III

Acordei com a parada repentina da carruagem. Pela pequena janela, senti os primeiros raios de sol da manhã que se iniciava e uma leve brisa do vento. Não lembrava de ter adormecido; provavelmente, havia ficado exausta de tanto chorar. Ao meu lado, percebi que a mulher de preto estava se movendo. A luz do amanhecer me permitiu finalmente uma visão clara do rosto da pessoa que iria mudar minha vida.

Suas sobrancelhas e cílios eram grossos, marcantes e negros, assim como os cabelos que, ainda presos no coque, tinham a presença de vários fios brancos. Seu nariz era longo e fino, assim como os lábios. Alguns traços de idade marcavam seus rosto, mas ainda assim, era uma bela mulher. Não havia me enganado na noite anterior: seus olhos eram, de fato, quase brancos, possuíam apenas uma silhueta acinzentada. Mas a vivacidade que tinham era inexplicável e ela enxergava perfeitamente bem com eles pois, ao virá-los em minha direção percebeu-me desperta e disse:

— Descemos aqui. – e abriu a porta ao meu lado, esperando que eu saísse antes.

Devagar, pus um pé na escada e deixei meus olhos se acostumarem com a luz da manhã. Desci da carruagem, mas não me afastei dela já que era a única coisa que eu conhecia naquele estranho lugar.

O sol iluminava a grama verde e as copas das árvores. Estavamos em uma clareira, no meio de uma floresta que eu não reconhecia. Atrás de mim, uma pequena ponte de madeira assegurava a passagem por cima de um córrego e o caminho a partir dali seguia até o centro da clareira, levando a uma casa de pedras com pequenas janelas e uma grande chaminé; algo que eu nunca vira até então. Ao lado da casa, uma casinha menor e de madeira — e ainda assim, muito maior que a casa em que eu morava até então – que eu não tardaria em descobrir ser o celeiro.

A mulher desceu da carruagem e imediatamente pôs os olhos em mim.

— Então, gostou? – Ela disse, quase sorrindo com simpatia.

Não respondi nada, apenas baixei os olhos para o chão.

— Vamos entrar para você conheça a casa. – ela disse começando a caminhar em direção ao local e fazendo um gesto com a mão para a carruagem. Os cavalos se puseram a caminhar em direção ao celeiro deixando a carruagem ali mesmo e, pela primeira vez me dei conta de que não havia um cocheiro. Segui-a em direção a casa de pedra.

De perto, a habitação parecia ainda maior. As janelas eram todas de vidro e estavam sujas demais para espionar através delas. A porta de madeira parecia pesadíssima, mas com apenas um toque da mulher, ela se abriu com extrema facilidade, levantando uma quantidade enorme de poeira. Começamos a tossir as duas enquanto entrávamos em um aposento escuro e com cheiro de mofo.

Ouvi a mulher mexendo em vários objetos, até que uma luz se acendeu. Ela havia pego um castiçal — como ela encontrou eu não sabia dizer — o lugar estava uma bagunça. A sala era grande, mas estava repleta dos mais variados objetos: cadeiras, mesas, livros, tigelas, vasos, pedaços de madeira, potes de vidro com líquidos coloridos, penas... E outros diversos objetos que eu nunca havia visto ou ouvido falar. Ela fez um movimento com a mão e um candelabro se acendeu no teto, iluminando melhor a desordem.

— Ele podia ao menos ter deixado as coisas limpas. – ela resmungou para si enquanto parecia buscar algo em um baú – além do trabalho dele, vou ter que organizar essa confusão... – ela continuava, mas eu já havia me distraído: em uma cadeira havia um enorme livro marrom. Estava embaixo de vários outros livros e também de uma caixa de madeira, mas, naquela bagunça era o que mais me chamava a atenção apesar de não conter nada de especial.

O livro é seu. Pegue-o” uma voz aveludada parecia sussurrar em meu ouvido. Ela esteve sempre comigo, mas eu não me permitia falar ou pensar nela; Certa vez, me perdi na floresta, mas logo voltei sozinha para casa. Quando questionada por meus pais, contei que estava ouvindo uma voz em minha cabeça que me guiava de volta; eles me proibiram de falar sobre aquilo com qualquer pessoa. Disseram que outras pessoas veriam com maus olhos e aquilo poderia nos prejudicar.

— Vamos – ouvi a voz da mulher e despertei de minhas lembranças infantis – você deve estar com fome. –

Segui-a através da confusão de objetos e chegamos ao que ela chamava de cozinha. Em minha antiga casa, não tínhamos aposentos separados – a não ser pela latrina – mas ali, parecia existir um espaço para cada afazer.

Ela me pôs em uma alta cadeira de madeira e voltou-se para um amontoado de lenha na lareira, acendendo rapidamente um fogo com chamas amareladas e que logo aqueceu o aposento. Percebi que ela segurava um pequeno caldeirão que depositou no calor das chamas.

— Fique aqui! – Ela disse enquanto voltava para a sala caótica. Não tardou em voltar carregando diversas ervas, verduras, água e o que parecia um pedaço de carne. Jogou tudo no caldeirão e se pôs a mexer com uma colher de pau.

Recolhida no assento, me distrai por alguns instantes com o lugar. Alguns armários continham utensílios que a mulher usava com destreza para preparar – o que parecia ser – uma sopa. Até mesmo ali haviam livros, mas bem menos e nenhum tão interessante quanto o grande livro marrom que eu havia visto na sala. Uma grande janela de vidro permitia a entrada de luz, mesmo assimn, haviam velas em todo o lugar que a mulher também havia acendido muito rápido — eu nem mesmo a vira levar a chama para elas-.

Ela serviu a sopa em dois potes de barro e me trouxe pedaços de pão novo, o que estranhei em um lugar aparentemente abandonado e cheio de coisas velhas. Demorei um pouco para começar a comer, suspeitando da estranha, mas minha barriga clamava por alimento então deixei de lado a resistência inicial e me atraquei com a saborosa sopa.

— Tinha fome então. – Ela disse sentando-se no assento ao meu lado – seu nome é Kala, não é mesmo? – Perguntou enquanto observava cada movimento meu em direção a tigela de sopa, sem tocar no próprio pote.

— Kalanna. – respondi, falando pela primeira vez, de boca cheia e voz vacilante.

— É um belo nome. Eu sou Ilenna. – ela disse esboçando pela primeira vez um verdadeiro sorriso – você não sabe o motivo de estar aqui, não é mesmo? –

“Pergunte pelo livro marrom” eu ouvia a voz sussurrar em meu ouvido, mas ignorei como sempre fazia. Movi a cabeça dando uma resposta negativa.

— Bom, nós vamos descobrir então. Seus pais e irmãos eram bondosos com você? – Ela parecia medir as palavras que usava. Dei uma resposta positiva.

— Eu vou morar aqui? – Perguntei deixando a tigela de sopa vazia de lado.

Ilenna prontamente me serviu de mais sopa e começou a comer também, de forma delicada e sem saborear o prato preparado por ela.

— Vai – ouvi-a dizer – e nós temos muito trabalho pela frente. Seus pais lhe ensinaram as histórias de nossos deuses? – Ela disse enquanto assoprava o vapor na colher de pau cheia de sopa.

“Sim”

—Sim – respondi acanhada. Todos conheciam as histórias dos deuses e os rituais para eles. Nossa vila tinha, a cada par de meses, uma festa em nome deles.

— Claro que você conhece eles! — Ela disse de repente, sorrindo – mas você tem que me contar o que você conhece. Certamente não deve ter ouvido tudo, afinal, é apenas uma criança. –

O silêncio que se seguiu deixou claro que ela queria que eu explicasse. Pigarreei antes de contar o que sabia:

— São três. Três irmãos que cuidam de nós e nos trazem coisas boas. Bem, dois deles sim... – falei sem jeito — Nargot e Nella que nos criaram e nos amam fazem isso. Mas o outro, como não pôde criar nada, acabou nos trazendo coisas ruins... – falei tentando me lembrar o nome dele – Nut –

— Nault. – ela me corrigiu – É, essa é a versão comum. E você acredita neles? – os olhos brancos brilhavam enquanto me questionava. Ela parecia empolgada.

Eu não soube o que dizer. Nunca haviam me perguntado se eu acreditava nos nossos deuses, apenas me apresentaram suas histórias e eu as aceitei, pois era assim que as coisas funcionavam.

— Sim – sussurrei depois de um tempo.

Ilenna sorriu. Juntou o meu — segundo — prato vazio e o dela que estava cheio para colocar em uma bacia de madeira cheia de água que estava perto da janela.

— Esse costume de acreditar em algo que nos conforte e dê esperanças, de culpar um deus pelas coisas ruins e agradecer outro pelas boas... Essa... Ideia de que somente existe o bem e o mal... Você vai ter que deixar isso pra trás – E começou a caminhar em direção a sala caótica – Venha. Vamos conhecer seu quarto. -

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— Vossa majestade, essa garota está nos ludibriando! – Lorde Hogo interrompeu novamente, a voz exaltada – profanando os nomes de nossos deuses e falando de outras malditas bruxas... –

Kalanna revirou os olhos e respondeu com impaciência.

— Lorde Hogo, se o senhor não se importa, eu estou exausta de suas dúvidas. Esse seu jeito impulsivo pode um dia levá-lo a morte – o rosto do lorde se encheu de pavor. — Isso não é uma ameaça senhor, apenas um conselho. -

O silêncio que se fez diante da frase não foi quebrado nem mesmo pelo rei; pelo contrário, ele parecia divertir-se com a careta que o lorde fez para a garota acorrentada.

Lorde Hogo sempre foi um homem de cabeça quente, mas um verdadeiro covarde. A armadura que ele usava tinha o objetivo de mostrar sua potência e espírito guerreiro, mas, pelas suas costas, todos diziam — e sabiam — que ele era um impotente, covarde e que nunca realmente precisou de armaduras. Seus modos nunca agradaram ao rei, que permitia os exageros de Hogo apenas pelo respeito que tinha pela família do lorde.

As pessoas no salão não falavam nada. O poder e decisão de como prosseguir cabiam apenas ao monarca, que permitiu novamente a retomada de fala pela garota.

Kalanna continuou antes que o lorde — agora alguns passos mais distante — interrompesse com novos ataques.

— A lenda dos três deuses todos vocês, todos nós pensávamos conhecer. Mas o que Ilenna me contou vai muito além disso... -