Notas iniciais
I
O ranger da porta despertou as mulheres. Muitas fecharam os olhos, incomodadas pela luz da chama pela luz da chama que entrou no aposento. Era quase uma dezena delas; maltratadas pelo tempo, pela fome e carregando o medo de saírem dali para um destino pior. Antes eram muitas as ficavam amarradas nas paredes, mas, na falta de cordas, deixaram-nas soltas no aposento. O espaço era minúsculo, sem janelas parecia ainda menor. O cheiro era de desespero, medo e dejetos.
O soldado que carregava a tocha acesa se aproximava dos rostos, buscando a próxima que levaria ao julgamento. As mulheres iam se recolhendo enquanto ele passava, todas juntas, assustadas com a possibilidade de serem escolhidas. Apenas uma manteve a distância. A chama se aproximou dela, a luz iluminou sua pele cinzenta e repleta de ferimentos. O rosto estava virado para parede, mas o soldado sabia que era ela pela cor cinza incomum dos cabelos. Chutou-a entre as costelas para chamar a atenção.
— Vamos, – ele disse com calma – tua vez. –
Lentamente e com certa dificuldade, a mulher se pôs de pé. Afastou o cabelo do rosto sujo e o soldado não escondeu a surpresa quando viu que a mulher na verdade era uma jovem, quase uma menina. Retomando sua pose de superior, ele pegou a corda que trouxera e usou-a para amarrar as mãos dela, depois enrolou-as em uma corrente de metal, por precaução. As outras mulheres sequer olhavam a cena, encolhiam-se no escuro temendo pelo próprio futuro e aliviadas que era a colega de cela a escolhida e não elas.
— Vamos! — repetiu ele empurrando a garota em direção a porta.
A garota caminhava com calma e em passos desajeitados, mas logo ela conseguiu equilíbrio para caminhar normalmente . Quando saiu para o corredor, viu o soldado fechar a porta do cubículo onde ela esperou por meses. Um outro soldado vinha do final do corredor com um objeto nas mãos.
Os soldados eram jovens e tratavam as prisioneiras com crueldade. As marcas que elas possuíam pelo corpo eram consequência dos brutos ataques que sofriam nas celas. A garota olhava com curiosidade para aqueles dois; o primeiro tinha movimentos duros e automatizados. Trabalhava naquilo há anos. Já o segundo, que vinha com — ela agora podia reconhecer — um saco de pano nas mãos, era mais desajeitado.
— Essa é a próxima! – anunciou o primeiro soldado para o segundo – com esse cabelo e essa cara de criança, duvido que não seja uma delas! –
O outro sorriu sem jeito. A garota aguardava com calma, observando o corredor mal iluminado e repleto de portas. As paredes eram de pedra, por isso estava sempre frio nas celas, e o cheiro era insuportável — para os que já não haviam se acostumado com ele -.
— Essa aí vai ter um dia importante – o segundo dizia enquanto tapava a visão dela com o saco de pano – o rei em pessoa está ouvindo os julgamentos hoje –
O primeiro bufou.
— Ele deveria mandar todas para forca de uma vez. Acabar com essas crias do mal. Elas não deveriam estar no nosso reino, só nos trazem desgraça e horror. –
— É — concordou o segundo.
Ela sentiu um empurrão nas costas e se pôs a caminhar na direção oposta. Não demorou para que um dos soldados pegasse a corrente que estava enrolada em suas mãos e puxasse ela para guiá-la enquanto saiam daquele lugar.
Subiram escadas, portas e grades foram abertas e em seguida fechadas. O soldado que a guiava — o desajeitado — cumprimentou outros no caminho, mas não se desviou do dever de levá-la. Foi reconfortante quando ela sentiu o calor do sol em sua pele depois de meses. O cheiro de morte havia ficado para trás e agora ela iria finalmente cumprir com o seu dever.
Entraram em um aposento repleto de pessoas, ela percebeu pelos sussurros e cheiro de gente nobre. O soldado a fez sentar-se em uma espécie de cadeira e ela sentiu seus pés e mãos serem amarrados com força no assento, deixando-a imobilizada. O saco foi retirado e a luz invadiu e queimou seus olhos por alguns instantes. Depois de se acostumar, observou o salão em que se encontrava.
Era um grande espaço, as paredes continham vitrais que lançavam luzes coloridas no chão. Uma corrente de vento simples passava por uma janela. Pessoas estavam espalhadas de pé pelo local, atentas ao que o soldado fazia com ela. Na parede oposta, colocado de forma central, um pequeno trono de cobre e ferro com poucos ornamentos chamou a atenção dela. Sentado nele, um homem robusto estava usando longos e coloridos trajes. Os cabelos, outrora longos e negros, eram agora muito grisalhos e curtos, assim como a barba. O nariz adunco chamava atenção para o rosto, e este mostrava toda a seriedade que um rei deve ter durante um julgamento.
O objetivo da garota estava claro em sua cabeça, ela não permitiria distrações e por isso, não prestou atenção nas pessoas que a observavam à distância ou na dúzia de soldados ao seu redor.
Um rapazote surgiu ao lado do rei e se pôs a vista de todos. Era muito jovem, provavelmente escudeiro do monarca já que usava trajes de nobres. O silêncio se instaurou quando ele anunciou com uma voz quase infantil:
— A corte se reúne hoje com vossa majestade, rei Aldrich II, para o julgamento de... Kalanna sem sobrenome. — a voz do rapaz falhou brevemente, mas ele continuou – Kalanna sem sobrenome está sendo acusada de bruxaria, enganação, assassinato, ocultação de um homem e uso de magia das trevas contra a vida do comerciante e lorde Yaro. –
A garota voltou o olhar para o lorde. Ele estava de pé próximo dos vitrais, usando os trajes amarelos de sempre e que se destacavam com sua pele escura; a barba finalmente estava feita. Ele olhava fixamente para ela, como se aguardasse alguma manifestação da parte dela. Apesar de ele ser quem a acusava, tinha certo nervosismo em seu rosto.
Ela moveu a cabeça para afastar uma mecha de cabelo do rosto e percebeu a atenção dos guardas que puseram as mãos nas bainhas de suas espadas. Sorriu pela primeira vez em muito tempo. A situação, para ela, era quase cômica.
Os cabelos dela estavam emaranhados e sujos, mas ainda se via a estranha cor acinzentada neles. Cinza como os olhos dela, e também sua pele, apesar de esta conter pontos roxos e pretos dos ferimentos graças ao encarceramento. Era uma estranha figura, ela. Passaria despercebida em uma multidão pois sempre foi um ser assim, acinzentado. Parecia quase o esboço de alguém, algo que desenharam e apagaram em seguida. Suas roupas, antes brancas, estavam escuras e puídas. Ela toda fedia. Acumulara toda aquela sujeira e odor nos meses aprisionada, se alimentando apenas de pão e água suja e ouvindo choros, gritos e lamentações das outras mulheres. Ela nunca derramara uma lágrima naquele local pois estava exatamente onde deveria e queria estar.
— Lorde Yaro! – o rapaz falou e a garota voltou ao salão – manifeste-se contra a acusada. –
O lorde prontamente se aproximou do rei para ser escutado, suas vestes amarelas deslizavam no chão enquanto ele caminhava para cerca do trono.
— Vossa majestade – a voz estava em forma de alerta, ressoando pelo salão – agradeço que tenha atendido ao meu pedido de acompanhar e julgar esta mulher. Conheci ela através de um amigo e capitão de um de meus navios. Entretanto, ela não tardou em se mostrar... diferente— Yaro voltou-se para a garota. A luz do sol batia nos vitrais e o reflexo das cores iluminavam ele todo enquanto falava – Ela é anormal. Possui capacidades que mal posso descrever. Já a vi matar um cachorro somente com as mãos! Meu amigo capitão desapareceu e tenho certeza que ela é a responsável. –
— Meu caro lorde – o rei falou pela primeira vez. Sua voz atraiu a atenção de todos. Era alta e grave, mas soava cansada – Espero que não tenha se motivado apenas pela morte de um cachorro. O que pode nos contar sobre as habilidades anormais dessa mulher que a incriminem? –
Yaro não tirava os olhos da garota. Ele não estava pronto, ela sabia. Mas não importava mais, eles já estavam ali.
— Posso falar eu mesma de meus poderes, vossa majestade. – a voz rouca da garota gerou murmúrios dos presentes; A prisioneira havia falado sem permissão. Sua voz era seca e continha um certo tom de deboche – Na verdade, posso contar-lhe muito mais que isso, inclusive o motivo de eu estar sentada... bem, acorrentada diante de pessoas tão... Nobres –
O rei fez uma careta diante de tal ousadia. Mas lorde Yaro voltou a falar antes de qualquer outro.
— Deixe-a falar, vossa majestade. Desejo ouvir a infame história que ela tem para contar sobre o desaparecimento de meu amigo e sobre seus malignos poderes que certamente a incriminarão! –
Lorde Yaro olhava para a prisioneira com indignação em todo o rosto e o rei, ao perceber, decidiu permitir-lhe a fala fazendo um gesto para que ela continuasse.
A garota sorriu novamente. As pessoas no salão estavam inquietas diante da audácia dela, esperavam uma mulher que chorasse pedindo perdão como as outras e negando qualquer atividade tenebrosa, e ao invés disso, obtiveram uma que parecia ansiar em contar seus crimes.
— Seria de meu agrado tomar uma bebida antes de minha confissão já que ela vai ser longa. Mas prometo que não será entediante. Não percamos mais tempo – ela substituiu o sorriso por uma expressão de seriedade – Solicito sua completa atenção, vossa majestade. Os rumos de seu reino e as vidas aqui presentes dependem de sua decisão após meu relato. Bem, para que me compreendam por completo, tenho que iniciar por onde tudo começou...
Fale com o autor