Notas iniciais
Gostaria de deixar aqui meus sinceros agradecimentos à Hitari Amai. Obrigada pela linda recomendação ♥ Espero que gostem, boa leitura :3

A resto da semana passou rapidamente depois de eu ter me ‘transformado’ num astronauta. Posso dizer que ainda estava deveras surpreso sobre a experiência que eu tive lá. Apesar de ser um encontro de fãs de Star Wars – e eu sinceramente odiar muito esse filme -, eu ter sido forçado a colocar uma roupa estranha e ter um pouco de tontura devido à queda de pressão durante a simulação, foi realmente muito bom.

Quer dizer, bem, eu estava esperando um teatrinho super mal feito em algum lugar, ou um filme 3D em que mostrasse a decolagem detalhadamente. Tá, eu esperava tudo, menos isso.

É difícil admitir, mas a criatura rosa tem me impressionado desde antes do momento em que eu coloquei o primeiro pé dentro daquela sala. Diferente dos outros psicólogos, ela não me pergunta sobre meus problemas, nem me pergunta sobre o motivo de eu estar ali – apesar de eu ter certeza de que ela sabe -, ela apenas conversa comigo, sem pressão. Conversamos sobre o trabalho, passatempos, vontades futuras e por enquanto tem estado bom assim.

Acho que ela prefere agir dessa maneira principalmente pelo meu jeito difícil. Deve ter percebido que eu não funciono quando as pessoas me pressionam, e está esperando que eu me manifeste sobre o assunto. Que eu me abra com ela, assim como ela fez comigo àquela noite, no jardim.

Me espreguicei e bocejei, abrindo a janela para poder olhar a pouca paisagem que havia ali. O tempo ainda estava nublado, e isso me dava certo ânimo para ir até o jardim novamente e caminhar para me aquecer. Eu já estava há algum tempo sem praticar exercícios físicos ou aeróbicos, e isso seria bom pra mim.

Não que um dia de corrida fosse recuperar todo o meu físico, mas ajudava a limpar a mente. Expulsar pensamentos ruins, e era disso que eu estava precisando.

Toda vez que eu penso em Keiko, Asako e Itachi, as lágrimas inundam meus olhos e eu tenho uma sensação horrível, como se tudo aquilo nunca fosse acabar. Como se a ferida nunca fosse se fechar e a dor nunca se dissipar. E são nesses momentos que eu acabo por me lembrar da árvore.

Acabo por perceber que eu ainda não passo de um tronco bege. Que mesmo eu indo às consultas, estou coberto de melancolia. E isso não é bem o que Itachi disse que aconteceria.

Isso não é voltar a viver.

Suspirei alto, passando as mãos pelo rosto enraivado. As coisas deveriam ser mais fáceis. Enfim, melhor eu ir correr logo antes que minha cabeça continue a agir dessa maneira.

Troquei o jeans costumeiro por um moletom preto, uma regata branca e tênis esportivo próprio para corrida. Fiz o mesmo que sempre faço quando acordo: ando até a pequena geladeira e pego uma garrafa com água.

Andei até a janela para dar uma pequena olhadela no jardim e pude observar algumas pessoas ali. Bufei, já que era preferível praticar exercício sozinho, mas nada podia ser feito quanto a isso.

Ainda no quarto, alonguei braços, pernas, pés, pescoço e todo e qualquer músculo possível de se alongar. Não estava afim de ficar dolorido.

Com a garrafa na mão, fiz o mesmo caminho de quando fui a primeira vez no jardim. Era mais longe, eu sei, mas se eu caminhasse rapidamente seria um bom aquecimento para então começar a corrida.

Caminhando depressa, apenas cumprimentava as pessoas a minha volta com um aceno com a cabeça, tentando não puxar conversa com uma pessoa sequer. Eu só estava concentrado em praticar meu exercício e dispersar qualquer pensamento que venha a me deprimir. Não demorou muito para que eu chegasse ao jardim dos fundos.

Não está tão cheio quanto eu pensei que estava. Havia apenas algumas pessoas sentadas nos bancos de concreto, e ninguém caminhando, correndo ou praticando qualquer outro exercício.

A pista estava disponível apenas para mim, pensei e sorri satisfeito. Isso era ótimo.

Andei até a árvore mais próxima, no início da pista, e deixei lá minha garrafa d’água, escondida atrás da mesma. Tendo feito isso, agachei-me flexionando os joelhos para uma última alongada. Logo fiquei em posição de corrida – como se numa maratona – e comecei a praticar meu exercício.

Corria pela pista num ritmo mediano. Há muito tempo eu não me exercitava dessa maneira e, por isso, o ar começou a faltar em meus pulmões. Fechei os olhos por alguns segundos e me concentrei, respirando pelo nariz e soltando o ar pela boca. Fiquei assim por algum tempo até que eu me acostumasse totalmente com essa forma de respirar – o que demorou um pouco – mas eu finalmente consegui.

Mantendo o mesmo ritmo, eu olhava em volta e percebia que eu não era o único jovem ali. Haviam pessoas de diversas idades internadas, e isso fez com que eu me interessasse pelos problemas das pessoas, que as trouxeram a esse lugar estranho.

Eu vim pra cá por problemas com bebida e tentativa de suicídio, e, de acordo com a Sakura, minha paixão pela física e qualquer outra ciência exata tiravam-me, arrastavam-me para longe da lucidez.

Olhei novamente para todas as pessoas que também estavam aqui nesse jardim. Nenhum deles tem cara de louco, ou de que tenham feito alguma loucura a ponto de precisarem de uma internação. Observei atentamente um homem de cabelos exageradamente claros e olhos num tom incrivelmente azul que, de acordo com a luz, poderia tornar-se um violeta.

Ele estava sentado na grama e tinha um grande, enorme sorriso na face, enquanto olhava para frente. Isso também aguçou minha curiosidade e, ainda correndo, virei a cabeça rapidamente para o local onde sua atenção estava voltada e finalmente entendi o motivo de seu sorriso. Era uma garota.

Seu rosto fino e perfeitamente desenhado fizera com que eu também me impressionasse. Ela possuía longos cabelos loiros e olhos cor de mel, além de um sorriso encantador na face. Logo eu percebi que ela provavelmente estava aceitando as investidas de paquera do homem e não pude deixar de sorrir, fazendo com a cabeça um sinal negativo. As pessoas realmente não perdem nenhuma oportunidade.

Provavelmente por olhar por muito tempo para o mesmo lugar, minha visão desfocou por um tempo, e eu pude enxergar ao longe – atrás da garota loira, pra ser mais exato – duas cabeleiras conhecidas por mim: uma cor de rosa e uma cabeleira grisalha, que pareciam se divertir loucamente juntas.

Assim como existe a química do amor e os processos engraçados que sentimos quando estamos apaixonados, a física me lembrou de que a gravidade é uma coisa de louco, já que eu estava correndo e olhando para o lado, e não se pode olhar para dois lados ao mesmo tempo – a não ser que você seja vesgo — e, por causa disso, acabei por chocar-me contra uma árvore e — por consequência do barulho ou talvez da queda -, puxar para mim a atenção de todas as pessoas que estavam no local, inclusive de ambos os casais em paquera.

Meu exercício acabou quando caí de costas na grama. Os braços desnudos ardiam – provavelmente arranhados – e eu sentia meu rosto queimar. Não sei se por vergonha, ou se por algum arranhão também.

Permaneci de olhos fechados por um tempo. Eu estava ardendo, meu traseiro doía, e a única coisa que eu realmente queria no momento era cavar um buraco até o inferno e perguntar ao capeta quais eram os motivos que ele tinha para dedicar suas piores e especiais artimanhas apenas para mim.

– Sasuke! – pude ouvir Kakashi gritar ao longe me tirando de meus pensamentos e logo as pessoas aproximavam-se de mim para ver como eu estava.

– Cara, isso foi horrível – abri os olhos e vi que quem dissera aquilo foi o homem de cabelos claros e olhos violeta – você está bem?

– Estou – eu respondi, sarcástico – ótimo!

– Ora, ajude-o Hidan! – a garota loira que ele paquerava praticamente ordenou.

Isso o fez sorrir sem graça e estender a mão para me ajudar. Eu aceitei e, assim que me posicionei de pé, Sakura e Kakashi chegaram, afastando outras três pessoas que viram que eu estava bem e acabaram por dar meia volta e ir embora.

– O que deu em você? – Sakura perguntou, me olhando com um sorriso zombeteiro na face – como não enxergou uma árvore desse tamanho, Sasuke?

– Eu estava... – dei uma pausa, passando as mãos pela blusa branca e tirando restos de madeira grudados na mesma – estava distraído – eu disse, sem ter conseguido pensar numa mentirosa e melhor desculpa.

– Acho que estava olhando para a Tsuna – Kakashi disse também zombando, e a garota que antes era extremamente branca, agora continha em sua face bochechas estranhamente rosadas.

Hidan, que havia me ajudado, agora olhava para mim levemente irritado.

Eu não estava olhando para a garota, Tsuna, e sim para Kakashi e Sakura, mas eu não queria que eles soubessem disso, e eu não funciono quando pressionado, além de não ter nenhuma desculpa melhor para dar. Mas eu também não queria briga com alguém que estava no mesmo barco que eu.

– É, eu estava – eu disse, e o rubor na bochecha da garota passou de rosado para vermelho naquele mesmo segundo. Hidan irritou-se ainda mais, e eu olhei em volta procurando qualquer sinal divino que pudesse me tirar da situação totalmente constrangedora, e então decidi falar a verdade – eu estava pensando no motivo das pessoas que ficam internadas aqui. Aí olhei para Tsuna e pensei que, ela não tem cara de louca, viciada ou qualquer coisa do tipo.

Depois de ouvir o que eu disse, a expressão facial de Hidan suavizou aos poucos e então eu pude notar que seu olhar agora mudava rapidamente de Tsuna para Sakura, de Sakura para Tsuna.

Tsc, cara de pau.

– Entendi – Kakashi disse puxando minha atenção, seus olhares oscilando entre mim e Tsuna e logo um novo sorriso zombeteiro apareceu em sua face – eu acho que deveríamos fazer uma consulta coletiva semana que vem. O que acha Sakura? – logo, sua voz passou para um tom adocicado quando mencionou o nome da criatura rosada.

– Eu acho uma ideia espetacular! – ela sorriu para Kakashi, e depois olhou para mim animada.

– Coletiva? – Hidan perguntou, já que provavelmente seu cérebro lento ainda não havia digerido toda a conversa anterior e por isso não entendeu o que Kakashi estava fazendo agora. Sem contar que ele deveria estar ocupado demais admirando o que não deveria.

– Sim – Sakura respondeu – eu, Kakashi e Kabuto vamos reunir alguns de nossos pacientes e fazer aqui no jardim uma consulta coletiva, para que vocês se conheçam. Que acham?

– Estou ansiosa – fora a vez de Tsuna se pronunciar sobre o assunto. Sua voz ficara ainda mais melódica quando dissera isso e então notei que ela me olhava com um sorriso deveras provocativo.

Talvez seja loucura minha. Coisa da minha mente estranhamente conturbada. Ou talvez não, já que Hidan também percebeu o mesmo e pronunciou-se logo em seguida sobre o assunto, falando um pouco alto demais.

– Então eu também vou vir – eu encarava seus olhos estupidamente azuis e me perguntava em que ele realmente estaria pensando agora.

Sinceramente? Eu não estava nem um pouco afim de participar de uma consulta coletiva. Eu teria de aguentar olhares femininos, masculinos e provavelmente olhares de Kabuto como se dissesse “Porque com ela você fala, seu desgraçado? ”. Sem contar que, sim, eu ficara curioso pra saber seus motivos, mas não gostaria de ouvir as pessoas falarem sobre como elas se sentiam com seus problemas. E eu também não queria falar.

– Quinta feira? Está bom para todos? – Kakashi perguntou, e logo os dois assentiram.

Meus olhos passaram por todas as pessoas que ali conversavam, parando em Sakura, que levou uma das mãos – antes nos bolsos do jaleco branco – até os lábios e encarava o chão, estranhamente pensativa.

– Kakashi, sinto dizer que quinta feira não vai dar – ela o olhou, a expressão chateada demais por ter de dizer não – Sasuke e eu teremos compromisso.

Compromisso?! Perguntei em pensamento, tentando me lembrar qual era esse compromisso. Logo, a voz da rosada ecoou em minha cabeça:

“Se você não gostar, eu paro de insistir no assunto”.

Os desejos. Merda.

Levei uma das mãos até a cabeça e lembrei-me de ter dito a palavra “Gratificante” quando ela me perguntou como fora a experiência de voo astronauta. Agora eu terei de pensar em outra coisa pra realizar, mas não estava realmente insatisfeito com isso. Quando voltei minha atenção para Kakashi e vi sua expressão de decepção por receber um “não”, um sorriso de canto brotou em minha face.

Não que eu esteja com ciúmes ou coisa do tipo, só é legal presenciar a cena e eu acabei por ficar loucamente tentado a provocar essa reação em meu amigo de longa data, mas apenas falei o que era necessário para me livrar de tal consulta.

– É verdade Kakashi, Sakura e eu teremos uma consulta especial na quinta feira – eu disse, tentando forçar uma expressão triste, apesar de eu ser um péssimo ator – será uma pena não podermos comparecer!

Todos eles me encararam, unindo as sobrancelhas. Era como se eles tivessem descoberto meu joguinho, mas eu pouco me importei com isso. Sakura parecia levemente irritada com meu atrevimento, mas logo um sorriso inundou sua face extremamente pálida.

– Quinta nós não podemos, mas vocês não se importariam em fazer isso na sexta, né? – assim que eu ela perguntou, sorrisos apareceram nas faces de Kakashi e Tsuna, e isso acabou por desfazer meu sorriso de canto no exato momento em que ela direcionou a mim uma olhadela engraçada – tenho certeza de que Sasuke está tão ansioso quanto eu.

Maldita.

– Eu não vejo problema algum – Kakashi respondeu, e logo Tsuna e Hidan apenas assentiram, o que fez o mesmo desviar seu olhar até eles – acho que já está na hora de vocês voltarem para o quarto, certo?

– Haha, é verdade – Hidan sorriu sem graça, seguido de Tsuna.

– Bom, nos vemos sexta feira que vem então! – ela disse animada – Tchau Sasuke! Vamos Hidan – ela o pegou pela mão e praticamente o arrastou de volta para um dos prédios.

Acabou por restar apenas eu, Kakashi e Sakura.

– Isso serve pra você também, Sasuke – ele disse, e eu o encarei, unindo as sobrancelhas. Conhecendo Kakashi como eu conhecia, ele estava fazendo isso apenas para ter uma chance a sós com Sakura – não é porque você é meu amigo que eu vou te dar vantagem aqui.

Suspirei. Esse dia não foi lá muito útil.

Não pratiquei meu exercício e, consegui uma ‘consulta coletiva’ na sexta feira que vem, pós realização de outro desejo e, de quebra, paguei outro mico com direito à arranhões no braço que com certeza arderiam quando eu fosse tomar banho.

– Tudo bem, vou embora – eu disse, dando meia volta. Não estava com vontade de continuar ali de vela ou discutindo sobre assuntos realmente inúteis para mim.

Infelizmente, a criatura extremamente irritante e rosada acabara por segurar minha mão.

– Kakashi, se importa se eu acompanhá-lo? – ela perguntou, suas bochechas ruborizadas pela vergonha de dar outro fora em meu amigo quando ele claramente queria investir um pouco mais – é que, nós precisamos conversar – e então soltou uma curta risada sem graça.

– Certo – ele suspirou e foi andando para trás sem realmente virar-se, acenando para nós com uma das mãos – nos vemos amanhã Sakura, e nos vemos sexta feira Sasuke.

Ambos apenas observamos quando ele deu meia-volta e continuou seu trajeto, até que desaparecesse totalmente de nossa vista.

– E então, o que foi? – Perguntei, realmente curioso.

– Antes de dizer – ela me rodeou, dando leves batidinhas em minhas costas e isso acabara por me fazer corar e prender a respiração.

– O- o que está fazendo? – Me afastei e virei, ficando de frente para a mesma.

– Sua camisa estava com grama e manchada de terra sabe? Da queda – ela me olhou confusa, e eu acabei por soltar o ar que estava prendendo, ficando aliviado.

– Bem, o que foi? – Perguntei novamente.

– Certo, você precisa me dizer qual é seu próximo desejo. Será melhor se me dizer agora, para que eu tenha uma boa ideia até quinta feira que vem – ela sorriu para mim, agora esfregando as mãos uma na outra para tirar a grama que ficara grudada.

O desejo. Verdade.

Minha mente viajou no primeiro ‘desejo’ que eu realizara, e acabei por pensar que – apesar de ter decolado de mentirinha e gostado disso – eu ainda assim sofri na mão dela. Dessa vez, eu prefiro não subestimá-la. Prefiro deixar que ela me subestimasse, desejando algo que eu já tinha feito uma vez, e que eu ainda seja muito bom na coisa.

– Sasuke? – ela chamou minha atenção, e logo um sorriso de canto surgiu em meu rosto – seu desejo?

– Alpinismo.

Notas finais
E então, vocês esperavam que o segundo desejo seria esse? Espero que tenham gostado do capítulo c: Comentários? c: