Notas iniciais
Hello! ♥ Como estão? Eu espero que bem. Não sei bem o que falar deste capítulo, mas eu espero que gostem! Boa leitura.

"A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão" — Mario Quintana

Naruto foi embora pouco depois de eu adormecer. Pelo menos isso fora o que Kakashi me dissera.

Quando eu abri meus olhos, senti como se todo aquele peso de uma vida tivesse acabado de cair de meus ombros. Conversar com o Naruto às vezes poderia ser algo extremamente estressante e, às vezes, eu poderia sentir que eu estava falando com uma parede, mas, em certos casos, ele me faz pensar em toda a minha vida. Me faz querer ser mais parecido com ele.

Continuei deitado na cama e encarei o teto. Um sorriso brotou em meus lábios quando eu percebi que ele fazia isso comigo desde o começo de nossa amizade.

Quando eu o vi pela primeira vez, nós estávamos na sexta série. Pensei que ele era apenas um encrenqueiro que fazia de tudo para chamar a atenção das pessoas. Eu era assim, costumava julgar tudo e todos antes mesmo de conhecê-los ou ter trocado no mínimo um par de palavras.

Eu o desprezava de uma forma gigantesca, aliás, fazia isso com a maioria das pessoas do colégio. Eu era frio, chato, arrogante. Em palavras mais fáceis, poderíamos dizer que eu me achava. Mas eu percebi que meu julgamento sobre Naruto e sobre mim acabara sendo errado, já que ele me afrontou na frente de todos os nossos colegas de classe, dizendo coisas como Quem você pensa que é? e Você não é melhor do que eu, nem ninguém aqui nesta sala.

Nós dois brigamos feio naquele dia e fomos parar na diretoria. Nosso castigo era um olhar pra cara do outro o dia inteiro até que então começássemos a nos entender. E deu certo.

Sentados em cadeiras, um de frente para o outro ele se abriu comigo, e seu jeito extremamente desengonçado e exageradamente sincero acabou fazendo com que eu desabafasse com ele também. Nós nos tornamos grandes amigos naquele dia, e nos acompanhamos desde então.

Suspirei sentindo minha garganta seca, pisei em toda a minha preguiça de continuar ali e me levantei da cama atrás de uma garrafa de água.

Atravessei o quarto, posicionando-me agachado em frente à pequena geladeira que ali havia, situada ao lado de uma pequena bancada onde estavam livros para relaxar e alguns autoajudas.

Quando eu a abri, a luz amarela fez com que meus olhos se fechassem por alguns segundos, abrindo-se logo em seguida e localizando as garrafas. Estendi a mão e peguei a garrafa rapidamente, fechando a geladeira com um pouco de força, já que aquela luz era extremamente incômoda.

Andei novamente pelo quarto totalmente escuro, dessa vez me destinando até a pequena janela. Abri suas frestas para poder observar o pouco que eu podia ver do jardim, e notei que eu havia dormido o dia inteiro, já que o céu estava escuro e a lua brilhava como nunca houvera brilhado antes.

Me virei só um pouco, olhando para o relógio e vendo nele o horário 21:57. Bufei, amaldiçoando a conversa sentimental que eu tive com o Naruto, que causou meu sono e que consequentemente causará meu tédio gigante por ficar acordado durante uma noite inteira.

Bufei novamente, abrindo a garrafa d’água e tomando um longo gole da mesma. Senti um alívio gigante ao sentir a água refrescar-me inteiro por dentro, desde a garganta até o estômago, e continuei dando grandes goladas até que eu precisasse parar para recuperar o ar.

Depois de matar o que estava me matando, agachei-me e coloquei a garrafa vazia ali mesmo no chão, depois me levantei, apoiando meus cotovelos na janela e a cabeça na palma das mãos.

Puxei o ar gelado e fiquei por um tempo observando as poucas nuvens no céu escuro andarem lentamente, conforme o vento as jogava. A brisa balançava levemente as folhas e frutos nas árvores, enquanto lá longe, depois dos muros da psiquiatria, poucos carros passavam na avenida. Alguns passavam ouvindo música tão alto que eu poderia identificar seu nome se me esforçasse um pouco mais para ouvir. Suspirei e fiquei assim por um momento, até eu me cansar.

Olhei novamente para o relógio e vi que ainda eram 22:13, e lembrei-me de que o tempo é realmente um idiota. Quando queremos que ele passe rápido, ele é devagar. Quando queremos que o tempo dure, ele corre como se numa maratona. Voltei-me para a paisagem e continuei fitando aquele jardim totalmente lindo e convidativo.

E então, pensei, se eu já estava ali trancafiado por não sei quanto tempo, eu tenho o direito de passear pelo jardim, certo? De alguma forma, estou pagando pela internação, mesmo tendo sido obrigado a isso.

Determinado, abri o pequeno e marrom guarda roupas do meu quarto e coloquei um casaco azul marinho devido ao vento frio. Procurei por meus chinelos, mas não os encontrei no escuro. Logo, pela falta de paciência, acabei desistindo e calcei o par de pantufas cinza fornecidas pela psiquiatria.

Acho que se eu me olhasse no espelho agora, eu teria pelo menos uns 10 anos a mais. Esse tipo de roupa me faz parecer velho, mas não é como se eu tivesse que me produzir pra ir num jardim durante a noite. Não é como se eu fosse encontrar alguém por lá, tivesse algum tipo de cerimônia ou algo do tipo.

Sorrateiro, andei até a porta e a abri sem fazer muito barulho. Olhei para os dois lados e lembrei-me que o posto de enfermagem ficava para o lado direito do corredor, e que para o lado esquerdo eu passaria pelas diversas alas de exames, incluindo a ala de psicologia. Resolvi ir pela esquerda porque, apesar de ser o caminho mais longo, era o menos movimentado. Indo por ali, eu teria menos chance de encontrar alguém a essa hora da noite.

Sorri, agradecendo pela primeira vez àquela psiquiatria por fornecer aos pacientes pantufas e por estas não fazerem barulho ao andar, por isso, pude dirigir-me ao jardim numa velocidade consideravelmente maior do que simplesmente ir andando.

Também agradeci mentalmente ao Kakashi, por me trocar de psicólogo e me encaminhar para um prédio onde se mostra o caminho até o jardim, além de agradecer ao transporte por me levar sempre pelo mesmo caminho.

Não demorou muito para que eu chagasse na saída do prédio. Parei lá um pouco para recuperar meu fôlego, já que estava andando numa velocidade um pouco alta.

Sorri ao notar que eu havia conseguido sem dificuldades. Estiquei os braços para cima, alongando-os. Logo após isso, coloquei ambas as mãos nos bolsos do casaco e olhei para os prédios em volta, tendo certeza de que meu quarto não fornecia a vista do lugar em que eu me localizava agora. Satisfeito com a certeza que eu obtivera, comecei a caminhar pela pista de concreto que fora instalada ali, provavelmente para pacientes que apreciam a prática de exercícios como corrida e caminhada.

Estava sentindo-me revigorado por entrar entre as árvores e a pouca natureza que aquele local conseguia proporcionar. Aquele jardim era realmente belo se bem observado.

As árvores, flores e arbustos estrategicamente localizados. Muitas pistas para corrida/caminhada e, deduzi que provavelmente no meio do terreno, havia uma grande fonte que jorrava água artisticamente.

Depois de dar algumas voltas ali, observando atentamente todo o local, avistei alguns bancos de concreto e sentei-me num deles para relaxar. Mesmo estando usando calças de moletom fino, o concreto frio causou-me um arrepio por todo o corpo, mas mesmo assim eu continuei ali, já que não me sentaria no chão muito menos na grama molhada pelo sereno.

Olhei novamente em volta, e lembrei-me do dia do acidente.

Era provável que o parque em que nós faríamos o piquenique parecesse um pouco com esse jardim.

Fechei os olhos e lembrei-me novamente dos dois sonhos, e então de Keiko, Asako e Itachi. Tirei as mãos dos bolsos o posei no banco de concreto, quando pude sentir minhas mãos umedecerem pelo sereno que estava ali. Levantei as mãos do local, e senti as lágrimas brotarem em meus olhos ao vislumbrar uma ilusão de minha filha e esposa sentadas ali mesmo, naquela grama e sorrindo para mim.

Entretanto, eu despertei, e a ilusão quebrou-se por um som. Uma música.

Aquilo era...

– Violino? – perguntei para mim mesmo num sussurro, levantando com pressa e olhando em volta.

A melodia era calma e triste, porém eu poderia também descrevê-la como incrivelmente acolhedora.

Acho que, qualquer um que estivesse em meu lugar correria de volta para o quarto. Correria para não ser descoberto, mas... Era como se aquela música me chamasse. Como se clamasse meu nome.

Andando lentamente, eu me concentrava apenas naquele maravilhoso som, buscando-o. Caminhei, dando a volta na fonte em passos mudos e lentos, tentando não interromper muito menos surpreender a pessoa que estivesse tocando o instrumento.

Parei, e minha respiração falhou quando eu enxerguei através da água a silhueta fina e frágil de cabelos rosados que tocava violino graciosamente e permaneci ali, em silêncio, observando.

Eu não admitiria isso em voz alta nunca, mas ela estava linda.

Ela trajava um vestido de mangas longas com um belo degrade entre bege e marrom, começando com a primeira cor. Também usava meia calça preta e botas cano médio sem salto, na cor preta.

Sua expressão era tão serena e doce que, se um louco chegasse por aqui – o que era bem provável já que, assim, eu to numa psiquiatria – ele poderia dizer que ela tocava enquanto dorme.

Respirei fundo e sentei-me em outro banco de concreto, onde eu poderia vê-la tocar o instrumento de lado. Seus braços moviam-se lentamente, e a melodia se formava era deveras linda. Não passou muito tempo até que ela terminou.

– Bravo – eu disse, começando a bater palmas. Isso fez ela se assustar, me olhando com os olhos arregalados, mas logo depois ela se acalmou e deu um pequeno sorriso.

– É você – ela disse e então virou-se para guardar o violino – não deveria estar fora do quarto a essa hora da noite. São quase 23:30.

–É muito boa no que faz, Dra. Haruno! Onde aprendeu a tocar assim? – eu perguntei, pouco me importando com o que ela acabara de me dizer.

Ela se virou para mim, com seu violino já guardado, e então suspirou, caminhando lentamente até o banco e sentando-se ao meu lado.

– Pode me chamar de Sakura, nós dois não estamos numa consulta – ela sorriu por alguns segundos — eu frequentei uma escola de música durante a minha adolescência – ela disse e então se encostou totalmente no banco, suspirando novamente – meus pais eram advogados muito prestigiados e queriam que eu seguisse o mesmo caminho, mas a minha paixão sempre foi a música. Eles queriam me forçar a entrar numa faculdade de direito, mas eu não suportei a ideia.

– E como você os convenceu? – perguntei novamente, sem ter muita coragem para encará-la.

– Não convenci – virei o rosto para olhá-la, tendo comigo uma face completamente confusa, e isso a fez rir – eu fugi de casa com 15 anos. Vim morar aqui na casa da Ino, arrumei um emprego de garçonete, troquei a escola particular por uma pública e com o salário eu ajudava a comprar comida e pagava meu curso de música.

– Entendo – eu disse, voltando a olhar para frente. Logo, um silêncio começou, e tudo que se podia ouvir era o barulho ensurdecedor dos grilos e minha própria respiração.

Alguns minutos se passaram, quando Sakura se pronunciou.

– Sabe Sasuke – voltei minha atenção para ela, que olhava pra cima com um sorriso triste – as vezes eu me pego pensando no que estaria acontecendo agora se eu não tivesse fugido. Como seria minha vida, meu relacionamento com os meus pais, mas... – ela fez uma pausa e me olhou nos olhos, estes, verdes e brilhantes – quando me lembro do modo em que eu vivia, tenho certeza de que eu não conseguiria olhar para o céu e enxergar as estrelas do jeito que eu enxergo hoje. Elas e meu violino me confortaram nos piores momentos da minha vida.

Olhei para ela impressionado, sem entender muito bem o que ela estava me dizendo, mas ela continuava a me encarar.

– Eu não sei pelo que você passou – ela disse e sorriu para mim — Não sei do seu sofrimento, afinal, você não é o tipo de pessoa que simplesmente se abre assim, mas – ela voltou a olhar para as estrelas e por impulso eu fiz o mesmo – depois de tudo que você vivenciou Sasuke, as estrelas não parecem muito mais bonitas agora?

E então, eu finalmente consegui entender pelo menos um pouco do que ela estava querendo dizer, afinal, sempre que passamos por algo difícil, coisas que nós não dávamos atenção antes acabam por tornar-se importante para nós. Tornam-se nosso porto seguro.

Observei as estrelas por alguns minutos, e aqueles pontinhos brilhantes no céu eram realmente um espetáculo a ser admirado, mas que, infelizmente, poucos saberiam apreciar.

– Você tem razão – eu concordei, já que não me lembrava quando fora a última vez em que eu realmente me sentei para observar esses astros magníficos. Asako nem era nascida.

Minha atenção foi captada novamente quando ela se levantou, batendo levemente em seu vestido.

– Você precisa ir para o quarto, e eu vou embora agora – ela disse um pouco séria, mas então sorriu novamente. Um sorriso verdadeiro e feliz – foi legal passar um tempo contigo sem toda a pressão de psicóloga e paciente. Apesar de apenas eu falar – ela deu uma breve risada.

Aquilo me fez sorrir de canto. Ela pegou seu violino e foi andando para ir embora, mas antes de fazê-lo ela se virou e disse apenas um último:

– Boa noite, Sasuke – e então eu apenas a observei adentrar no prédio e sumir aos poucos.

– Boa noite, Sakura.

Notas finais
E então, que acharam? Acho essa uma bela reflexão. *-* Dar importância a algo antes nunca notado verdadeiramente é algo mais comum do que imaginamos. Alguns notam as estrelas, outros a chuva ou então o balançar das árvores conforme o vento. São coisas tão triviais, que presenciamos quase sempre (bem, chuva nem tanto kkkkkkk) e, mesmo que sejam belas, não tem a importância que merecem. Bem, enfim ♥ Espero que tenham gostado. Comentários?