Notas iniciais
Acho que o título e o capítulo falarão melhor do que eu auehauehae Boa Leitura ♥

Isso está se tornando um vício.

Você não precisa desse tipo de coisa, Sasuke.

Pare com isso, por favor.

A culpa não é sua. Está tudo bem.

Sasuke, você precisa viver!

Acordei devidamente aflito. Perturbado. Assustado. Abri os olhos e dei um pulo da cama, respirava ofegante, soando frio e correndo em direção ao banheiro. Abri a torneira com pressa e juntei ambas as mãos em baixo da mesma, deixando que acumulasse um pouco de água ali, jogando-a direto em meu rosto. Por estar com o corpo quente, o impacto da água gelada fez com que um arrepio doloroso percorresse por todo o meu corpo. Posei ambas as mãos na pia de granito cinza e finalmente abri os olhos, encarando minha própria face no espelho retangular posicionado à minha frente.

Meu estado era deplorável. O cabelo pouco molhado pelo excesso de água, fazendo com que gotículas da mesma passeassem por meu rosto e pescoço. A regata preta que eu usara para dormir estava úmida e eu podia ver poucos fios de cabelo grudados à minha testa. Parecia que eu tinha finalizado uma sessão rigorosa de exercícios aeróbicos.

Passei uma das mãos pelo rosto, tirando aquelas gotas incômodas que teimavam em escorrer, e voltei a posa-la no granito gelado, olhando novamente para minha imagem no espelho. Meu rosto é incrivelmente parecido com o de minha mãe. Havia puxado pouca coisa de meu pai, além de seu jeito quieto e difícil. Houve um tempo em que eu adoraria ter puxado dele a pele bronzeada e as famosas marcas no rosto que meu adorado irmão havia conseguido, mas infelizmente a genética não havia me beneficiado nessa parte.

Me observar por tanto tempo me fizera lembrar sobre as aulas de física sobre espelhos. Aquilo fora, de fato, uma inutilidade para mim. Eu nunca entendi com precisão a teoria e muito menos a prática. Nunca entendi o motivo de a imagem formar-se atrás do espelho, e o assunto acabara por tornar-se devidamente complexo para mim.

Agora, eu reparava em cada detalhe de mim mesmo naquele objeto e acabara por procurar qualquer semelhança entre eu e a pessoa que eu mais admiro na vida. A mesma que causou meu despertar repentino e agitado essa manhã.

Meu irmão.

Misteriosamente, lembranças do passado retornavam e liberavam-se do canto mais obscuro de minha mente. Memórias que eu havia trancafiado, que eu decidi esquecer definitivamente para meu próprio bem.

Infelizmente não somos nós quem controlamos nossa mente. Ela nos controla e define a maioria de nossas ações, razões, opiniões. Podemos até nos impor, travar brigas internas contra os próprios pensamentos, mas isso raramente funciona. Quando não queremos lembrar-nos de algo, é aí que o mesmo fica impregnado em nosso ser.

Isso acontece quando uma música gruda em nossa mente. Quando estamos tristes com alguém, ou com raiva. Quando mentimos ou quando temos algo a esconder e, principalmente, quando socamos algo ruim nos confins do cérebro atrás das mais remotas e insignificantes memórias apenas para não enfrentar traumas, medos. Situações difíceis, de fato. E isso era com certeza algo pelo que eu estava passando agora.

Uma situação difícil.

Talvez isso tenha sido desencadeado pelo fato de eu ter me aberto na consulta coletiva, sexta feira passada. Talvez pelo meu último sonho. Talvez pelo motivo de ter chegado a hora de eu enfrentar tudo isso. Não sei ao certo.

Respirei fundo, tentando livrar a mente de qualquer um daqueles pensamentos, mas as coisas não funcionam dessa maneira. Para limpar minha mente, eu precisaria ocupa-la com outra coisa que seriam os exercícios físicos, mas hoje é terça feira. Meu primeiro dia de consulta com a Sakura na semana, então teria que esperar depois disso para fazê-lo.

Por falar em consulta, caminhei até a porta do banheiro para descobrir que horas eram. Komuro viria me buscar as exatas 10h, e agora eram 09h e 28min. Suspirei um pouco aliviado e aproveitei para tomar um banho rápido de 10 min e fazer toda a minha higiene matinal.

Terminando isso, vesti uma calça jeans escura e uma camisa azul marinho, decidindo calçar meu par de coturnos marrons e a mesma jaqueta de couro preto que havia usado na consulta coletiva. Troquei a garrafa d’água por um pouco de suco de limão e assim que dei minha última golada ouvi batidas na porta, sabendo que certamente era Komuro que viera para me transportar.

– Bom dia – eu disse, e o rapaz de cabelos marrons adentrara em meu quarto com a cadeira de rodas e um sorriso no mínimo esplendido.

– Bom dia – ele respondeu e direcionou a mim um olhar divertido – está bem arrumado para a consulta – eu poderia notar o tom de malícia e dei um sorriso de canto.

– O que está querendo dizer? – perguntei, fazendo-me de desentendido.

– Que você está todo arrumado para encontrar a Doutora Sakura – ele disse, dando um sorriso malicioso assim como seu tom de voz que permanecera.

– Deixe de falar bobagem garoto! – eu o repreendi sem ter muita intenção de fazê-lo na verdade. Ele apenas sorriu para mim, entendendo tudo e então eu andei até a cadeira de rodas, sentando-me na mesma. Eu acabara por perguntar a mim mesmo quando havíamos nos tornado tão íntimos.

Ele sorriu para mim e então me conduziu na cadeira para fora do quarto, fechando a porta do mesmo com cuidado. As coisas mudaram desde que cheguei aqui, e isso me fez novamente pensar na árvore e em toda a psicologia da Sakura. Me fez pensar se eu realmente tenho levado tudo isso das consultas a sério, e se eu pelo menos havia dado uma chance para ela e sua boa vontade em me ajudar.

A resposta disso era não.

Mas as coisas haviam mudado. Eu não a enxergava apenas como uma médica, e sim uma amiga e, sim, admito que com ela aprendi a admirar eventos da vida que passam despercebidos pela maioria das pessoas e as vezes ver as coisas pelo seu lado bom. Nesse momento em que passamos pelo jardim e entrávamos no outro prédio, lembrei-me da noite em que a encontrei pela primeira vez ali e observamos as estrelas juntos.

Quantas vezes eu ignorei o nascer do sol? As nuvens passeando de acordo com o vento, o brilho das estrelas e o balançar das ondas. Quantas vezes dei pouca importância a momentos que a mereciam? Quantas vezes deixei que tristezas martelassem minha mente e perdi as felicidades que me rodeavam?

– Em que tanto pensa? – Komuro perguntou e encerrou todo o meu momento de reflexão.

Inclinei o pescoço para cima e pude ver sua face curiosa fitando a frente sempre para me conduzir corretamente.

– São exatos 3 meses e uma semana que estou aqui, e estou pensando se eu realmente tive alguma mudança – disse sincero, e logo uma risada divertida partiu dele.

– Claro que sim! – ele respondeu, animado – no início eu tinha um pouco de medo. Te achava um pouco estúpido, mas você mudou.

– Mudei como? – Perguntei e então ambos chegamos até a sala de espera, em frente ao consultório de Sakura e sua árvore pintada.

Me levantei da cadeira e sentei num dos poofs ali, e então Komuro apenas sorriu, colocando uma das mãos atrás da cabeça e sem graça.

– Não sei explicar – ele riu um pouco – mas está diferente. Bom, até mais – ele se despediu e praticamente correu com a cadeira sem dar tempo para despedidas.

Bufei e tive que sorrir. Ele faz isso sempre, nem me dá tempo pra dizer um Até logo ou talvez um Valeu pela carona. Típico dele.

Nem tive muito tempo para pensar no assunto já que a porta do consultório fora aberta de forma lenta e, por céus, alguém precisava passar um óleo ali porque rangia de forma totalmente dolorosa e agonizante.

– Bom dia Sasuke! – A coisa rosa me olhou e direcionou a mim um sorriso aberto que era difícil de ver por aí.

– Bom dia – eu cumprimentei e já me levantei daquele poof preto e extremamente macio para direcionar-me até a sala da mesma.

Quando adentrei no cômodo, o barulho da maçaneta girando e das trancas encaixando poderiam ser realmente incômodas se eu não estivesse ocupado olhando outra coisa que puxara minha total atenção.

Dois olhos. Uma pintura.

Caminhei até a pequena sacada e me posicionei perto da pintura, esticando o braço esquerdo e passando os dedos pela tela branca e pelo pequeno relevo formado pela tinta, sentindo-a devidamente áspera e totalmente... Maravilhosa.

Havia apenas dois olhos pintados exatamente ao centro. Olhos verdes em cores vibrantes. Cílios longos, sobrancelha perfeitamente desenhada e devidamente... Rosa.

– Quem desenhou? — ainda com os dedos na tela perguntei a Sakura, esta sentada na mesa do consultório me observando curiosa.

– Sasori – ela respondeu e deu um sorriso

– São seus olhos, correto? – perguntei novamente.

– Sim – ela deu um pequeno pulo para sair da mesa e andou até mim, posicionando-se ao meu lado — ele havia dito que abomina o convívio humano, mas na consulta passada disse que meus olhos eram dignos de uma obra de arte. Pedi que se expressasse através disso e ficou realmente bom, não é?

– Sim – respondi apenas isso, sem saber muito bem o que dizer pra ela depois daquilo.

Gostaria de saber mais sobre Sasori, mas era antiético. Além disso, não é nada que eu tenha realmente que saber. Mas tenho certeza de que aquilo é muito parecido com a nossa primeira consulta, apesar de ter certeza de que minha pintura estava um lixo comparada com aquela.

Fechei os olhos e respirei fundo, andando até o pequeno sofá do consultório e sentando-me ali. As palavras que estavam em minha mente meia hora atrás ainda ecoavam ali e eu acabo por pensar se não estava na hora de eu começar a me expressar pra ela também. Se até mesmo ele conseguiu, eu também posso.

– E então, sobre o que quer falar hoje? – ela sentou novamente na mesa e cruzou as pernas, apoiando apenas uma das mãos na mesma, enquanto a outra estava de lado e sobre as coxas.

Abri a boca para começar a falar, mas as palavras simplesmente morreram em minha boca. O ar não vinha, e me faltava coragem para concretizar o que pensava, de fato. Não era tão fácil assim e, amaldiçoei a mim mesmo por não conseguir fazer o que minha mente me dizia. Amaldiçoei-me por não ser responsável por minhas próprias ações.

Respirando fundo novamente, estufei os pulmões de ar e fiquei assim por uns segundos, tentando encorajar-me a dar um passo.

– Está tudo bem? – Ela perguntou, e eu tive que abrir os olhos e fitar sua face preocupara para finalmente dizer alguma coisa.

– S- Sakura, eu estive pensando – disse, e tive vontade de entrar na privada e dar descarga em mim pela voz ter saído trêmula. Um frio veio em minha barriga e agora que eu havia começado, terminaria – até a consulta coletiva eu via a mim mesmo como um tronco bege. Mesmo realizando desejos e participando, eu não estava colaborando com isso cem por cento – eu a encarei, e ela me olhava totalmente compreensiva e acabara por me passar uma calma que pensei que não existia em mim – fazia contragosto e até mesmo reclamando mentalmente, mas quero mudar isso e me redimir com você, que está dando as tripas para fazer com que eu melhore.

– Isso é muito bom sabia? – Ela disse, sorrindo e inclinando o próprio corpo para o lado como se deitasse na mesa, apoiando-se com os cotovelos – faz você ser um iniciante na turma do pessoal que são galhos marrons – Sakura riu, e isso acabou por me fazer bufar de maneira divertida enquanto ela me encarava – novamente, sobre o que nós vamos falar?

– Gostaria de lhe contar uma história sobre o meu passado do qual eu não me alegro nem me orgulho – disse sincero, e ela me fitou com aqueles olhos verdes, vibrantes e totalmente curiosos.

– O que conta essa história?

– Um dos maiores traumas da minha vida – eu baixei a cabeça e passei uma das mãos pelos cabelos, terminando minha frase – a morte de meu irmão.

– Tudo bem – observei ela se levantar da mesa e andar até a cadeira estofada atrás da mesma, sentando e pegando em uma das gavetas um caderno do Mickey Mouse e depois uma caneta rosa com aqueles pompons na ponta – pode começar.

A noite escura e fria fizera com que a brisa arrepiasse todos os pelos de meu corpo. Respirei fundo e abri a porta grossa do guarda roupa de madeira escura e peguei um casaco marrom e apropriado para aquele dia frio.

O barulho de gritos e portas batendo martelavam em minha mente e, a cada acontecimento desses, parecia que minha cabeça dava pontadas cada vez mais fortes. Meus pais brigavam novamente por causa das dívidas, e eu nunca fui muito paciente. Tinha 17 anos e todo o direito de querer me dispersar desse ambiente totalmente incômodo.

Bufei ao ouvir novamente um grito de minha mãe. Olhei o horário e eram exatas 23 horas e acabei por dar de ombros. Eu não dormiria ali por conta do barulho, então não ficaria sem fazer nada, certo? E como as brigas estavam tornando-se frequentes, minhas saídas norturnas acabaram por tornar-se também.

Abri a porta com cuidado e a fechei também dessa forma. Andando praticamente na ponta dos pés, desci as escadas até a sala e peguei minha carteira, checando se lá estavam os cartões de crédito e o resto de minha mesada que sobrara. Apertei um dos botões do celular para iluminar o caminho e ir atrás das chaves de minha moto e da casa.

Ao encontrar ambas, sorri satisfeito e me virei, ainda usando o celular como lanterna.

Agradecendo pelo autocontrole de não gritar, coloquei uma das mãos no peito por tomar um grande, gigantesco susto ao ver ali a figura de meu irmão mais velho.

– Isso está se tornando um vício, pelo jeito – Itachi disse, sua face séria e sua voz grave demonstravam o descontentamento por já saber que eu iria sair.

– Não sei do que está falando – eu disse me fazendo de desentendido.

– Vai sair pra beber novamente? – ele cruzara os braços e logo a luz do celular apagou-se, mas mesmo no escuro eu sentia que ele me encarava com preocupação.

– O que isso tem a ver com você? – perguntei. Eu fora realmente estúpido com ele na época, e agora me arrependo amargamente disso – eu não aguento mais essas brigas. Preciso me dispersar disso tudo.

– Você não precisa desse tipo de coisa, Sasuke.

Eu bufei e saí sem dizer mais nada. Se eu soubesse como ele estava certo e tivesse um pouco mais de maturidade, teria parado e escutado o que ele estava tentando me dizer ali. Se eu soubesse que apenas o fato de eu ter saído daquela casa tiraria a vida dele, eu teria ficado e aguentado toda briga, discussão, o barulho, a dor de cabeça.

Como sempre, cheguei numa boate próxima a minha casa e comecei a fazer o que tinha feito todas as noites anteriores. Com o dinheiro dos cartões de crédito e o resto da mesada, gastei tudo imprudentemente e enchi a cara com gosto.

Uma coisa de que não sei se devo me orgulhar é o fato de eu ser forte para bebidas. Eu ficava bêbado, sim, mas sempre me lembrava da maioria das coisas que fazia quando já estava alegre. Enfim.

Perguntei ao barman o horário e ele me dissera já serem 1h e 40min da manhã. Já estava ali, meus pais provavelmente estavam preocupados, mas eu não estava com a mínima vontade de voltar. Levantei-me daquele banquinho segurando um copo com uma mistura peculiar de rum, licor de café e licor de creme e me dirigi até a pista de dança.

Lá, não foi difícil encontrar alguma garota pra dançar. Pode achar convencimento, mas sei que sou atraente. Dança vai, dança vem, acabei ficando com uma garota que não me contou que era comprometida. O namorado dela chegou e viu a gente dando um super beijo na pista e já chegou me agredindo fisicamente.

A boate inteira parou, eu estava no chão e o cara enfurecido. Pelo corpo, parecia ter uns 27, e eu apenas 17. E eu ainda era magrinho na época então quase não tinha chance contra esse cara. Foi quando meu irmão chegou correndo.

– O que está acontecendo aqui? – Itachi perguntou, pondo-se entre eu e o cara. Ele respirava ofegante e provavelmente correra até aqui.

– Ele me beijou á força – a garota gritou e fingiu um choro muito mal feito, e isso enfureceu o cara que havia me batido.

Itachi virou pra mim, sua face com dúvidas esperando qualquer resposta que seja.

– Ela praticamente se ofereceu pra mim– eu disse, já de pé e me aproximando de meu irmão – Essa puta tá mentindo.

– Do que a chamou? – o cara que havia me agredido parecia ainda mais raivoso. Passei a mão pela bochecha que estava dolorida e sorri de canto.

– Puta.

– Sasuke! – Itachi me repreendeu e então toda a boate gritou quando aquele homem puxou a arma e apontou para mim e ele — Pare com isso! Por favor! – Itachi pediu ao homem, que não mudou a posição.

– Olhe aqui – ele começou, seus olhos em ódio puro e então a garota percebeu a merda que havia feito – você não tem nada a ver com isso. Se quiser fazer o favor de se retirar pra que eu possa matar esse desgraçado, eu agradeço.

Arqueei uma das sobrancelhas quando vi Itachi realmente sair da frente do homem, que apenas acenou a cabeça em agradecimento por ele ter feito o que o mesmo queria. Naquele momento, quando vi o homem puxar o gatilho, eu o chamei de traíra mentalmente e o ódio subiu em minha cabeça, mas, em poucos segundos tudo aquilo seria revertido apenas pelo sentimento de perda e, principalmente pelo sentimento de culpa.

Ele simplesmente pulou em cima daquele cara e eu não pude ver muito do que aconteceu depois. Pessoas filmavam com o celular e ninguém teve a mínima decência de tentar separar, todos com medo de levar o tiro que era pra ser meu.

Respirei fundo e fui tentar apartar a briga, mas parei quando o estrondo do tiro foi ouvido. Fechei os olhos, esperando a dor vir, mas ela não veio.

Quando abri os olhos, o homem estava em pé e meu irmão no chão. Arregalei os olhos me dando conta do que tinha acontecido e procurei o lugar em que o tiro havia sido dado, pra avaliar a situação como grave ou não tão grave. Gelei quando percebi que grave seria o mínimo, já que o tiro o acertou no abdômen. Lágrimas escorreram por meu rosto ao perceber que tudo isso poderia ser evitado se eu simplesmente tivesse ficado em casa.

– Me desculpe Itachi! – eu chorava como um bebê e me aproximei dele, abraçando o corpo fraco e ensanguentado – me desculpe! E- eu não queria...

– A culpa não é sua, Sasuke. – ele disse, seus olhos semiabertos e sua voz já fraca– está tudo bem. Tudo vai ficar bem.

Eu não sabia mais o que dizer no momento. Eu apenas chorava e chorava, e só queria que o tempo voltasse e que eu tivesse o escutado há algumas horas atrás.

Quando olhei em volta para procurar o maldito que tinha causado isso a ele, mas ele havia fugido. Entretanto vi que pessoas filmavam a situação e aquilo me enfureceu. Me levantei e os encarei com ódio.

Ódio por não terem tentado ajudar e por simplesmente não terem feito nada útil, como chamar a polícia ou uma ambulância.

– PAREM COM ISSO – gritei e todos me olharam assustados – MEU IRMÃO NÃO É ENTRETENIMENTO PRA NINGUÉM AQUI.

As pessoas murmuravam coisas que eu não podia nem queria entender, não estava nem um pouco interessado.

– Sasuke – eu o ouvi me chamar novamente, e me abaixei, ficando próximo ao mesmo e o ouvindo atentamente – controle-se. Você precisa largar isso, essa vida... Precisa se comportar e fazer isso por você, pelos nossos pais – ele deu uma pausa e tossiu, o sangramento não parava e eu continuava a chorar por não poder fazer nada para ajudá-lo – Você precisa viver. Por mim.

Acenei com a cabeça positivamente e o abracei sem muita força, até que meu irmão desse seu último suspiro de vida ali mesmo, naquela boate.

– Nossa, isso tudo foi tão... – Sakura começou, deixando a frase morrer no ar.

Essa era sem dúvidas a primeira vez em muito tempo que eu comentava sobre a morte do meu irmão assim, tão detalhadamente. Acho que nem pra Naruto eu havia falado dessa maneira.

– O sentimento de culpa foi grande, né? – ela me perguntou, levantando da cadeira e vindo sentar-se ao meu lado, no sofá.

– Sim, mas não foi exatamente isso que me faz ficar deprimido – eu disse e pude sentir as lágrimas voltarem aos meus olhos naquele momento – e sim o fato de que tudo poderia ter sido diferente, por qualquer escolhazinha sequer. Se eu tivesse me trancado no quarto, ele poderia estar vivo agora. Se eu tivesse ido lá e parado a briga dos meus pais, ele poderia estar vivo agora. Se eu tivesse ido embora quando minha consciência me avisou, ele poderia estar vivo! – eu a olhei e gritei, as lágrimas escorrendo por todo o meu rosto e tenho certeza de que eu estava deprimente – se eu tivesse feito QUALQUER escolha de maneira diferente, talvez eu não estivesse passando por tudo isso! Qualquer coisinha, qualquer detalhezinho banal poderia ter salvado sua vida e eu... Eu... Tudo estava apenas sobre os poderes de minhas decisões.

E então, o que ela fez realmente me surpreendeu e acabou por me fazer chorar ainda mais.

Ela me abraçou. E eu fiquei lá chorando, fungando, soluçando enquanto a abraçava e sentia seu corpo quente e confortável aquecer-me também por dentro.

– Não. Você está errado – ela disse ainda me abraçando e acariciando meus cabelos de uma forma que me acalmava – não temos poder de decisão sobre a vida das pessoas, Sasuke. Essas coisas acontecem e nós infelizmente não podemos fazer nada pra impedir – sua voz doce acalmava-se e eu acabei por me aconchegar ali, chorando silenciosamente e apoiando a cabeça no ombro dela – Você pode pensar que a culpa é sua, que se você tivesse feito qualquer coisa de maneira diferente, tudo mudaria. Mas as decisões dele também contavam, Sasuke. Não se tratava apenas de você, essa era uma equação com muitas incógnitas e muito difícil de ser resolvida, mas nós estamos aqui.

Eu levantei meu olhar e ela sorriu para mim, antes de completar.

– Eu vou cuidar de você.

Notas finais
Espero que tenham gostado e que parte das dúvidas que vocês têm tenham sido esclarecidas aqui :3 Nos vemos nos comentários ♥