O Julgamento Da Bruxa
7 VII
VII
Os dias passavam depressa e minha leitura progredia cada vez mais. Durante as manhãs, enquanto Ilenna passava o tempo na biblioteca lendo livros, eu alimentava os animais no celeiro. Batizei cada um deles, mas não recordo os nomes que lhes dei, tampouco quantos eram. Nas tardes, depois de comermos, Ilenna passava a organizar a casa de pedra enquanto praticava a leitura com meu grande livro marrom.
Se tratava de um livro que informava, quase catalogando, seres mágicos que existiram e que talvez já não vivessem. Alguns eram fáceis de imaginar e relacionar com animais que eu conhecia. Era o caso do Lirme, uma espécie de lagartixa que possuía pequenas asas e uma longa língua que usava para comer formigas e outros pequenos insetos. Outros, por mais que eu tentasse, não conseguia imaginar ou relacionar com nada que eu conhecera previamente. Ilenna me explicava como eram alguns, mas, ainda assim eu não conseguia formar uma imagem deles. Ela me explicou também que, muitas vezes, aquelas criaturas podiam ter mais de um nome, como o Abarimon, pequeno ser de forma humanoide que vivem em árvores e cavernas, muito rápidos e com pés virados para trás, além de um cabelo que pode pegar fogo. Ela os conhecia como Curupiras.
A vontade de conhecer cada um dos seres sobre os quais eu lia era indescritível. Mas, como todos estavam do outro lado de um muro supostamente intransponível, a decepção sempre estava presente enquanto eu aprendia sobre eles.
Durante a noite, antes de ir dormir, Ilenna me contava um pouco mais sobre os deuses, a magia e como chegamos no ponto em que estamos. Naquela noite ela estava contando sobre como o muro estava morrendo e prestes a ser derrubado e que nós não estávamos preparados para o que poderia nos esperar do outro lado.
— Se algum bruxo ou alguma criatura mágica vive, — ela dizia — o que não tenho como saber já que até nossa magia é bloqueada por ele... Bem, não sabemos se eles lembram os motivos da criação do muro para começar. E se eles se recordarem da caça à magia que os humanos fizeram, não podemos esperar nada positivo -
— O muro não deveria morrer então? — perguntei enquanto me aconchegava nas cobertas. Ilenna arregalou os olhos.
— Pelos deuses, não pense isso Kala! Nós não estamos preparados mas o muro tem que cair. Só assim temos uma chance de reestabelecer o equilíbrio e garantir que todos estejam a salvo. Nada que existe para separar a diversidade deve ser visto como positivo. Somos diferentes, temos formatos, poderes, cores e habilidades diferentes... Mas isso não é motivos para segregação e sim celebração. Essa perseguição à magia, ou aos humanos... Não pode existir. Só vamos viver plenamente e morrer dignamente com a convivência pacífica. -
Sorri diante daquele pensamento. Era algo tão puro, tão vivo que só poderia vir de uma verdadeira bruxa da luz.
Ilenna sorriu de volta e soprou a vela, desejando-me uma boa noite antes de sair. Não imaginávamos que aquela seria a noite.
Pensei ter acordado no meio da noite, mas me sentia diferente. Estava escuro e não parecia estar em meu quarto, mesmo que eu quisesse estar. O chão que eu pisava já não era a madeira de meu aposento e sim algo escorregadio e granuloso. Não demorei para perceber que se tratava de areia molhada, e mesmo no absoluto escuro eu sabia de alguma forma que aquela areia era escura como a noite. Levantei a cabeça, o céu era escuridão total. Não havia uma estrela, lua ou sol. "Estou sonhando" logo pensei.
Então, eu o ouvi de novo. Mas não era comigo que ele falava, ou melhor, cantava. A voz que eu sempre ouvirá, a voz que me acompanhou durante toda minha infância... Algum lugar, não longe dali, ela cantava em uma língua que eu não compreendia. A areia sob meus pés começou a esquentar muito rápido, mas não houve tempo para correr; o chão se abriu e me tragou. Senti meu corpo sendo puxado para baixo e depois para o alto em uma velocidade extrema, até que não senti mais nada. As dimensões de meu corpo se perderam em algum lugar.
Pensei que tinha morrido, mas eu sabia que eu tinha nascido.
A voz continuava a cantar, cada vez mais alto, e as palavras aos poucos iam fazendo sentido
"Água do mar, rocha da terra
Flor dourada, vento do continente
Areia negra, luz das estrelas
Da vida à morte, da morte à vida
A sombra que me possuí agora é tua
Quem me possuí agora é escuridão
Equilíbrio deve viver"
Tentei entender o significado daquilo. Estaria eu sonhando com uma criatura? Um deus? Um bruxo da luz? Escuridão?
Antes que eu pudesse formar qualquer conclusão, voltei a sentir a ponta dos meus dedos. Senti meu corpo todo formigando e passei a enxergar ele. Uma luz branca começava a irradiar de algum lugar à frente e, antes que eu pudesse perceber, cegou-me. Antes de eu voltar a escuridão de meu quarto, escutei a canção silenciar e o prenuncio de um choro de criança.
Levantei rapidamente. Meu quarto estava intocado ao meu redor, exatamente como antes de eu adormecer. A luz da lua iluminava pouquíssimo, mas o suficiente para eu conseguir sair da cama e correr porta afora em direção ao quarto de Ilenna.
Entrei sem bater e vi ela sentada na cama, ainda com roupas do dia e com um livro na mão. Ela se assustou com a invasão repentina e estava pronta para ralhar comigo quando viu a expressão calma em meu rosto.
— O que aconteceu? — ela perguntou deixando o livro de lado
— Eu sou uma bruxa — falei com calma e seriedade.
Ela não demonstrou surpresa nem esboçou sorriso. Ela não demonstrou nada.
— Eu sou uma bruxa. — repeti, tentando causar algum impacto — Uma bruxa da escuridão. -
Demorou alguns segundos, mas ela então suspirou e fez um gesto para eu me aproximar. Quando o fiz, Ilenna me pôs de frente pra ela e me encarou um longo tempo com seus olhos quase brancos.
– Não Kala. — ela disse então — eu sinto muito, mas se você o fosse, eu saberia. Como bruxa da luz, da vida... Eu teria como reconhecer um ser da morte. E sua falta de sombra também... Certamente você tem características da escuridão, eu vi como você é ao longo desse tempo. Mas você... Você é algo novo. Algo diferente. Você tem algo a mais, uma vida que eu não posso identificar, por mais que me esforce e use meus poderes. -
Não escondi a decepção em meu rosto. Ilenna só podia estar me enganando, eu sabia, melhor, eu sentia ser o que dissera ser. E se Ilenna não podia me confirmar, eu sabia quem poderia.
– Você está bem? — ela me perguntou quando comecei a andar em direção a porta — O que te fez pensar isso? -
– Estou. Estou cansada. Vou dormir — respondi a primeira pergunta saindo do quarto. Ilenna podia ser uma bruxa com muitos poderes, mas ela não tinha as respostas que eu queria. Não mais.
Entrei no quarto e deitei na cama novamente. Depois de me ajustar nas cobertas, fechei os olhos com tanta força que chegava a doer.
— Eu sei que você está aí. Você sempre está. — falei sem esperar realmente uma resposta. — Foi você que me fez sonhar com aquilo, não foi? -
O silêncio reinava no aposento. Nada. Absolutamente nada. Forcei ainda mais os olhos e respirei fundo, me concentrando muito para ouvir o velho sussurro.
Sim.
Não me deixei assustar. Esbocei um leve sorriso.
– Foi um sonho? — perguntei novamente. A demora foi ainda maior, que a primeira mas o sussurro soou claro e lento.
Não.
– O que eu sou? — perguntei dessa vez, ansiosa.
Demorou. O tempo passava lentamente enquanto eu aguardava. Então, em alto e bom som como nunca acontecera antes, não mais um sussurro mas uma voz comum e próxima me respondeu
A sua pergunta deveria ser o que eu sou.
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