Notas iniciais
Oi gente, desculpem-me a demora. Essa semana não está sendo uma das melhores... Enfim, boa leitura. Espero que gostem.

Naquela manhã de sexta feira, a preguiça e a dor muscular decidiram expressar-se através de mim. Eu fui acordado com batidas um pouco bruscas na porta, e apenas por mexer-me na cama acabei por sentir dor nos ombros. Abri apenas um olho, direcionando minha visão ao relógio digital cinza posicionado ao lado de minha cama.

Os números em vermelho brilhante fizeram com que aquele meu único olho aberto ardesse inicialmente. A visão embaçada logo ficara nítida e eu pude enxergar com pouca dificuldade os números, indicando ser exatas 09 h 27 min a.m.

Abri agora ambos os olhos, piscando algumas vezes para ver se estava enxergando direito. Era sexta feira, no dia anterior eu havia escalado uma falésia de exatos 53 metros. Eu estava exausto, e eles realmente querem me acordar cedo?

Fala sério!

Bocejei, erguendo os braços para cima e me espreguiçando sentindo novamente uma pontada maldita no ombro, por isso dei mim mesmo mais alguns segundos de conforto e preguiça antes de levantar contragosto e ver o que queriam de mim. Levantar era, literalmente, um sacrifício para mim, mas eu teria que fazê-lo mais cedo ou mais tarde. Infelizmente estavam me obrigando a fazer mais cedo, mas tudo bem.

Levantei-me. Os pés descalços e doloridos tocando o chão frio causaram um arrepio esperado por todo o meu corpo, além de me fazer fungar. Temendo uma gripe, calcei o chinelo e não pude evitar outro bocejo que fizeram meus olhos lacrimejarem. Novamente, ouvi batidas na porta e bufei, pensando quem poderia ser a pessoa impaciente do outro lado. Observei sua sombra do outro lado, e decidi ficar ali um tempo apenas por vingança, já que a pessoa além de me acordar, me causou um início de dor de cabeça.

Sorri internamente, ficando parado por pelo menos um minuto por pura provocação, até decidir ter clemência da pobre alma que estava ali aguardando.

Quando comecei a caminhar em direção a porta novamente, apenas vi um bilhete passando por baixo da mesma e a sombra da pessoa que ali estava sumir. Isso é sério? Quem quer que seja a pessoa, desiste facilmente.

Caminhei lentamente até a porta, me agachando e pegando o bilhete ali jogado sem realmente lê-lo. Antes de fazer isso, abri a porta do quarto e olhei para os dois lados procurando sinal de alguém conhecido, algum suspeito que pudesse estar ali, mas nada. Suspirei e fechei a mesma, acendendo a luz branca do quarto e voltando minha total atenção para aquele bilhete. Assim que vi, reconheci a letra de Kakashi e sorri de canto.

Ele deve ter ficado bravo comigo e iria me perguntar o motivo da demora depois, mas tudo bem.

“Bom dia! Espero que não tenha se esquecido da consulta coletiva hoje cedo. Sakura vai passar em seu quarto para buscá-lo em meia hora”.

Droga! Porque a maioria dos hospitais teima em fazer tudo cedo? Custa deixar os pacientes dormirem até tarde?! Chega a ser cruel.

Respirei fundo e deixei o bilhete em cima da cômoda de madeira clara e simples, amaldiçoando Kakashi por propor tal consulta às claras. Erguendo as frestas da janela, vi que o tempo continuava nublado e por isso já tinha alguma de ideia de que roupa escolher. Direcionei-me ao pequeno guarda roupa e o abri com certa pressa, fazendo o mesmo ranger em resposta e causando-me uma agonia momentânea enquanto pegava uma calça jeans escura, uma blusa de manga comprida branca lisa e pegando por precaução uma jaqueta de couro preta. Deixei tudo em cima da cama e caminhei até o banheiro, fazendo toda a higiene matinal e despindo-me ali mesmo.

Voltando ao quarto apenas com uma boxer azul, trajo as vestes que havia escolhido anteriormente e dirijo-me com pressa até a pequena geladeira e armário de meu quarto. Tiro da geladeira um suco de uva – daqueles de caixinha – e pego no armário um pequeno pãozinho recheado com queijo. Ainda apressado, faço minha refeição em pé, comendo o pequeno pão e mastigando-o rapidamente, usando o suco para ajudar a engolir, já que havia mastigado não tão bem.

O relógio mostrava 09 h e 54 min, e eu suspirei aliviado por ter feito tudo a tempo.

Aproveitando meus minutos livres, caminhei a destino da janela e observei a pequena ponta do jardim tentando descobrir se hoje o mesmo estaria mais movimentado por ser sexta feira. Infelizmente, dali eu não poderia ver nada, então acabei por apoiar os cotovelos na beira da janela, e apoiar o queixo nas mãos enquanto observava tudo.

Olhei para o céu nublado. A brisa leve acabara por me fazer fechar os olhos e lembrar-me do dia anterior e sobre o quanto tudo aquilo fora... Magnífico.

Tudo o que eu fiz desde que cheguei a esse lugar, serviram de experiências gloriosas com certeza. Não é tão difícil admitir que, mesmo sem conversarmos de verdade sobre meus problemas emocionais, Sakura tem me ajudado de um jeito que eu tenho certeza que ninguém conseguiria.

Ela em apenas três meses fez com que meu coração se abrisse e fosse mais suscetível a sugestões. Que pensasse em outras alternativas, possibilidades.

Eu havia deixado de ser apenas aquele recipiente de pura melancolia e pensamentos negativos. Seus atos fizeram com que eu sorrisse de verdade ontem.

“Você tem sido minha amiga”.

Abri os olhos e sorri de canto ao lembrar que eu realmente tinha dito algo dessa importância para ela. Eu não menti sobre nada ontem. Tudo foi verdade.

Suspirei, observando os pássaros e as nuvens no céu, esperando que Deus me ajude com minha batalha. Decidi seguir em frente apesar de tudo, e agora eu preciso aguentar tudo. Sem desistências.

Finalmente, ouvi três batidas na porta e andei até a mesma com certa pressa. Já que eu havia aceitado participar – na verdade, Sakura aceitou por mim -, que tudo aconteça logo para que acabe logo.

Abri a porta, dando de cara com uma Sakura bem arrumada e sorridente olhando para mim. Ela usava uma calça jeans listrada em preto e branco, uma blusa branca lisa, jaqueta de couro preta e salto prateado nos pés. Mas meu olhar não parou nela e sim em um rapaz alto e ruivo que estava de costas para mim. Arqueei uma das sobrancelhas ao analisá-lo.

Gaara? Não, não pode ser.

– Ora, pensei que estivesse dormindo Sasuke – ela disse, cumprimentando-me e se afastando, para que eu saísse e pudesse fechar a porta do quarto.

– Bom dia – eu disse, sem desviar o olhar da figura que nem se dera ao trabalho de cumprimentar-me – quem é? – Eu perguntei, direcionando agora minha atenção a Sakura, que ficou sem graça.

– Esse é Sasori, ele também é meu paciente – ela explicou, seu olhar desviando-se até o rapaz ruivo, que virou-se para nós com uma expressão neutra em seu rosto, apenas observando tudo – Sasori, cumprimente o Sasuke – ela sorriu para ele, que olhou para ela e depois para mim.

Aqueles olhos castanhos claros observaram-me de cima a baixo por alguns segundos. Quando seus olhos encontraram os meus, eu senti como se ele pudesse observar minha alma. Me senti uma folha de papel em branco sendo analisado.

Foi perturbador.

– Olá – foi apenas o que ele disse, para depois virar-se e ficar de costas para ambos novamente.

Olhei para Sakura confuso, movendo os lábios sem falar realmente, gesticulando a frase “O que foi isso?”. Ela me olhou um tanto confusa fazendo leitura labial. Ao entender o que eu havia dito, ela colocou uma das mãos sobre os lábios, tapando um riso baixo e depois fazendo um sinal com as mãos como se dissesse “Depois conversamos”. Assenti com a cabeça até que ela se acalmasse por achar graça da nossa pequena conversa por gestos.

– Não viemos aqui para ficar parados, certo? Vamos – ela disse, e então ambos os três começamos a andar.

Eu e Sakura caminhávamos mais a frente enquanto o rapaz ruivo, Sasori, andava logo atrás de nós. Ele era deveras estranho, mas isso não era realmente impressionante. Estou numa psiquiatria e peno que verei casos piores enquanto estiver internado por aqui, mas até agora não sei bem do que os outros pacientes que frequentam aqui sofrem.

Parece que irei descobrir hoje.

Pude ver Sakura ao meu lado bocejar e, como sempre acontece, aquele bocejo infeliz me contagiou e quando me toquei eu já havia bocejado há tempos. Ela me encarou e sorriu, achando graça do que acabara de acontecer. Logo estávamos na entrada da psiquiatria, dando contornando a mesma para chegar ao jardim. E isso aconteceu mais rápido do que eu esperava.

Chegamos lá, e então meus olhos peritos em observar faziam seu trabalho em procurar qualquer alma viva que estivesse ali.

Andando pouco mais a frente, pude ver cadeiras plásticas perto dos bancos de cimento, fazendo um círculo. Eram em seu total 10, tendo seis delas já ocupadas por pessoas conhecidas e desconhecidas. Dentro das conhecidas estavam os doutores Kabuto e Ino, além dos pacientes que havia conhecido semana passada Hidan e Tsuna. Também um homem moreno e barbudo que estava usando roupas estranhas e que era provavelmente um paciente e Kakashi, este se levantando para vir cumprimentar-nos.

– Vocês finalmente chegaram – ele disse, aproximando-se de nós e nos cumprimentando com um aceno de mão – achei que não viriam.

– Não poderíamos deixar de vir – Sakura respondeu, um sorriso brilhante inundou sua face pálida.

– E você conseguiu trazer Sasuke e Sasori – Kakashi disse, e então tanto eu quanto o ruivo o encaramos com a expressão levemente irritada – os dois caras mais antissociais da psiquiatria.

O silêncio se instalou no local assim que meu querido médico e amigo, Kakashi, deu uma risada baixa da própria piada sem graça. Sakura o encarou um pouco sem graça, enquanto Sasori continuava neutro a tudo que acontecia a sua volta. Parecia até mesmo que estava morto, que não tinha sentimentos.

– Sabe que não deveria falar essas coisas – a coisa rosa o repreendeu, e este apenas sorriu e virou-se para nós, andando em direção a onde os outros estavam – vamos.

Apenas suspirei e a segui, meu ato sendo repetido por Sasori.

Eu e ele nos sentamos nos bancos de cimento, enquanto no resto das cadeiras estava – nesta exata ordem – Ino ao meu lado, Kabuto, banco vazio, Sakura, Kakashi, o homem barbudo, Hidan e Tsuna ao lado de Sasori. Todos conversavam sobre coisas triviais, onde apenas eu e o ruivo ficávamos quietos. Talvez ambos observando.

Demorou um pouco para que todos ficassem em silêncio para o início daquela consulta. Kakashi precisou tossir propositalmente para que todos voltassem sua atenção a ele.

– Certo – ele se levantou e sorriu para todos nós – Essa consulta foi muito bem elaborada por mim, Sakura e Kabuto. Funciona como uma confissão – ele disse, e isso com certeza aguçou não só a minha curiosidade, mas como também a dos outros quatro pacientes ali presentes – Vocês tem duas informações para compartilhar e podem escolher se quiserem – ele disse, estendendo a mão e erguendo o dedo indicador – a primeira opção é contar sobre o motivo de sua internação detalhadamente – após dizer isso, Tsuna arregalou os olhos e eu pude ver que alguns ali tiveram seu nervosismo despertado – a segunda opção é falar sobre um momento íntimo do passado. Sua lembrança mais feliz.

– M-mas Kakashi! Tudo isso é muito íntimo – A loira disse, cruzando os braços e corando levemente.

– Tsuna, está tudo bem – foi a vez de Kabuto falar, este a olhava com um sorriso discreto – isso vai ser realmente bom para todos vocês.

– De que forma? – Eu perguntei. Nada daquilo fazia realmente sentido pra mim.

Eu não fui obrigado a falar pra ele, muito menos para a Sakura e agora eles querem me obrigar a falar sobre o meu passado para um monte de gente estranha e quem tem problemas psiquiátricos e psicológicos? Isso não faz nenhum sentido. Não é como se eu fosse realmente obrigado a falar alguma coisa aqui. Sei que tenho direitos.

– O objetivo dessa consulta é conhecer as pessoas e, acima de tudo, conhecer a si mesmo. – Sakura disse, sua mão esquerda posada no peito e seus olhos fecharam-se, como se realmente estivesse sentindo a intensidade do que aquela consulta poderia causar em nossas vidas. O gesto só me fez pensar no quanto ela é estranha, ou talvez sensível demais.

Dei de ombros e esperei que não me escolhessem para começar. Já não funciono pressionado, imagine sendo o primeiro a falar? Não daria nada certo. Entretanto, a próxima fala de Kakashi fez com que eu suspirasse aliviado e ao mesmo tempo aflito.

– Asuma, você pode começar? – ele perguntou. Seu rosto apreensivo fizera com que todos os presentes na roda voltassem sua atenção para o homem barbudo. O alívio de não ser o primeiro era grande, assim como a aflição por ser o último – Antes de falar sobre sua internação, fale também um pouco sobre você. Seu emprego, idade, local de nascimento, essas coisas.

– Tudo bem – ele disse. Sua voz extremamente grossa incendiou o local e fizera com que meus olhos arregalassem – eu quero falar sobre o motivo de eu estar internado.

Asuma era moreno e tinha uma barba devidamente feita e usava roupas simples, como um moletom azul marinho e uma camiseta verde lisa, mas não fora isso que me chamou a atenção. O que me capturou fora seu corpo magro demais. Fraco demais.

– Certo. Porque não vai até o centro da roda? – ele sugeriu, e então o paciente apenas assentiu com a cabeça, levantando-se e sentando no chão, no meio da roda.

Toda vez que eu o encarava, um sentimento doloroso tomava conta de todo o meu corpo. Seu olhar sofrido nos causa arrepios ruins. Sensações de que o sofrimento nunca fosse acabar...

– Me chamo Asuma – ele começou, cortando meus pensamentos – Tenho 33 anos e estou aqui há pouco mais de um ano – após ouvir isso, pudemos ouvir suspiros. 1 ano é muita coisa para ficar internado — Sou dependente químico. Um viciado.

Certo. Isso estava parecendo com algum tipo de consulta de alcoólicos anônimos. Se fossemos renomear poderia ser algo tipo “Loucos anônimos” ou “D.P para Divergência Psiquiátrica”. Olhei em volta e todos pareciam realmente interessados na história que estavam prestes a ouvir, inclusive Ino, que segurava aquela mesma caneta esverdeada com círculos prata e anotava o que ouvia em seu caderno.

Observei o homem sentado no meio da roda olhar um pouco apreensivo para Kakashi, que apenas acenou com a cabeça para que ele continuasse.

– Nasci no sul da Califórnia e gerencio uma empresa que fornece ao nosso país grande parte do nosso armamento bélico, equipamentos de proteção e auxílio ao exército americano – fiquei surpreso ao ouvir aquilo. Ele tinha um ótimo emprego e deveria ganhar o triplo do meu salário – minha vida era, sem dúvidas, excelente. Me casei aos 22 e tive uma filha aos 24 anos e foi nessa mesma idade em que tudo começou.

Todos os pacientes o observavam e eu tive que olhar para o lado para ver na expressão de cada um deles. Hidan parecia chateado, Tsuna inconformada e Sasori, como sempre, neutro. Uni as sobrancelhas e fiquei por um tempo o encarando. Qual era o problema dele?

– Fui promovido a vice-diretor e a vida parecia sorrir pra mim. Tudo estava dando certo e a alegria não poderia ser maior, mas são nesses momentos em que devemos tomar cuidado – ele disse, e um sorriso amarelo apareceu em seu rosto – quanto maior a altura, maior a queda e eu acabei por pular em um precipício. Festas me rodeavam, pessoas importantes, e todas usuárias de drogas. Eles me ofereciam, e eu acabava por ser taxado de chato quando não aceitava e eu sempre fui muito molenga – pude ver Kakashi fazer um sinal positivo com a cabeça, como se concordasse com tudo que ele estava dizendo agora. Parece que eram conhecidos – Acabei aceitando um pouco, e aos poucos as doses foram aumentando. Primeiro era apenas o fumo, depois o fumo e a bebida. Logo eu não estava satisfeito apenas com aquilo, e passei para drogas mais fortes – após dizer isso, ele baixou a cabeça totalmente triste, magoado. Eu no lugar dele também ficaria – eu vivia a deriva. Perdia a noção de tudo e todos ao meu redor e minha vida passou a fracassar. Eu não queria ajuda, pois não achava que precisava disso, mas... – ele fez uma pausa, as lágrimas inundaram seus olhos sôfregos – quando bati em minha esposa percebi o monstro que eu havia me tornado. Procurei Kakashi e pedi ajuda, e estou batalhando contra esse vício até hoje.

O silêncio reinou por alguns segundos, antes da doutora Ino puxar palmas e consequentemente todos em volta fizeram o mesmo. Era uma história realmente muito triste aquela, e eu me pergunto o quanto a filha dele deve estar sofrendo agora sentindo sua falta. Penso na crise familiar que aquilo deve ter causado. As brigas, os corações e sentimentos que se partiram no momento em que ele simplesmente fizera a escolha de apenas experimentar.

É por isso que todos dizem que a vida é feita de escolhas. Aquela fora, sem dúvidas, uma que prejudicou e tirou anos de vida daquele homem, assim como o de muitos homens e mulheres que carregam essa mesma cruz.

Isso tudo já me deixou realmente triste. Imagino o que terei que ouvir dos outros três ao meu lado, mas... Devo confessar que Sasori é com certeza minha maior curiosidade aqui. Ele não parece ter problemas com vícios, como Asuma.

– Então eu sou o próximo? – Hidan, que ficara quieto por todo esse tepo, já parecia nervoso demais em sua cadeira, e seu nervosismo acabara por piorar quando Asuma levantou-se e direcionou-se novamente a sua cadeira.

– Sim Hidan – fora a vez de Kabuto falar. Provavelmente ele e Tsuna eram seus pacientes – sobre o que vai falar?

– Também direi o motivo de eu estar aqui – ele disse, devidamente sem graça. Seus cabelos platinados dançavam juntamente à brisa leve que passava pelo jardim.

Ao levantar, o mesmo espreguiçou-se e caminhou muito lentamente até o meio do círculo, sentando-se ali em pernas de índio.

Alguns segundos se passaram em total silêncio. Ele parecia sorrir para todos nós, sem graça. Talvez arquitetando das palavras certas para usar.

– Certo. Me chamo Hidan, tenho 28 anos, estou aqui a 5 meses e... – ele fez um silêncio e ficou um pouco sem graça antes de dizer – Sou masoquista.

Para. Masoquismo? Sério? Não pode ser verdade.

– Sou originalmente do Hawaii e tenho uma multinacional que distribui animais marinhos e comestíveis para as diversas empresas alimentícias, sejam eles mercados, restaurantes e outros – havaiano? Ele não tem cara de surfista, pescador ou coisa do tipo. Também não tem cara de dono de empresa masoquista – Não existe bem uma origem para o meu distúrbio comportamental e, se existe, eu e Kabuto ainda não descobrimos qual é – ele disse, olhando para o médico e sorrindo mais abertamente agora – mas inicialmente eu não pensava que isso era realmente um distúrbio. Eu pensava que poderia ser mais como uma fantasia sexual e, pode ter certeza de que tudo o que eu passava era, no mínimo, estupidamente prazeroso – ele disse, ainda de pernas de índio e apoiando-se com os braços em cada joelho sorriu de canto com melancolia – até que eu precisava de prazer a todo momento, e não apenas entre quatro paredes. Passei a me ferir fisicamente, me cortar e então acabei por querer e desejar as dores sentimentais também – ele olhou para o céu, seus olhos azuis tomando um tom estranhamente violeta – tudo a minha volta era apenas sofrimento, e então eu decidi que queria ser normal e... Bem, cá estou eu! O masoquismo não é uma doença, você pode aceitá-lo de braços abertos, mas eu não aceitei. Não quero viver em sofrimento, apenas em felicidade.

Para mim, masoquismo não era bem uma doença e nem um distúrbio e sim, apenas vontade de levar umas palmadas enquanto tem relações com alguém. Pessoas normais odeiam sofrer, chorar e se machucar, mas... Para esse cara, sofrer, sangrar e sentir dor, para o corpo, é algo prazeroso, mas para a mente é horrível. Deve ser difícil vencer os desejos da carne apenas pelo sentimento de culpa depois de tudo e eu, sinceramente, devo aplaudi-lo por procurar ajuda. E foi isso que fiz. Puxei os aplausos para este, que sorriu surpreso para mim e para todos que repetiram o meu ato.

Hidan se levantou e tomou seu lugar ao lado de Tsuna, que colocou a mão no ombro do mesmo e sussurrou algo como “Você foi ótimo!”.

O sorriso das pessoas em volta me fez ficar um pouco animado com tudo aquilo e, curiosamente, meu rosto virou-se para encarar Sasori ao meu lado que continuava com aquela cara, sem demonstrar expressão alguma. Parecia que ele simplesmente desprezava aquilo tudo, ou estava aéreo sobre o que acabara de ouvir. Talvez dormindo acordado.

– Tsuna? – Kabuto a chamou com um sorriso, e a mesma encolheu-se na cadeira com as bochechas coradas – você é a próxima.

– Não quero falar, doutor! – ela disse. Sua voz meiga demais, doce demais, fizera com que eu acabasse por ficar enjoado. Parecia até mesmo ser forçado – tudo é muito íntimo pra mim.

– Ora, Tsuna! Deixe disso, conte-nos pelo menos algo feliz em sua vida – Kabuto insistiu, e a mesma suspirou vencida pelos olhares a sua volta quase que implorando para que ela falasse.

A mesma andou com graciosidade até o meio da roda e nem se sentou. Ficou ali mesmo, em pé e vermelha olhando para todos a sua volta.

– Me chamo Tsuna, tenho 25 anos e estou aqui a pouco mais que 6 meses – ela disse, insistindo em usar aquela voz fina e melódica – Sou inglesa e trabalhava como professora na faculdade Stanford – ainda em pé, ela sorriu para todos nós antes de dizer de forma simples seu ‘momento feliz’ – Um dos dias mais felizes da minha vida foi quando visitei o Grand Canyon e de lá vi o nascer do sol.

Logo ela acabou de falar e andou apressada até seu lugar, sentando-se e cobrindo o rosto vermelho com uma das mãos.

Isso foi estranho. Tava na cara de que ela estava escondendo algo de nós, e isso era realmente curioso, mas... Não dei minha devida atenção a isso no momento, já que era a vez de quem eu realmente estava esperando por todo esse momento que passou. Era a vez de Sasori.

– Sasori? – Sakura o chamou, apreensiva demais. Ele apenas levantou o olhar e a encarou como um boneco, totalmente inexpressivo – vai falar? Se você não quiser, não prec...

– Eu vou falar – ele disse, levantando-se e passando as mãos pelas roupas que aparentemente estavam pouco sujas por causa dos bancos de cimento.

Ele andou lentamente, e a cada passo que ele dava um calafrio e um sentimento estranho tomava conta de mim. Tenho certeza de que o que esse cara tinha era pior do que a dependência química do Asuma.

Ele se sentou no chão. Os joelhos sobrados para cima, os braços apoiados neste e seu olhar frio e medonho pairava pelo local.

Tsuna comentava algo com Hidan, Kakashi e Sakura olhavam totalmente atentos a tudo que ele fazia assim como Ino, que já estava anotando coisas em seu caderno.

– Sou Sasori – ele disse, fazendo com que os dois que conversavam ficassem quietos – tenho 28 anos e o lugar em que eu nasci não interessa – Tsuna e Ino arregalaram os olhos pela forma grosseira e entonação de sua voz. Tive de olhar para Sakura e a observei, notando sua face tristonha e receosa – a única coisa que realmente importa é o meu desprezo pela raça humana.

Desprezo? Não pude entender realmente o que ele estava dizendo, mas posso dizer que aquilo me causou arrepios estranhos. Uma sensação de perigo pairava no ar, e eu não era o único que sentia isso.

– Não me importo com a vida e muito menos com as pessoas que estão aqui. São todos seres imperfeitos que não dão a mínima para nada – Sasori disse, olhando para os três pacientes e depois para mim, intimidando a todos nós – porque a única coisa perfeita e querida no mundo é a arte, e por ela eu posso aceitar viver. Não vejo necessidade de contato humano e nem de socialização e... Por mim – ele deu uma pausa, e então eu finalmente vi um sorriso maléfico em seu rosto, algo estranho – deveríamos todos morrer.

Perturbador.

Acho que todos a volta dele arregalaram os olhos. Minhas mãos acabaram por deslizar pelas pernas, apertando os joelhos com força. Seja lá qual for a doença daquele cara, deve ser difícil para a Sakura cuidar dele.

Não vê necessidade no contato humano? Vive pela arte? Essa cara é com certeza mais estranho do que realmente aparenta, mas... De uma coisa eu sei: ele anseia pela morte assim como eu, há alguns meses atrás. Ele provavelmente não tem motivo nem objetivo para viver... E isso é triste.

Triste porque, de que somos feitos nós, seres humanos, se não de desejos e ambições de seguir em frente? De conquistar coisas, melhorar.

Posso dizer que a humanidade dele é altamente questionável, já que ele está simplesmente respirando, e não vivendo. Na verdade, ele já está morto.

– Sasuke! – Sakura praticamente gritou, tirando-me de meu momento de reflexão – vamos, é sua vez! Pra encerrar.

Olhei para o lado e Sasori já estava sentado. Me perdi tanto em pensamentos que acabei por ficar aéreo também. Fiz um sinal negativo com a cabeça e andei até o centro da roda, sentando de perna de índio também. De lá, eu poderia ter uma visão melhor de todos e vi seus rostos totalmente tensos pela confissão que viera do ruivo. Eu já não iria falar sobre o motivo de eu estar ali mesmo, e por isso decidi falar sobre outra coisa.

– Meu nome é Sasuke, tenho 26 anos e sou Americano – eu disse, mas aquela energia negativa ainda pairava sobre tudo, fazendo com que eu também ficasse tenso – sou arquiteto e tenho minha própria empresa e, estou internado aqui a 3 meses. Eu vou falar sobre um momento feliz de minha vida...

Logo após dizer isso, Ino virou a folha de seu caderno e até mesmo eu que estava sentado pude vê-la escrevendo meu nome e anotando tudo o que eu estava dizendo. Ao dizer isso, os rostos suavizaram e soube ali que tinha tomado a decisão correta.

– Posso dizer que já vivi muitos momentos tristes e muitos momentos felizes. Desde criança até hoje, eu já passei por muitas, muitas coisas mesmo. Acho que deveria compartilhar com vocês o primeiro momento feliz de que eu realmente me recordo – eu disse e forcei um sorriso de canto, e pude ver os outros sorrirem também, me encorajando. Principalmente Sakura e Kakashi – Quando eu era criança, uns 6 ou 7 anos, meu irmão mais velho vivia ocupado e quase nunca tinha tempo pra brincar comigo. Eu chorei, esperneei, bati nele e disse coisas como “Você é um chato! Porque não brinca comigo? Você me odeia!” – eu disse, tentando imitar minha voz quando eu era criança, tirando sorrisos de algumas pessoas e até mesmo uma risadinha de Ino — e então corri para o quarto e dei um tremendo gelo nele pelo resto do dia. No dia seguinte, ele veio me procurar e eu fiz um bico gigante pra ele, chamando-o de chato novamente e então ele me entregou um embrulho verde e mal feito – eu disse, tentando fazer o formato do embrulho com as mãos, e todos ouviam minha história atentamente – quando eu o abri, era uma pelúcia de um dinossauro. Ele me pediu desculpas e disse que brincaria comigo pelo resto do dia e então eu acho que dei um dos poucos sorrisos realmente abertos e inocentes em toda a minha vida. Não foi o brinquedo que me alegrou, e sim passar um tempo com meu irmão mais velho.

Eu disse. Todos olhavam para mim com sorrisos ternos e logo Sakura puxou as palmas e todos acompanharam-na.

Essa história realmente fizera com que uma nostalgia gigante tomasse conta de mim.

– Certo, agora que acabamos – Ino que não havia falado nada levantou-se da cadeira, guardando seu caderno na bolsa – preparamos lanches para todos já que está quase na hora do almoço – e ela tirou da mesma bolsa uma tupperware muito grande tendo pedaços de torta dentro da mesma, e depois uma garrafa térmica provavelmente com suco.

Todos correram animados até onde ela estava, mas Kakashi e Sakura dirigiram-se até mim, que estava levantando do chão.

– Você está bem? – Kakashi perguntou, sua face apreensiva me encarava, e eu apenas pude sorrir pela preocupação de meu amigo.

– Estou bem sim – eu disse e passei a olhar aquela bagunça de pessoas comendo, pegando suco e conversando.

Isso me fez ter saudade dos tempos da adolescência, onde todos vivíamos juntos e conversávamos. Não tínhamos ideia do que ia acontecer. E isso rendeu a mim o meu terceiro desejo.

– Sakura – eu a chamei, e ela virou e sorriu para mim – já sei qual meu próximo desejo.

– Qual? – ela perguntou, curiosa, aproximando-se de mim para ouvir.

– Quero que chame Kakashi e mais alguns amigos meus – uma das sobrancelhas dela se arqueou e então eu sorri de canto – Vamos passar uma quinta feira na praia.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim. O próximo capítulo vai ser beeeem revelador :3 Hoho, mereço comentários? ♥ Até !