O Lado Bom da Vida
2 Meu mundo caiu
Notas iniciais
Abri os olhos com dificuldade. Minha vista doeu e ficou embaçada por um bom tempo.
Tudo era muito branco. Muito brilhante, muito dolorido. Não aguentei e então fechei os olhos, e tudo voltou a minha mente.
Pássaro. Carro. Queda. Choro. Sangue.
Keiko... Asako...
Abri os olhos que continham lágrimas e tudo que eu pude fazer era piscar vezes repetidas, para me acostumar com toda aquela branquidão e expulsar as imagens da minha mente. Não queria me lembrar.
Busquei o ar de forma tão desesperada, e senti como se eu não respirasse há muito tempo. O ar gelado adentrou em meus pulmões e me fez sentir um arrepio estranhamente doloroso.
Com os olhos fechados me concentrei, tentando sentir cada parte do meu corpo. Mãos, pés, pernas, pescoço, ombros. Mexia-os de forma tão fraca que parecia que eu não comia há dias, mas eu precisava conferir. Levantei meu braço direito e o levei a altura da cabeça, observando minha mão enfaixada. Ferida. Dolorida.
– Ele acordou – eu apenas pude ouvir o tumulto formar-se ao meu lado – Sasuke? Pode me ouvir? Sasuke?
E então minha visão passou de branca para um amarelo forte, um amarelo vivo. Focando então em seus grandes olhos, lançando a mim um olhar tranquilizador e de felicidade por eu estar acordado.
Abri minha boca para pronunciar-lhe o nome, mas nada saiu. Minha boca estava seca. Não havia fôlego, não havia forças. Então eu apenas sibilei, o chamando.
Naruto.
E ele logo entendeu, apertando um botão na cama que fez a mesma ir se inclinando aos poucos para a frente, fazendo eu ficar sentado e também mais confortável.
Observei ele pegar um copo plástico e colocar um pouco de água, me ajudando a tomá-la em um longo gole. Depois disso, eu fechei os olhos e respirei fundo novamente, sentindo a água refrescar minha garganta e continuar indo até meu estômago.
Agora que eu estava sentado, podia ver melhor como estava meu corpo. Passei a mão pelo rosto, sentindo a máscara de oxigênio. Grande parte do meu corpo estava com gaze e ataduras, mas eu podia sentir tudo.
– Naruto – eu o chamei, e então pude observar aqueles olhos azulados encherem-se de lágrimas e sorrir para mim.
– Estou tão feliz por você estar bem – ele disse, passando as mãos pelos olhos e expulsando as lágrimas que brotaram – como está se sentindo? Tem dor?
– Não.
– As enfermeiras tiveram que aplicar morfina em você – ele disse, com um semblante preocupado.
– E em que hospital eu estou? – perguntei, olhando ao redor e não reconhecendo.
– No hospital Hatake.
– Como está a Asako? E a Keiko? – perguntei, olhando para Naruto, que desviou o olhar e apertou as mãos.
– Olha, melhor não se preocupar com isso agora – Quando eu ia perguntar novamente, ele me cortou – eu vou avisar a enfermeira que você acordou, para ela lhe trazer o almoço.
Eu assenti. Ele pareceu nervoso quando eu perguntei... Será que algo tinha acontecido?
Não. Fechei os olhos e balancei a cabeça para espantar aqueles pensamentos negativos. Elas estão bem. Elas têm que estar bem.
Foi quando bateram na porta novamente, e um rosto que eu não via a muito tempo surgiu, com um sorriso simpático.
– Então você finalmente acordou?
– Kakashi? O que você...
– Eu estou cuidando pessoalmente do seu caso – ele disse, sentando-se na poltrona ao meu lado – é um dos meus melhores amigos e não poderia tratar-lhe de forma diferente.
– O que houve comigo? – perguntei, desviando do olhar dele e abaixando a cabeça.
– Bom, foi uma queda feia. Felizmente você não teve nenhuma fratura, mas alguns membros foram deslocados. O baque forte gerou sangramentos internos que foram difíceis de estancar, mas nós conseguimos a tempo. Você também bateu a cabeça, mas... Para uma queda daquelas, esses ferimentos foram leves.
– E minha filha e esposa? O que houve com elas? – perguntei novamente, esperando que Kakashi dissesse algo.
Pude observar ele fechar os olhos e dar um longo suspiro, como se pensasse em algo.
– Olha Sasuke, é uma situação muito... – ele foi interrompido por Naruto e a enfermeira, que carregava uma bandeja branca, contendo uma jarra de suco e um prato com qualquer coisa que seja. Não estou interessado nisso.
– Kakashi, sobre Asako e Keiko... – eu disse, já perdendo a paciência.
– Sasuke, você não tem que se preocupar com isso... – Naruto dizia, mas eu o interrompi.
– Sim, eu tenho que me preocupar! É minha filha, minha esposa. Quero saber como elas estão, mas que merda! – eu gritei, e isso fez Naruto ficar apreensivo.
Kakashi suspirou, tirando a máscara protetora que estava usando e me encarou.
– Sasuke, as vezes acontecem coisas que servem para provar o quanto somos fracos, e nos fortalecer – ele começou, e eu mordi o lábio inferior.
– Kakashi, eu não acho prudente você... – Naruto foi interrompido novamente.
– Chega Naruto. Se não contarmos, vai acabar sendo pior – Kakashi o repreendeu.
– Me contar o que? – eu perguntei nervoso, enquanto a enfermeira colocava a badeja em minha frente, numa mesa portátil.
– Essa é uma situação muito complicada... – Dessa vez, eu interrompi o Kakashi.
– Complicada pelo que, Kakashi? O que aconteceu com elas? – Eu gritei novamente, ficando desesperado.
– Chega Kakashi! Não precisa fazer ele ficar pior! – Naruto também gritou – Ele precisa se recuperar primeiro!
– Cale a boca! – Eu gritei, jogando a bandeja que a enfermeira me serviu para o lado oposto ao que Kakashi estava, fazendo todos ficarem assustados.
Eu tremi, e respirei fundo, para refazer a pergunta com calma.
– Se aconteceu algo, eu quero ficar sabendo. Por favor, me conte.
Olhei para Naruto, que resolveu ceder, e então sentou-se no pequeno sofá ao lado da cama, parecendo inquieto.
– Como eu disse a você , foi um acidente feio. Quando percebeu que teriam que desviar para o barranco, Keiko parece ter soltado o cinto de seguranças e pulado para o banco de trás para proteger a Asako – Eu tremi e arregalei os olhos quando me lembrei da imagem de Keiko abraçada com Asako – Keiko perdeu muito sangue, já que o vidro do carro quebrou em cima dela e os cortes foram profundos.
Ao ouvir isso, lágrimas começaram a cair de meus olhos, pensando no sofrimento que elas poderiam estar sentindo agora.
– Asako não sofreu cortes, mas durante a queda ela foi a que mais se prejudicou. Como é criança, seus ossos são mais sensíveis, e as fraturas foram graves.
– Mas... E agora? Como elas estão? – perguntei, contendo um fio de esperança de que eu ouviria que agora elas estavam bem e em recuperação rápida.
Mas não.
Pude observar Kakashi fechar os olhos e respirar fundo, antes de me dar a notícia.
– Elas não estão. – eu fiquei estático — Sasuke, elas faleceram.
Eu tremi.
– Me diga que está mentindo – eu o olhei, sentindo um misto de sentimentos diferentes.
Dor. Angústia. Medo. Desespero. Raiva.
– Eu sinto muito.
Tudo que aconteceu retornou em minha mente como um filme onde eu era apenas um expectador. Minha mente girou, eu comecei a soar, o ar faltou e então eu tive dificuldade em respirar.
As lágrimas caíam agora com força, e então eu levei as mãos para a cabeça, sentindo como se aquela tontura nunca mais fosse sair.
– Sasuke – eu podia ouvir Naruto me chamar – Sasuke, se acalme.
Eu não podia mais entendê-lo. O choro e a dificuldade para respirar eram tantas, que eu puxava o ar e parecia que meus pulmões não se aliviavam daquele aperto extremamente doloroso.
Naruto encostou a mão em meu ombro para me acalmar, mas eu o empurrei.
– Fique longe de mim! – eu gritei, me encolhendo e chorando desesperadamente pela perda das duas pessoas que eu mais amava no mundo.
Elas eram o meu mundo.
– Sasuke, você precisa se acalmar! – Kakashi dizia – Mande a enfermeira trazer um sedativo. Agora!
Meu corpo começou a tremer por inteiro, eu não tinha mais ar nos meus pulmões e as vozes em minha volta tornavam-se cada vez mais insignificantes.
Isso não pode estar acontecendo.
Isso não pode estar acontecendo.
Isso não pode estar acontecendo.
– Segurem-no! Vou aplicar o sedativo – Kakashi gritou, e então eu pude sentir enfermeiros e o Naruto me segurando com força. Eu me debatia e podia sentir o choro travar minha garganta a ponto de eu não poder dar nem mesmo um único e desesperado grito. O Choro forte e silencioso cortava-me por dentro, como uma lâmina indestrutível e exageradamente afiada.
Logo, mesmo em meio ao desespero, meu corpo acalmou-se e o sono induzido chegou.
Eu apaguei.
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