Notas iniciais
Pessoal, por problemas pessoais não consegui postar o capítulo da semana passada. Peço desculpas e deixo o capítulo dessa semana! Abraço.

O cheiro de carne queimada me fez acordar. Meu corpo todo parecia arder, especialmente minhas mãos e pés. Fiz um esforço para me levantar, mas, percebi que seria impossível: estava amarrada.

Abri os olhos e a luz do fogo me cegou por alguns instantes até eu me acostumar com a claridade. Quando pude enxergar bem, vi que era noite de lua cheia e que eu estava em uma pequena clareira no meio da floresta. Pés e mãos amarrados, eu não podia mover sequer os dedos para usar de magia e me soltar, mas pude me sentar. Ouvi o som de passos próximos e descuidados, pisandos em galhos e chamando atenção. Do lado oposto ao fogo, um homem vestindo diversas peles surgiu. Tinha o rosto tapado e carregava pedaços de madeira para alimentar o fogo. Ele se aproximou do fogo e pude perceber que tinha pedaços de carne de coelho sendo preparados. Meu estômago roncou.

O homem percebeu que eu estava acordada, mas não deu atenção e se dirigiu ao fogo. Percebi que ele carregava uma bolsa – Minha bolsa -.

— Essas coisas são minhas! — falei, a voz rouca e aguda, mas ele fingiu não escutar. Temi por instantes que ele fosse algum enviado de Beobor para me capturar, mas pude perceber que ele não possuía magia alguma. Era provavelmente um caçador que perambulava pelos limites do muro.

“O muro caiu” lembrou-me a voz que me acompanhava. Olhei de novo para o fogo. Se o muro havia caído, significava que aquela floresta estava infestada de criaturas. Criaturas que até mesmo eu desconhecia.

— Apague o fogo! — falei. Dessa vez ouvi ele rir por baixo das peles – Estou falando sério! Apague o fogo! — me pus em alerta, observando as árvores e o céu. Estava perdida, com um estranho no meio de uma floresta e distante do ponto de chegada para o qual Ilenna havia me mandado.

O homem tirou a atenção do fogo e se aproximou de mim. Parou ao meu lado e apoiou as mãos nos joelhos, seu rosto tapado muito próximo do meu. Ele retirou os panos do rosto e pude vê-lo pela primeira vez; devia ter cerca de trinta anos. O rosto parecia cansado, mas tinha uma forma agradável ao olhar. Os olhos escuros pareciam inquietos, o nariz era longo e fino, mas completava a imagem com harmonia. Os lábios finos e secos se moveram rapidamente e uma voz grossa saiu:

— Quer morrer de frio? — ele perguntou com calma.

Voltei a mim mesma.

— Não vamos morrer de frio, mas podemos morrer se não apagar essa fogueira. – respondi tentando alcançar a mesma calma que ele.

— Ficou desacordada muito tempo, garota. Esse fogo foi o que te salvou de não morrer de frio. Longe dele está um gelo – ele respondeu, voltando-se para o fogo.

— Me solte – pedi sem conseguir esconder a irritação na voz. Ele ignorou o pedido.

— Me solte e devolva as minhas coisas. Eu preciso ir! – falei novamente tentando mover a mão esquerda para usar magia, sem sucesso.

— Precisa ir onde? — ele perguntou – uma jovem como você, com objetos estranhos e outras coisas mais desmaiada na floresta… Tem sorte que fui eu quem a encontrou e não outros -

— Você quer um agradecimento? — falei – por ter me deixado viva ou por não ter me violentado? Por ter feito o mínimo que se deve?

Ele não respondeu, apenas virou a carne.

— Eu preciso ir – falei de novo. “Me ajude” pedi em silêncio para a voz em minha cabeça. Nenhum dos dois me respondeu.

— Suas roupas – o homem disse finalmente – são muito boas para uma camponesa ou pobre. De onde você é? -

Foi a minha vez de ignorar. Eu ainda não havia desistido de tentar me soltar das cordas que prendiam minhas mãos, mas me machucava ainda mais no processo.

— Você vai ter que responder algumas perguntas se quiser jantar – ele disse com um sorriso malicioso para a carne no fogo.

Bufei com raiva. A qualquer minuto poderia surgir alguma criatura perigosa – se estivermos perto do muro – pensei.

— Onde estamos? — perguntei – Quanto caminhamos? -

— Caminhar? — ele perguntou – Você acha que iria carregar você? -

Só então notei que, entre a sombra das árvores, um cavalo negro descansava amarrado a um tronco caído.

— Por favor… Você não entende, eu preciso ir! Estamos correndo perigo aqui! — Falei ainda mais irritada.

Ele puxou a minha bolsa com uma das mãos e virou todo o conteúdo dela no chão.

— Essas coisas… Não são comuns. Você me toma por idiota? — Olhei novamente para as coisas no chão buscando algo que me ajudasse a desamarrar as cordas. — Ou você é nobre ou ladra. Quem sabe ambos? — ele disse – o que importa é que em ambos os casos, alguma recompensa deve ser oferecida pela sua volta. Agora, de onde você é? — ele recolheu as coisas e jogou-as de volta na bolsa sem o menor cuidado.

Quando ele viu que eu não ia responder, se aproximou novamente do meu rosto.

— Pela sua pele clara, eu diria que de alguma região montanhosa. Lothera talvez? Ou quem sabe Molai que é mais perto… E o que diabos você fazia nessa floresta? Todos sabem que não são completamente exploradas… Uma região perigosa... -

— O que você quer? — perguntei interrompendo a fala dele – Ouro? Terras? Não vai conseguir nada disso nessas cidades. Mas… Se me ajudar, eu posso te dar o que você quiser. O que é? -

Ele sorriu, mas não respondeu. Voltou-se para a carne no fogo e tirou uma longa e afiada faca do meio das peles que usava para cortar o coelho, mas não me ofereceu nada. Meu estômago roncou novamente.

— Que tipo de perigo? — ele falou de repente com a boca cheia de carne e sangue escorrendo pelo queixo. — Você falou que estamos correndo perigo por causa do fogo. Que tipo de perigo? -

Fechei os olhos e procurei me concentrar. Eu senti a morte do muro. Era uma magia muito forte para eu não sentir. Meu coração palpitava e, mesmo sem a voz falar nada, eu sabia que estava ali. A noite aflorava meus sentidos, e a lua cheia ainda mais. Minha cabeça estava confusa com tudo aquilo. Havia magia na floresta, e não era só a minha.

Abri os olhos e vi que tanto o homem como seu cavalo – agora acordado – me encaravam.

— Perigo. — respondi – Você só vai acreditar vendo. -

Ele não se importou com a resposta e continuou comendo. Eu já havia desistido de soltar as cordas sozinha. Precisaria esperar ele dormir ou se distrair para tentar me aproximar do fogo e queimar as cordas ou… Olhei novamente para o cavalo que ainda me encarava.

— Para onde você vai me levar? — perguntei mais calma enquanto fazia planos em meus pensamentos.

Ele levantou e se aproximou novamente, mas não disse nada. Conferiu as cordas que me prendiam e começou a se preparar para dormir.

— Você pode me ajudar – falei – se for comigo… -

— Silêncio – ele falou de repente e me calei. Virando de costas para mim, ele deitou no chão com minha bolsa ao lado e fechou os olhos.

Após alguns minutos, o único som que restou foi o crepitar do fogo baixando. Com cuidado e fazendo o mínimo de barulho, me arrastei como uma minhoca na terra para perto da fogueira. Me virei de costas para as pequenas chamas que restavam e senti o calor lamber minhas mãos. Aguentei a ardência e a dor calada até as cordas afrouxarem. Rapidamente, me afastei do fogo e afundei as costas na terra para apagar o chamuscado da roupa. Puxei as mãos novamente e dessa vez elas se soltaram com facilidade, mas a pele queimada dificultou o processo.

Me assustei quando o homem começou a roncar e com mais cuidado ainda, soltei as cordas dos pés. A bolsa estava com ele, assim como a faca. Minha mão esquerda tremia de dor quando fechei os dedos em forma de “U” para trazer a bolsa até mim com magia, e foi com muita dificuldade que ela saiu, o que me fez desistir de levar a faca também. Eu estava demasiado enfraquecida.

Caminhei com dificuldade até o cavalo negro e soltei-o com cuidado. Ele estava assustado com minha presença e foi então que tudo aconteceu.

O homem levantou rapidamente com relinchado do cavalo e, já em alerta, percebeu o que estava acontecendo e correu até mim. Assustada, esqueci completamente dos ferimentos em minhas mãos e saltei no cavalo sem perceber que a bolsa havia caído no chão. Pus o cavalo à correr no exato momento em que o homem ia nos alcançar. Pude ver a irritação em seu rosto antes de sumir em meio a escuridão das árvores.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.