Daniel, Ana e eu fazíamos o que fazemos a viajem inteira andar, andar muito.

Estávamos no território de meu pai Hades. Eu me sentia forte apesar do enorme corte em minha perna direita por causa do ataque surpresa do que Daniel chamou de Soldados Negros.

Eu podia sentir cada alma ao nosso redor. Eu conseguia ver a maioria, mas Ana e Daniel diziam estarmos sozinhos.

O lugar onde estávamos parecia estar deserto. Areia vermelha chegava a cobrir casas abandonadas. As que não estavam enterradas estavam destruídas.

– O Mundo Inferior tem cidades? – perguntou Ana fazendo uma careta esquisita.

Olhei para trás para verificar se aqueles Soldados Negros estavam nos seguindo. Felizmente não estavam.

– Não existem, mas os pesadelos e desesperos costumam ganhar vida pelos desertos. – respondi – Eu não conheço essa cidade.

– Mas eu sim. – disse Daniel com tristeza em sua voz – Esta é à entrada do reino de Ares onde meu irmão vivia...

Sua voz falhou.

– Não se preocupe – eu disse a ele – Ele está bem.

– Assim espero.

Eu sentia que a falsa cidade estava respirando. Isto realmente me apavorou.

– Vamos. Não estou gostando de ficar aqui. – eu disse.

Andamos mais rápido, mas tinha alguma coisa nos seguindo. Algo com muita fome e muito vivo.

Uma floresta começava a surgir a nossa frente conforme nos aproximávamos. Uma floresta com árvores avermelhadas e frutos de cor amarela e um tanto deformada.

O céu ficara literalmente preto. O vento cochichava em nossos ouvidos enquanto o chão respirava de forma controlada e profunda.

Uma risada forte de voz masculina ecoava em minha mente fazendo com que eu me arrepiasse de medo.

– A filha de Hades está perdida? – perguntou a voz que estivera rindo em minha cabeça. Agora os outros também podiam ouvi-lo – Quer ajuda para voltar ao caminho?

– Quem é você? – perguntei enquanto minhas pernas tremiam deliberadamente.

Ele gargalhou exageradamente.

– Sempre a mesma pergunta, "quem é você?", "o que você quer?" – ele ria sem parar – Eu sou o Tártaro, as profundezas.

Daniel assumira posição de batalha rapidamente enquanto Ana estava chocada pela voz.

– Achei que estávamos no Mundo Inferior. – disse ela.

– Entramos no Tártaro sem perceber. – Daniel explicou o óbvio empunhando sua lança com ponta de dente de algum bicho enorme.

Tártaro riu muito mais alto.

– Desta vez irei ajudá-los semideuses. Apenas esta vez.

Daniel abaixou sua lança e decidimos ouvir o que o deus das profundezas tinha a nos oferecer.

Ana se agarrou ao meu braço com suas mãos quentes.

– Colocarei vocês de volta ao caminho se conseguirem livrar meu coração do ataque de monstros. Destruam todos e cumprirei o trato.

– Feito! – exclamou Daniel.

Tártaro ficou em silêncio, talvez não achasse que aceitaríamos, mas espera, aceitamos?!

– Sejam breves.

A paz reinou o ar após a "saída" de Tártaro. Ana e eu encaramos Daniel.

– Você acha uma boa ideia ajudar um deus que provavelmente irá nos engolir na primeira oportunidade? – questionei ele.

– Primeiro, ele não é Cronos. Segundo, ao menos saberei onde estou se ele me engolir. Não estou preocupado com os riscos que correrei, sei quando minha morte chegará, e não será hoje.

Daniel parecia de certa forma perturbado, então dei um pequeno espaço a ele. Na verdade não, sou curiosa.

– Como assim? – perguntou Ana antes de eu abrir a boca para fazer a mesma pergunta.

Ele abaixou a cabeça e logo em seguida a ergueu como se tivesse tomado coragem para contar algo que seria difícil e importante.

– Há alguns anos procurei o oráculo para obter respostas sobre o motivo de Huracán ter me protegido de Hefesto.

Ele respirou fundo por um minuto antes de continuar.

– O oráculo deu-me uma profecia em resposta.

– Vocês gostam de profecias não é mesmo? – eu disse.

– É a maneira que Moros permite as pessoas de saberem o futuro sem dizê-lo exatamente. A profecia dizia "Desafios exigidos a cada Escolhido; A morte de um escolhido do fogo, para a filha do ferreiro retornar; O fim da imortalidade como sacrifício, Para o irmão salvar.". Sou o único imortal dos doze escolhidos.

Dois iriam morrer. Isso me assustou muito. Ana estava vermelha e fumegando de tão quente, provavelmente por causa do que Daniel dissera, alias, também mencionava uma filha de Hefesto, lembrando de que Hebe e Jane haviam nos dito que ela e Ysla tinham uma conexão com Cronos. Alguém provavelmente morreria para salvá-la.

O ar a nossa volta ficara denso de repente e eu voltara a sentir algo faminto perto de nós. Alguma coisa estava errada.

Fumaça começava a sair das mãos de Ana.

– Estamos chegando? – perguntou Daniel a mim.

– Não sei dizer, o Tártaro embaralha o meu senso de direção. – respondi – Mas sinto alguma coisa nos perseguindo.

– Espero que seja apenas os seus sentidos embaralhados. – comentou Ana.

Eu a encarei embora no fundo eu esperasse a mesma coisa.

Comecei a pensar na minha vida antes de tudo isso acontecer. Tudo era simples sem o uso de armas mágicas ou outros deuses. Pensei em minha família que havia ficado no outro mundo.

A tiara que eu ganhara da deusa Iris ainda repousava invisível em minha cabeça. O anel que Huracán me dera estava ficando quente.

Pensei em quem poderia ser a escolhida de Huracán que não seguiria conosco. Talvez esse fosse o motivo pelo qual Daniel se mantinha quieto. Evitar fazer amizades talvez pudesse diminuir a dor dos que ficassem.

Os doze semideuses estavam espalhados pelo Mundo Inferior e o único plano que tínhamos era seguir para o coração das profundezas e limpá-lo dos monstros que lá estavam. De alguma forma eu conseguia sentir que os outros ainda estavam vivos, com exceção de Larissa e Ysla, que eu não conseguia sentir muito bem.

Comecei a sentir uma energia fora do normal. Um poder enorme como o de um deus, mas não era um deus.

Eu ainda não conseguia diferenciar a energia de um titã para um gigante, mas ambos eram perigosos. Agora éramos apenas três para enfrentá-lo.

Andamos sem parar enquanto comiamos alguns frutos que encontramos. Embora fosse um lugar estranho para nascerem, os frutos eram bem gostosos.

Conforme andávamos para mais fundo do Tártaro, mais criaturas eu podia sentir por perto. Todos eles a espreita apenas nos olhando caminhar para a morte.

– Ele está perto. – disse Ana de repente.

Seu rosto estava similar ao momento no qual desaparecera quando encontramos a deusa Hebe.

– Ele quem? – perguntou Daniel apreensivo.

Ana parou de caminhar e eu e Daniel a encaramos. Aquela não seria uma boa hora para desaparecer ou ser sequestrada.

– Cronos está vindo para me pegar.

Então era isso. A energia que eu sentira de alguém poderoso, mas não conseguira identificar. A energia de um titã. A energia de Cronos.

– Ele não vai te levar. – eu disse para tranquiliza-la – Nós vamos te proteger. Vamos lutar por você.

Ela começou a chorar.

– Eu não quero ir.

Eu não estava gostando dessa conversa e muito menos de que Cronos estava vindo para pegá-la.

Havia uma abertura para o subterrâneo a poucos metros. Já era possível escutar os batimentos do coração do Tártaro. Estávamos prestes a entrar no corpo do deus das profundezas.

Uma criatura saiu da escura entrada do corpo do deus. Ele tinha cabeça e corpo de leão, rabo de escorpião e acima de sua cabeça havia dois enormes chifres que lembrava ser de um cervo ou algo do tipo.

– Tinha que ter um monstro na entrada. – reclamei em voz alta para que a criatura ouvisse e fosse embora. O filho de uma mãe ficou onde estava nos observando.

– Ele não vai atacar por enquanto. – disse Daniel – Ele quer nos guiar.

– Você pode ler a mente dos monstros?

– Infelizmente não, mas ele está apontando com a cauda para dentro da caverna.

Eu nunca teria prestado atenção à cauda do bicho, na verdade eu teria saído correndo de volta para minha casa, mas isso não era possível.

Nós seguimos a manticora prestando atenção em cada canto do lugar no qual entramos.

As paredes eram nojentas e havia veias presas a elas como se fossem fios de energia em um complexo secreto no subterrâneo.

Entramos em uma sala muito bem iluminada por tochas e por um enorme cristal vermelho no centro que emitia calor intensamente.

Eu podia ver algo pulsando dentro do enorme cristal que chegava até o teto da sala. Acho que nem preciso comentar que havia algumas poças de sangue pelo chão. Aquele lugar era bizarro.

Ao redor do cristal havia fileiras enormes de monstros armados e com dentes e garras afiadas prontas para atacar.

Uma voz estrondosa começou a ecoar pela enorme sala do coração.

– Ana minha querida, eu estava a sua espera. – disse um homem musculoso entrando em nossa vista. – Sejam bem-vindos ao Tártaro.

Cronos tinha o físico de um lutador e não usava camisa, apenas uma calça, o que me fez lembrar o Incrível Huck.

A manticora que nos trouxera se juntara aos seus similares na multidão de monstros. Em um canto da sala havia um monstro com pelos vermelho-sangue. Ele estava todo amarrado.

– Dexter! – eu gritei.

O adorável tigre branco de Huracán que havíamos perdido na inundação que causamos no Monte Vulcano. Ele estremecera ao ouvir minha voz.

– O que você fez com ele? – gritei revoltada.

– Sua pergunta seria mais bem respondida pelo meu irmão Hyperion. – Cronos ria como se houvesse ganhado a guerra – Está na hora do jantar. Sirvam-se crianças.

Todas as enormes fileiras de criaturas nos olharam famintas enquanto nós três invocávamos nossas armas.

– Acho essa uma boa hora pra você usar essa tiara Emilly. – disse-me Ana segurando o enorme martelo que Hefesto lhe deixara.

Assenti e toquei a tiara que repousava invisível em minha cabeça desde o inicio. Eu senti uma espécie de armadura sobre mim. Eu estava invisível. Pude sentir o poder intensamente.

Invoquei minha espada de pedra inquebrável e comecei a rasgar as criaturas em minha frente. A maioria não sabia o que os atingira enquanto outros pareciam saber de minha localização apenas pelo cheiro.

Cronos ficara encostado ao cristal do Tártaro como se esperasse que nós terminássemos de brincar para então lutar contra ele. Ele estava armando alguma coisa.

Matei todos os monstros que montavam guarda em volta de Dexter e cortei as cordas que o prendiam. Ele estava muito ferido e incapaz de participar da luta.

Comecei a me perguntar se o Tártaro tinha anticorpos, mas acho que não estávamos a esse nível molecular para vê-los.

Ana não estava tendo dificuldades com as criaturas, pois a cada batida com o martelo no chão, ela eliminava diversos oponentes. Daniel sumira de vista.

Por que eu não usara a tiara antes? Era uma vantagem incrível contra os inimigos, mesmo lutando sozinha.

Ana se desvencilhava dos golpes de uma quimera, que foi morta com a minha incrível habilidade com a espada.

Por um momento eu se lembrara de quem eu era filha e invoquei um exército de zumbis e homens esqueléticos para lutarem ao nosso lado.

Olhei de esguelha para Ana, ela estava provocando uma tempestade de fogo sobrenatural. Tártaro iria precisar de um belo descanso para recuperar o coração.

Procurei Daniel com o olhar. Demorou até que o encontrar lutando com sua lança contra Cronos, que por sua vez não tirara o sorriso do horrível rosto de titã que ele tinha. Era como se tudo isso estivesse em seu plano desde o começo. Foi ai que eu realizei.

Toquei a tiara para ficar visível novamente e corri até Daniel.

– Ele quer nos cansar! – gritei para ele.

Cronos fechou a cara e Daniel franziu a testa.

– Por que ele iria querer isso? – retrucou Daniel.

Eu o olhei fuzilando-o com minha imaginação.

– Não ficou claro? – perguntei e Cronos deu de ombros para responder – Ele quer nos cansar porque assim ele levará Ana sem problemas de intervenção.

Neste exato momento uma rajada de mar de fogo passou entre Daniel e eu acertando e derrubando o titã contra a parede gosmenta do Tártaro.

– Você não vai me levar! – gritou Ana jogando toda a sua raiva contra o titã.

Quase não percebi de que a sala estava vazia e que meus exércitos haviam partido.

Cronos levantou depressa nos surpreendendo. Ele nocauteou Ana e me derrubou no chão com tamanha força que não consegui levantar.

Daniel investiu contra ele, mas Cronos se safou rapidamente do ataque e contra-atacou.

A dor que Daniel sentira era visível em seu rosto. Ele parecia não aguentar mais um único golpe.

Ana estava desmaiada nos chão quando uma manticora se materializou. Eu não consegui levantar a tempo de salvá-lo.

Com a sua cauda de escorpião, a manticora rasgou sem piedade a perna esquerda de Daniel. O seu grito de dor foi insuportável e fez com que eu acordasse do feitiço em que eu parecia estar.

O sangue de Daniel se misturava ao de Tártaro. Ele estaria condenado a morte se eu não fizesse algo rápido.

Enfiei minha espada pela garganta da manticora e assisti ela desaparecer em pó. Corri até Daniel que desmaiara por causa do sangue perdido.

Eu consegui estancar o sangramento com a camisa dele. Olhei para trás a procura de Ana ou de Cronos, mas ambos haviam desaparecido.

O que me restou a fazer foi gritar de ódio. Gritar pela perna perdida de Daniel e pelo meu fracasso em proteger a minha melhor amiga. Dexter estava entorpecido do outro lado da sala.

Eu estava sozinha no coração do Tártaro.

Notas finais
Penúltimo capítulo da terceira parte de A Casa da Esperança. Os capítulos estão divididos em 4 partes ao total.