x
O terreno era íngreme e a terra estava úmida. Meus pés sangravam e estavam cheios de bolhas pois eu não havia parado desde a noite anterior. O sol estava a pino e queimando minha pele, que ficava cada vez mais vermelha e brilhante com o suor que escorria por todo meu corpo.
Eu seguia caminhando para o norte; faltava um dia inteiro de caminhada antes de virar para leste como Ilenna havia me dito para fazer. "Dois dias norte. Leste. Mar. Fílos" eu ficava repetindo para mim mesma e imaginando quem seria Fílos. Continuei caminhando, subindo e descendo colinas, escalando montes de pedras e passando por entre árvores e arbustos. A sede foi o que chegou antes, então, prometi que quando encontrasse uma fonte de água eu iria parar e descansar. Só teria que caminhar um pouco mais ao norte no dia seguinte para compensar o tempo de descanso.
Mal havia pensado naquilo quando ouvi o som de água corrente. Me desviei do caminho que levava ao norte e segui o som até encontrar entre arbustos um pequeno penhasco. Lá embaixo, um pequeno rio corria seguindo um fluxo tranquilo. Dei a volta e desci sem pensar duas vezes. Eu precisava de água gelada no corpo para aliviar a dor.
Deixei a bolsa e as vestes em uma pedra e mergulhei na água gelada. Me senti bem e feliz depois da noite que tivera. Mergulhei novamente e deixei a água levar para longe toda a dor. Quando saí, me vesti novamente e iniciei uma busca pelos objetos que haviam na bolsa. Ilenna certamente havia colocado algo para que eu pudesse depositar água.
A bolsa parecia não ter fundo; cada vez que minha mão saia trazia papéis amassados, uma cinta, uma bota — não encontrei o par, mas calcei-a de qualquer modo — e mais papéis. Decidi ver o conteúdo daquilo, afinal, Ilenna não me proibira de fazer aquilo. Virei a bolsa no chão de terra e devolvi apenas os livros para ela. Juntei os papéis em uma pilha e os objetos em outra. Encontrei uma garrafa de vidro, mas o bico havia quebrado na colisão com o chão. Juntei os cacos e realoquei na no bico para tentar consertar com magia, mas estava tão cansada que minha energia não foi suficiente. Bufei com raiva e deixei a garrafa de lado. Entre os objetos havia também um pequeno espelho, duas facas, o outro par da bota — que também calcei — e alguns poucos tecidos — que usei para amarrar nos ferimentos mais profundos -. Passando os olhos rapidamente pelos papéis, notei que a letra que os preenchia era a de Ilenna. Alguns pareciam conter feitiços, outros mensagens ocultas e outros pareciam desenhos de mapas.
Um em particular chamou minha atenção: parecia o mapa de uma enorme porção de terra com pequenas ilhas ao redor e um linha negra que dividia a terra de forma desigual. Vários pontos na parte com mais terra continham nomes de cidades que eu reconheci: era o lado dos humanos. No que seria a representação do oceano, muito à sul do continente, uma pequena porção de terra estava completamente pintada de negro. A Terra do Sempre Noite, local em que, segundo as histórias de Ilenna, estava exilado o deus Nault.
O mapa estava completamente riscado e parecia possuir legendas para alguns pontos. Tentei me localizar, mas nunca soube dizer onde a casa de Ilenna ficava e qual a distância representa na figura. Guardei-o com cuidado de volta na bolsa. Se Ilenna me havia entregue aquilo, era importante.
Os outros papéis eram confusos e alguns pareciam uma troca de cartas. Encontrei um que falava sobre "Mensagem póstuma" e li uma breve explicação da letra da própria Ilenna:
"A mensagem póstuma é um último aviso. A Legião de Zoí usa as mensagens como um alerta para os companheiros. Quando se está prestes a morrer, um bruxo — da luz ou escuridão — faz o feitiço do corvo, mas usa-se os gestos para atrair vento. A mensagem é gravada e enviada para o destinatário, mas pode ser interceptada por terceiros, que não podem alterá-la. A mensagem póstuma exige muita energia e usa qualquer coisa — terra, fogo, folhas — para formar a face do emissor, de forma que o receptor reconheça a identidade do outro."
Nunca ouvi falar da legião de Zoí, mas imaginei que teria relação com Fílos que Ilenna me havia mandado procurar.
Eu precisava dormir, mas não podia perder horas de caminhada e arriscar me perder na floresta. Lavei o rosto mais uma vez e enchi a garrafa de vidro — mesmo com bico quebrado — de água, usando um tecido para amarrá-la nas minhas vestes e não deixar cair nenhuma gota.
Juntei todos os papéis e objetos e joguei de volta na bolsa, que parecia pesar mais que antes quando a levantei do chão. Respirei fundo antes de voltar a caminhar; subir a colina era muito mais trabalhoso que descer e voltar ao ritmo de antes era doloroso depois de um pequeno descanso.
Enquanto caminhava ao norte e entrava cada vez mais no emaranhado de árvores, um vento frio começou a soprar. A terra estava ficando cada vez mais seca e escura e as árvores estavam aumentando de tamanho e volume. Estava de dia, mas eram tantas folhas escuras que parecia noite.
O vento soprava mais forte e frio, fazendo minha minha roupa, cabelos e até eu mesma serem empurrados para trás. Com dificuldade, eu forçava a caminhada contra o vento e mal enxergava o caminho já que tinha que proteger o rosto de galhos e poeira. Olhei para cima por um instante e vi pássaros voando na direção oposta a que eu ia. Eles pareciam estar fugindo de algo.
Um raio caiu perto de onde eu estava e por alguns segundos, iluminou toda a floresta. As sombras das árvores se fundiram no chão formando esquisitas formas, só para desaparecer em seguida. O som do trovão que se seguiu foi assustador e quase me deixou surda. Eu esperava uma forte chuva a qualquer momento.
Continuei caminhando, cada vez mais no escuro e com um vento que já machucava meu corpo castigado. As árvores faziam sons enquanto se retorciam, sofrendo com o vento assim como eu. Outro raio; dessa vez o trovão foi ainda mais forte. Eu já sabia que não venceria a tempestade, teria que procurar abrigo. Mas, a chuva que eu esperava nunca surgiu.
A terra sob meus pés começou a tremer e fez com que eu precisasse me segurar em uma árvore para não cair. Vários raios caiam, mesmo de olhos fechados eu os percebia pela luz forte, e os sons dos trovões já estavam abalando meus outros sentidos. Meu coração estava acelerado e eu sentia que aquilo não era algo comum.
Então tudo parou. O vento parou de soprar, não se via ou ouvia raios e trovões, as árvores estavam imóveis e o chão parara de tremer. O silêncio era tão profundo que pensei ter ficado surda com os trovões. O cheiro de queimado começou a invadir minhas narinas, mas eu não via sinal de fogo. Sabia que estava de dia, mas o céu estava carregado de nuvens pretas que parecia noite.
Meu corpo começou a formigar, primeiro de leve e somente nos pés, depois se espalhou pelo corpo. O incômodo com o formigamento era tanto que tive que sentar, ainda abraçada na árvore.
O silêncio foi gradualmente substituído por um leve crepitar de algo se rompendo. Meu coração estava cada vez mais acelerado e agora todo meu corpo tremia. Soltei a árvore e coloquei as mãos na terra. Aquela sensação era a mesma de quando eu soube que Ilenna estava prestes a morrer, só que muito mais intensa.
Antes de perder os sentidos e me deixar ser abraçada pela terra macia, pude sentir o forte vento voltar a soprar e as gotas de chuva gelada tocarem meu corpo. O muro havia caído.
Fale com o autor