II

Era meu sétimo ou oitavo outono de vida. Minha mãe havia falecido há pouco tempo e meu pai estava doente. Meus irmãos – que eram gêmeos e mais velhos que eu — trabalhavam em uma pedreira que ficava perto da nossa aldeia. Nossa pequena propriedade ficava nas terras de lorde Randel; a aldeia inteira pertencia a ele. Minha idade não permitia trabalho algum, mas eu era a responsável por cuidar de meu pai até sua melhora, ou até ele nos deixar.

Ele me contava as mais diversas histórias durante seus bons períodos. Nos ruins, sempre pensávamos que seria seu fim. Meus dois irmãos — dos quais não recordo os nomes — estavam impacientes com toda a situação. Uma noite, enquanto comíamos uma sopa rala que uma vizinha nos oferecera, eles conversavam sobre o que fazer após a morte de papai quando ouvimos o som de uma carruagem se aproximando e o trotar de cavalos parando próximo. Imediatamente, os dois deixaram a mesa e correram para fora da casa enquanto eu — tendo conhecimento dos perigos de "visitas" noturnas — corri para o pequeno e único quarto da casa, onde meu pai passava os dias e noites deitado na velha cama de palha.

Pouco tempo se passou até que um de meus irmãos entrasse no aposento e, se dirigindo a meu pai, dissesse:

— Uma mulher... Bem, há uma senhora... Quer falar com o senhor. –

Ele parecia nervoso. Lembro-me de como ele era parecido com papai: o mesmo nariz longo e reto, os lábios finos, cabelos castanho-escuros num corte indefinido — os de papai já eram quase brancos ou inexistentes — e os olhos castanhos que ele usava para alternar o olhar entre meu pai e eu.

— Qual... o nome dela? – Perguntou meu pai com dificuldade, tossindo entre as palavras. Meu irmão saiu novamente e não tardou em voltar trazendo a resposta

— Disse somente que veio finalizar o... Acordo? E que tem que ver o senhor. –

Vi o olhar cansado de meu pai virar-se para mim.

— Kala, me ajude. –

Prontamente, ajudei-o a se levantar e meu irmão veio auxiliar mesmo sem ser chamado. Com um pouco de dificuldade, o pusemos de pé, apoiando-se em mim e no ombro de meu irmão. Caminhamos os três assim até sairmos da pequena casa para conhecer a estranha.

Do lado de fora, meu outro irmão segurava uma tocha que iluminava a pequena carruagem branca com manchas de lama que estava parada na estrada de terra em frente à nossa cabana. Os dois cavalos brancos que a trouxeram eram enormes — para a criança que eu era — . ENtão, vi-a pela primeira vez. Ao lado de meu irmão que segurava a tocha, uma mulher alta vestia longas vestes negras e também sujas de lama. Seu rosto era sério, parecia uma estátua de mármore ou que nunca havia esboçado um sorriso na vida; algumas marcas indicavam que ela já possuía certa idade, mas não o suficiente para ser considerada uma velha em nossa aldeia, na verdade, ela parecia um ser cheio de vida. Os cabelos negros e grisalhos estavam presos em um pequeno coque. Era uma misteriosa figura, pensei com minha mente infantil que ela poderia ser uma lady ou até uma rainha.

Meu pai, ao contrário dela, parecia moribundo. A doença o consumia cada vez mais, nem seus olhos castanhos, que antes eram cheios de alegria, pareciam vivos. Ele todo era puro cansaço, suas vestes estavam sujas e até mesmo rasgadas em alguns poucos lugares — mamãe costumava fazer nossas roupas -.

Com dificuldade, ele se aproximou dela, ainda se apoiando no ombro de meu irmão, mas me deixando para trás.

— Senhora... Ilenna, não é mesmo? – Ele disse devagar, até a voz soava cansada.

A mulher pareceu despertar de um sonho entediante. Se aproximou deles sem fazer um ruído sequer; por um instante pensei que ela fosse cega, pois seus olhos não pareciam ter cor alguma.

— Sua esposa está morta – ela disse como se fosse novidade para nós, que a enterramos no cemitério da vila havia apenas algumas semanas – não pode mais ficar com ela. Tenho que levá-la hoje. –

Comecei a achar que ela fosse alguma parente distante de mamãe. Olhei para meus irmãos e eles estavam tão confusos quanto eu.

— Pensei que ainda faltavam alguns anos – ele disse, parecendo recuperar um pouco de vida com a aproximação da estranha.

— Não. Hoje. – Ela repetiu, a voz quase como um sussurro – Você vai se recuperar para ver seus filhos crescerem na vida, não se preocupe com minha parte do acordo. E já cumpriu com a sua. Sabia que este dia chegaria. –

— Eu... pensei que teria mais tempo. – ele respondeu. Meus irmãos estavam imóveis como eu, apenas observando a cena e se perguntando do que eles falavam. Nosso pai não era de ter segredos. Ou era isso que pensávamos.

— Vou voltar a vê-la? – Ele perguntou dando alguns passos para trás e se aproximando de mim.

— Não. – a mulher disse caminhando para perto de nós – Mas vai ouvir falar dela. –

Ela parou na frente de meu pai, era apenas alguns centímetros mais baixa que ele, mas mesmo assim, estendeu a mão direita tocando a testa dele. Depois de alguns segundos, o soltou.

As dificuldades dele pareceram sumir. O homem antes moribundo desapareceu, dando lugar a um homem quase velho, mas saudável. Ele dispensou o apoio que meu irmão estava dando para mantê-lo de pé até então. Os gêmeos se juntaram lado a lado, silenciosos e curiosos com a cena.

— Kalanna, – a mulher virou-se para mim pela primeira vez e reparou no meu pequeno susto – faça suas despedidas e vamos. – Em seguida, ela voltou-se para a carruagem branca e abriu a porta, parando ao lado como se esperasse algo.

Eu tinha lágrimas nos olhos a essa altura.

— Kala, – meu pai chamou e me virei para ele – Você vai ter que ir com a senhora. – Meus irmãos começaram a protestar contra aquela decisão repentina, mas meu pai mandou eles se calarem. – Veja Kala, você vai entender tudo um dia. Vai entender mais do que eu ou sua mãe entendemos. Os deuses vão guiá-la em seu caminho, tenho certeza disso. – ele disse me puxando para um forte abraço.

— Eu... eu não quero ir! – Falei pela primeira vez, entre soluços, enquanto meus irmãos se juntavam ao abraço. Um misto de tristeza e confusão tomava conta de mim.

— Não há o que fazer. Está decidido. – Percebi, ao me soltar, que meu pai também tinha lágrimas nos olhos, mas não as deixava escaparem. Queria protestar como meus irmãos, mas sabíamos que uma decisão tomada pelo pai não deveria ser questionada. Ainda assim, doía.

Senti meu pai puxando-me do abraço de meus irmãos e me colocando diante da porta da carruagem branca suja. Diante da mulher que me esperava.

— Você é especial Kala. Nós sabíamos desde que te recebemos. Os deuses sorriem pra você, e nós a amamos durante todo esse tempo, e a amaremos sempre. – ele disse, abraçando-me pela última vez antes de me colocar no assento de couro da carruagem.

— Vamos! — a voz da mulher disse ao meu lado depois de subir e fechar a porta da carruagem. Os cavalos começaram a trotar para longe de tudo que eu conhecia. Pus a cabeça pra fora da pequena janela, olhando para trás uma última vez: a pequena casinha desaparecia entre as árvores enquanto os três homens de minha família, ainda do lado de fora, estavam imóveis. A última coisa que vi foi a luz da tocha que meu irmão segurava ser engolida pela escuridão.

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— Vossa majestade! Isso é um absurdo! – Uma voz interrompeu o relato da garota. Era um dos lordes que estava de pé perto da porta. Enquanto falava, ia se aproximando do rei – Estamos aqui para ouvir as confissões de uma bruxa, não para ouvir histórias e calúnias enquanto ela pode estar jogando um feitiço contra todos nós! –

Kala conhecia o lorde. Era Hogo, dono das terras de Haiga. Ele estava velho, mas falava de forma calorosa como um jovem tamanha era a sua indignação. Usava sua armadura, apesar de não estar presente em uma guerra havia muitos anos, e sua barba longa e branca fazia movimentos enquanto ele caminhava em direção ao rei.

— Lorde Hogo, posso lhe garantir que o que estou relatando faz parte de minha confissão. – Kala falou, com certa irritação na voz graças a interrupção, antes que qualquer pessoa se manifestasse — Estou aqui para ser julgada por homens que sequer conhecem a minha história e se acham no direito de decidir o que vai acontecer com a minha vida. Acredite, se eu fosse lançar um feitiço em algum de vocês, já estaria solta e muito longe daqui, mas meu objetivo é salvar a vida do rei, das pessoas do reino e até mesmo a sua, Lorde Hogo. Vossa majestade, – Kala voltou o rosto para o rei, mudando o tom de voz para algo mais calmo e respeitoso – Estes homens já me sentenciam pois para eles a mera acusação é motivo para transformar algo sagrado como a morte em espetáculo. Portanto, não tenho motivos para mentir em minha confissão se, de um jeito ou de outro, meu fim for o mesmo. Sei que o senhor busca justiça para as pessoas que vivem sob suas leis. O mais justo que posso lher pedir é isso: ouça-me até o fim Ouça o que tenho para contar e traga-me à justiça. O que vossa majestade decidir, estarei de acordo. Meu único pedido é que me escute, e, se considerar-me culpada pelos crimes de que me acusam, não temerei ou protestarei em ser levada à morte. –

O silêncio se fez no salão. A tensão era visível até mesmo em lorde Hogo que parecia ter tido seu fogo apagado; todos aguardavam o que o rei faria diante daquele pedido.

Com o mesmo gesto da cabeça que havia feito antes, o rei permitiu que ela continuasse a falar e um sorriso de alívio surgiu no rosto dela enquanto retomava a sua confissão.


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Notas finais
Qualquer tipo de crítica é bem vinda. Especialmente se notarem em algum erro na história (seja de português, seja da própria história). Obrigada por lerem ;)