Notas iniciais
Depois de uma exata semana, aqui vai mais um cap quentinho pra vcs.

Sonho

Passeio

Acidente

Hospital

Enterro.

Fora tudo o que aconteceu ao passar das duas semanas. Hoje fazia exatamente cinco dias depois do enterro de minha filha e esposa.

Eu recebi alta do hospital dois dias depois do enterro, já que, como Kakashi disse, apesar da queda ter sido feia, meus ferimentos foram mínimos.

Os dias que passei lá foram apenas para recuperação e observação. Ele me receitou um remédio para possíveis dores e então me liberou para ir para casa. E eu queria fazer isso, mas Naruto insistiu para que eu ficasse na casa dele com Hinata por alguns dias.

Já era o terceiro dia.

– Naruto – eu o chamei, e logo ele veio, trajando um avental branco por cima das roupas.

– Precisa de algo? Sente dor? – ele me entupiu de perguntas.

A visão me fez esboçar um sorriso mínimo.

– Eu apenas gostaria de agradecer, a você e a Hinata. Vocês me trataram muito bem por esses dias, e eu realmente gostei de estar com vocês, mas já está na hora de eu ir embora.

Pude observar a cara de preocupação de Naruto adicionar uma expressão de tristeza.

– Tem certeza disso, Sasuke? Hinata e eu não nos importamos e...

– Tenho certeza sim. Eu gostaria de ir para casa agora – eu disse, me levantando e pegando a mochila já feita, ao lado do sofá.

– Pelo menos me deixe leva-lo então – após isso, Naruto tirou seu avental e o pendurou, indo até a cozinha e apagando qualquer fogo que estivesse aceso.

Depois disso, nós dois andamos juntos até o carro, onde Naruto sentou-se no banco do motorista e eu no banco do passageiro.

Ambos colocamos os cintos de segurança e no momento em que eu ouvi o click, eu estremeci.

Flashs de lembranças passavam por minha mente. Eu dirigindo, minha esposa sorrindo.

Minha filha reclamando por ter de sentar na cadeirinha...

Fechei os olhos com força, sentindo as lágrimas virem até meus olhos, colocando as mãos nos joelhos e apertando. Foi quando senti a mão de Naruto em meu ombro.

– Sasuke? – eu o olhei, e aqueles olhos azuis me encaravam com certa preocupação.

– Estou bem – eu disse, respirando fundo e abrindo a janela – vamos logo.

E então ele ligou o carro e começou a andar.

Observava a vista, sentindo a brisa entrar e bagunçar meus cabelos de forma extremamente relaxante.

Eu fechava os olhos e respirava fundo. O ar gelado me causava um arrepio, e então eu suspirei, abrindo os olhos e olhando para Naruto dirigindo.

Ao parar no sinal, ele me olhou e sorriu de forma reconfortante.

Naruto e eu somos amigos há... Bem... Não me lembro exatamente o tempo, mas desde que eu me entendo por gente.

Acho que se não fosse ele, eu teria continuado sendo aquele cara arrogante e insensível de sempre. E agora ele me apoia, no momento mais difícil da minha vida.

Não demorou muito para chegarmos no portão da minha casa. Ele parou o carro na frente, e então ambos tiramos os cintos.

– Sasuke, você realmente quer...

– Naruto – eu o interrompi – obrigado por tudo que fez por mim. Acho que se você não...

– Sasuke – foi a vez dele me interromper – você não precisa dizer nada, certo? – Ele sorriu para mim, e então nos abraçamos brevemente. Meus olhos encheram-se de lágrimas novamente.

– Obrigado pela carona – eu saí carro, carregando a mochila até o portão.

Pude notar seu olhar apreensivo, antes de ligar o carro e ir embora.

Virei-me novamente para o portão. Grande, cinza.

Abri minha mochila e então puxei de um dos bolsos a chave para abrir a pequena porta ao lado, caso não tivéssemos o controle. Girei a chave com cuidado e, de certa forma, demoradamente.

Eu queria muito voltar para casa. Queria muito sentir Keiko e Asako novamente. O cheiro, ver suas coisas.

Sentir, mesmo que de outra forma, sua presença.

Abri o portão e adentrei na garagem. Ali minha respiração falhou, e meu peito doeu. Pude ver claramente o carro, com minhas meninas dentro, preparando-se para um dia piquenique no parque.

Mordi o lábio inferior e corri até a porta da frente, segurando em sua maçaneta. Tentando fugir das lembranças do dia do acidente.

Abri a porta de casa, e entrei. Arregalei os olhos ao perceber que tudo estava exatamente igual. Tudo estava exatamente do jeito que deixamos antes de sair.

A sala arrumada.

O copo das princesas em que Asako tomou seu suco de laranja.

Os lenços que eu usei para limpar sua boca, suja do mesmo suco.

Migalhas de pão sobre a mesa da cozinha, a xícara que Keiko sempre usava para tomar café.

A dor em meu peito aumentou gradativamente, e as imagens em minha mente eram claras. Era como uma ilusão doce, porém dolorosa.

Andei lentamente, a respiração falhando aos poucos, oscilando com as dores que eu estava sentindo.

Cheguei então até a porta do meu quarto, e meus olhos encheram-se de lágrimas que, desta vez, teimaram em ficar.

A roupa que eu havia dobrado estava em seu lugar. A cama desarrumada, e o guarda roupa semi aberto.

Andei até o mesmo, e o abri. Keiko estava ali.

Seu perfume impregnado em suas roupas. Suas joias que eu havia lhe dado. A escova para pentear o cabelo, cremes. E então, avistei ali algo que me chamou atenção, no fundo do guarda roupa.

Um vestido vermelho. Essa era uma peça que eu havia lhe dado em seu aniversário, e ela tivera a chance de usar apenas uma vez. Peguei o vestido e o abracei, fechando os olhos e sentindo em meus braços minha esposa.

Keiko.

O levantei ainda de olhos fechados, e senti seu cheiro. Seu perfume ainda estava ali, impregnado, me trazendo diversas lembranças de situações íntimas com ela. O tecido sensível e macio me lembrava a sua pele fina, lisa, maravilhosa.

Posso me lembrar de beijos, marcas, suspiros.

Sangue.

Sussurrei o nome dela novamente, tendo em mim uma esperança incontrolável de que ela estaria ali pra mim.

Keiko.

E então, quando abri meus olhos, ela não estava lá. Tudo que estava ali era seu vestido, em meus braços. E então, não pude mais aguentar.

Ainda abraçado com o vestido, chorei.

Chorei por ter minhas esperanças despedaçadas. Chorei por ter apenas lembranças.

Chorei, por minha última lembrança dela ser a do acidente. Chorei por não ter entendido o que ela me disse, pouco antes de eu desmaiar.

Então, uma onda de fúria veio em mim, e eu joguei o vestido longe, em prantos.

Eu me sentia inútil. Me sentia estúpido. Me sentia fraco.

Eu chorava de maneira intensa. Meu peito doía, meu corpo tremia, o ar faltava em meus pulmões e então aquele aperto doloroso voltou com força.

Levei uma das mãos até o peito e me ajoelhei ali, no chão do meu quarto, chorando como uma criança. Soluçando, gritando.

Não pode ser. Isso não pode ter acontecido, não comigo.

Não pode ser verdade!

Passei a mão no rosto, limpando as lágrimas que teimavam em continuar caindo, e puxei o ar pela boca, conseguindo forças para me levantar e sair daquele lugar.

Corri, ou melhor, tentei correr para a sala, já que a falta de ar em meus pulmões dificultou totalmente a corrida.

Cheguei cansado na sala, ajoelhando-me em frente ao sofá e apoiando os cotovelos nos assentos. Eu tentava me acalmar para respirar, mas eu não conseguia.

Eu soluçava e me engasgava no próprio pranto. Sofria afogado na própria tristeza e no sofrimento intenso que não cabia em meu peito.

A visão ficara turva, e a então uma dor de cabeça chegou para piorar toda a situação. Eu piscava diversas vezes, tentando voltar a enxergar. A visão oscilava em nítido e embaçado, e logo eu começava a ficar enjoado.

Senti meu estômago embrulhar e a cabeça começar a girar. Novamente puxei o ar pela boca, desesperado, e corri para o banheiro.

Ajoelhei-me desta vez em frente ao vaso sanitário e deixei lá todo o meu café da manhã. Depois disso, consegui respirar e enxergar melhor, entretanto o gosto horrível de vômito reinava em minha boca.

Levantei, e andei lentamente, olhando para o espelho do banheiro e olhando para meu rosto. Os olhos vermelhos e inchados pelo choro, mas eu paralisei ao ver minha boca suja, trazendo novamente flashs em minha mente já conturbada.

Fui até a cozinha, já andando sem tanta dificuldade e respirando melhor, e então vi novamente o copo da cinderela, onde Asako estava tomando suco de laranja.

Peguei no pote um lenço, do mesmo tipo que eu havia usado para limpar a boca dela, e passei na minha.

Respirei fundo novamente, tentando conter o choro novamente, mas não obtive sucesso.

A voz dela ecoava em minha cabeça, dizendo:

“Papai, odeio quando faz isso”, e seu rosto emburrado.

“Pra você”, e me dando um beijo carinhoso no bochecha.

Olhei para minhas mãos e pude me lembrar daquelas mãos pequenas segurando as minhas, animada, me puxando para o carro.

Voltei a chorar desesperadamente, pegando o copo em que ela estava tomando suco e encostando-o em meu rosto, fechando os olhos para tentar sentir ao menos um fiasco daquele beijo que ela havia me dado.

Mas nada.

Logo, o joguei em cima da mesa e abracei meu próprio corpo, tentando sentir pelo menos uma parte daquele abraço verdadeiro que ela havia me dado quando a encontrei na cozinha.

Seus braços, suas mãos pequenas em meu rosto. Seu sorriso inocente e alegre.

Minha filha era a minha alegria. Era ela que me dava forças pra levantar, ela quem causava os meus melhores sorrisos, minha risada.

E eu nunca mais irei sentir isso na vida.

Eu não tinha mais vida. Não tinha mais ânimo.

Eu não tinha nada.

E então, aquela dor infeliz voltou, e voltou tão forte que eu não aguentei ficar em pé.

Debrucei-se na mesa da cozinha, pouco me importando com os restos de farelo de pão que lá estavam. Meu corpo começou a doer-se por inteiro, e então, do nada, a voz de Kakashi ecoou em minha cabeça.

“Se tiver dor, tome esse remédio. E esse aqui é um calmante, caso tenha dificuldades para dormir”.

Me levantei da mesa, e comecei a dar passos lentos da cozinha até a sala, onde estava minha mochila.

Cada passo que eu dava, era uma pontada forte que vinha em meu peito, e eu quase não aguentava.

Sentei-me com dificuldade no sofá e abri a mochila, pegando ambos os remédios que ele havia me receitado. Logo, voltei para a cozinha com a mesma dificuldade que havia saído de lá.

Peguei um copo que estava em cima da mesa e enchi de conhaque, para poder tomar os dois comprimidos.

Quando os coloquei em minha mão, observei por um tempo.

Era extremamente engraçado como dores sentimentais podem causar muitas das piores dores físicas existentes.

Lembrei-me novamente do que Kakashi disse.

“Se tiver dor”

Encarei novamente aquele remédio e pensei que, eu não tenho dor.

Eu sou a dor.

O que eu estou sentindo agora nunca vai passar. A dor da perda, a saudade, a culpa pela morte.

Novamente, olhei para aqueles remédios, fechei os olhos e suspirei. Abri o pote do calmante, e peguei um punhado deles, colocando na boca.

Eu não consigo mais viver. Eu não mereço mais viver.

Senti aquele gosto azedo tomar conta de toda a minha boca, e logo compensei isso, engolindo todos os comprimidos com grandes goles seguidos de conhaque.

Meu corpo tremeu, e eu me sentei numa das cadeiras da cozinha, esperando e sentindo em alguns minutos o efeito dos remédios.

Logo meu corpo começou a ficar mole, e eu mal podia deixar meus olhos abertos. Fui deitando aos poucos a cabeça na mesa da cozinha, e minha mente foi perdendo a consciência.

Naruto, Hinata. Obrigado por tudo, mas eu não posso mais viver sem elas.

Asako, Keiko... Eu estou chegando. Eu preciso ver vocês. Eu quero ver vocês...

Meus olhos se fecharam, e eu pude ver momentos felizes que passei com Keiko, Asako. Também me lembrei de Naruto e Hinata.

Lembrei-me da casa, da minha vida. Dos meus pais, meu irmão.

Está na hora de ir.

Adeus.

Notas finais
E então? Triste né? Esse cap foi o ponto alto da tristeza e eu espero ter conseguido passar bem os sentimentos do Sasuke pra vocês, mesmo que em palavras. Foi difícil de escrever e triste demais, mas eu espero que tenham 'gostado' q-q Beijos, e espero comentários