IX
Os meses se transformaram em anos, e quando eu estava prestes a completar meu décimo sexto outono, já havia aprendido quase todo gesto ou feitiço que Ilenna me repassara. O episódio com o Lirme se repetiu. Certa vez, encontramos na floresta um Capre, um serzinho do tamanho de meus dedos e com corpo feito de madeira. Normalmente eles viviam em bandos, mas aquele estava sozinho e tão rápido surgiu, também desapareceu.
Cada episódio novo era registrado por Ilenna, mas sempre eram criaturas pequenas e sem muita magia. Eu, como bruxa da escuridão — mesmo que Ilenna ainda não estivesse convencida daquilo — tentava me comunicar com as criaturas, mas nunca obtinha respostas.
Ilenna praticamente abandonara as tarefas na casa e eu fazia quase tudo. Ela dedicava os dias e noites a leituras intermináveis, sempre buscando e anotando coisas das quais eu não tinha conhecimento. Por diversas vezes, ela saía da casa por tardes, às vezes noites inteiras.
A voz que me acompanhava também havia se calado. Há anos eu não escutava ou sonhava com ela, não demorou para eu acreditar que fosse apenas uma espécie de chamado interno para despertar minha magia.
A aparente paz que nos acompanhou durante aqueles anos era uma mera ilusão. Ambas, eu e Ilenna, sabíamos que chegaria o dia em que deixaríamos tudo aquilo para trás. Mas eu não tinha ideia de como seguir, Ilenna não comentava o que planejava para o futuro comigo, apenas falava de fatos passados. Eu já sabia de cor todas as histórias sobre os deuses, como bruxos morreram usando toda sua energia na construção do muro, como aquela separação forçada estava arruinando o equilíbrio e como sua queda poderia restabelecê-lo. A expectativa e ansiedade eram minhas companheiras, mas eu sempre guardava-as para mim mesma.
Até que uma noite, nossa paz chegou ao fim.
Ilenna estava, como sempre, na biblioteca escrevendo suas anotações. Eu estava na cozinha examinando alguns ingredientes que havia recém colhido da horta e comparando com coisas do livro grande e marrom sobre criaturas. Foi quando o caldeirão que eu estava usando e que estava sob o fogo, caiu, fazendo um estardalhaço. O som me assustou, mas não mais do que quando corri para a sala caótica e vi que os objetos — delicadamente organizados — começaram a voar pelo ar com cada vez mais velocidade; uma bandeja de metal quase atingiu minha cabeça. Corri assustada para baixo de uma mesa que não parava de tremer e pude ver os pés de Ilenna chegando à sala.
— Kala! — ouvi-a me chamar — saia daí, venha AGORA —
Corri por entre os objetos que voavam em círculos, desviando de alguns. Cheguei até Ilenna e ela agarrou minha mão, me puxando para o corredor. Na sala, vimos os objetos que voavam com extrema velocidade irem frenando até pararem, formando um círculo perfeito; as velas estavam espalhadas pelo ar, acesas. Uma nuvem de pó se levantou do chão, abaixo do extremo centro do círculo, formando uma figura quase humana. Aquilo era alguma magia que eu desconhecia, mas Ilenna parecia absolutamente calma.
A figura lembrava vagamente uma mulher alta e velha. O pó de que ela era feita estava esvoaçando, mas sempre mantendo a forma dela. Seus olhos vazios olharam para o teto, para os objetos parados no ar, e depois para o corredor em que estávamos abraçadas Ilenna e eu. Sua boca de pó se abriu e a voz não pareceu sair da figura, mas do próprio ar. Como um trovão, o som era muito alto e cortava o ar, chegando a ferir os ouvidos, mas permitindo um claro entendimento.
— Ele vive. Frontísti, se você receber essa mensagem, fuja. Ele sabe da garota. Ele sabe tudo. Ele está buscando os traidores. Ele sabe de você. Já é tarde. Fuja. Fuja. Fuja. — A palavra ficou se repetindo até sumir. A figura, de repente, virou a cabeça para o alto e se desmanchou enquanto os objetos iam em direção ao solo.
Antes mesmo de eu observar o caos completo em que a sala havia ficado, Ilenna me puxou do corredor para a biblioteca. Ela fazia gestos rápidos e várias folhas de papel voavam pelo ar, obedecendo seus comandos. Quando juntou uma pilha, colocou-os dentro de um livro de capa vermelha e jogou tudo em uma bolsa.
— Kala, presta atenção! — ela disse nervosa, segurando meus braços com tanta força que doía — Você vai pegar essa bolsa, vai passar do córrego e vai caminhar dois dias inteiros ao norte. Depois, siga para leste até chegar ao mar. É uma imensidão azul de água salgada, não tem como errar. Você vai levar essas coisas e não vai falar com ninguém no caminho. — ela me soltou e correu de volta para a sala, jogando rapidamente vários objetos na bolsa — Lá, na água, você tem que procurar por Fílos — seus movimentos eram velozes, mas sua voz, mesmo com nervosismo, estava calma.
— Ilenna — chamei, ela não respondeu — ILENNA — gritei. Ela parou e virou-se. A imensidão branca dos seus olhos parecia brilhar mais do que nunca, e mesmo sem querer, eu senti o que estava para acontecer. — O que foi aquilo? E... -
— Uma mensagem póstuma — ela respondeu sem me deixar terminar. — um último esforço de uma amiga. — ela voltou a jogar coisas na bolsa, eu já não sabia como tudo estava cabendo ali. Foi quando ela parou. E eu também.
Um, dois, três, quatro zumbidos altos e rápidos foram ouvidos do lado de fora da casa.
Vi o rosto de Ilenna gelar. Ela fechou a bolsa e me puxou até a porta da cozinha, por trás das mesas e estantes de livros bagunçadas.
— Kala — ela sussurrou enquanto me passava a bolsa — você vai sair pela janela grande da cozinha. Não importa o que você ouça a partir daqui, siga sempre o caminho que te falei antes. Qualquer coisa que você ouvir agora, ignore! Sem distrações, só vá! — ela me deu um empurrão tão forte nas costelas que quase derrubei a bolsa.
Lancei um último olhar para Ilenna, seus olhos brancos e preocupados indicavam para eu seguir caminhando. Ouvi a porta pesada de madeira da casa se abrir — ou quebrar — e passos entrarem.
-VÁ — Ilenna disse num sussurro alto enquanto desaparecia entre os objetos.
Corri para dentro da cozinha, em direção à janela que ela me indicara. No caminho, parei rapidamente para acrescentar um objeto na bolsa: o livro pesado e marrom sobre as criaturas que eu havia deixado sob a mesa mais cedo e que agora estava no chão, próximo à janela. Não me deixei distrair pelas vozes que vinham da sala, apenas corri e fiz como Ilenna havia me mandado — eu sempre fazia o que ela me mandava -.
Saí pela janela com certa dificuldade, meu vestido se rasgou no caminho pois havia enganchado em alguns arbustos. A noite fria tomou conta de mim e, sem olhar para trás, comecei a correr pelo escuro em direção ao córrego.
Corri, a bolsa de couro em minhas costas quase sem pesar — Ilenna provavelmente fizera um feitiço para aquilo — e corri ainda mais. Eu só tinha a luz da lua para me guiar, mas foi o suficiente para encontrar o córrego. Atravessei-o rapidamente, molhando todo o vestido e as botas. Quando passei, olhei rapidamente para o céu, buscando uma formação de estrelas que lembrava um pequeno urso e que me guiaria para o norte. Encontrei e voltei a correr, seguindo para o lado nascente do córrego.
Corri até me faltar o ar. Meus pés latejavam de dor dentro das botas molhadas e por duas vezes eu cai. Quando finalmente parei de correr, no meio da floresta e tão longe e perdida que eu sabia que quem quer que estivesse invadido minha casa naquela noite não me encontraria, sentei no chão.
Minha respiração estava rápida e meu corpo todo doía. A — agora pouca — luz da lua iluminava pequenas porções a minha frente. Meu vestido estava úmido — já não tão ensopado quanto antes — e aproveitei para arrancar as botas e deixar meus pés sentirem o vento frio da noite.
Fechei os olhos por alguns instantes, e, enquanto minha respiração desacerelava, um formigamento gelado percorreu pelo meu corpo. Uma dor aguda e rápida me atingiu no peito e eu soube que o brilho branco no olhar de Ilenna, o que eu sem querer havia percebido, não era um brilho comum de bruxos da luz e da vida, mas sim, um anúncio da morte.
Tão logo eu me dei conta daquilo, o vento se tornou mais forte e os galhos das árvores não paravam de balançar, mas pararam de repente. No chão, enquanto a terra se levantava e tomava a forma da minha amiga-mãe, anguns pedregulhos levantavam voo e paravam no ar. Eu mal a enxergava com a pouca luz que havia, mas ouvi sua voz mais clara e alta que nunca.
– Kala. Lembre-se do que eu te disse. Cuidado com quem fala, siga sempre ao sul para a cidade de Potar e depois busque ELE no deserto. Eu te amo, tome cuidado e lembre-se de tudo. — A terra se desmanchou e o vento voltou a soprar normalmente, fazendo com que eu sentisse minhas lágrimas geladas molhando o rosto.
A mensagem — que agora eu sabia ser póstuma — não fazia sentido algum. Ilenna havia me mandado ir ao norte e depois leste, em busca do mar, não sul-deserto.
Me dei conta então que, o último ato de magia de Ilenna fora uma mentira para salvar minha vida. "Não importa o que você ouça a partir daqui, siga sempre o caminho que te falei antes. Qualquer coisa que você ouvir agora, ignore!" ela havia sussurrado na sala. Se, para mandar a mensagem póstuma, ela tivesse que falar em voz alta, ou as pessoas que invadiram a casa pudessem ter acesso ao que ela tinha que me dizer, não tardariam em me encontrarem. Mas ela mentiu. E sua mentira havia me salvado e me feito ganhar horas de vantagem.
Sorri. Estava sozinha, no escuro, no meio da floresta, com frio e objetos que eu não sabia nem o que eram em uma bolsa, lágrimas banhando meu rosto e cansaço em todo o corpo. Mas sorri pois Ilenna havia se sacrificado por algum motivo. Ela havia me dado uma chance. E eu não poderia desperdiça-la.
Estava cansada demais para usar qualquer magia, mesmo algo simples para iluminar o caminho. Então me pus de pé, calcei as botas e segui caminhando pela escuridão.
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