O Julgamento Da Bruxa
8 VIII
VIII
Aquela noite ficou em minha memória desde então. Nunca obtive uma resposta da voz e ela demoraria para voltar a se manifestar. O tempo passava e eu ia aprendendo cada vez mais sobre o mundo de Ilenna, agora também meu. Nunca recebemos visitas — não desde o episódio em que me escondi no baú — e nossos dias eram quase sempre iguais, mas nunca tediosos.
Desde minha invasão ao seu quarto na noite do sonho com a canção, Ilenna passou a me ensinar os gestos que usava para suas magias; para ela, era incrível como eles funcionavam comigo. Ao longo dos meses eu apresentava cada vez mais características de bruxos da escuridão, mas Ilenna não sentia aquilo em mim. Ela dizia sempre que "Um bruxo da luz reconhece a vida, ainda mais uma vida afortunada com magia, mesmo a da morte." Questionei-a se aquilo não surgiria com o tempo, do mesmo modo que eu estava desenvolvendo a minha magia.
– Não. — ela respondeu enquanto afastava os objetos do centro da sala caótica, criando um pequeno espaço para me treinar — a magia sempre está ali. Você precisou despertá-la, isso depende do bruxo. Alguns demoram dias, meses ou até anos pra conseguir despertar ela em si. Controlá-la então... Mas a presença dela é inegável, qualquer bruxo da luz ou da escuridão reconhece seu semelhante. E bem, nós também temos... Sombra — ela falou lançando um olhar para o chão ao meu redor e tentando não ser indelicada.
Com o espaço adequado, ela arregaçou as longas mangas do vestido marrom que estava usando e prendeu os cabelos pretos em um coque frouxo. Ilenna contou que o poder que ela possuía tinha que ser canalizado e que com concentração e gestos corretos feitos com as mãos, a energia se orientava com o modo que deveria agir. Usando a mão direita, ela me mostrou um dos truques mais fáceis: apoiou o dedo indicador acima do dedo médio e, ao deslizar rapidamente o polegar do início do indicador até a unha do dedo médio, uma pequena chama amarela surgiu em seus dedos.
– A chama que eu crio é pequena pois a energia que eu usei foi mínima. Ter poderes é ótimo, mas, assim como o fogo precisa de lenha para se manter aceso, nós precisamos de descanso e alimento para manter as energias vivas. Usar muita energia de uma vez só pode causar danos irreparáveis — ela fez a pequena chama mais uma vez e me ajudou a ajustar os dedos para repetir o gesto — É claro, existem poções e feitiços complicados para manter a energia. Mas o custo é muito alto. -
Fiz o gesto. Nada aconteceu.
— De novo. — ela disse ajustando meus dedos novamente — Concentre-se. Respire fundo e pense no fluxo de energia em você -
Fiz o que ela disse. Tentei de novo. Nada.
— Os gestos são menos complexos que feitiços ditos ou poções. Exigem menos de nós, mas também servem quase que somente pra ajudar nas tarefas do dia à dia. Feitiços com palavras exigem mais conhecimento, mais tempo e energia. Uma pronúncia errada e você pode matar algum ser. — Ela dizia enquanto caminhava pelo pequeno espaço.
Eu a escutava, mas tentava manter a atenção na minha mão. Ilenna podia dizer o que quisesse, eu me reconhecia como bruxa da escuridão, e como tal, sabia que tinha uma responsabilidade para com o equilíbrio. Deslizei o polegar pelos dedos cruzados. Nada.
— ... poções quase sempre precisam de uma receita. Além do mais, existem poucas, muitas ainda nem foram descobertas e ninguém se aventura em tentar. Os bruxos da luz estão preocupados em manter-se vivos e escondidos enquanto os humanos esquecem de nossa existência... -
Eu já estava me irritando. Vi que Ilenna já não me olhava; estava quase conversando sozinha. Aproveitei para mudar o gesto: ao invés da mão direita, resolvi tentar a esquerda. Deslizei rapidamente o polegar, do início do indicador até a unha do médio. Mais rápido do que o movimento, senti os dedos esquentarem e uma chama azul saltou de meus dedos ao chão, se apagando antes de o tocarem.
Sorri triunfante para Ilenna.
– Você viu? — questionei sem segurar a animação — Viu? — Ilenna sorriu de volta, com um misto de preocupação e orgulho.
— Temos uma bruxa em formação. — ela disse.
Nossa rotina começou a mudar desde então. Nas manhãs, após alimentar os animais no celeiro e me divertir com eles, eu tinha de ir à biblioteca e ler livros de feitiços. Ilenna não me deixava dizê-los em voz alta ainda, dizia que antes eu deveria compreendê-los para então usá-los. As palavras deveriam ser copiadas por mim até que eu as decorasse, tudo sob a vigilância atenta da bruxa. Depois, durante o almoço, Ilenna me explicava as poções. Existiam livros que eu poderia ler, mas ela disse que quase todos os ingredientes para uma poção ficavam do outro lado do muro, então eu só saberia trabalhar com eles se pudesse, de fato, ter eles.
Após o almoço e um pequeno descanso, Ilenna abria o espaço na sala caótica para me ensinar os gestos de magia. Criar fogo, atrair objetos e até mesmo atrair chuva... Tudo que ela ensinava eu repetia, quase sempre com a mão esquerda. Ao fim da tarde, eu estava sempre cansada demais e com dores nos braços, então jantávamos e eu voltava a ler meu livro sobre criaturas enquanto ela lia outras coisas.
Algumas vezes, Ilenna saia da casa por algumas horas e retornava cansada demais para dar continuidade as aulas. Eu não me importava; aproveitava o tempo sozinha para brincar com os animais e explorar a floresta — mesmo que Ilenna houvesse me proibido terminantemente de fazer aquilo -.
Em uma de minhas pequenas aventuras, durante um dia muito quente em que eu procurava aliviar-me do calor nas sombras das árvores próximas ao córrego, eu a ouvi novamente.
O sussurro era muito baixo, o que tornava as palavras incompreensíveis. Mas eu sabia que ele tinha voltado. Ignorei-o me concentrando no som da água corrente e logo ele se foi. Se não ia me dar respostas, eu não seria incomodada.
Sentada com os pés na água e as vestes seguras e secas puxadas para cima, deixei os sons da natureza distraírem meus pensamentos. Senti, então, um leve toque frio em minha perna. O pequeno susto passou assim que vi uma pequenina lagartixa de escamas azul-escuro. Não era maior que a palma de minha mão; seus olhos, duas grandes bolas amarelas, não possuíam tanto brilho. Coloquei-a na mão e ela se deixou levar. Os olhar mudava do meu rosto à minha mão, da mão ao céu e assim ia, tudo muito devagar. Percebi que ela tinha pequenas asas fechadas que acompanhavam seu corpo até o início da cauda e o significado poderoso daquilo: não era uma criatura do lado de cá.
Enquanto a lagartixa se movia com lentidão pelo meu braço, busquei em minha memória informações que eu possivelmente havia lido sobre ela. As garrinhas me causavam cócegas, ela era inofensiva. Quando chegou ao meu ombro, parou. Seus olhos amarelos estavam vidrados, mirando os meus.
Está na hora. Pensei, mas não era realmente um pensamento meu. retirei-a de meu ombro e acariciei sua cabeça gelada. Ela aceitou meu toque e, a medida que eu tocava, ela ia parando de se mover.
Um leve formigamento percorreu meu corpo quando as escamas da lagartixa passaram de azul-escuro para preto num piscar de olhos. Dei um sorriso com certa tristeza e virei a mão deixando o corpo do animal afundar no córrego e ser levado pela água.
Meu sorriso desapareceu quando percebi que teria que contar aquilo para Ilenna. Era também uma prova: tudo que Ilenna me contava sobre o muro era verdade. Que outras criaturas poderiam estar conseguindo atravessá-lo?
Levantei e me afastei da água ainda segurando a saia do vestido. Com a mão esquerda, dobrei o dedo anelar e girei a mão para retirar a água de meus pés e deixa-los secos para calçar as botas. Qualquer motivo para treinar minha magia, eu usava.
Ainda pensando no muro e na lagartixa que me deu a vida e aceitou a morte em minhas mãos, me pus a caminhar lentamente de volta para a casa, a luz do sol esquentando minha pele e causando a sombra de minhas vestes no chão. Cada passo me fazia ter mais e mais certeza de que eu era, de fato, uma bruxa da escuridão. E a prova final daquilo havia acontecido naquela tarde.
"Lirme" lembrei de repente. Era assim que se chamavam as lagartixas que mudavam de cor.
Fale com o autor