O Lado Bom da Vida
9 Desejos
Notas iniciais
Essa manhã eu acordei renovado, como nunca estivera há tempos. A caminhada na noite anterior fez com que meus músculos se cansassem a ponto de eu ter uma noite de sono incrivelmente maravilhosa, afinal, não fora apenas perambular pelo jardim e conversar com a Sakura, mas também a caminhada de ida para ele e volta para o quarto, esta sendo totalmente exaustiva.
Levantei e me espreguicei, alongando todos os músculos possíveis e podendo ouvir até mesmo um estalo incrivelmente prazeroso na região do ombro. Respirei fundo, segurando o ar por alguns segundos e então o soltei aos poucos. Isso causou um estranho relaxamento por dentro, mas ignorei o fato, caminhando até a mini geladeira e pegando uma garrafa de água.
Sentei-me na cama novamente bocejando e então abrindo a garrafa, tomando um longo gole de água estupidamente gelada. Um arrepio me percorreu a espinha e eu acabei por sentir uma leve tontura, provavelmente por ingerir algo muito diferente à temperatura atual do meu corpo. Repousei na cama, fechando os olhos por alguns segundos até que a tontura passasse, e não demorou muito para que isso acontecesse.
Ao abrir os olhos, suspirei e fiquei por algum tempo encarando o teto. Hoje faz dois meses depois do acidente. Dois meses que minha alegria morreu.
Às vezes eu me pego pensando em tudo que eu ouvi até agora. Tudo o que os meus amigos me disseram nos momentos de tristeza, nos momentos de raiva e até mesmo em momentos de indignação.
"Algumas coisas acontecem para mostrar o quanto somos fracos, e isso serve para nos fortalecer”.
Quando Kakashi me disse isso, eu nunca pensei que eu realmente fosse tão fraco. Nunca pensei que eu fosse tão... Dependente, mas no fim, todos nós somos assim. A independência é algo utópico. Nós nunca somos totalmente independentes, sempre vivemos em função de algo.
Alguns escolhem viver em função da família, do trabalho, do amor, da amizade. Outros vivem em função de práticas não honestas, dos pecados, as drogas, bebidas.
Quando nos livramos de uma dependência, encontramos outra e assim o ciclo se segue. É como se nunca pudéssemos simplesmente escolher por nós, viver apenas por nós, ou morrer por nós. E nesses últimos dois meses eu finalmente entendi isso.
Nunca depende só de nós. Até mesmo a morte não é independente, afinal, se dependesse apenas de mim, eu realmente teria morrido no acidente de carro ou na tentativa de suicídio.
"Você não pode simplesmente desistir da vida!".
Essa foi a voz de Naruto, ecoando em minha cabeça toda vez que eu penso em algo totalmente depressivo.
"O que elas pensariam de você?"
Essa é uma pergunta que eu realmente faço a mim mesmo muitas vezes. O que minha esposa pensaria a me ver quebrando as coisas no hospital. O que minha filha pensaria ao ouvir minha briga com o Naruto, que ela considerava um tio.
O que ambas pensariam a me ver totalmente depressivo, chorando, caído naquela mesa após ingerir uma quantidade considerável de remédios.
Lagrimas surgiram em meus olhos. O que eu estava fazendo comigo? Eu não estava fazendo nada por elas?
“Não deixe acontecer o mesmo que da última vez”
Mordi o lábio inferior, respirando fundo e sentindo um aperto no peito. Levantei uma das mãos passando pelo rosto e limpando as poucas lágrimas que caíram.
Naruto tem razão, eu não posso mais ficar parado, estagnado. Não posso mais deixar minha dependência da família tornar-se um vício.
Infelizmente isso estava acontecendo. Aconteceu com Keiko, Asako. Aconteceu com Itachi.
"Você esqueceu quem você é. Você se esqueceu de mim”.
E eu o estava esquecendo.
Esquecendo seus ideais, sua luta, seus objetivos e principalmente seu último desejo.
"Finalmente vai conseguir voltar a viver"
O desejo de que eu viva. De que, diferente dele, eu consiga aproveitar todas as oportunidades que a vida tinha para me proporcionar. Desejo de que eu seja feliz por ele, pela minha filha, pela minha esposa, mas...
Eu sei que nada disso vai ser fácil.
Só de pensar em tocar minha vida e infelizmente ter de esquecer tudo o que me acontecera, as lágrimas voltaram a cobrir meus olhos e começaram a escorrer por meu rosto aos poucos.
"Tudo vai ficar bem"
Novamente a voz de Naruto ecoou em minha cabeça, e eu tive que erguer um dos braços para limpar as lágrimas que caíram por meu rosto de novo.
Suspirei e fechei os olhos, pensando estranhamente na noite anterior e nos pequenos momentos em que eu havia passado com a Sakura. Lembrei-me de como o céu estava realmente lindo naquela noite, e de como a música que ela tocara havia me preenchido e surpreendido, de forma que eu pude desvencilhar-me aos poucos da minha tristeza e ilusão momentânea.
"Eu não sei pelo que você passou, mas, depois de tudo, as estrelas não parecem muito mais bonitas agora?"
Surpreender. Essa era a palavra que definia Sakura Haruno para mim, afinal, ela me surpreendeu em nossos poucos encontros e eu tenho certeza que eu podia esperar muito mais vindo dela.
Abri os olhos e sorri, levantando da cama e pegando a garrafa de água que eu havia deixado ali com seu resto já quente. Bufei, já que a sede ainda me consumia, e então andei novamente até a geladeira para trocar a garrafa.
Sentindo um pouco de fome, abri um dos armários presentes no quarto e peguei um pequeno pãozinho recheado e o comecei a comer aos poucos, sendo infelizmente interrompido por baques exageradamente gentis na porta. Se minha audição não fosse boa, tenho certeza de que eu não teria ouvido.
Logo, a porta se abriu e eu fiquei surpreso ao ver o rapaz do transporte.
– Sinto muito Sr. Uchiha, sua consulta na área de psicologia foi adiantada, já que um dos pacientes da doutora Haruno passou mal e não pôde comparecer – ele disse totalmente acanhado.
Assumo que esse comportamento tímido pode ter sido causado por minha frieza e estupidez com os funcionários. Olhei novamente para o rosto apreensivo do rapaz que parecia ter minha idade e esbocei um sorriso mínimo para ele.
– Está tudo bem. Irei apenas por uma roupa mais adequada – eu disse, pegando uma calça jeans e uma camisa xadrez e me dirigindo ao banheiro para me trocar.
Depois de feito todo o processo de forma extremamente rápida, caminhei até a cadeira de rodas e me sentei voluntariamente nela. Pude notar que a tensão no rosto dele estava indo embora aos poucos.
Acho que estou sentindo um pouco de remorso pelo jeito que o tratei. Mas tudo bem. Irei tentar fazer com que a má impressão que ele tem de mim vá embora.
–Então... hm, qual o seu nome? – eu perguntei, já que não sou o melhor cara no quesito puxar assunto.
– Me chamo Komuro – ele respondeu ainda apreensivo já que provavelmente pensava que eu não estava interessado e isso me fez suspirar baixo, enquanto ele começava a fazer o trajeto até o consultório da Sakura.
Sorri, quando tive uma ideia de assunto perfeita.
– Então, você vive carregando pacientes para lá e para cá? Não é cansativo? – perguntei, tentando usar uma entonação que mostrasse minha total preocupação com o assunto.
– Bem – ele disse, um pouco acanhado – no início foi realmente cansativo, mas agora eu já estou acostumado.
– Entendo – eu disse – e você trabalha aqui por muito tempo?
– Quase dois anos – ele respondeu novamente.
– E você gosta do que faz?
– É gratificante saber que até pessoas como nós podem ajudar aos outros com atos simples – ele disse, dessa vez mais solto.
Eu sorri com o que ele dissera, imaginando quantos anos aquele rapaz tinha e já pensava dessa forma tão honrosa. Parece que a futura geração não estará realmente perdida se existirem homens como ele.
– Entendo. Eu pensava da mesma forma que você quando mais novo – eu disse, lembrando de mim mesmo com 19 anos.
Eu não era o que tomava a iniciativa, e sim Naruto, mas no fim eu acabava indo junto e o ajudava. Sentia real gratificação em ajudar as pessoas, e o fazia sempre que possível.
– Ora, mas o senhor ainda é jovem Sr.Uchiha – Komuro disse totalmente animado e direcionou um sorriso para mim — Se não existisse prancheta na porta com informações do paciente, eu nunca diria que tem 26 anos. E essa não é uma idade avançada.
– Obrigado – eu disse, notando que estávamos adentrando ao novo prédio.
Ficamos em silêncio por todo o resto do trajeto. Eu observava as paredes azuis com bolinhas brancas, ficando de certa forma ansioso para chegar logo e ter minha consulta.
Eu estava curioso para saber de que forma a doutora Sakura iria me surpreender hoje. E então nós dois chegamos à sala de espera.
– Obrigado pela conversa Sr. Uchiha, eu virei lhe buscar quando a consulta acabar – ele disse, e andou rápido carregando a cadeira de rodas vazia, sem me dar tempo para uma real despedida.
Esperei por alguns segundos, até então ficar totalmente surpreso ao ouvir a porta do consultório se abrir e de lá sair Kakashi com um sorriso realmente curioso. Ele voltou-se para Sakura, ficando de costas para mim.
– Nós nos vemos amanhã – ele disse com uma voz exageradamente rouca, provavelmente sem notar a minha presença. Eu não conseguia ver a Sakura, já que ela estava na frente dele.
Pude notar ele se abaixar e beijar-lhe a bochecha totalmente corada, quando aqueles olhos esmeralda encontraram os meus. A expressão da rosada passou de encantada para totalmente envergonhada.
– Sasuke! – ela disse surpresa, e isso fez com que Kakashi se virasse rapidamente para assimilar a situação.
Passando a mão sobre o queixo, o homem de cabelos prateados sorriu para mim como se nada tivesse acontecido ali e agora. Como se eu não tivesse visto nada.
– Ora Sasuke, é bom vê-lo – ele se aproximou de mim, colocando as mãos sobre os bolsos de seu avental branco.
– Kakashi – eu o cumprimentei.
– Espero que tenham uma boa consulta – ele disse, acenando para mim e para Sakura que ainda estava vermelha.
Aos poucos, víamos apenas rastros de seu avental branco balançando ao longe.
– Bom, vamos entrar? – ela disse e sorriu envergonhada, adentrando no consultório e deixando a porta aberta para que eu fizesse o mesmo.
Eu a segui, tentando digerir tudo o que eu tinha acabado de ver. Sakura e Kakashi namoravam? Ou Kakashi estava só colocando a isca no peixe rosa?
Bufei, entrando no consultório e fechando a porta, notando que ele estava um pouco diferente da última vez que eu havia entrado aqui. As telas de pintura não estavam na sacada, nem tinhas, pincéis, livros. Nada.
Havia apenas uma lousa pendurada, e em cima da mesa dela estavam localizados alguns canetões para lousa nas cores preto, azul, vermelho e verde.
Sentei no sofá totalmente que estava livre desta vez, e observei ela pegar o canetão na cor preta e fazer uma linha vertical na lousa, dividindo-a em dois, e depois fazendo uma linha horizontal pouco abaixo do topo da mesma. Depois disso, ela pegou o canetão vermelho e escreveu acima da linha vertical e tentando fazer algo centralizado.
Logo eu pude ler a palavra Desejos, e isso aguçou totalmente a minha curiosidade.
Ela se virou para mim com um sorriso, colocando dentro de um estojo da... Hello Kitty?! Certo, colocando dentro de um estojo as canetas preta e vermelha, deixando em cima da mesa apenas a azul e verde.
Observei bem sua face, e não havia mais sentimento de vergonha nela, e sim apenas aquele sorriso costumeiro.
– O que temos para hoje? – eu perguntei, sentindo que algo ruim viria.
– Antes de lhe dizer qual é minha proposta para hoje, eu queria agradecer duplamente – Não entendi muito bem – em primeiro lugar por me ouvir ontem. Foi bom desabafar.
Isso me fez sorrir de canto, e isso a fez sorrir.
– Em segundo lugar, por me dar esta ideia brilhante para a nossa proposta de hoje. Nossa conversa me incentivou a inovar! – ela disse animada, batendo palminhas leves e parecendo totalmente animada.
– Explique-me sua inovação, então – eu disse, já começando a perder a paciência.
– Eu quero que você me diga desejos seus – ela disse, aproximando-se de mim e sorrindo.
– Como assim desejos? – perguntei, juntando as sobrancelhas e a encarando.
– Coisas que você sempre quis realizar, mas nunca teve tempo, ou os pais não deixaram, ou alguém se acovardou na hora – ela falava fazendo gestos circulares com as mãos – enfim, desejos seus que não foram realizados.
– Ainda não estou entendendo – eu disse, apoiando os cotovelos e o queixo em uma das mãos, olhando sério para ela.
Ela estava realmente querendo fazer isso?
– Certo – ela suspirou, percebendo que eu não iria simplesmente concordar com aquilo – nós temos consulta 3 vezes por semana. Iremos reunir desejos seus aqui nesta lousa para realizar um deles por semana. Não importa a quantidade nem mesmo grau da maluquice.
– Isso é sério? – eu perguntei, abismado com a situação.
– Seriíssimo – ela disse, sorrindo animada novamente – eu irei lhe ajudar. Se você estiver acanhado, podemos chamar o Kakashi para vir junto, ou algum amigo seu!
– Kakashi? – eu perguntei, já entendendo o que ela queria – você está me usando para conseguir mais tempo com ele? – eu disse, elevando a voz.
– Mas é claro que não Sasuke! – ela disse parecendo ofendida, sentando-se sobre a mesa do consultório – eu nunca faria algo assim!
A observei totalmente desconfiado. Eu não quero e nem vou fazer algo assim.
– Olha, eu sei que parece loucura, e que eu não sou ninguém para te obrigar a fazer isso, mas você deveria tentar – ela disse, suspirando e me olhando esperançosa.
– Eu não quero – eu disse, curto e grosso.
– Olha, vamos fazer um acordo então – ela novamente se animou, pegando a caneta verde e fazer um asterisco nela – vamos realizar seu primeiro desejo semana que vem. Se você não gostar, nós paramos com isso e eu não insisto no assunto, certo?
Suspirei, vencido. Se eu não aceitasse, ela iria encher o meu saco ou provavelmente falar com o Kakashi e minha vida nessa psiquiatria ia começar a virar o inferno.
– Tudo bem – e ela deu um pulinho, totalmente animada — mas eu não sei bem o que pensar. Não sei como pensar em um desejo assim do nada.
– Vou lhe ajudar – ela se sentou ao meu lado – pense em algo que você sempre quis fazer na adolescência, mas nunca conseguiu.
Mordi o lábio inferior, pensativo. Logo, pensei em algo e sorri de canto, sabendo que ela nunca iria conseguir realizar esse desejo.
– Ser astronauta. Eu realmente estava trabalhando para ser um, mas infelizmente falhei no teste para concretizar esse desejo – eu disse, quase que rindo diabolicamente.
Ela não poderia me mandar para o espaço, certo?
Ela me olhou impressionada e sorriu, andando até a lousa e escrevendo ao lado do asterisco na cor verde “Tornar-se astronauta”.
Arregalei os olhos.
Mas que droga ela pensa que vai fazer comigo?
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