O Lado Bom da Vida
17 Egoísmo
Notas iniciais
O amor é o egoísmo duplicado
– Machado de assis
– Como assim ela se demitiu?! – perguntei um tanto eufórico, afastando a mão de Kakashi que estava em meu ombro. Ele arqueou uma das sobrancelhas, os olhos contendo certa confusão.
– Se demitiu, pediu as contas, parou de trabalhar aqui, não é mais funcionária da psiquiatria – Kakashi repetia rapidamente sinônimos da expressão demitir-se com a entonação mais arrogante possível. Sua ironia acabara por me deixar nervoso – consegue entender?
– E como pôde deixar isso acontecer? – perguntei, tentando ignorar tudo que ele havia dito anteriormente – você não é, supostamente, o chefe dela? – falei ironicamente — Deveria tê-la impedido!
Pude observar Kakashi fechar os olhos e suspirar longamente, provavelmente numa tentativa de manter a calma ou escolher a melhor forma de piorar a situação, respondendo com arrogância ou estupidez. Mas não.
Ele colocou novamente a mão sobre meu ombro e fez um sinal negativo com a cabeça, indo embora e deixando-me lá, plantado. Eu não tive a mínima coragem de segui-lo ou fazer mais perguntas para o mesmo, pois conhecia Kakashi e sabia que ele não me responderia. Pelo menos não agora e, mesmo que respondesse, talvez não adiantasse tanto.
Ele estava tão confuso quanto eu.
Suspirei e passei a mão pelos cabelos. Eu não sabia o que fazer, afinal, estava cheio de dúvidas e suspeitas e a única pessoa que poderia confirmá-las ou negá-las havia se demitido e, o pior, eu não fazia a menor ideia de onde encontrá-la.
Fechando os olhos, fiquei por um longo tempo puxando o ar pelo nariz e soltando-o pela boca, procurando manter a calma e o pensamento positivo. O dia havia acabado de começar e, desesperar-se logo no início dele não era a melhor decisão a ser tomada, além de interferir totalmente no resto do dia. Era quase como uma superstição ou, talvez, um mau presságio. Não sei. Só sei que não quero ser incomodado por nada disso e, pela primeira e única vez na vida, gostaria de ser atingido por uma sorte vinda de deuses.
Recebi um cutuque que fizeram meus olhos se abrirem com certa brusquidão, assustando a enfermeira que havia o feito. Seus cabelos vermelhos lembraram-me o de minha esposa por alguns segundos.
– Você está bem? – ela perguntou, olhando-me com certa preocupação.
– Estou sim – respondi, colocando as mãos sobre os bolsos do jeans bege que estou usando. Ficar parado no corredor de olhos fechados realmente não foi a melhor ideia do mundo, mas eu precisava me acalmar.
Me acalmar e decidir qual a melhor decisão a se tomar agora. Suspirei e relutei por alguns segundos, antes de virar todo o meu corpo para a esquerda – sendo este o lado oposto ao posto de enfermagem – e andei com certa pressa nessa direção. Em alguns minutos, eu passava pelas alas de exames e até mesmo em frente à sala do Kabuto, na área de pesquisas psicológicas. Essa era a primeira vez que eu passava por esse lugar sozinho e sem remorso algum, já que na última vez era tarde da noite e eu tentei fazer isso sem ser descoberto. Sem contar o destino diferente.
Naquela vez, eu dirigia-me ao jardim e, desta vez, estou indo até o consultório de Sakura. Também era a primeira vez que fazia o trajeto completo sem a companhia de Komuro.
Apertei o passo sem saber o motivo real de tanta pressa. Talvez eu achasse o fato de correr pudesse me fazer alcançá-la, mas eu sabia que isso era apenas uma fachada. Uma esperança mínima que ocorria em meus pensamentos e que já estava sendo exilada dos mesmos.
Chegando ao prédio já não tão novo assim, passei às pressas pelo posto de enfermagem e pelo corredor azul de bolinhas brancas, parando em frente à porta do ex-consultório da coisa rosa. Fiquei parado por um tempo ali, colocando as duas mãos sobre a porta e encostando com leveza o ouvido na mesma. Sim, eu estava ouvindo por trás da porta, mas era só pra ter certeza de que havia alguém ali dentro.
Ao escutar passos, afastei-me e bati o punho de leve na porta, surpreendendo-me ao encontrar a última pessoa que pensei que encontraria. Ino.
– Oh, entre – ela disse, segurando uma grande caixa de papelão com diversas coisas, tagarelando algo no celular, mas não prestei muita atenção nisso. Ela segurou a caixa com apenas uma das mãos e com a outra livre fez um sinal para que eu entrasse, e eu o fiz.
Observei todo o consultório e como ele parecia vazio. A mesa, antes cheia e bagunçada, agora estava limpa e vazia. A sacada com telas de pintura, som e CDs também fora esvaziada e agora todas essas coisas encontravam-se em cima do sofá macio de lá.
Me peguei olhando para a lousa, onde estavam os três tópicos dos meus desejos:
Tornar-se astronauta
Alpinismo
Diversão na praia
Todos eles continham ao lado um check porque já havíamos realizado aqueles e, isso me fez pensar nos desejos que eu ainda realizaria com ela. Foi quando Ino, ainda no celular, disse algo que puxou totalmente a minha atenção.
– Claro que não, Sakura! Eu estou aqui com as suas coisas – ela parou e fez careta, ouvindo algo que a amiga falava antes de continuar – calmaaaa! Eu vou levar pra você, está bem? – Ela fez outra careta – Ah, ninguém mandou ir embora tão rap... – Ino se deu conta do que havia feito quando encarou minha expressão confusa. Eu poderia ouvir a voz da coisa rosa chamando-a através do aparelho.
Ino? Ino, o que houve?
– Me dê o celular – ela negou com a cabeça, mas eu pouco me importei, já tirando o celular da mão dela – Alô.
– Sasuke? – eu pude notar a confusão em sua voz e, por um segundo, fiquei aliviado em poder escutar aquele som melódico novamente.
– O que aconteceu? – perguntei, minha voz saindo mais grave do que de costume – porque se demitiu?
– Devolva o celular da Ino, por favor – ela disse, e sua voz impassível acabara por me deixar um pouco nervoso.
– Você por acaso ouviu o que eu perguntei? – a voz estava mais agressiva agora – vai mesmo sumir do mapa sem me dar qualquer explicação? – andei até a sacada, enquanto Ino me encarava pasma.
– Não é hora disso – ela fora dura comigo – eu não tenho que lhe explicar nada! O motivo de minha saída pertence à mim, e apenas à mim.
– Então por que foi ao meu quarto ontem à noite? – vi Ino arregalar os olhos, provavelmente ela não sabia do que eu estava falando – por que fez aquilo?
O silêncio perdurou por alguns segundos e eu poderia apenas ouvir a respiração descompassada da rosada. Talvez ela não soubesse o que me responder.
– Poderia, por favor, devolver o celular à Ino? – ela intensificou o por favor e eu senti em meu peito um desapontamento gigante por ouvir essa reação dela.
– Você não me respondeu.
– Tem noção de que eu posso simplesmente desligar o celular? – quando ouvi a coisa rosa perder a calma, tive que sorrir de canto– Estou tentando ser educada. Não quero lhe responder, poderia tentar aceitar?
– É rosada, mas você me deve isso – eu disse e consegui ouvir um longo suspiro vindo dela – não pode simplesmente ir embora e me deixar aqui preso numa bola de confusão.
– Vai devolver o celular? – sua atitude me deixava ainda mais impaciente e irritado.
– Não
– Então tchau.
Ao ouvir os tus do celular desligado, apenas estiquei o braço, entregando-o para a doutora Ino que olhava para mim de forma incrédula.
– O que houve entre você e a Sakura? – ela perguntou, mas eu apenas a encarei. Ainda estava irritado por ser tratado com tanta indiferença pela pessoa que eu admiti ser especial pra mim, uma amiga.
– Porque não pergunta pra ela? Vai vê-la em breve – fui sarcástico e saí da sala, pisando com força no chão.
Não estou conseguindo acreditar em nada do que está acontecendo. Ontem ela me beijou, hoje se demitiu e me trata dessa maneira, depois de tudo que ela me disse... Depois de tudo que eu confidenciei a ela. Histórias íntimas, sentimentos que nem mesmo meu melhor amigo conhece.
E eu até mesmo tentei consolá-la ontem. Eu a abracei e dei liberdade para isso e, mesmo que pouco, senti aquele beijo.
Puxei o ar com força e corri até o jardim numa rapidez que nem mesmo eu pensei que tivesse. Ao chegar lá, minhas pernas tremiam pelo fato de eu não ter me alongado, mas eu não me importei. Estava com raiva e, por isso, com vontade de bater em alguma coisa, mas não tinha nada interessante ali pra bater. A não ser árvores. É.
Aproximei-me de uma e comecei a chutá-la com força. Desferia na mesma alguns chutes nos lados e pisadas na frente, fazendo com que a mesma balançasse com cada chute que eu dava, além de algumas folhas caírem.
Continuei assim por alguns minutos e meus pés começavam a doer, mas eu não me importava. Nem com isso, nem com os olhares dos idosos e adultos que passavam por lá e me olhavam com estranheza.
– O que está fazendo Sasuke? Você está louco?! – uma voz conhecida. Era Tsuna e, aquela pergunta me fez rir sarcasticamente.
– Estamos numa psiquiatria. Você esperava o que? – fui curto e grosso. Ela me olhou sentida e foi embora sem dizer mais nem uma palavra. Eu não estava afim de conversar, só queria descontar minha raiva em alguma coisa.
Quando meus pés já estavam doloridos o suficiente, comecei a socá-la, sentindo farpas me espetarem, além de uma dor e ardência aguda. Repetindo novamente a sequência de movimentos, socando a frente e os lados. Fiquei por pouco mais de 3 minutos desferindo meus punhos contra aquela árvore dura e que parecia chorar a cada golpe que eu dava.
Parei, ofegante e fiquei em pé, recuperando o ar que me faltava.
– Já terminou de descontar sua raiva na árvore? – aquela voz era novamente conhecida. Virei para trás para poder encará-lo.
– O que quer, Sasori? Pensei que odiasse o contato humano – eu disse, e isso fez com que as sobrancelhas acobreadas do homem se arqueassem.
– Eu odeio – ele disse e eu fiquei encarando-o, vendo que uma de minhas mãos sangrava pela brutalidade dos golpes – esse seu tipo de atitude infantil e egoísta é um dos principais motivos de eu odiar.
Observei o ruivo caminhar para perto de mim. As mãos no bolso do jeans preto que usava, além da camiseta vermelha.
– Quem é você pra dizer que sou egoísta? – Ele sorriu debochado. Cerrei o punho e senti-os arder, mas me segurei. Aquilo ia precisar ser muito bem lavado.
– Fui a penúltima pessoa que Sakura visitou, antes de ir embora – aquilo fez eu ter um mini ataque cardíaco. Ela também o havia visitado? – eu escutei sua conversa com ela no consultório – eu fiquei novamente surpreso – você não me viu porque passou correndo e totalmente desnorteado.
Engoli seco e desviei do olhar dele, dando um passo para trás e encostando-me à árvore que eu havia acabado de espancar. Não sabia muito que dizer pra ele, e isso fez com o que o mesmo soltasse um riso nasal.
– O que ela te disse? – perguntei, e ele sorriu novamente.
– Não é da sua conta – o sorriso sínico que ela dera me fez perder a cabeça.
Apoiando o pé direito no chão, peguei impulso e avancei no ruivo pronto para socá-lo. Entretanto, impressionei-me com a rapidez em que o mesmo desviou para o lado direito e segurou-me pela gola da camisa, jogando-me contra a árvore em que eu estava encostado. O baque me fizera gemer de dor e eu não pude sustentar-me de pé, caindo ajoelhado. Ele apenas sorriu pela sorte de ninguém ter visto aquilo.
– Se eu odeio o contato humano, é porque entendo dele melhor do que ninguém – uni as sobrancelhas, encarando-o confuso – eu era psicólogo e hoje estou aqui, internado no mesmo barco que você.
Pera. Ele era psicólogo?
– Está mentindo – eu disse, e ouvi de Sasori uma risada quase que temerosa.
– Você acha que os psicólogos sabem lidar com os próprios problemas e, bem, era pra ser assim na teoria. Mas a questão é que ainda assim nós temos problemas – ele pisou com força no chão, desferindo em mim um chute no braço direito, que me fez gemer de dor e cair para o lado esquerdo – Temos muitos. Meus problemas me fritaram e eu enlouqueci, assim como você. Porque seria diferente comigo? Porque teria que ser diferente com ela? Porque somos psicólogos?
Eu o olhava totalmente assustado pelo seu momento de loucura. Não sabia o motivo de ele estar dirigindo-se a mim dessa maneira, mas cada palavra que saía de sua boca era como o chute que ele havia acabado de me dar.
– Ela tem problemas tanto quanto eu, tanto quanto você. Ela também precisa dar um rumo pra vida dela, afinal, somos todos humanos – depois disso, ele suspirou e me olhou com repulsa – Egoísta. Deu esse chilique apenas por importa-se consigo mesmo e não com ela. Você é um lixo, Uchiha.
Fechei os olhos, esperando por um último chute que não veio. Quando eu os abri, dei-me de cara com um par de íris cor de mel que me encaravam totalmente preocupadas.
– Você... está bem? – era Tsuna novamente, totalmente receosa em falar comigo depois da patada que eu havia lhe dado, mas mesmo assim preocupada.
– Estou – disse, sentando-me na grama com dificuldade. O machucado em minha mão ardia ainda mais e isso fez com que eu soltasse um baixo grunhido.
Quando a garota viu meu machucado, arregalou os olhos.
– Vou pegar um pano para enrolar em sua mão e chamar uma enfermeira – ela disse, preparada para sair, mas eu a segurei antes que o fizesse.
– Espere – eu disse, e ela me olhou com uma curiosidade que parecia até mesmo palpável – me desculpe por ter sido indelicado. Eu estava meio... nervoso.
– Tudo bem – ela sorriu pra mim – mas eu preciso chamar a enfermeira.
Ela forçou a mão e então correu para dentro do prédio, pronta para me socorrer.
Olhei para o céu azul, o sol indicava estar perto do meio dia e acabei por suspirar lembrando-me de tudo que Sasori havia acabado de me dizer. Eu estava mesmo sendo egoísta?
Não sei ao certo, mas agora eu já me decidi. Sei bem o que devo fazer.
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