédio quanto de raiva, conquistaram-me. Vê-lo emocionado por presenciar uma ida ao espaço, mesmo que de mentira, fora, com certeza, gratificante para mim, assim como faze-lo vestir aquela roupa de astronauta.

Ri com a lembrança.

Emoção fora o que senti quando, ao escalar aquela falésia e olhar para Sasuke, vira um sorriso. Branco, com dentes. Fiquei ainda mais emocionada quando este fizera seu primeiro desabafo, mesmo que curto e aquilo acabou por me aquecer por dentro. Eu sabia que estava alcançando-o, mas não fazia a menor ideia de que ele estava me alcançando, também.

Demorei para admitir a mim mesma, mas me apaixonei por Sasuke assim que o entendi. Assim que o vi vulnerável demais para se importar com machismos e não chorar por ser homem, vulnerável a ponto de desabafar apenas com alguém de remota confiança. E esse alguém era eu.

O que mais contribuiu para que eu me apaixonasse por ele foi isso. Essa relutância em aceitar ajuda acabara por fazer com que ele nunca me aceitasse como médica. Em nossas consultas, se eu não era sua médica e ele não era meu paciente, éramos estranhos. Quando desconhecidos passam tempo juntos, tornam-se conhecidos e laços são construídos. De conhecidos para amigos, de amigos para amizade intensa e, de amizade intensa para paixão. Pelo menos de minha parte.

Olhei novamente para o relógio e vi que meu tempo já havia se esgotado. Eu precisava ir até a casa dele agora.

Eu precisava?

Peguei meu celular, abri o google e procurei o significado da palavra precisar.

v.t.d. e v.t.i. Sentir necessidade de (alguma coisa); necessitar ou carecer

v.i. Não ter dinheiro; estar pobre

v.t.d. Fazer uma indicação de modo perfeito; expressar com precisão

Fazer ficar certo; tornar exato e/ou rigoroso; acertar, precisar um controle.

Artes Plásticas. Destacar os contornos de uma obra.

Eu não faço artes plásticas. O único controle de que preciso é o de ligar a TV, não sei se estou explicando com precisão e eu tenho uma boa vida, sem passar necessidades.

O fato é que eu queria e, ao mesmo tempo, não queria ir até a casa de Sasuke. Suspirei. Sabia que, assim que colocasse meu primeiro pé dentro daquele apartamento, seria bombardeada por perguntas que eu não sei se conseguiria responder, mas, eu havia prometido e, mais cedo ou mais tarde, eu teria que enfrentá-lo – preferia eu que fosse mais tarde.

Levantei e peguei as chaves de meu Eco Sport, dirigindo-me até a garagem e entrando no carro, para então liga-lo e dirigir-me até o prédio onde Sasuke estava morando. Peguei a estrada.

Enquanto meu carro passeava pelas ruas do centro de Los Angeles, minha mente trazia à tona a memória do dia em que eu fui embora. Ah, lembro-me de ter conversado com Kakashi e com Kabuto antes de tomar a decisão e lembro-me do quanto eles pediram para que eu ficasse... Do quanto disseram que minha decisão pisara no calo deles, mas era algo que eu precisava fazer. Por mim.

Depois disso, fui até o quarto de Sasori me despedir. Sabia que, no momento em que me demiti, havia deixado ele na mão, assim como o Sasuke. Os dois teriam que recomeçar o tratamento com outro psicólogo e, começar do 0 quando já se teve sucesso com o método antigo é totalmente desanimador. Sei que o ruivo não gosta de contato humano e que seu senso de justiça era um dos maiores com que eu já havia trabalhado, mas senti que lhe devia satisfações.

Mordi o lábio e então dei um riso nasal, lembrando-me da reação que ele teve quando eu disse que estava me demitindo por estar apaixonada por Sasuke. Mesmo que Sasori detestasse as pessoas, ele já fora um psicólogo e, talvez por sua mente deturpada, disse-me o seguinte:

Beije-o.

Fiquei totalmente envergonhada na hora. Vermelha como os tomates que Sasuke havia pintado em nossa primeira consulta e, sinceramente, não entendi o porquê de ele ter me dito isso. Desconversei. Desejei boa sorte para ele no tratamento e prometi que apareceria para visita-lo quando a poeira baixasse. Ele sorriu e então demos um aperto de mão, como se aquilo selasse nossa convivência.

Com o carro parado no farol, tirei um curto período de tempo para abraçar a mim mesma. Todas essas lembranças me davam saudade e, ao mesmo tempo, sentia-me aliviada por não estar mais ali. Ser psicóloga é um trabalho maravilhoso! Saber que você ajudou alguém a se recuperar de um trauma é, sem sombra de dúvidas, mais do que gratificante, mas... Também é necessário ter sangue frio.

Ver o sofrimento das pessoas, mesmo que estas não fossem conhecidas, também me fazia sofrer. Eu precisava tirar férias disso tudo.

Assustei-me com o barulho de uma buzina e soube que havia ficado tempo demais abraçando a mim mesma e confusa. Voltei a andar novamente com o carro e surpreendi-me assim que fiz o contorno e vi o prédio onde meu ex-paciente mora. Suspirei e senti um frio na barriga.

Manobrando o carro, coloquei-o entre dois numa vaga, a tal da baliza – feita com dificuldade. Saí do carro e, depois de trancá-lo, andei lentamente até a entrada do condomínio. Pedi para que o síndico anunciasse que eu havia chegado. Depois disso, andei até o prédio e peguei o elevador, indo até o quinto andar.

Cada passo para mais perto dele fazia meu coração palpitar, mas eu não podia vacilar agora. Principalmente porque já tinha sido anunciada, então ele me aguardava. Respirei fundo e posicionei-me em frente a porte e, antes mesmo de eu bater, ele a abriu e sorriu pra mim.

– Olá, Sakura! – chamou-me pelo nome com sua voz grave e a única coisa que pude fazer foi sorrir para ele – por favor, entre.

Entrei na casa, ainda sorrindo. Parecia um lugar agradável e totalmente cheiroso, como se recém limpado. Olhei para o chão disfarçadamente para analisar o piso e percebi que este era, na verdade, carpete de madeira e então sorri, olhando em volta. O rack era de madeira clara, a mesa de madeira com a “tampa” de um vidro negro. Percebi que estava analisando demais e ainda não havia falado nada para a pessoa que me encarava com seus olhos ônix, difíceis de ser ignorados.

– É um belo lugar – comentei e então ele sorriu de canto.

– Obrigado. Meu pai me ajudou a compra-lo – comentou e eu arqueei as sobrancelhas, andando pela sala com as mãos na cintura e analisando o local, pensando em como o ajeitaria – eu decidi que seria melhor me mudar, que não seria bom atiçar minha cabeça com lembranças por todo lado na antiga casa – ele fez uma pausa e suspirou – sem contar que era uma casa grande demais pra eu viver sozinho.

– Imagino que sim – comentei quase que num sussurro e sorri levemente, passando a ponta dos dedos no rack, sentindo a textura da madeira opaca e da fórmica de beleza magnífica. Suspirei, lembrando-me novamente de meu pai.

– Você está bem? – perguntou. Pude ouvir a preocupação em seu tom de voz e percebi que estava agindo estranhamente. Sorri abertamente para ele.

– Estou ótima, e você? Acho melhor começarmos, né? Não queremos que eu saia daqui meia noite – ri constrangida, querendo me socar a mim mesma por ter falado isso. Apressei-me e abri minha bolsa, tirando de lá alguns tecidos coloridos e transparentes. Sasuke me encarava ainda da porta, esperando qualquer reação minha. Praticamente corri até o lado dele com um sorriso, já sabendo o que eu faria para ajuda-lo naquele cômodo – o que você gostaria de mudar na sua sala?

– Nada – disse e então arqueei uma sobrancelha – não vejo nada de errado com a minha sala. Só um lugar bonito e bem arrumado.

– Sasuke, suponho que saiba o que é feng shui – disse e ele concordou com a cabeça – então deve saber que não é só deixar o lugar bem arrumado esteticamente, mas energicamente, também! Eu mudaria algumas coisas aqui – sorri para ele, que olhou em volta e deu de ombros.

– Bom, então me diga como posso ajuda-la

– Quero que me ajude a arrastar esses sofás, deixar eles de lado – pedi e ele me olhou surpreso.

– Pra que arrastar os sofás? – perguntou receoso. Aparentemente ele gostava da decoração como estava.

– Olha só, sua sala precisa de harmonia! – eu disse e ele me encarou com estranheza – Imagine que tenha visitas em sua casa, todos estão sentados nos sofás e então a última pessoa que faltava chega e olha pra isso – apontei com o dedo indicador e ele continuou sem entender — com os sofás de costas pra porta, quem entrar pode acabar recebendo uma energia ruim, como se um ciclo estivesse fechado e a pessoa não pudesse fazer parte dele... – o encarei, esperando que ele tivesse entendido, mas mesmo assim parecia que algo faltava em minha explicação – Olha, só faça o que eu digo, você não vai se arrepender – garanti, e então começamos.

Ele me ajudou a arrastar o sofá – na verdade eu o ajudei, já que sou fraca e ele forte –, posicionando-os no lugar que eu desejava. Depois disso, movemos as poltronas algumas vezes até que eu achasse que estavam em seu lugar perfeito, com mais energia. Sasuke reclamou muito quando eu disse que a casa estava mal iluminada, que ele precisava abrir mais as cortinas para que o sol entrasse e clareasse o local, por isso, tirei de dentro de minha bolsa um fitilho dourado e a amarrei. O apartamento, antes gelado e mal iluminado, agora estava aquecido e dava uma sensação de paz gigantesca, até mesmo uma ponta preguiça atingiu meu corpo. Fui até uma estante de livros que ele alegou ter comprado recentemente e vi o quanto tudo estava bem organizado, portanto mexi pouco ali. Peguei um pano esverdeado e com pouca transparência, colocando-o sobre o abajur que estava posicionado na mesa de estudos ao lado, quando eu o liguei, o efeito fora belíssimo. Quando olhamos o local da porta novamente, vimos que tudo estava mais harmonizado e dava uma sensação de aconchego. Tudo o que eu garanti que aconteceria.

Depois disso fomos até a cozinha. Minha área específica em feng shui era a sala de estar, mas eu decidi dar uma arrumada lá, também. Abri as cortinas da cozinha, assim como fiz na sala e peguei um vaso que estava em cima da bancada e coloquei-o sobre a mesa. Dentro dele havia algumas flores brancas e outras alaranjadas.

– Não sei bem como arrumar a cozinha – confessei e ele me encarou com as sobrancelhas arqueadas – e mesmo com o pouco que sei, não tenho os materiais aqui para ajuda-lo, mas seria bom se você deixasse algumas frutas a vista e fizesse uma decoração mais colorida com verde, laranja ou amarelo. São cores que incentivam a alimentação saudável e dão alegria pra cozinha.

– É, você realmente entende de cores – ele comentou, pegando-me desprevenida e deixando-me envergonhada. Não sei bem o motivo de ter reagido desta forma, mas é como se meu coração palpitasse por saber que, se ele se lembrava até mesmo do tratamento das cores, ele provavelmente se lembrava de tudo.

Caminhando, fui até a janela aberta da cozinha e posicionei-me de costas contra esta, apoiando os cotovelos na mesma e sorrindo para ele, que pareceu surpreso pela minha reação.

– Claro que sim. Entendo de cores tanto quanto entendo de pessoas – retruquei e isso fez com que ele risse nasalmente. Ficamos alguns segundos em silêncio depois disso e, eu perguntava a mim mesma quanto tempo demoraria até que ele explodisse e me perguntasse tudo que estava em sua mente. Parecia que seria em breve, até que ele perguntou algo que me surpreendeu.

– Está com fome? – Pisquei algumas vezes, arqueando as sobrancelhas – já são quase duas horas da tarde e, você chegou aqui às onze horas... Não sei você, mas eu faminto.

– Ah, sim, estou com fome – sorri sem graça – nós vamos pedir algo ou...

– Não, não, eu vou cozinhar – ele disse e então eu me surpreendi novamente.

– Ora, quer dizer que Sasuke Uchiha sabe cozinhar? – ri e cruzei os braços – duvido.

– Sei cozinhar, e muito bem – comentou, abrindo a geladeira e tirando de lá um pouco de carne, queijo, ovos e temperos. Foi até o armário e tirou de lá farinha de trigo – prepare-se, pois você vai provar o melhor bife à parmegiana do mundo.

Ri novamente.

– Seu ego está mais que inflado, meu querido – passei as mãos pelos cabelos e os prendi em um coque alto e firme, colocando a franja atrás da orelha. Depois disso, caminhei até a pia e lavei minhas mãos – vou ajuda-lo com isso.

– Nada disso, você é minha convidada. Tem que sentar e esperar enquanto eu...

– Nem termine a frase, Uchiha! – apontei o dedo indicador pra ele – você vai cozinhar e eu vou ajudar – observei ele sorrir de canto enquanto em me recompunha, ajeitando a saia – tem batatas aqui?

– Sim, eu as guardei descascadas na geladeira – assenti e abri a geladeira, pegando a pequena bacia que ele usara para guardar as batatas já descascadas – você vai precisar de quantas panelas? – perguntou.

– Duas. Uma pra cozinhar as batatas e uma frigideira pra eu fritá-las – expliquei e, segundos depois, ele me entregou ambas as panelas que eu havia pedido – obrigada.

Coloquei água na panela e esperei que levantasse fervura, colocando as batatas lá. Sasuke colocou os bifes numa pequena bacia e estava temperando-os. Olhei para ele e fiquei de costas contra a pia, os cotovelos apoiados nesta enquanto o observava. Até cozinhando a criatura era bonita, chegava a ser chato de tão bonito.

– O que tanto olha? – perguntou e eu sorri, enquanto ele mexia os bifes para espalhar o tempero uniformemente.

– Nada, só acho que você precisa por um pouco mais de sal... – andei até ele e, com uma colher, joguei lá mais um pouco de sal para que ele espalhasse – posso colocar os ovos e a farinha nos pratos?

– Sim, por favor – pediu e foi o que eu fiz. Coloquei dois ovos num prato e no outro coloquei uma quantidade generosa de farinha de trigo. Depois disso, sem pedir, coloquei óleo na outra panela que ele havia pego para fazer o molho e liguei o fogo para esquentá-lo – suas batatas já estão prontas?

– Ah, ainda não. Eu vou cozinha-las e cortá-las ao meio pra fritar... É diferente da batata frita convencional, eu prefiro desta forma – disse e ele assentiu, começou a passar os bifes no ovo e depois na farinha, voltando-os para a bacia, prontos para fritar. Depois disso, dedicou-se a preparar o molho de tomates.

Com um garfo, tirei as batatas já cozidas da panela uma a uma, cortando-as ao meio. Peguei a frigideira que ele havia me dado e coloquei o óleo para esquentar e, 2 minutos depois, comecei a fritá-las, enquanto Sasuke fritava os bifes bem ao meu lado.

– Sua cozinha vai ficar respingada de óleo – disse, observando o fogão ficando sujo

– Não há problema – ele disse, tampando a panela dos bifes e esperando que estes fritassem, enquanto me observava dando um show com as batatas – sim, dando um show, cozinho muito bem.

O silêncio reinou entre nós depois disso. Eu terminei de fritar as batatas e coloquei-as num prato coberto com papel toalha para sugar o óleo. Sasuke também havia terminado de fritar os bifes e estava colocando-os numa forma. Depois de terminado isto, colocou as fatias de queijo em cima de cada bife e colocou-os no forno para derreter e gratinar.

– Sabe, pelo cheiro, parece que ficou realmente... – fui interrompida e pega de surpresa pelo barulho do forno sendo fechado brutalmente. O som me assustou – mas o que...

– Porque foi embora? — então, finalmente começaria. Eu sabia que isso, mais cedo ou mais tarde, sairia sonoramente dos lábios de Sasuke e, mesmo sabendo, não pude evitar a surpresa da pergunta.

O moreno encarou-me. As sobrancelhas unidas, aparentemente raivosas, esperando qualquer resposta que viesse de mim. Qualquer coisa que tapasse o buraco que faltava nos fatos que ele já havia juntado, como se um quebra cabeça precisasse ser montado. Não pude evitar um suspiro pesado. Como já dito, eu preferia não conversar sobre isso com ele. Não agora e, por isso, não custava nada tentar reverter a situação.

– Sasuke, eu não acho que falar disso agora seja apropriado – mordi o lábio e esperei que ele reagisse de alguma forma.

– Pois eu acho que o momento é mais que apropriado – e minha tentativa de reverter tudo fora por água abaixo – Sakura, é só me responder. Não me importa qual seja a resposta, eu só... – vi que ele fez uma pausa e suspirou tão pesadamente quanto eu. Se encostou com as costas contra a parede, passando as mãos pelos cabelos e jogando-os para trás – só preciso saber o motivo de algumas coisas e, depois disso, eu nunca mais tocarei no assunto. Prometo.

Mordi o lábio novamente, desta vez com mais força. Ver aquela reação dele só me fez pensar em como eu fui um verdadeiro monstro em não ter o prevenido de nada. Eu estava sofrendo na época, mas ele provavelmente também havia sofrido com minha partida sem prévio aviso. Além disso, ele merecia saber.

– Tudo bem – concordei e isso fez com que ele respirasse aliviado – eu vou responder suas perguntas. Vou lhe dizer meus verdadeiros motivos e depois você decidirá o que fazer.

– Certo – ele concordou e então fomos até a sala. Sentamo-nos um de frente para o outro, em sofás diferentes – Porquê foi embora?

– Eu não estava me sentindo bem... – entrelacei os dedos das mãos como uma forma de defesa. Como se fazer aquilo criasse um escudo protetor pra mim – psicologia é um trabalho fantástico, mas quando me mudei para Los Angeles foi com outra intenção. Você sabe muito bem qual.

– Então você se demitiu pra tentar a vida como violinista? – Sasuke perguntou e eu assenti com a cabeça. Não estava com vergonha de tentar realizar o meu sonho, mas estava com vergonha de tê-lo deixado na mão, quando ele mais precisava de mim e quando estava se acostumando com o meu tratamento – e você conseguiu? – dei um riso nasal com a pergunta.

– Se você considera ser professora de violino um sucesso... – falei com ironia. Talvez meu erro fosse sonhar alto demais.

– E, sei que é indelicado perguntar, mas Sasori me disse que você foi se despedir dele, também – aquilo com certeza me deixou surpresa. Sasori havia trocado mais que duas palavras com alguém, por livre e espontânea vontade? Haha, isso era ótimo!

– Exato – disse, meu semblante mais alegre – o que tem?

– O que vocês conversaram? – meu sorriso sumiu na hora que ele perguntou isso pra mim. Eu o encarei na hora, a indignação tomando conta de meu corpo.

– Como assim o que eu e ele conversamos? – perguntei, meu tom de voz subira uma oitava – Sasuke, eu admito que você me pergunte coisas que tenham a ver com você e eu, mas não envolva Sasori, porque o que eu e ele conversamos não lhe interessa em nada – menti. O que eu e o paciente ruivo conversamos era de total interesse do moreno, mas eu não falaria isso. Nunca.

– Então porque me beijou, um dia antes de ir embora? – retrucou e pegou-me de surpresa.

– Pra agradecer – cuspi a primeira coisa que viera em minha cabeça – você me ajudou em um momento ruim, assim como eu o ajudei e, pensei que... Bem, um beijo bastaria para agradecer o que fez por mim – falei tão mal que nem mesmo um animal acreditaria em minha mentira.

– E esse foi o único motivo? – perguntou. Eu pude sentir a desconfiança em seu tom de voz.

– Sim – menti novamente. Eu sabia que se dissesse pra ele que estava apaixonada, a reação não seria boa. Existe um código de conduta que se deve seguir entre o médico e o paciente, e eu não consegui seguir o código. E mesmo que agora não fôssemos mais ligados profissionalmente, eu ainda sentia a culpa de ter quebrado as regras.

De repente, um cheiro de queimado inundou todo o apartamento. Eu e Sasuke olhamos um para o outro de olhos arregalados. Nós havíamos nos esquecido totalmente...

– O BIFE! – Exclamei e então ambos saímos correndo até a cozinha, esbarrando um no outro, passando pelo pequeno corredor desesperadamente.

Quando Sasuke abriu o forno, uma fumaça preta saiu de lá e cobriu toda a cozinha, do chão ao teto. Isso, obviamente, acionou o alarme de incêndio e ligou os sprinklers de teto, que consequentemente molhou toda a casa, incluindo eu e o Sasuke.

– Ah, ótimo! Ótimo! – ele gritou e, quando pensei que ele fosse desativar o alarme, Sasuke pegou-me pelo braço e prensou-me contra a parede, me assustando.

– Qual é o seu problema? – gritei com ele, forçando os braços para me soltar sem ter resultado algum. O barulho do alarme me irritava e os sprinklers ainda estava ligados, deixando eu e ele encharcados – Me solte!

– Você está mentindo pra mim! Está mentindo, mas eu não sou idiota, Sakura! – ele gritou e olhou-me nos olhos assim como eu o olhava. Por um momento, fiquei hipnotizada e nada do que acontecia em nossa volta importava mais, apenas seus olhos e o que ele dizia pra mim.

– E- eu não...

– Admita! – ele gritou e aproximou o rosto do meu, agora baixando o tom de voz, como se houvesse uma multidão em sua casa e ele quisesse que apenas eu escutasse o que ele falava – admita que algo a mais motivou a sua demissão, e eu admitirei que estou apaixonado por você.

Arregalei os olhos e o encarei, sentindo as bochechas esquentarem. No momento em que eu ouvi aquela frase sair da boca de Sasuke, eu o observei. O cabelo molhado, alguns fios de cabelo colados em seu rosto que parecia raivoso e ao mesmo tempo sereno, esperando qualquer resposta minha. A pele alva e os lábios finos e masculinos entreabertos e ofegantes, contrastando com os olhos exageradamente escuros e belos que tinha.

Pensei em milhares de motivos para não beija-lo agora. Nenhum deles foi bom o suficiente.

Sem responde-lo, apenar terminei de aproximar nossos rostos e, quando nossos lábios se tocaram, tudo que estava em nossa volta parou. Parecia que parte de tudo o que havia acontecido finalmente fizera sentido, pra mim. Sem permissão, eu tomara a iniciativa para beijar meu ex paciente pela segunda vez e, novamente, ele me retribuiu. Um beijo que começara lento. Os lábios abertos o suficiente para começar um beijo mais abraseado e intenso, do tipo que a aquece de dentro pra fora.

Aos poucos a força com que ele segurava meu braço desaparecera, e então eu me sentia livre para tocá-lo. Lentamente, passei a mão por toda as costas dele, sentindo a camiseta molhada e grudada em seu corpo esquentar, como se um rastro de fogo fosse deixado por onde eu o tocava. Depois disso, senti seu aperto firme em minha cintura, trazendo-me para perto do corpo dele, enquanto uma das mãos acariciava minha barriga. Um arrepio me percorreu a espinha e eu acabara por soltar um suspiro baixo entre o beijo e, pelo que eu percebi, isso animou Sasuke um pouco mais.

Sem prévio aviso, ele desceu os beijos que dava em mim para o meu rosto, trilhando um caminho até o meu pescoço. Indo e voltando, me arrepiando e me levando até o céu lentamente. Uma de minhas mãos que ainda se aventuraram nas costas, subiram um nível e foram até a nuca, acariciando ali e segurando sem força os cabelos do local, puxando-os. O hálito quente em meu pescoço eriçava todos os pelos de meu braço e senti minhas pernas vacilarem. Com medo de cair, me segurei nos ombros dele e apertei o local, ouvindo um suspiro quente em meu ouvido. Mordi o lábio inferior, puxando-o os cabelos da nuca dele para que ficássemos frente a frente, voltando a beijá-lo dessa vez mais profundamente.

Minhas pernas vacilaram novamente, mas Sasuke provavelmente sentiu isso e pegou-me no colo. Entrelacei minhas pernas na cintura dele e ele me carregou até a outra parede da cozinha, pressionando-me contra a mesma.

Não pude evitar um gemido quando uma das mãos dele alcançou meu seio esquerdo e o massageou. Mordi o lábio dele entre o beijo e o afastei um pouco, tirando a camiseta molhada que ele usava e passando minhas mãos diretamente em sua pele quente, ouvindo outro suspiro dele. Sorrimos maliciosamente um para o outro e, quando eu pensei que ele tiraria minha camiseta, ele simplesmente abaixou o pequeno decote de minha regata, deixando ambos os seios – de sutiã – à mostra.

Quando Sasuke trilhou novamente o caminho de beijos até meu pescoço, ele decidiu se aventurar ainda mais, descendo os beijos para meus seios lentamente. Eu sentia meu ventre aquecer e gemi mais alto desta vez, segurando os cabelos de sua nuca e arranhando-o sem força nas costas. Ouvi um gemido baixo de Sasuke quando o fiz e, quando pensei ter perdido o total controle de meu corpo e que hoje me entregaria à ele, ouvimos um barulho muito alto vindo da porta, como se alguém a abrisse brutalmente.

Sasuke me colocou no chão com cuidado e eu ajeitei minha blusa na velocidade da luz, me dando conta da besteira que eu estava fazendo. Quando olhamos para o lado, dois bombeiros entraram na residência, perguntando se estava tudo bem conosco e que ele havia recebido um alerta de incêndio. Deixei com que Sasuke cuidasse disso, porquê eu não estava com cabeça para responder a nada.

A única coisa que eu conseguia era pensar em como os bombeiros haviam chegado numa hora ruim e, felizmente, me impedido de fazer uma besteira.

Notas finais
Gente, me digam... Gostaram do capítulo narrado pela rosada? Os pensamentos dela forma esclarecidos finalmente! E as cenas finais? Malditos bombeiros, em? kkkkkkkkkkk Espero que tenham gostado e até breve ♥