O Lado Bom da Vida
16 Pais
Notas iniciais
Eu estava sentado na cama, as pernas esticadas e segurando numa das mãos uma maçã. Jogava-a para cima diversas vezes quase que num estado vegetativo causado pelo tédio que insistia em atormentar-me nessa noite de sábado.
A janela aberta dava espaço suficiente para apenas a luz da lua adentrar em meu quarto e iluminar parte da cama. Levantei o braço e encarei aquela maçã extremamente vermelha e brilhante, enxergando até mesmo meu reflexo nela. Não fiz muita cerimônia e mordi-a exatamente onde estava meu reflexo, mastigando-a com certa brutalidade. O gosto azedo invadiu minha boca e, quando eu a engoli, senti-me azedo por inteiro.
Balancei a cabeça afastando aquele pensamento depressivo e levantei-me. Os pés descalços tocaram o chão gelado e um arrepio percorreu todo o meu corpo, mas ignorei aquilo. Caminhei lentamente até a geladeira, abrindo-a. A luz amarela fez com que meus olhos ardessem um pouco e eu ignorei novamente, esticando o braço com pressa e pegando uma garrafa d’água. Depois de fechar a geladeira, voltei até a cama e depositei na mesa ao lado a maçã mordida, bebendo apenas a água.
Com boas e demoradas goladas, logo o gosto de azedo saiu e eu tive que fechar os olhos e respirar fundo para manter a mim mesmo em ordem. Não sabia exatamente o porquê, mas meu corpo parecia agitado o suficiente pra não querer permanecer sentado.
Encarei a janela aberta e me pareceu totalmente tentador a ideia de eu ir até lá, mas o cenário era sempre o mesmo. As mesmas árvores, bancos, a estrada ao longe... Sem contar que, sempre que eu tirava um tempo para observar a ótima paisagem que me fora proporcionada, alguém aparecia em meu quarto.
Poderia ser loucura minha, é claro, mas já fui interrompido por Naruto, Komuro e principalmente por Kakashi diversas vezes. Era até mesmo frustrante, mas... Olhando para o relógio e constatando faltar apenas quinze minutos pras onze, era praticamente impossível alguém aparecer aqui.
Vencido, pela vontade de bisbilhotar nada, me levantei com pressa e andei até a janela esperando que algo estivesse diferente para entreter minha mente preguiçosa que não queria trabalhar por nada. Olhei com certa euforia e... Nada. Tudo estava tediosamente como sempre, até minha mente ser atingida e querer, depois de tanta insistência, trabalhar.
Já tentou imaginar o que se passava na cabeça de seu irmão no dia em que morreu? Pense nisso.
O problema é que: eu não queria pensar nisso, mas, como já disse antes, nem sempre escolhemos o assunto que ronda em nossa mente. Não sabia o que fazer.
Refletir sobre isso é, sem dúvidas, uma das coisas mais difíceis pelas quais estou tendo que passar. Como eu poderia saber o que se rondava na mente de Itachi? Ele sempre fora o ser mais indecifrável que eu conhecia, depois de meu pai. Eu não sabia mais o que poderia concluir de tudo isso.
Ainda me sinto culpado pelas coisas que fiz, mesmo Sakura dizendo que eu não deveria me sentir assim. Mesmo com ela dizendo que minhas escolhas foram quase inexistentes perto das dele, eu não consigo crer em nada disso.
Em pleno sábado à noite eu me pego pensando nesse assunto e acabo por ficar, de certa forma, magoado. Pensar no que eu fiz com meu irmão me deixava assim e, pensar na face de decepção dele que eu vi em meu sonho acabara por piorar ainda mais a situação. Suspirei.
Nada era novo. Esses eram sentimentos conhecidos, paisagens conhecidas, pensamentos conhecidos e, mesmo depois de refletir tanto sobre o assunto no passado, acabo por sentir-me ainda pior do que antes.
Passei a mão pelos cabelos, jogando-os para trás e bagunçando-os. Essa coisa de pensar é muito complicada, por isso sempre me dei melhor com números. A resposta sempre é uma, não importa quem seja a pessoa que o resolva nem o método usado. Nada importa, e as coisas são muito mais simples. Fechei os olhos e senti uma brisa fraca passear brevemente por meu rosto e fiquei assim por alguns segundos, até ouvir o barulho de batidas na porta e assustar-me.
Isso é sério? Não pode ser.
Virei a cabeça em direção à porta e olhei para o chão, notando que havia realmente uma pessoa do outro lado que viera me visitar em plenas onze da noite. Afastei-me da janela e tirei alguns segundos para perguntar a mim mesmo se ela era amaldiçoada ou se tudo são simples coincidências da vida. Enfim, isso não importa agora.
Caminhei com pressa até a porta e a abri, dando de cara com a última pessoa que eu esperaria ver agora.
– Boa noite – a voz melódica e doce de Sakura pareceu-me trêmula e eu não pude esconder a surpresa que eu tinha por encontrá-la ali – eu posso entrar? – eu podia notar o quanto ela estava receosa ao fazer a pergunta.
– Sim, claro – eu respondi, dando espaço para que ela entrasse e a mesma o fez. Fechei a porta com cuidado e caminhei até a Sakura, esta com os braços cruzados e os cotovelos apoiados na janela, olhando para a vista que há poucos minutos atrás eu chamava de tediosa.
Ela usava uma calça jeans simples e uma blusa social verde clara, além das sapatilhas pretas. Quase me senti mal por não estar bem vestido, mas já passava de onze horas, isso era justificável. Dei uma última olhadela ali e posicionei-me ao lado dela, as costas contra a parede gelada e as mãos nos bolsos do moletom cinza.
Eu a observei, enquanto ela fechava os olhos e sentia a brisa adentrar o quarto, exatamente igual a mim antes dela chegar. Não sabia o motivo de ela estar ali, agora, mas ver isso me fez sentir uma imensa calma e até mesmo relaxar.
– Você está bem? – eu perguntei e ela abriu os olhos, virando o rosto para me fitar.
Seus olhos verdes nunca estiveram tão brilhantes como hoje. Provavelmente isso era causado pela luz do luar que a iluminava, quase como um brilho que a pertencia. Como se ela fosse sua própria luz.
– Sabe, quando eu ainda era criança eu tinha muito medo da lua – ela disse, e aquilo me fez sorrir – eu achava que ela estava me seguindo e então eu corria até a minha mãe, dizendo pra ela me salvar – ouvi um riso adorável vindo dela e continuei fitando-a para que continuasse – Minha mãe me abraçava e dizia – ela fez uma pausa, puxando o ar para imitar a voz da própria mãe – Menina boba! A lua não seguiria você.
Sorri pela imitação da mesma, que olhou pra mim e sorriu triste.
– Sasuke, você não sente falta dos seus pais? – meus olhos se arregalaram surpresos pela pergunta. Abri a boca para responder, mas eu não sabia como fazê-lo, então as palavras morreram ali – eu sinto muito a falta dos meus.
– Porque está me dizendo isso? – perguntei realmente curioso. O relógio dizia já ser 23h e 21min, e eu questionava o motivo dela vir me visitar a esse horário para conversar sobre isso.
Fitei o rosto dela devera receoso e senti que, talvez, ela não quisesse dizer o real motivo de estar ali.
– Eu estava conversando com Kakashi... – aquilo puxou minha atenção e logo uni as sobrancelhas, assimilando o que havia acabado de escutar.
– Qual seu relacionamento com ele? – perguntei sem pensar direito, vendo as bochechas de Sakura coradas. Agradeci pelo fato das luzes do quarto estarem apagadas, porque minhas bochechas esquentaram também pela minha imprudência – sinto muito, não é da minha conta.
Isso a fez rir.
– Tudo bem, não há motivo pra se preocupar – continuou com os cotovelos apoiados na janela, mas agora apoiou o queixo numa das mãos, olhando para mim – Admito que Kakashi é um homem muito bonito, mas ele é quase um paquerador patológico – e então ela riu novamente – somos só amigos muito próximos.
– Entendo – foi apenas o que eu pude responder. Ainda estava envergonhado por perguntar aquilo do nada. É como se meu corpo se mexesse antes da minha mente se dar conta do que estava fazendo.
– Mas, como eu estava dizendo... Eu conversava com Kakashi sobre você – surpreendi-me novamente, mas não tive muito tempo para pensar, já que ela continuou – ele me disse que você foi embora por conta própria assim que fez 18 anos.
Eu mataria Kakashi por falar disso, mas era verdade. Respirei fundo e passei as mãos pelos cabelos, nervoso pelo olhar curioso e penetrante que ela direcionava a mim.
– Eu estava fazendo o que você me pediu – seu olhar passou de curioso para confuso – pensando sobre aquilo que você me disse, do pensamento do meu irmão.
– Ah sim – ela pareceu aliviada e sorriu para mim – chegou a alguma conclusão?
– Na verdade você chegou aqui quando eu estava começando a me deprimir sobre o assunto – respondi sincero – acho que eu sempre sentirei uma parcela de culpa pelo que aconteceu – seu olhar esverdeado e totalmente compreensivo me acalmava de maneira extraordinária – ainda acho que se eu tivesse feito qualquer coisa diferente, ele estaria vivo – suspirei e fechei os olhos, permanecendo assim por segundos.
Novamente a brisa adentrara no quarto e os pelos do meu braço arrepiaram-se, mas eu permaneci daquela forma, já que era de certa forma, relaxante.
– Talvez você tenha razão – abri os olhos com rapidez e a encarei, ela sorria e aquilo me surpreendeu – mas seu irmão fez a escolha definitiva naquela noite. Ele quem decidiu o próprio destino e eu o admiro por isso.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que ele tinha duas escolhas: ficar parado e ver você morrer ou tentar fazer algo para mudar isso – continuei olhando para ela, que caminhou até o outro lado da cama, pegando a maçã com apenas uma mordida que estava ali – Sasuke, suas decisões não adiantariam de nada porque ele próprio estava preparado para morrer no seu lugar. Ele decidiu assim.
Continuei estático na parede, fitando-a sem saber o que dizer. Eu nunca havia pensado dessa maneira... Ele caminhou para a própria morte, ele mesmo decidiu morrer por mim.
– Seu poder de decisão não significava nada equiparado a isso – ela disse novamente, e meus olhos começaram a encher-se de lágrimas quando percebi o destino horrível que meu irmão havia escolhido para si, por mim – ele decidiu o próprio destino, não você.
– Eu sei disso – passei as mãos pelos olhos, impedindo as lágrimas de caírem – ele é maravilhoso, mas eu não sei se posso perdoá-lo por isso.
Poderia parecer egoísmo meu, afinal meu irmão já estava morto e eu sofro por isso até hoje, mas agora que eu sei que ele fez isso tudo por mim, me faz pensar que ele tirou o meu poder de decisão dali. Não que eu realmente tenha isso, já que, na última vez que eu decidi morrer, Naruto me salvou.
– Mas, você não precisa perdoá-lo – ela brincou, dando uma mordida no outro lado da minha maçã e colocando-a onde a mesma estava – só precisa agradecê-lo.
É. Agradecê-lo por me dar a chance de viver um pouco mais, de fazer faculdade, conhecer pessoas novas, casar-me, constituir minha própria família. Itachi abriu diversas oportunidades em minha vida mesmo depois de morto.
É a pessoa que eu mais admiro na vida. Sempre vou admirar.
– Você tem razão – respondi e sorri pra ela, que voltou e se aproximou de mim. Olhei para o relógio e agora faltavam 25 minutos para meia noite, eu ainda não sabia o real motivo dela ter vindo até aqui.
– Sempre tenho – ela riu da própria brincadeira, voltando a olhar pela janela terminando a risada com um suspiro – você não acha que, com o apoio de seus pais, você teria enfrentado isso tudo com maior facilidade?
Novamente o assunto sobre os pais, e aquilo me deixou com uma enorme pulga atrás da orelha. Mas decidi ser sincero quanto à pergunta dela.
– Sim – respondi e ela me fitou. Os olhos esmeraldinos brilhantes e preocupados – eu já tentei me reconciliar, mas sempre me faltou coragem sabe? Não pela minha mãe, eu sei que ela me perdoaria depois de um tempo, mas sim pelo meu pai – ela agora estava curiosa para saber mais sobre a minha família – ele sempre fora um homem muito severo e era muito apegado à Itachi, mas... Eu sempre sinto a falta deles.
Isso era a mais pura verdade. Quantas vezes eu não me peguei discando o número da casa deles, ouvindo a voz de minha mãe dizendo apenas Alô e depois desliguei? Quantas vezes eu pesquisei sobre meu pai na internet e chorei sobre a nossa foto de família?
Às vezes eu fechava os olhos e perguntava a mim mesmo o motivo de minha vida ser tão difícil.
– Entendo – quando a fitei, ela olhava para o jardim de maneira tão triste que eu poderia sentir eu meu corpo a intensidade daquilo – às vezes eu acho que meus pais só me julgariam por eu escolher ter sido uma violinista, mas eu sinto muito a falta deles – ela disse sincera e então suspirou – eu sempre quis ser violinista, fugi de casa para isso e não consegui nem mesmo fazer o que eu desejava – sua voz mostrava claramente a frustração que sentia de si mesma e eu acabei por ficar triste por ela – me faz pensar que eu fiz tudo isso em vão. Que eu me afastei das pessoas da minha vida por nada – ela passou as mãos pelos olhos, provavelmente evitando o choro, completando quase que num sussurro – eu pensei que eu fosse especial, mas eu não sou.
– N- não fale isso! – eu quase gritei, falando sem pensar novamente e isso a assustou muito, olhando para mim com os olhos arregalados. Agora que eu havia começado, teria que terminar – quer dizer, bem... – eu sorri, sem graça – se você não é especial, porque a lua tá seguindo você?
Ela me olhou corada e totalmente surpresa enquanto eu tentava sorrir ou dar algum apoio, mas eu não era muito bom nisso. Fiquei ainda mais nervoso quando percebi as lágrimas escorrerem pelas bochechas dela e aquilo quebrou meu coração, até eu a ver sorrir enquanto chorava.
– Obrigada – ela disse, passando a costa das mãos pelas bochechas limpando as mesmas — obrigada Sasuke.
Observei a coisa rosa fungar e rir enquanto chorava e aquilo se tornou extremamente estranho. Um misto de diversos sentimentos era formado ali e eu não sabia como digerir cada um deles, então eu apenas sorri, estendendo para ela a garrafa com um resto de água. Ela aceitou e tomou o resto em longos goles.
– De nada.
Ela sorriu abertamente para mim, mas deu um grito que me assustou.
– Já é meia noite e dez! – exclamou, colocando ambas as mãos na bochecha – eu preciso ir embora.
– Tudo bem, eu abro a porta pra você – eu disse e então ambos caminhamos juntos até a mesma. Eu a abri e ela saiu rapidamente, virando-se para mim para se despedir.
– Sasuke, hm – eu a olhei, arqueando uma das sobrancelhas ,um pouco confuso pelo fato dela estar corada – obrigada por isso, você realmente me animou e eu... Bem... Gostaria de saber se posso lhe dar um abraço.
Dei um riso nasal e apenas abri os braços, vendo-a sorrir pela minha resposta corporal. Ela se aproximou de mim e me abraçou com uma força deveras impressionante, e eu apenas retribuí aquele abraço sincero que ela estava me dando. Abracei-a com força, posando o queixo sobre a cabeça dela.
Ficamos abraçados por longos segundos. O corpo dela é pequeno, frágil, quente. Faz-nos ter vontade de protegê-la e isso era realmente estranho.
Senti a movimentação dela e a soltei, mas estranhei por não ser solto. Ela continuava ali, abraçada a mim como se eu fosse um tesouro e isso me fez olhar para baixo, fitando-a com curiosidade. A rosada inclinou a cabeça para cima, para olhar em meus olhos e eu notava cada vez mais sua aproximação, acabando por ficar corado.
Repentinamente e sem jeito, ela se afastou de mim com pressa, passando as mãos pela camisa social.
– certo, tchau – se despediu, sorrindo sem graça e dando meia volta. Observei por alguns segundos e entrei em meu quarto, fechando a porta.
Quando eu caminhava para minha cama, parei para dar novamente uma olhada pela janela quando batidas em minha porta foram ouvidas. Eu estreitei o olhar, estava começando a ficar com medo disso.
Andei até a porta e a abri, mas me surpreendi novamente quando Sakura estava lá com o olhar decidido. Arregalei os olhos quando ela me puxou pela gola da camisa velha e branca e, bem... Me beijou.
Fiquei por algum tempo estático. Eu estava há três meses e duas semanas internado, e fazia quatro meses e duas semanas que minha esposa estava morta.
Quatro meses e duas semanas que eu não sentia a sensação de lábios contra os meus. Todo esse tempo sem sentir o calor de um corpo, nem o calor de um beijo. Aliás, aquilo não poderia ser realmente chamado de beijo, estava mais para um roçar de lábios, mas... Mesmo assim era bom.
Fechei os olhos e aquilo durou por alguns segundos, até ela se afastar rapidamente. Eu podia ver as lágrimas em seus olhos.
– Adeus – ela saiu correndo e deixou-me ali parado, estagnado.
~
Eu demorei para dormir àquela noite. Fiquei pensando no motivo de Sakura ter feito aquilo e também em minhas próprias ações e reações daquilo.
Olhei para meu braço e ele ainda estava arrepiado. A única coisa que eu queria era encontrá-la e fazer-lhe muitas, muitas perguntas. Acho que nunca estive tão curioso e confuso em toda minha vida. Depois de me arrumar, abri a porta com certa brutalidade e fiquei surpreso ao dar de cara com Kakashi.
– Ah, você! – eu disse, andando rapidamente até ele que me olhou com curiosidade – onde está a Sakura?
Pude ver seus olhos surpresos, as sobrancelhas arqueadas e a expressão totalmente confusa me encaravam.
– Pensei que você soubesse – ele disse, aproximando-se de mim e colocando uma das mãos sobre meus ombros – ela se demitiu.
Fale com o autor