O Jogo do Diferente
1 Um cadáver entre as pétalas
Sakumachi era uma cidade muito agradável, sem perder seu ar provinciano mesmo se desenvolvendo a passos largos. Era uma cidade japonesa de porte médio, que já incorporava ao seu cotidiano algumas rotinas das grandes cidades. Entretanto, não perdera seu principal atrativo turístico, que aparecia sempre na primavera... A floração das cerejeiras.
Tudo bem que dificilmente rivalizaria com Tóquio, mas o Parque das Cerejeiras de Sakumachi tinha sua beleza. Era bem cuidado, e no auge da floração ficava cheio de pessoas que iam fazer piquenique e apreciar aquele efêmero espetáculo.
A cidade começava a acordar naquele dia, em meio às pétalas de cerejeira que caíam ao sabor da suave brisa matutina. O zelador do parque começava a varrer as pétalas caídas no dia anterior e durante a noite, tanto para manter o local limpo, como por questão de segurança, para evitar que os visitantes escorregassem sobre elas.
O homem desempenhava sua tarefa, quando viu algo às margens do córrego logo abaixo do local onde estava. A alguns metros de uma ponte, alguém estava caído de bruços. O homem de meia-idade largou sua vassoura e foi acudir, porém deparou-se com um cadáver encharcado de água e com algumas pétalas caídas sobre ele.
Sacou seu telefone celular e imediatamente entrou em contato com a polícia, sob o impacto de sua descoberta. Não havia outra coisa a fazer a não ser isso.
Não era a primeira vez que isso acontecia... Mas, sinceramente, esperava que fosse a última.
*
Entediada, começou a enrolar uma de suas mechas loiras com os dedos enquanto contemplava seus colegas de classe reunidos em grupos – na verdade, “panelinhas” mesmo. Tinha poucos, mas bons amigos, que não faziam parte dessas panelinhas, nas quais se sentia um tanto quanto deslocada. Não que fosse necessariamente antissocial, como se via em muita história clichê por aí, mas era do tipo que selecionava suas amizades, talvez até demais.
Kanasawa Miiko não se importava muito com isso. Já estava habituada a ser excluída. Sempre fora rotulada como “estranha”, fora dos padrões, diferente do que era aceitável para outras garotas. Não era o tipo de garota que agiria como um garoto, nem se vestia diferente das demais. Não era diferente ao extremo, parecendo uma “rebelde”. Mas de algum modo não sentia que se enquadraria com os “padrões”. Talvez seu cabelo artificialmente loiro fosse responsável pelo rótulo de “fora dos padrões”, mas não se importava com o que pensavam a seu respeito.
Nada disso afetava sua vida. Miiko era sociável, prestativa para com os colegas, uma típica estudante do final do ensino secundário, que se preparava para entrar na universidade. Ainda estava decidindo sua carreira, teria mais alguns meses para se definir.
Miiko tinha dezesseis anos, uma estatura mediana para sua idade e um corpo esguio. Seus olhos castanhos logo encontraram o seu escaninho, onde estavam os livros para as aulas do dia. Pegou-os e se dirigiu à sua sala, enquanto tinha a sensação de que o dia tinha grandes chances de ser atípico.
― Ei, Miiko-chan! – uma garota a chamou logo atrás. ― Espera aí!
― Ah, Eimi-chan! – Miiko revirou os olhos. – Desse jeito vai tomar uma bronca do professor por quase atrasar!
― Mas eu não atrasei desta vez! – Minazuki Eimi, melhor amiga de Miiko, respondeu. – Você parece pensativa.
Não estava tão evidente que a loira estivesse pensativa, aliás, isso só era perceptível por alguém que a conhecia muito bem. E Eimi a conhecia muito bem. Eram amigas desde os onze anos, sempre se deram muito bem. Uma das poucas amizades verdadeiras que Miiko possuía, e que não trocava por nada no mundo.
A garota era mais alta que Miiko e tinha cabelos longos e lisos, negros como a noite, tal como seus olhos. Era bonita e atraía olhares dos garotos da sala, embora não fosse mais bonita do que a garota mais popular da turma. Entretanto, não se distraía com isso e demonstrava ser muito aplicada em sala de aula. Eimi era determinada, e queria dar continuidade a um pequeno restaurante da família e, para isso, queria estudar em algum curso do ramo.
As duas entraram e imediatamente perceberam uma carteira vaga, à esquerda da carteira de costume de Miiko, ao lado da janela.
― Ele não veio de novo, não é? – Eimi indagou.
― Pelo jeito Katsuya-kun deve ter ficado doente, ele não vem desde ontem.
― Ou então ele não se adaptou. Se não me engano, faz menos de um mês que ele se transferiu para cá.
― É, pode ser. – Miiko assentiu.
Nisso, a professora de japonês entrou com um semblante bastante circunspecto. Parecia querer comunicar algo bastante grave à turma. Cada um logo tomou seu lugar e, em seguida, um incômodo silêncio recaiu sobre todos.
― Bom dia, classe... Antes de começarmos a aula de hoje, devo dar a todos uma notícia sobre o colega de vocês, Katsuya Takehisa. Infelizmente, na manhã de hoje, ele foi encontrado morto no Parque das Cerejeiras.
O choque foi geral. Inevitavelmente, Miiko e Eimi olharam para a carteira na qual Takehisa costumava se sentar. Ele era um garoto recém-transferido de Tóquio e morava na casa dos avós maternos em Sakumachi. Era muito fechado, taciturno e tinha uma expressão abatida. Não se sabia mais nada além disso a respeito do garoto. Ficava isolado dos demais e as duas amigas foram as únicas que conseguiram começar se aproximar dele, por conta de sua retração.
Mas, infelizmente, a tarefa havia ficado incompleta.
*
No Departamento de Polícia de Sakumachi, um homem alto, cabelos começando a ficar grisalhos devido aos seus sessenta anos de idade, ajeitou os óculos de grau enquanto lia mais um relatório que acabava de chegar. Era o relatório de um novo caso de suicídio ocorrido na última madrugada.
Katsuya Takehisa era o recém-chegado para engrossar ainda mais as assustadoras estatísticas de suicídios na cidade. Era um adolescente de dezesseis anos, vindo de Tóquio para morar com os avós maternos. Sua equipe ainda buscava mais informações a respeito do jovem encontrado morto no Parque das Cerejeiras.
A única certeza que a polícia tinha era de que, mesmo que os suicídios parecessem fatos isolados, havia um padrão. Um padrão macabro, na verdade. Ao examinar as fotos que a perícia fizera do cadáver do jovem, percebeu que havia as mesmíssimas evidências dos suicídios anteriores.
Desde que houve um “boom” dos suicídios, iniciado nos primeiros dias do ano, já eram contabilizados pelo menos dois a três casos por semana. Isso perfazia um total, até agora, de trinta e cinco tentativas de suicídio, com apenas três sobreviventes, cujas tentativas fracassaram. Porém, desses três sobreviventes, apenas um ficara consciente e fornecera informações que ajudaram a direcionar as investigações e confirmar que não eram apenas suicídios isolados.
Alguém estava por trás desses suicídios e ele estava determinado a descobrir!
― Superintendente Ohta – uma jovem de vinte e um anos, cabelos negros e curtos, adentrou a sala após se anunciar, munida de impressos e um pen drive. – Trouxe algumas coisas a respeito do smartphone que estava com o jovem Katsuya.
Ohta Hiroji recebeu o material da jovem e analisou cada impresso, confrontando com o que já analisava antes:
― Suponho que seja o mesmo padrão dos anteriores... Estou certo, Inagaki-san?
― Sim – a jovem Inagaki Ruriko confirmou. – Todas as conversas e interações nas redes sociais do garoto seguem a mesma linha. Em suma, tudo segue exatamente o mesmo roteiro dos casos anteriores. Todos eles jogaram o mesmo jogo, o “Jogo do Diferente”.
― “Jogo do Diferente”? – Hiroji arqueou uma sobrancelha e, intrigado, encarou Ruriko.
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