O Jogo dos Semideuses
18 O Vencedor
Notas iniciais
– Nunca subestime um filho de Atena! Você deveria saber isso melhor que ninguém, Annabeth.
A voz era inconfundível. A voz de alguém em quem, poucos dias atrás, eu confiava, amava e considerava meu melhor amigo. Malcolm.
Antes que eu pudesse me virar, a lâmina de uma espada prateada surge a poucos milímetros de meu pescoço. Malcolm estava atrás de mim, ameaçando cortar minha garganta.
Observo Percy ficar rígido e buscar uma adaga que trazia presa à cintura.
– Se se mover ela morre... – Malcolm diz, encostando a lâmina fria em minha garganta, para Percy.
– Malcolm... – eu falo – Porque está fazendo isso? Você não é um assassino!
– Correção irmãzinha... Eu não era! Mas este Jogo me mudou. Apenas uma questão de adaptação!
– Você tá maluco cara! – Percy diz, andando um passo em nossa direção.
– Opa! – Malcolm o repreende. A lâmina aperta em meu pescoço e posso sentir um fino traço de sangue escorrer pelo pequeno corte – Mais um passo e o corte será mais profundo!
Com uma mão livre, Malcolm aponta uma lança para Percy.
– E então, Annabeth? – ele diz – Não quer ter a honra de acabar com seu namoradinho e garantir que nós dois voltemos para casa com o prêmio? Seria inédito, e uma grande vitória para o chalé de Atena!
Eu seria hipócrita se dissesse que nem por um instante isso me passou pela cabeça. É uma proposta tentadora. Mas Malcolm foi um traidor. Ele matou Amanda e está ameaçando Percy. A pessoa que mais amo nesta arena.
Noto que Percy olhou de relance para seu tridente, cravado no peito de Cato a uns quinze metros de nós. Ele deve ter se arrependido de tê-lo arremessado.
– Percy vai morrer de qualquer jeito! – Malcolm afirma – Mesmo que me matem... Vocês precisariam escolher quem sobreviveria. E sei que Percy faria de tudo para mantê-la viva, inclusive aceitar a própria morte.
Olho para Percy a procura de uma confirmação. Ele olha para mim e seu olhar me dá a resposta. Eu não tinha pensado bem no que faria quando apenas eu e Percy restássemos. Acho que me mataria e deixaria Percy vencer.
Mas não quero dar a honra de minha morte à Malcolm!
Então ouvimos uivos.
– Nossa... – percebo o sorriso na voz de Malcolm – Parece que soltaram as bestantes antes da hora!
– Não é possível! – eu digo – O anoitecer é só daqui a cinco horas!
– Nunca confiem nas regras dos Idealizadores... – Percy sussurra.
Tenho que concordar. Em geral, os Idealizadores não cumpriam seus próprios prazos. E quase sempre os adiantavam, ao invés de adiarem...
– Você tem alguns minutos, Annabeth! – Malcolm fala – Mate Percy e vamos sair desta arena idiota antes que as feras cheguem!
Percy olha nos meus olhos. Percebo em seu olhar que Percy não queria vencer, que nunca me mataria se nós fossemos os últimos.
Aceno com a cabeça para Malcolm e ele afrouxa a pressão em meu pescoço. Sinto a lâmina desgrudando de minha pele já suja de sangue.
Seguro a lança, mas Malcolm ainda não a solta.
– Tem certeza? – ele pergunta.
– Annabeth... O que está fazendo? – Percy pergunta com um olhar assustado e decepcionado. – Vai mesmo deixá-lo vencer?
– Seria eu e ele... – digo, com um nó na garganta – Todos ficariam orgulhosos!
– Agora você está pensando com clareza! – Malcolm diz, e solta a lança.
– Não serei cruel... – digo a Percy – Em nome de tudo o que tivemos... Te darei uma chance de fugir. Em três...
– O que está fazendo? Mate-o logo! – Malcolm reclama.
Eu levanto os três dedos médios da mão direita. Meus três dedos formavam o símbolo de revolta e adeus a quem se ama. E também lembrava um tridente. Olho para o tridente e depois para Percy. Espero que ele entenda o recado.
– Dois... – continuo contando e diminuo um dedo. Nesse momento Percy já estava correndo o mais rápido que podia na direção do tridente.
Fico feliz por Percy correr tão rápido.
– Um... – digo, e arremesso a lança em sua direção.
Obviamente não tenho a menor intenção de mata-lo. Atirei sabendo que ia errar o alvo em um quarenta centímetros.
Antes que minha lança se cravasse no chão, perto dos pés de Percy, ele já chegou ao tridente. E então eu me jogo no chão, um instante antes de seu tridente voar acima de minha cabeça.
Escuto o som de carne e ossos sendo perfurados. Sinto pingos de sangue caindo em mim.
Malcolm cai de joelhos, vomitando sangue. Olha para mim com olhar que passava arrependimento. Nada de fúria ou sua superioridade típica. Apenas dor.
– Por que entrou para o time dos Carreiristas? – eu pergunto. Preciso saber disso antes de sua morte.
– Eu estava... desesperado! – ele diz, com a voz muito fraca – Me unir a eles... era a única forma de... de mantê-los afastados... de você...
– Parece que não conseguiu! – falo secamente, mas logo em seguida me arrependo.
Uma lágrima escorre dos olhos de Malcolm.
– Sinto muito que tenha acabado assim... – ele diz. Então seus olhos ficam opacos. E ele cai para o lado.
Canhão. Lágrimas. As mãos firmes de Percy me abraçando.
E o uivo das bestantes cada vez mais perto...
Eu estava chorando descontroladamente. O mundo era um borrão. Não conseguia mais pensar em nada. Malcolm, meu irmão, estava morto. Morto por um plano que eu tracei. Morto quando podíamos voltar juntos para casa.
Minha visão estava embaçada por minhas lágrimas.
Então as mãos de Percy vão subindo por meu corpo. E subindo. Até meu pescoço.
Um breve momento de esclarecimento se passa por minha cabeça. Como pude ser tão ingênua?
Meus pensamentos são interrompidos pelos dedos de Percy apertando meu pescoço em pontos estratégicos. Estou sem folego em poucos segundos.
Olho incrédula para Percy.
Meus olhos ardem e tenho certeza que estão vermelhos, tanto pelo choro quanto pela falta de ar. Abro a boca para perguntar “Porque?”, mas a voz não sai.
– Não me leve a mal... – ele diz – Apenas vence o jogo aquele que for mais esperto e fizer as alianças certas...
Minhas pernas já estão fracas. Tudo o que me sustenta em pé, são as mãos de meu novo-ex-namorado-que-quer-me-matar em meu pescoço.
– Você foi a melhor aliada que eu poderia ter escolhido! Obrigado por me trazer até aqui...
Nesse momento, uma bestante, um cão infernal, maior do que eu e Percy juntos, aparece em meu campo de visão. Dois outros o seguem de perto.
Percy se distrai por um segundo, e sua mão alivia um pouco da pressão em meu pescoço, deixando um pouco de ar passar. Isso me dá um pouco de energia e consigo chuta-lo entre as pernas.
No mesmo momento Percy solta meu pescoço totalmente, com um gemido de dor. Eu caio, sem forças, enquanto Percy se recupera do golpe.
Então os cães infernais já estão mais próximos de nós do que eu esperava. O maior deles pula em cima de Percy, dando uma mordida violenta em seu ombro. Não vi mais que isso, mas tenho certeza que a mordida lhe garantiu um braço a menos.
Nesse momento eu já estava correndo na direção oposta.
– Annabeth, corra! – escuto a voz de Percy atrás de mim – Fale com Finnick!
A voz de Percy parecia gentil, embora carregada de dor. Um dos cães está correndo atrás de mim, enquanto os outros dois destroçam o filho de Poseidon, que gritava agonizante.
Um canhão dispara. O último canhão da arena. Eu era a vitoriosa!
Fale com o autor