VI
Acordei com a luz invadindo o baú e fazendo meus olhos arderem. Senti o toque da mão fria de Ilenna em meu braço, puxando-me para fora. Quando me acostumei com a luz, percebi que já era dia. Eu havia adormecido no baú.
— Desculpe-me por isso – Ilenna disse batendo em minhas roupas para tirar um pouco do pó.
— Quem era? – Perguntei me pondo de pé enquanto ela devolvia o baú fechado ao lugar original.
— Vamos – ela disse voltando-se para o pequeno corredor da casa, em direção à biblioteca – estamos atrasadas, muitíssimo atrasadas. –
Segui-a até o local. Estantes com os mais variados livros se amontoavam em um espaço pequeno. Eu gostava de ver as cores e tamanhos dos livros – prometendo que leria todos quando tivesse capacidade -. A biblioteca era o cômodo mais iluminado de todos. Tinha cinco janelas, todas abertas deixando entrar a brisa fresca da manhã. No centro, uma grande mesa com dezenas de rolos de pergaminho e alguns pequenos potes com tinta escura. Eu já havia visto Ilenna usar a tinta nos papéis de pergaminho, escrevendo neles os estranhos símbolos que eu ainda iria aprender a decifrar.
— Sente-se – Ela disse indicando o banco ao lado da mesa enquanto ela mesma se sentava na cadeira. – Kala, antes de começar preciso lhe explicar que o que vou te ensinar, por enquanto, é o equivalente à sua língua. A nossa língua, digo... a dos humanos – ela parecia ter dificuldades para encontrar as palavras certas.
Abrindo uma gaveta da mesa, ela retirou um par de penas, ambas com pontas de metal, e me entregou uma. Senti a leveza e rigidez do instrumento. A pena era de um verde tão escuro que era quase preta. Eu não conhecia nenhum animal que pudesse ser o dono dela.
— Aqui – ela me entregou um rolo de papel e pegou um para si – vamos começar com o seu nome. –
*****
— Kalanna – a voz calma do rei interrompeu o relato da garota. Todos no salão voltaram-se para a majestade – por mais tentador e interessante que seja o seu relato, não posso aceitar que percamos um dia inteiro ouvindo tais histórias. Você sequer tem um objetivo com tudo isso? –
A garota acorrentada sorriu.
— Por enquanto, aceito um pouco de água. Minha voz é potente, mas já estou ficando vacilante. – o rei não sorriu de volta – Bem, vossa majestade, eu lhe garanto que não sou uma perda de tempo. Se até agora acredita que meu relato está sendo em vão e que meu objetivo é desperdiçar o tempo de pessoas tão importantes, eu os convido a ter uma prova de que o que eu digo é verdade. –
“Ainda não! ”. Ela ignorou.
— Peçam para que um de seus soldados me solte e me coloque ao lado da janela onde eu possa ficar inteiramente no sol. Então, vejam se estou desperdiçando o tempo de vocês. – ela disse se dirigindo aos lordes e também ao rei. Todos olhavam atentos o homem no trono enquanto ele, intrigado, chamava por seus soldados.
Dois deles se aproximaram de Kalanna, ambos com lanças em mãos. Ao invés de soltá-la, deixaram suas armas no chão e levaram a cadeira com a prisioneira para perto da janela.
Quando soltaram a cadeira, afastaram-se rapidamente para recolher as armas, mas tiveram dificuldade; os lordes se juntaram ao redor da garota, todos olhando para o chão ao lado dela. Até mesmo o rei, levantando-se pela primeira vez do trono naquele dia, caminhou com guardas atrás de si para perto da garota.
Alguns deixavam a boca se abrir tamanha a surpresa, outros se afastavam assustados. A garota chegou a ouvir alguém falar: “mas isso é impossível”. Estavam todos extasiados com a cena. Nem mesmo o rei escondeu a surpresa, arregalando os olhos ao observar o mesmo que os outros.
O sol iluminava o cinza de seus cabelos; iluminava seu rosto sujo e suas roupas puídas; iluminava as correntes, que refletiam a luz causando incômodo em alguns observadores; iluminava seu corpo e a cadeira em que estava acorrentada. No chão, via-se a sua direita a sombra da cadeira — torta por conta do ângulo em que a luz a iluminava; via-se a sombra das correntes e do que pareciam ser seus trajes, mas, ninguém os vestia.
— É UMA BRUXA! – Uma voz gritou ao fundo e os murmúrios tomaram conta do salão. O rei se aproximou da garota o suficiente para tocar seu braço, como se quisesse garantir que ela estava ali. Os guardas não interferiram, mas tiraram as espadas de suas bainhas, preparados para agir. Quando o rei a tocou, ouviu-se muitos no salão prenderem o fôlego, esperando que algo terrível acontecesse. Ele sentiu sua pele quente sob os dedos e soube que ela estava ali. Ela existia, não era um sonho ou uma alucinação. A garota lhe recordava de sua falecida rainha. A ousadia, a persuasão e os modos. Ele confiava nela, mas não poderia admitir aquilo em um salão repleto de pessoas amedrontadas.
O rei se afastou, ainda pensando na esposa. Dos filhos que tiveram, dois haviam sobrevivido: o príncipe Elric, um jovem rapaz que estava viajando à negócios para representar o reino, e a pequena princesa Prisca, uma garotinha que estava em terras distantes aos cuidados de uma lorde poderosa.
Voltando para o seu trono, o rei pediu que retirassem a prisioneira do sol e se afastassem dela. Ao contrário dos outros, não a via como um perigo eminente ou uma louca que quisesse prejudicá-los. A determinação era perceptível no rosto dela, e, se o objetivo dela era continuar o desfecho da curiosa criação que teve... que fosse.
— Silêncio – ele ordenou aos presentes. Apoiou o queixo em sua mão direita e, do alto de seu trono e sinal de poder, anunciou – aqueles que interromperem o relato da garota novamente deverão se retirar da cidade. Os que a acusarem de algo antes de ela terminar sua história, também. Tragam água... E vinho, para todos que permanecerem comigo e com ela. E você – ele disse se dirigindo para a garota – Espero que o desfecho valha a pena. Ou darei a eles a bruxa que querem. – Finalizou indicando os outros no salão.
O rei não precisou proferir nenhuma outra palavra. Ela sabia que ele havia se lembrado da rainha. Sabia que havia lhe inspirado confiança. E agora sabia que poderia cumprir com a tarefa que lhe fora entregue.
Aquele dia foi um dos mais difíceis de minha vida. Três vezes eu desisti de aprender a entender os símbolos de Ilenna, e três vezes ela me fez voltar para os papéis e a pena. Ao final do dia, já havíamos jantado e eu decidira me recolher mais cedo pois estava um pouco magoada com a insensibilidade de Ilenna quando me ensinava.
Quando estava deitada, Ilenna entrou em meu quarto e se aproximou das velas, acendendo-as com um movimento rápido das mãos.
— Eu sei que você não está dormindo – ela disse sentando-se na ponta da cama – Vamos. Preciso lhe contar algo –
Contrariada, abri os olhos e me sentei. Ilenna sorriu diante da cena.
— Sabe Kala, você é muito perceptiva. Você sabe que sou diferente das outras pessoas. E está na hora de entender o porquê. –
De repente, toda a minha raiva sumiu. Há semanas eu ansiava por essa conversa. Fiquei quieta, aguardando a fala de Ilenna.
— Lembra-se da lenda dos deuses que li para você? – Ela perguntou. Respondi positivamente, lançando um rápido olhar para o livro de capa vermelha que estava em minha mesa – Bem. Quando eu disse que Nella e Nargot criaram outras criaturas, eu realmente quis dizer isso. Como você sabe, existem pássaros, porcos, cavalos e todos esses animais que você conhece ou já ouviu falar. Mas eles criaram... outros seres. Seres inteligentes como os humanos; complexos e com linguagens e comunidades próprias. Seres com habilidades incríveis, seres que às vezes se parecem os que se tem aqui... compreende? – Ela pausou olhando meu rosto. Respondi que sim, sem entender muito bem onde ela queria chegar.
— Pois bem – Ela continuou, pigarreando entre as frases – Há muito, muito tempo atrás, antes de eu ou você nascermos, dizem que os deuses pararam de olhar por todos nós. Vivíamos todos juntos, entende? Os humanos, as criaturas, os animais... O equilíbrio se mantinha com a existência e convivência harmoniosa de todos. Foi quando os humanos decidiram que não podiam mais conviver com a magia. Não sei se por medo ou inveja, mas eles passaram a caçar e massacrar qualquer sinal dela. Isso desestabilizou nosso equilíbrio de tal forma que dizem que Nault ressurgiu para criar...vigilantes. Ele usou suas últimas forças e criou duas espécies de... bem, não há outra palavra...Bruxos – ela sussurrou tão lentamente que pude prever a palavra antes de ela ser pronunciada.
Um calafrio percorreu minha espinha. “Calma. Você sabe o que está por vir.”. Ilenna mirava meu rosto com atenção, entendendo que podia seguir falando, ela continuou:
— Ele criou bruxos da luz, seres que nascem entre os humanos e tem o dom da vida. Nós... eles – ela gaguejou – Eles podem prever o futuro próximo. Podem saber quando uma nova vida vai surgir, podem curar feridos e persuadir os animais. Além de controlar alguns objetos, o que é muito útil – Ilenna parou para dar uma gostosa gargalhada e ali eu já compreendera: ela era uma bruxa da luz. – Eles são os vigilantes de tudo relacionado a vida. Com eles, o equilíbrio pode sobreviver, de forma precária, mas sobrevive. Mas, Nault criou também os bruxos da escuridão. – Ilenna já não sorria agora.
Ela levantou-se da cama e se pôs a caminhar em círculos no quarto, parando volta e meia para conferir o estado das velas do candelabro caso precisasse trocá-las. O nervosismo era evidente em seus gestos corporais.
— Os bruxos da escuridão são senhores e senhoras da morte. Eles sabem quando alguém está prestes a falecer. Podem até causar isso em alguns casos. São nascidos entre humanos, assim como os da luz, mas seus poderes são opostos. Os bruxos da escuridão têm facilidade em comunicar-se com animais. Eles têm capacidade de compreender a história de um outro ser, ou seu passado recente. É, acho que é isso – ela falava com certa confusão -. Eles conhecem os segredos dos sonhos, podem comunicar-se por eles, ouvi dizer. Acontece que... bem. Acontece que bruxos da luz e da escuridão, apesar de se completarem pelo bem do equilíbrio e terem grandes poderes, nunca foram próximos. –
Ilenna parou perto da porta. Ela parecia angustiada enquanto falava, mas eu já estava entretida demais para permitir que ela parasse. Tinha expectativa de que ela me revelasse também qual era meu papel naquela história.
— Há muito tempo houve uma revolta. Bruxos da luz e da escuridão discutiram e criaram um muro que dividia as terras em que vivemos. De um lado, tudo relacionado a magia. De outro, seres sem magia, como os humanos. Durante a separação, um bruxo da luz deixou os bruxos da escuridão do lado do muro em que as criaturas mágicas estavam, impediu, assim, que eles tivessem acesso às crianças bruxas da escuridão que viriam a nascer. Esse bruxo, prevendo o nascimento de cada criança da escuridão que estava por vir, capturava-as e as assassinava friamente. Assim, acredita-se que, um por um, os bruxos da escuridão foram sendo extinguidos. –
Ela voltou-se para mim e se aproximou da cama novamente.
— Esse bruxo, Beobor... Ele teve que manter sua magia e a de seus colegas da luz em segredo; os humanos ainda não aceitavam e caçavam qualquer sinal dela. Ele criou, então, uma legião de bruxos da luz para tentar introduzir a magia como algo aceitável para humanos novamente. Acreditávamos que ele fazia isso para manter o equilíbrio da vida. – Ilenna se sentou, falando com tristeza na voz.
— Até que um acidente aconteceu. – Ela baixou o rosto para o acolchoado da cama. Imaginei que ela estava segurando as lágrimas. – Veja bem, para um bruxo da luz persuadir animais não é tão complicado. Mas humanos... quando descobriram o enorme grupo de bruxos que viviam com eles... conseguiram capturar alguns, entre eles, o amante de Beobor. O pobre homem foi decapitado e esquar... bem, você não precisa saber os detalhes – sua voz já soava como um sussurro triste. – Beobor revoltou-se com os humanos e partiu, não se sabe para aonde. A caça de magia pelos humanos continuou e as poucas crianças bruxas da luz que nasciam eram rapidamente capturadas por bruxos adultos para serem ensinadas na surdina. Acreditávamos que Beobor era uma lenda, algo que criaram para explicar a extinção de bruxos da escuridão e a existência do muro intransponível que nos separa. Acontece que, recentemente, tem se ouvido diversos relatos a respeito de seu retorno. –
Ilenna levantou o rosto e me olhou com os olhos marejados. Enquanto isso, minha animação com o relato era evidente: eu era uma bruxa da luz que seria instruída por Ilenna.
— Pobre criança. Estou enchendo você de informações, me perdoe. Acontece que temos pouco tempo para explicações diante do que temos que realizar – ela trouxe a mão para perto da minha e segurou firme. – Como você deve ter percebido, eu sou uma bruxa da luz. Você deve ter imaginado logo que chegamos, mas eu precisava lhe dizer com essas exatas palavras. –
Obviamente, não me surpreendi. Persuadir os animais para fazer o que ela queria, mover os objetos... Até mesmo a presença dela parecia trazer certa... luz para o aposento. Sorri para ela que me devolveu o gesto.
— Pois bem. Você deve saber também que, sendo criado com mágica, obviamente o nosso muro não é visível ou facilmente encontrado por humanos comuns. E com o retorno de Beobor, afloraram-se os sinais de magia do lado de cá do muro. Sabe o que isso significa? –
Pensei por um curto instante, mas logo respondi um sonoro “não”.
— O muro vai cair. E Kala, não sabemos o que podemos encontrar do outro lado depois de dezenas de anos. O equilíbrio da vida está prejudicado, sem os bruxos da escuridão, o pouco que nós da luz fizemos foi mantê-lo em uma espécie de sobrevida. Precisamos do próximo ou próxima bruxa da escuridão para acertar as coisas, caso contrário, todos os afetados irão sucumbir. –
O silêncio que veio após essas palavras era sufocante. Mesmo criança, eu sabia que muitas vezes um silêncio momentâneo explicava mais dos que palavras ditas. Fiquei confusa e me senti enganada de certa forma.
— Kala – Ilenna chamou novamente, olhando-me nos olhos – Se Beobor está montando um exército com bruxos da luz e aguardando a abertura do muro, certamente não é para manter o equilíbrio com a presença de humanos. –
Eu não tinha palavras. Não podia duvidar de Ilenna, eu sabia que ela era uma bruxa afinal. E se ela me contava tudo aquilo, algum objetivo tinha. Pensei em meu pai e meus irmãos. Nas pessoas da vila, se elas imaginavam ou sabia daquelas coisas que eu escutava com atenção.
— Os deuses não irão retornar para nos ajudar. Estamos completamente sós. – ela parecia estar tentando explicar algo que eu não compreendia. Diversos questionamentos levantavam-se dentro de mim, mas o que eu consegui dizer foi:
— Quem veio aqui ontem à noite? –
Ilenna arregalou os olhos e respirou fundo.
— Agentes. Dois bruxos da luz que estão com Beobor. Eram... Amigos meus. Vieram me contatar e pedir que me unisse a eles... de novo. Mas eu não posso. – Ela lançou um olhar demorado para mim e se levantou da cama, indo em direção à mesa.
Pegando o candelabro com as velas já pela metade, ela voltou-se para a porta. Franzi as sobrancelhas, como ela poderia simplesmente sair depois de contar tudo aquilo?
— Você deve dormir. Sem mais conversas hoje – ela disse repentinamente, soprando as velas. A escuridão tomou conta do quarto, mas eu ainda sentia a presença dela
— Ilenna – falei procurando-a no escuro – O que eu sou? Digo... eu não sou humana. – Ela não poderia negar isso. Eu já tinha ouvido o suficiente para chegar em tal conclusão. – E você me trouxe aqui... então, o que eu sou? -
— Ora, Kala. É isso que nós temos que descobrir –
E o silêncio tomou conta de nós.
Fale com o autor