O Lado Bom da Vida
12 Superação
Notas iniciais
Porque nada é melhor que superar as próprias limitações
Há muito eu não ficava ansioso.
Dentro do carro, observando a paisagem aos poucos passar para trás, eu poderia dizer que já estávamos nos aproximando do nosso destino. Ao invés de casas, prédios ou qualquer coisa que caracterizasse uma cidade, agora eu podia ver apenas poucas indústrias por entre as árvores, além de diversas montanhas. Entretanto, o caminho estava diferente do que eu realmente me lembrava, mas é normal. As coisas mudam com o tempo.
Lembro-me do último diálogo que eu tivera com Sakura, em nossa última consulta na terça feira.
“Sasuke, é mais difícil praticar Alpinismo do que fazer de você um astronauta! Não conheço nenhuma empresa, grupo ou lugar realmente bom e confiável”.
Olhando ainda pela janela, um sorriso mínimo surgiu em minha face, já que eu acabei lhe recomendando o lugar, alegando que Naruto já havia me falado e até mesmo me convidado para o mesmo.
Claro que isso é uma mentira minha, e a situação fora contrária. Eu que convidei Naruto, mas a coisa rosa não precisava saber disso, certo?
Agora, voltando minha atenção a ela, que dirigia atentamente, sorri ao ver sua seriedade enquanto o fazia. Ela usava uma legging preta, tênis esportivo e uma camiseta exageradamente grande da mesma cor.
Imagino se ela tem pelo menos uma base do assunto. Se ela sabe sobre os equipamentos, segurança e técnicas de subida durante uma escalada.
Mas esse não era o motivo de minha ansiedade.
– Sasuke? – sua voz tirou-me de meus pensamentos.
Eu apenas continuei a encará-la, que deu um sorriso sem graça antes de dizer:
– Bem, aquela montanha que escolhemos juntos não estava disponível para escalada então... Bem... Eu tive que escolher uma um pouco mais cara, mas o instrutor disse que valia realmente a pena! Espero que não se incomode – ela disse, e o tom de sua voz realmente demonstrava uma sinceridade incrível.
Balancei a cabeça em sinal negativo, dando um sorriso de canto.
– Tudo bem, não há problema – e então ela sorriu pela minha compreensão – mas onde é essa nova montanha?
– Surprise, baby!
Bufei pela resposta, e então voltei a olhar pela janela cruzando os braços.
Estávamos há 100 km/h, mas parecia que estávamos a 20. Eu não sentia o carro mover-se, e a calmaria era tão, mas tão grande, que – se não fosse por minha ansiedade – eu poderia recostar minha cabeça ali mesmo no banco ou no vidro do carro e dormiria como uma criança. Eu pensava nessa possibilidade, até que Sakura apontou em minha direção um Trident de sabor menta, e eu a olhei confuso.
– Não, obrigado.
– É bom você pegar. A Pressão vai cair e chiclete ajuda – ela disse, dirigindo com apenas uma mão, ainda com o chiclete apontado em minha direção.
Não estava com vontade de contestar, nem de morrer, por isso peguei o chiclete tirando o papel que o envolve e jogando-o num saco de lixo próprio para carro. Coloquei o mesmo na boca e masquei, sentindo o gosto da menta invadir minha boca. Logo, eu a vi apontar novamente mais um chiclete e, por isso, a expressão de confusão voltou à minha face.
– Pode tirar esse papel em volta, por favor? – ela disse e, mesmo mantendo os olhos na estrada, sorria simpática.
Sem dizer nada, peguei o chiclete da mão dela e repeti todo o processo, entregando-lhe o mesmo na mão. Ela sorriu agradecida e o colocou na boca.
O silêncio voltou a reinar no carro e então eu já poderia ver pouco ao longe uma grande montanha por onde os carros podiam subir, contornando-a.
Uma serra?
– Mar? – eu a olhei para confirmar minha suspeita e ela apenas assentiu com a cabeça.
Minutos depois, passamos a subir a serra e a cada túnel que passávamos – pela queda de pressão – meus ouvidos começaram a tapar. Observava pela janela aqueles pontos laranja brilhante que iluminavam pouquíssimo daquele túnel escuro. Foquei-me em mastigar aquele Trident, já que ela disse que ajudaria, e isso realmente aconteceu. A cada mastigada, meu ouvido voltava ao normal e aquele barulho maldito de mosquito ia embora aos poucos, apesar de voltarem devido à altura aumentar sempre.
Suspirei aliviado quando começamos a descer a serra e continuei mastigando aquele chiclete loucamente, sentindo o gosto da menta diminuir gradativamente, até que chegássemos ao nível do mar.
Por ser plena quinta feira – e a maioria das pessoas estarem trabalhando – a estrada estava vazia. Quanto mais nos aproximávamos, mais eu poderia sentir o tempo mudando. Não estava frio, mas agora – por causa da proximidade do mar – o vento tornara-se mais refrescante e anestesiante.
Agora que já havíamos descido a serra, a ansiedade em meu corpo aumentara. Eu sentia um estranho frio na barriga e esfreguei as mãos uma na outra as sentindo suar frio.
Observava os coqueiros movimentando-se para trás, e nós ainda não tínhamos visão alguma do mar. Abaixei um pouco mais o vidro e senti o vento gelado adentrar por minhas narinas e um arrepio percorreu por todo o meu corpo. Logo seriam duas horas da tarde e – graças a Deus – e sol estava moderado. Mas eu já estava ficando impaciente.
– Já estamos chegando? – perguntei, colocando as mãos no bolso da calça esportiva preta que eu trajava.
– Na verdade, sim – ela disse e logo adentramos numa estrada de terra.
– que lugar é esse? – perguntei, olhando em volta com curiosidade.
A estrada era estreita e sinistra, coberta por árvores de folhas verdes extremamente escuras. Olhei atentamente para o chão e logo aquele cheiro maravilhoso e relaxante de terra molhada tomou conta de todo o veículo e eu pude me permitir fechar os olhos para apreciar o momento. Há tempos eu não ia à praia, nem escalava, nem aproveitava a natureza devidamente, e isso era, no mínimo, gratificante. Respirei fundo daquele ar novo, limpo. Era como se eu estivesse me renovando por dentro, descansando, relaxando todos os meus músculos que se preparavam para um alongamento intensivo antes de começar a escalada.
Pude ver a estrada tornar-se mais larga á medida que nós seguíamos a frente, e logo aquele cheiro foi esvaindo-se e os raios de sol adentravam no veículo pela falta de vegetação em nossa volta. A placa de madeira escura onde estava pintada em branco a palavra Alpinin – nome nada original da empresa, devo dizer – e havia apenas dois carros ali estacionados, provavelmente dos guias e instrutores. Seríamos os únicos a escalar.
Quando ela estacionou seu Eco Sport ao lado, toda a ansiedade retornou ao meu corpo como um espírito invocado. Ambos retiramos os cintos de segurança, e ela olhou para mim com um sorriso extremamente grande, gigante.
– Estou ansiosa – ela disse, esfregando as mãos uma na outra – é a primeira vez que farei algo assim. Espero não descobrir que tenho medo de altura – seu sorriso desfez-se, dando lugar a uma face curiosa.
Sorri de canto, negando com cabeça e abrindo a porta para sair do carro, logo depois de minha psicóloga maluca e rosada.
Olhei para frente, prestando atenção na casa inteiramente amadeirada que se encontrava totalmente aberta. Eu e ela nos olhamos, antes de adentrarmos o local exageradamente empoeirado, mas arrumado. A sala vazia com diversas poltronas vermelhas e escuras, uma escada de madeira clara e um balcão da mesma madeira, vazio. Nele, localizava-se o computador e apenas um banquinho provavelmente para recepção, além de um sino prateado e, ao lado do balcão, uma porta que dava pra não sei onde.
Sakura olhou para mim, dando de ombros e andando até o sino, balançando-o frequentemente e esperando que alguém viesse nos atender. E fora o que aconteceu.
Descendo as escadas quase que cordialmente, duas figuras apareceram para nos cumprimentar. Um ruivo tatuado e um loiro cabeludo com cara de hippie surfista.
– Ah, vocês devem ser os clientes das duas e meia – o loiro disse e abriu um sorriso simpático até demais, cumprimentando Sakura e eu com um aperto de mão, sendo seguido pelo ruivo, este mais reservado – me chamo Deidara, e este é o Gaara. Você deve ser a Sakura, certo?
– Sim, e esse é a causa de nossa visita! Sasuke – ela sorriu, colocando uma das mãos sobre meu ombro e eu acabei por unir as sobrancelhas.
– Bom, Gaara dá as explicações sobre o esporte, fornece os equipamentos e fala sobre os estilos de escalada. Ele meio que dá uma aula teórica – Deidara sorriu, colocando ambas as mãos sobre o peito antes de completar – eu ajudarei vocês com a prática.
Estes não eram os instrutores com quem eu costumava me consultar. Quem me guiava era na verdade um casal deveras simpático. Shikamaru e Temari sempre me ajudaram muito e acabamos por nos tornar colegas, já que eu praticava o esporte com certa frequência antigamente. Enfim.
– Vocês já praticaram esse esporte alguma vez? – Gaara perguntou nos encarando. Sua voz extremamente grave fizera com que Sakura corasse e eu a encarasse, arqueando uma das sobrancelhas.
– Não. Nenhum de nós – eu respondi, logicamente mentindo.
– Certo, então venham comigo – ele disse, indo pela porta ao lado do balcão.
Eu e Sakura o seguimos, e demos de cara com uma sala cheia de todos os equipamentos possíveis de esportes diversos. Pelo jeito eles não eram instrutores apenas de escalada, já que eu também vi ali equipamentos de pesca, surf, para quedas e outras coisas mais.
Olhei para a criatura rosada ao meu lado e pude sorrir internamente ao observar seu rosto fascinado por tudo àquilo que ela estava vendo. Ela tinha um real fascínio por coisas novas, pelo visto.
– Certo. Pra vocês, que nunca fizeram isso, eu vou ter que explicar desde o começo – ele suspirou e passou as mãos pelos cabelos ruivos antes de continuar – antes de falar sobre os equipamentos, eu gostaria de falar sobre os tipos de escalada.
Eu já sabia de tudo aquilo. Já sabia o que ele ia falar. Sei pra que servem os equipamentos e também sei quais os modos de escalada. Eu já havia aprendido tudo isso, mas apenas assenti com a cabeça junto à Sakura... Teria que aprender tudo novamente.
– Existem vários tipos: Escalada esportiva, indoor, em rocha, big wall e alpina. Há várias diferenças entre todas elas, cujas eu adoraria explicar, mas eu acho que seria uma perda de tempo para ambos os três eu dizer sobre todas as modalidades sendo que iremos praticar apenas uma – sua voz ficara ainda mais grave enquanto falava, além de ele fazer diversos gestos com as mãos. O barulho de um tiro ao alvo ecoou em minha mente como se uma vozinha me dissesse “Bang, um ponto para o ruivo”.
– E qual nós iremos praticar? – A coisa rosa perguntou, tirando-me de meus pensamentos idiotas.
– A esportiva – ele respondeu sem emoção – esse é, sem dúvida, o mais fácil e menos agressivo tipo de escalada, mas ainda assim inclui seus desafios – após isso, um mínimo sorriso surgiu em sua face exageradamente pálida.
– Explique – eu pedi, tentando parecer realmente interessado no assunto. Tentando me lembrar como eu agi quando escalei pela primeira vez.
– A escalada esportiva é normalmente praticada em falésias, ou montanhas de porte pequeno – ele explicou, abrindo uma mochila e tirando de lá dois cartazes. Um mostrando uma falésia demasiada exótica, e outra mostrando uma pequena montanha com pouca inclinação – geralmente ambas variam de 20 a 60 metros. A que vamos escalar tem 53, em seu total. Pelo menos é o que Deidara tem alegado.
– cinquenta e três metros? – ela perguntou levemente chocada – wow, será que eu consigo? – ela cruzou os braços, levando uma das mãos ao rosto, tocando o dedo indicador no lábio inferior parecendo realmente apreensiva.
Olhei para aquela face, e tive vontade de ao menos tocar-lhe o ombro para confortá-la. Dizer que, se não conseguisse, também era possível chegar ao topo fazendo uma trilha, mas isso era expor demais meus conhecimentos sobre o assunto, por isso decidi que o melhor a fazer era ficar em silêncio completo.
Isso até eu ver o ruivo fazer o que eu queria. Tocar-lhe o ombro para confortá-la e dizer todas as palavras que eu havia acabado de pensar.
– Se você não conseguir, Deidara acompanhará Sasuke na escalada e nós dois iremos até o topo pela trilha – e logo ela o olhou corada e sorrindo sem graça.
Maldito.
– Certo!
– Continuando... – eu disse, cruzando os braços. Ele uniu as sobrancelhas e me olhou curioso, antes de dar um sorriso de canto e virar-se procurando outra coisa dentro da mochila. Esse cara lê pensamentos?!
– Essa é uma foto da falésia que iremos escalar – ele entregou para Sakura, e então eu me aproximei olhando por cima do ombro da mesma. Era grande, mas não tão grande. Sem contar que dava uma vista realmente esplêndida do oceano – ela não é tão brusca e nem difícil de escalar, mas seu o caminho é mais cansativo por ela ser extremamente reta. Algumas montanhas são mais inclinadas, mas não é o caso dessa falésia.
Não é o caso da maioria das falésias, pra falar a verdade.
– Entenderam? – Eu e Sakura assentimos com a cabeça, para ele então continuar – certo, agora vamos aos equipamentos!
Finalmente, a tortura das explicações estão acabando. Sorri internamente ao pensar que o momento da escalada já estava chegando.
– São muitos? – Ela perguntou, curiosa e voltando a olhar todo o local.
– Bom, para esse tipo de escalada nós precisamos da corda – óbvio – a cadeirinha, capacete, sapatilhas próprias para a escalada, carbonato de magnésio e ascensores.
– Realmente são muitos – após dizer isso, pude ouvir sua risada contagiante, e isso fez com que eu e o ruivo sorríssemos.
– Na verdade, pros outros tipos de escalada são necessários até mais equipamentos – ele disse, pegando todos os que eu ele havia citado há pouco e colocando-os a nossa frente – peguem as sapatilhas de escalada do número de vocês, e vamos até o ponto de início da falésia. Explicar sobre os equipamentos lá será mais produtivo. Deidara já deve estar por lá preparando tudo.
Assentimos novamente e pegamos cada um nossos respectivos pares de sapatilhas, seguindo Gaara, que carregava uma grande caixa contendo todo o resto de equipamentos que ele havia falado.
Saímos pela varanda a casa e seguimos por um caminho estranhamente escuro. Andamos assim por uns 7 minutos, até eu começar a ouvir o barulho da água batendo nas rochas da falésia. Respirei fundo, e aquele vento salgado adentrou por minhas narinas e eu senti uma estranha sensação. Eu não me lembro de quando foi realmente a ultima vez que eu estivera na praia, e não me lembrava de nem mesmo da sensação de estar na água salgada. Tsc.
Assim fica difícil. Muito difícil.
Chegamos ao início, e eu senti um estranho desconforto ao pisar na areia branca. Era como se o chão pudesse cair a qualquer momento e então meus joelhos tremeram.
Gaara jogou a caixa na areia com brutalidade, e eu pude avistar Deidara subindo em todas as cordas para testá-las. Ele carregava uma mochila estranhamente quadrada, mas isso não prendeu muito minha atenção.
– Certo. Obviamente as cordas que Deidara está testando estão presas ao topo, para que usem-na de apoio no início – ele disse, apontando para o loiro hippie, que virou-se para nós e direcionou-nos um sorriso idiota – essas aqui são as cadeirinhas – ele puxou a mesma de dentro da caixa.
Eu e Sakura observamos atentamente ele nos mostrar aquilo que parecia um cinto de segurança que fica ao redor da cintura e das pernas, totalmente ligados por um suporte ajustável.
– Elas serão presas à cintura de vocês. Esta corda azul aqui – ele disse, mostrando- fica presa na cadeirinha e liga vocês à corda própria de escalada, junto com os ascensores. Isso impedirá uma queda. Elas são ajustáveis ao corpo, modelando-o e deixando os movimentos mais seguros.
Pude ouvir um “Oh”, ao meu lado. Uma Sakura surpresa, eu suponho.
– O capacete também para proteger a cabeça – óbvio de novo – e as sapatilhas próprias para escalada que impedem algum escorregão e dão um conforto consideravelmente maior do que qualquer tênis esportivo – ele disse, olhando para os meus pés e os de Sakura, a mesma corada e sem graça – por último temos o carbonato de magnésio, que impede o suor nas mãos, ou seja, diminui gradativamente a chance de escorregar e do nervosismo acabar com a graça do esporte.
Ela apenas assentiu, e então Deidara voltou correndo.
Andamos até as cordas e então o loiro foi colocando cada equipamento, nos ensinando o passo a passo para fazermos igual a ele. Claro que, de vez em quando, eles davam uma assistência maior à Sakura, que parecia não tão à vontade sobre isso quanto eu. Começamos colocando o capacete, depois a cadeirinha e ascensores ligados á corda, depois as sapatilhas e por último passamos o carbonato de magnésio nas mãos. Ele era como um pó branco. Parecia giz de lousa.
– Eu vou pegar os tênis de vocês – disse Gaara, pegando também a mochila quadrada de Deidara – e estarei esperando-os no topo da falésia certo? Aqui temos bastante água mineral e algumas frutas que saciam sede e fome.
– Okay! Obrigada – e então Sakura sorriu, fazendo um “joia” com as mãos. Ele apenas virou-se e foi em direção à trilha.
Logo, Deidara deu uns passos ficando de frente para nós e nos ajudando a fazer um alongamento.
Pés, pernas, cintura, mãos, braços, ombros e pescoço. Todos os músculos devidamente alongados para que a atividade seja feita com maior facilidade e que a dor depois da mesma seja mínima. Não é como se eu não soubesse como eu iria ficar, apesar de fazer um bom tempo que eu não pratico esse esporte. Provavelmente ficarei pouco mais cansado do que da primeira vez, mas aguento o tranco. Minha preocupação era na verdade, com Sakura. Ela nunca havia praticado o esporte antes, e não sabia se tinha medo de altura ou se ela simplesmente mete os pés e as mãos em lugares inadequados.
Tsc.
– Olha, como vocês nunca nem fizeram isso, no início vai ser desconfortável. Vocês ainda não confiam nos equipamentos e nem em vocês mesmos ou na força que têm, por isso preciso que façam um exercício de autoconfiança antes de começar, certo? Para perceberem que tudo isso é seguro, e que cair não é tão ruim – ele disse e sorriu, começando sua escalada para demonstrar o exercício.
Ele subia perfeitamente, encaixando os pés nos lugares exatos, sempre flexionando os joelhos para uma precisão maior dos movimentos. Olhei para Sakura que observava atentamente cada passo do instrutor loiro hippie e eu podia ver que ela mexia os pés às vezes, como se perguntasse a si mesma se conseguiria fazer isso tudo.
Chegando mais ou menos na altura de cinco metros do chão, ele simplesmente pulou e, como o esperado ele – infelizmente – não se quebrou ao contato com o chão. Ele apenas ficou lá, pendurado e balançando.
– Estão vendo? Os equipamentos são confiáveis, por isso quero que façam o mesmo que eu agora – ele disse lá em cima, sorrindo e descendo. Chegando mais ou menos na altura de dois metros do chão, ele soltou a corda azul da corda principal e pulou dali mesmo, caindo no chão perfeitamente, agachado e com os joelhos flexionados.
Pude ouvir outro “Oh” de Sakura, que depois sorriu graciosamente ao loiro. Olhei para o lado bufando, totalmente impaciente.
– Podemos começar? – Perguntei, e ele me olhou alegre, provavelmente pensando sobre minha animação com o exercício.
– Claro! Você e a senhorita podem fazer isso quantas vezes desejarem, até sentirem-se devidamente confortáveis e confiantes – ele sorriu para ambos.
Dada a largada e todos os equipamentos ligados devidamente, eu e Sakura nos posicionamos perto ao início da falésia. Ela, insegura com os movimentos, ficou um tempo lá, passando as mãos pelo rochedo, segurando, apertando. Deidara estava logo a seu lado, aconselhando e encorajando-a a começar. Dizendo que tudo ficaria bem, e que não era preciso se preocupar.
Ambos respiramos fundo, e então eu comecei. Segurei em ambas as rochas pouco acima e encaixei os pés em partes pouco retas, onde eu poderia apoiar meu corpo. Sentindo a segurança que o rochedo me proporcionava, fechei os olhos e respirei fundo, sentindo um vento devidamente gelado bater em meu corpo e um arrepio percorrer-me a espinha.
Subi mais um pouco em ritmo lento, observando tudo que havia acima e aos lados. Todos os rochedos, partes retas, pedras devidamente presas e soltar. Eu checava a minha segurança, e continue subindo e subindo, ouvindo um grito vindo de Sakura, lá em baixo.
– Você é bom nisso, Sasuke! Estou com inveja – sorri ao ouvir a risada dela, e perceber que ela também havia começado seu trajeto, até que Deidara gritou.
– Ei, não vai pular para testar o equipamento? – ele disse, e eu pude distinguir a tom de confusão que tomava sua voz.
– Não – eu gritei, pouco me importando com equipamento ou qualquer coisa do tipo. Eu sabia que era seguro, e já estava a uns 7 metros do chão. Não queria parar tudo para pular, voltar e começar de novo – Eu não preciso disso.
Ouvi o pulo de Sakura, e tive de olhar para baixo para checar como ela estava. Ela ria, como uma criança que havia descoberto que podia voar, esticando os braços e pernas como em posição de voo, balançando. Ela é doida.
Logo, Deidara a pegou pela cintura para ajudá-la a descer e começar seu trajeto novamente. Balancei a cabeça em sinal negativo e voltei minha atenção ao meu trajeto, respirando fundo e mexendo os ombros em movimentos circulares, sentindo um alívio em minha tensão.
A última vez que eu escalei devidamente, eu estava na presença de meu pai. A montanha tinha certa de 120 metros e era levemente inclinada, ou seja, mais fácil de escalar. Pra falar a verdade, nunca escalei uma falésia, nem nada que seja extremamente reto, mas tudo bem. Eu estou indo bem.
Subi um pouco mais, sempre prestando atenção onde eu segurava e onde eu pisava para poder seguir em frente. Quando já estava uns 21 metros acima do chão, me permiti olhar para baixo e ver onde Sakura estava, mas dei de cara com a água batendo nos rochedos pouco mais ao meu lado. Um frio incômodo apareceu em meu estômago e logo eu olhei para o outro lado, procurando Sakura que já estava a mais ou menos uns 6 metros abaixo de mim, com Deidara logo embaixo lhe dando devida assistência. Vendo que tudo estava bem, pude prosseguir.
A brisa era refrescante e salgada. O céu estava ficando parcialmente nublado e as nuvens davam brecha para apenas alguns raios solares, que serviam para esquentar meu corpo e cobri-lo com uma fina camada de suor, derivado também de meu esforço para subir sempre. Erguer-me e reerguer-me sempre, aumentar meu esforço, minha força. Minha vida.
Lágrimas inundaram meus olhos com meus pensamentos otimistas, e eu tive de soltar um dos rochedos para enxugar os olhos, voltando a meu trajeto rapidamente. Subindo. Subindo.
Vencendo.
E logo eu podia vê-lo. O topo.
Suspirei. A garganta seca, o suor escorrendo, o corpo exausto. Eu estava quase lá, e não iria desistir agora.
Segurando a corda principal, apoiei ambos os pés no rochedo e alcancei os exatos 53 metros. Soltei a corda azul da principal e joguei-me ao chão reto, gelado. Deitei-me ali, e fiquei olhando para o céu enquanto passava as mãos pela testa e queixo, limpando o suor ali impregnado. Usei os pulsos para tapar os olhos de um pequeno raio solar e logo eu deixei de apenas sorrir de canto para sorrir. Um sorriso aberto, mostrando todos os dentes.
– Ora, é um belo sorriso – ela disse e logo levantei pouco o braço, dando de cara com uma Sakura suada, jogando-se a mais ou menos um metro ao meu lado, repetindo todo o processo que eu havia feito.
Logo ouvimos palmas de ambos os instrutores, estes em pé e apoiados em árvores, jogando na cara de ambos uma toalhinha para podermos secar-nos com precisão, e não apenas piorar a situação.
– Obrigado – eu disse, sentando-me na pedra e secando o rosto, sendo seguido por Sakura. Ambos ainda muito cansados. Ofegantes.
– Isso é ótimo! Deveria ter pedido isso antes – ela disse para mim, sua voz falhada pela falta de ar nos pulmões.
Eu concordei com ela, mas sem dizer nada. Isso não foi apenas um exercício para mim. Representava muita coisa, tanto fisicamente quando sentimentalmente.
Fechei os olhos e pude ver o rosto de meu pai, minha mãe, e então suspirei.
– Sabe – eu disse, e puxei a atenção dela para mim – eu e meu pai costumávamos praticar alpinismo.
Aquele olhar esmeralda me encarou confusa, mas direcionou a mim aquele sorriso deveras simpático e branco.
– E porque pararam?
– Eu e meus pais não nos falamos mais – eu disse, e ela uniu as sobrancelhas, associando tudo que eu falava – depois que meu irmão morreu, eles deixaram de falar comigo. Provavelmente eles nem devem saber que eu já fui casado e que tiveram uma neta.
– Porque? – ela perguntou, andando de joelhos para se aproximar de mim e sempre sorrindo, compreensiva. Me dando forçar e me encorajando a falar.
– Porque ele morreu por minha culpa – eu a encarei, e seus olhos arregalaram-se por segundos, mas depois ela colocou uma das mãos em meus ombros, me confortando – obrigado por não tentar me forçar a falar. Por não forçar a barra e nem relacionamentos. Você tem sido mais que uma médica para mim... Tem sido minha amiga.
Ela sorriu para mim. Um sorriso que eu nunca tinha visto antes. Brilhante, alegre, revelador.
– De nada.
E então, nós dois nos aproximamos do fim do rochedo, olhando para aquele mar azul. As ondas brancas pintando o mar de espuma e nos trazendo aquele vendo gostoso, nos refrescando.
Olhei para o céu agora já se abrindo mais e as nuvens se dispersando. Pensei em meus pais, em Itachi.
Pensei em Keiko e Asako e sorri.
A vida não é nada mais que uma escalada movida por sua força de vontade. Seu espírito forte o ajuda a continuar, ajuda a seguir em frente e hoje eu sei.
Obrigado Itachi, Keiko, Asako.
Agora sei que posso seguir adiante.
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